Notas iniciais
"Proibido emoções cálidas, angústias fúteis, fantasias mórbidas e memórias inúteis." - Caio F. de Abreu


Estou no quarto bem a sua espera. Sei que, de algum modo, ele sente que me trouxeram para cá e veio ver como estou. David parece um bom homem, diferente das pessoas deste lugar. Elas estão cegas achando que podem trazer misericórdia e felicidade através de dor e sofrimento. Isso é o que o meu pai junto com um bando de loucos pensam, que trarão um paraíso através de um deus que precisa de sofrimento para tal. Se existe algum deus, está muito distante desse demônio que está sendo gerado em mim nesse momento... Aliás, no meu corpo.

Continuo esperando e torcendo pra que Hamilton não o afugente com suas coisas... Se ele conseguir, vou despertar sua curiosidade mostrando o Outro Lado. Se alguma coisa me ajudou, e eu sabia que aconteceria era ter certo controle sobre essa outra realidade depois que o deus passou a ser gerado em mim. Agora consigo com mais prioridade, de certa forma projetar coisas da minha mente sobre este lugar. Algumas ainda são de forma inconsciente, mas outras eu tenho pleno domínio. A névoa foi uma delas... Se depender de mim, nunca mais esse povo verá o sol novamente.

Se ele conseguir se mover através dos espelhos, vai ser perfeito. Ele vai conseguir transitar sobre os dois lados e vai ser mais fácil encontrar o TriCell dessa forma. Terminado tudo, eu conseguirei o que eu quero e não permitirei o nascimento desse demônio, nem que eu morra junto com ele.

Começo a andar de um lado para o outro do quarto. Não é o quarto onde meu corpo está, é um leito bem próximo à entrada do hospital. Há uma maca um pouco suja de sangue e o local não está no seu melhor estado. Entretanto, eu sei que pode ficar ainda pior. Quando David experimentar o Outro Lado, ele verá que há algo muito mais além do que esse mundo simples. Apenas espero que ele não fique com medo o suficiente para fazer com que ele não prossiga... Preciso fazer algo para atrair sua atenção. Se ele for muito curioso, vai ser mais fácil.

Vejo no espelho o reflexo de minha alma projetada. Começo a mentalizar novamente o que estou chamando de Outro Lado e começo a ver a realidade ao meu redor começar a mudar. Vejo os azulejos e cerâmicas caindo e desaparecendo enquanto que uma densa escuridão toma conta do lugar. Sinto as paredes pulsando aleatoriamente enquanto parecem gritar de dor e sofrimento. Eu sei, estou sem querer expressando todo o meu ódio sobre este lugar...

Olho mais uma vez para o espelho. Vejo o reflexo exatamente idêntico do modo em como o quarto estava anteriormente: luz, cama suja de sangue, cerâmicas no lugar e paredes normais. Percebo que não tenho domínio completo dessa outra dimensão, seja lá o que for. Mas talvez seja o suficiente. Como imaginei, se for possível fazer uma certa transição entre os espelhos, David encontrará o TriCell. Sei que meu pai jamais esconderia no mundo normal, então... Ele só pode ser encontrado no Outro Lado. De repente, vejo a porta no reflexo do espelho começando a se abrir. Vejo o cabelo castanho partido ao meio, a roupa de mecânico ou encanador e o crachá no peito com o nome David escrito. Era ele.

David olhou pra mim, ou meu reflexo do outro lado do espelho. Ele ficou sem entender, mas eu sei exatamente o que fazer, pois conheço assim como meu pai os segredos mais profundos relacionados à Ordem. É uma magia antiga de transição entre mundos, que os antigos faziam para se comunicar com os deuses e obter “presentes”. O TriCell foi um deles. David se aproxima e eu faço a minha parte, colocando minha mão sobre o espelho. Sinto algo elétrico sair de minha mão, se espalhando por toda a superfície do objeto. David pressionou sua mão no local onde eu havia colocado a minha... Ele entendeu.

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Os olhos de Varla estão fixados nos meus. Ela parece sentir ódio e começa a andar em minha direção. A boca dela parece tremer e a faca em sua mão parece estar sendo segurada firmemente.

–De... mônio... Acha que sou um demônio, Will?

Tento pensar em qualquer coisa enquanto recuo lentamente para trás. Nada aconteceu, então de fato ela não é demônio. Mas o que diabos seria? Ela morreu, mas permanece viva. Eu descrevi a morte dela, eu descrevi exatamente como seria a morte dela e inclusive ela tem as marcas de estrangulamento... Como pode não ter morrido? E essa Vallery? Seria Varla? Vi o caixão na televisão, alguns pêsames de pessoas e uma coroa de flores. São elas a mesma pessoa? Até onde sei quem criei?

Varla continua olhando fixamente para mim, seu rosto parece queimar de ódio. Talvez agora seja meu fim, meu fim por completo. Aqui, nesse hospital... E quanto a Sherry, nunca a terei encontrado... Talvez ela morra, ou já esteja morta. Eu só queria vê-la mais uma vez, minha garotinha. Sinto um líquido quente descer pelos meus olhos, enquanto Varla se aproxima de mim ainda com uma expressão de ódio. Fecho os olhos esperando o golpe final, mas não sinto nada. Ainda. Talvez não seja para eu ceder, mas tenho que lutar até o final, por Sherry. Decido abrir os olhos.

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Vejo ele desaparecer pela porta da sala alternativa. Sei que, aos poucos, ele vai encontrar o que tanto preciso: a primeira parte do TriCell, o passado. Sei que se papai realmente escondeu, ele deve ter dividido o objeto pra dificultar que eu encontre. Mas acredito em David, e com a minha ajuda, logo estarei forte o suficiente para continuar os meus planos. Esse deus não vai mais nascer e esse povo, junto com meu pai vai ver quem realmente é Aléxia Ashford.

–Sherry?

Abro os olhos. Estou sentada em uma cadeira de rodas no meio do hall da mansão Spencer. Fecho novamente e torno a ver uma menininha igual a mim. Era a memória de Aléxia.

–Sherry?

–S... sim?

–Você compreende o que acabou de ver?

–Não ao certo... eu revivi suas memórias?

–Sim, parte delas.

–Foi... muito real. Era como se eu estivesse lá.

–Mas você esteve Sherry. Era você.

–Eu... eu não entendo.

–Bem, David com nossa ajuda encontrou todas as partes do TriCell. Acho melhor você mesma ver.

–Mas então... Aqueles rituais... Eu vou trazer esse deus à Terra?

–Nós vamos. Ele está sendo gerado dentro de nós, só precisa estar completo para que a gestação termine. Seu medo, a dor que você sentiu, as memórias que está revivendo está criando raiva, ódio, dor, sofrimento em você. Isso faz com que o deus que está dentro de nós se desenvol...

Ouço a voz dela se distanciar e me vejo em um lugar que não sei exatamente qual é. David está com uma arma empunhada, atirando numa espécie de coisa que não consigo discernir o que é. Está tudo muito escuro pra se enxergar direito, mas pareço feliz ao vê-lo lutando. De alguma forma, sei que meus planos estão quase completos. Existem algumas velas na sala, e aos poucos consigo enxergar a coisa contra qual ele está lutando... Parece uma versão incompleta do deus o qual estou gerando.

O monstro dá investidas atirando fogo em David e fazendo alguma espécie de chuva de fogo. Eu observo enquanto o jovem encanador se esquiva e atira precisamente na criatura. A coisa começa a se contorcer e cai no chão. Então vejo uma coisa brilhando: a última parte do TriCell estava com ele. Vejo as três partes recolhidas por David: Passado, Presente e Futuro se fundirem em um único emblema e pulverizarem a criatura, puxando certa energia para dentro do emblema.

Mentalizo minha alma e a alma de David pra fora do Outro Lado. Consigo com muito esforço. Vejo meu pai, Hamilton e mais alguns em volta do meu corpo queimado no hall da mansão Spencer. Algumas velas. Eles querem finalizar o ritual para trazer o deus de volta, mas creio que seja tarde de mais. O TriCell aparece ao lado do corpo de David e projeto minha alma de volta para meu corpo. A dor é lancinante, mas recupero poucos movimentos, conseguindo olhar para o lado e ver o objeto entrando em ação.

É tudo muito rápido: David levanta aos poucos e o emblema se ergue no ar, flutuando. Ele começa a se mexer, as partes se separam novamente e o lugar é iluminado por uma luz azul. Agora posso finalmente usá-lo. Mentalizo a força do objeto, principalmente energizado pela criatura para liberar todo o poder existente em mim e no deus que estou gerando. O objeto ainda flutuando no ar começa a formar um feixe de luz e atira em minha direção. Todos que estão ao meu redor saem de perto, e começo a mentalizar minha alma sendo dividida em duas. Com o poder do TriCell, isso finalmente será possível.

Sinto uma dor profunda, como se uma espada estivesse transpassando o meu corpo de uma vez, e então sinto um peso em cima de mim. Tento olhar, mas o meu corpo queimado não permite. Projeto minha alma para fora, ou pelo menos metade dela e vejo o meu corpo queimado, com um bebê em cima. Fui bem sucedida.

Por fim, tento projetar David fora desse lugar, consigo. Olho pra todos a minha volta, que não conseguem me ver ainda, pelo menos a metade da minha alma, e fecho os olhos. Começo a relembrar todo o ódio, toda a dor e raiva que foi causada por causa dos rituais. Ouço o barulho de sirene... A sirene dos bombeiros que meu corpo ouviu naquele dia... Essa sirene vai atormentar pra sempre todos os habitantes de Raccoon City!

As paredes começam a se descascar, o piso a ficar cheio de sangue enquanto uma densa escuridão começa a tomar conta do lugar. Todos começam a gritar, inclusive meu pai. Eles saem correndo de dentro da mansão, enquanto eu me dirijo ao corpo, e pego o pequeno bebê em minhas mãos. Ele tem a outra metade do deus, então se eu levar para muito longe, não há condições de ele nascer. Sei que ficarei com meu corpo inutilizado sem a outra parte da alma, ele não vai se recuperar. Mas pelo menos parte de mim viverá em outra realidade, sem dor, sem sofrimento. Enquanto que os moradores daqui terão que pagar por tudo o que fizeram. Eu vou fazê-los pagar por tudo.

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Abro os olhos e vejo uma garotinha loira de dez anos. Sherry.

–Sherry, é você...?

–Papai, não reconhece mais a sua filha?

–Mas... Eu pensei ter perdido você, meu amor...

Eu abraço a garotinha, mas sinto algo diferente.

–Will... Tá na hora de acabar com o fingimento. Você me matou!

Eu sinto uma faca passar de raspão pelo meu braço enquanto observo Sherry se modificar até tomar a forma de Varla.

–Mas... mas...

–Sou sua filha, não sou Will?

Corro em qualquer direção enquanto Varla me persegue com uma faca. Encontro uma porta qualquer, que dá nas escadas. Começo a subir, sem me preocupar com o que encontrarei. Chego ao último andar e abro a porta, encontrando o terraço e uma grande marca desenhada no piso, ainda brilhando. Era a mesma marca que estava desenhada na escola, um octágono. Ao vê-la, minha cabeça começa a doer e sinto náuseas. Vejo o mundo girar no meio do escuro e perco o equilíbrio. Caio no chão e desmaio.

Notas finais
Sherry continua dentro das lembranças de Aléxia e descobre que talvez seja parte de um ritual que exige dor e sofrimento, além de descobrir informações importantes sobre um objeto chamado TriCell, que parece ter mais importância do que ela imaginava. Ao mesmo tempo, William tenta desvendar os mistérios por trás de Varla Linai, que parece ser familiar e desconhecida ao mesmo tempo, ao passo em que procura Sherry e tenta destruir o demônio que assola a cidade.