Notas iniciais
"Não somos responsáveis pelas emoções, mas sim do que fazemos com as emoções." - Jorge Bucay

Continuo correndo pela rua vazia. Os cães mortos continuam me perseguindo, mesmo depois de ter dado três tiros em cada um. Eu realmente não sei o que os mantém vivos, e particularmente, nem quero saber. A névoa me deixa um pouco irritado, pois andar sem ver já é um pouco difícil, quanto mais correr...

Olho pra trás. Percebo finalmente que o rádio parou de chiar, então acho que os despistei. Ando um pouco até parar na frente de um posto de gasolina. Não ouço o chiado do rádio, então devo estar seguro. Sento no chão, um pouco cansado e atordoado. Abro a mochila e retiro o mapa para tentar me encontrar e saber o quão distante estou do hospital. Estou na Warren Street. Ela vai me levar a Raccoon Street que me levará até o hospital, mas é uma caminhada um pouco cansativa. Preciso descansar um pouco.

Todavia, não tem como esquecer o que Alexander falou... Tenho que encontrar essa coisa o mais rápido possível. Mas será complicado ir a pé. Se talvez alguma coisa funcionasse... Espera! Tem um trilho indicado no mapa. A estação central, de onde saem os trens e fica bem próximo. Talvez se algum trem funcionar...

Olho em volta. Finalmente lembro que ainda não testei nenhum carro dessa cidade. Talvez até encontre um com a chave ignição. Percebo dois carros parados no posto. Coloco o mapa na mochila e corro até um deles e olho pelo vidro... nada de chave. Olho através da janela do segundo, também não vejo sinal de chave. Talvez seja melhor não quebrar nada por aqui, talvez saia alguma coisa de dentro dele e me engula...

Respiro fundo. Olho para os abastecedores de combustível dispostos pelo posto. A luz enfraquecida pela névoa revela pouco dele. Olho novamente o mapa. Se seguir pela rua ao lado do posto vou encontrar a estação na próxima esquina. Se tiver sorte... Vejo alguém se aproximando, não consigo identificar... Mas seja o que seja, o rádio não chiou, então deve ser coisa boa.

Ela continua se aproximando um pouco devagar até que percebo quem é: Jill Valentine. Consigo sentir uma sensação de alívio, coisa que ainda não havia sentido desde que cheguei a Raccoon. Decido ir ao encontro dela.

–William!

Ela corre até mim. Pela sua aparência, também parece aliviada. Vejo seu rosto um pouco manchado por sangue, provavelmente passou por alguns problemas também.

–Jill, que bom que você está bem... mas e esse sangue na sua cabeça?

–Eu... eu não sei. As coisas aqui estão estranhas. Estava voltando para o J’s Bar agora, consegui ir um pouco longe com um trem que está a poucos passos daqui. Não sei como, mas ele está funcionando!

–Hm...

–Você encontrou Sherry?

–Não... Mas encontrei um homem muito bem vestido. Ele se chama Alexander. Você já o avistou?

–Alexander... não.

–Bem, ele disse que sabe por que as coisas estão estranhas por aqui. Ele disse que isso pode ser resolvido se eu parar uma espécie de “demônio”.

–Ah... e você acredita nisso?

–Bem, até algum tempo eu era completamente ateu. Mas depois das coisas que presenciei aqui, nem sei mais no que acreditar... a razão não explica tais acontecimentos. Mas estou disposto a salvar minha filha a todo custo, nem que tenha que renunciar minha própria vida para isso.

Sinto meu olho arder um pouco. Creio que está se formando uma lágrima nele, não sei ao certo. Jill desvia o olhar e sinto um líquido quente escorrer pelo meu rosto. Não consigo mais me imaginar longe da minha filha... Já perdi Anette, agora Sherry também... Passo as mãos no rosto e seco as lágrimas. Tento olhar pra Jill novamente.

–Jill, se esse trem está funcionando, me leve até o hospital nele.

–Ok, William. Vamos até o hospital.

Jill permanece em silencio enquanto me guia pela rua. Chegamos à esquina e vejo a estação. Vejo sobre os trilhos não um trem, mas uma espécie de bonde, branco e vermelho embaixo de uma espécie de toldo de concreto. Nele, há um relógio de ponteiro que ainda parece não funcionar mais. Jill caminha até o bonde, abre a porta da frente e me deixa entrar primeiro. Sento no banco lateral e ela da à partida.

Olho pelas janelas do bonde vários prédios e comércios aparentemente fechados passarem rapidamente. A Névoa ainda cobre a cidade. Vejo ao longo das ruas algumas barricadas impedindo a passagem de carros ou pessoas. O bonde continua seguindo seu percurso.

Começo a sentir que estou me aproximando. Definitivamente, nem sei o que me espera. Encontrar essa coisa e pará-la não será uma tarefa lá muito fácil, se não Alexander já o teria feito. Eu realmente não sei como fazer, ele nem me falou nada sobre como usar essa coisa... TriCell, eu acho. Se eu não souber usar na hora? Se eu me enrolar o suficiente pra botar tudo a perder?

Sinto o bonde perdendo velocidade. Percebo que estou em uma área um pouco mais arborizada, uma parte diferente da cidade. Acho que isso quer dizer que estamos chegando. Um solavanco e cessa o movimento do bonde. Jill me olha, como se dissesse para eu me levantar, e é exatamente o que faço.

Desço e a primeira coisa que percebo é uma enorme construção. É uma torre, uma torre com um enorme relógio. Pra variar, ele também não está funcionando. Parece que nada nessa cidade funciona a não ser o trem e o computador do hospital... Lembro-me de Varla e sinto um arrepio no corpo.

Percebo que Jill não falou nada desde que me viu chorar. Não sei porque isso aconteceu, talvez essa droga de cidade tenha feito meus sentimentos saírem pra fora. É complicado explicar, mas não costumo ser expressivo. Decido cortar o silêncio.

–Jill, você vai comigo ao hospital?

–Não, William. Vou procurar por Sherry. Se você vai encontrar essa coisa aí, alguém deve continuar a busca. Como uma boa policial, vou encontra-la. –Ela pisca.

–Certo, Jill. Onde nos encontramos?

–Que tal aqui?

–Tudo bem. –Falo retirando novamente o mapa da mochila. Talvez o hospital não esteja tão...

Começo a ouvir o chiado do rádio, meu coração acelera. Temo pelo que verei. Ouço o som do bonde partindo, então estou sem a Jill por aqui. Terei que resolver tudo sozinho. Pelo mapa, se seguir pela Mission Street, chegarei ao hospital rapidamente. Recoloco o mapa na mochila e apresso o passo em direção ao hospital. Começo a ver a fachada dele aos poucos em que me aproximo e a visão fica mais fácil mesmo em meio a névoa densa e as cinzas constantes. Ele é branco e azul, com porta dupla de vidro. Acima da porta há uma cruz vermelha e mais acima uma placa que informa: Raccoon Hospital. Esse é o lugar. O chiado no rádio parece aumentar, o que quer dizer que encontrarei algo aqui. O “demônio” talvez. É melhor, pois assim o paro logo e encontrarei Sherry mais rápido.

Finalmente paro diante dele, o rádio chia e parece enlouquecer. Tenho certeza de que estou no lugar certo. Dou uma última olhada e caminho até a entrada.

____________||____________

Eu não sei para onde ele está me levando, mas ele disse que será divertido. Ele segura minha mão, estamos caminhando pela cidade. Vejo a névoa e as cinzas, o que não me dá uma visão privilegiada de tudo ao meu redor. Mas sei que posso confiar nele, de alguma forma, sinto um forte afeto.

Sei que papai não me deixaria ir com ele se tivesse me visto, então foi melhor assim. Sei que estou com saudades, mas sei também que tudo ficará bem. Pelo que esse homem que agora anda do meu lado me disse, papai está fazendo a parte dele e logo a paz reinará novamente. Quem sabe eu não faça parte disso...

Continuo caminhando. Parece que ele está me levando de volta à escola.

–Aléxia?

–Sim, senhor?

–Vamos fazer uma viagem. Precisamos chegar a casa onde você vai passar a noite.

–Mas ainda não está escurecendo...

–Bem observado. Mas logo ela chegará. Você precisa passar a noite lá, tem uma coisa que eu quero lhe mostrar.

Fico com um pouco de medo. Não sei o que ele quer fazer comigo... mas me sinto tão atraída que me deixo levar sem resistir. Minha curiosidade também não ajuda, então simplesmente deixo ele me levar pela sua mão.

Olho novamente a cidade e vejo cinzas dançando em meio à névoa. Não consigo me conter e sorrio.

–Sim, Aléxia! Sorria, pois os momentos que se sucederão serão muito tristes. Mas você precisará suportar até que tudo esteja consumado.

Eu não entendi, mas sei que haverá alguma espécie de sofrimento pra mim. Eu não sei como vai ser, mas se tudo acabar bem ficará bem. Eu apenas continuo me deixando ser levada.

–E como é seu nome, moço?

Ele me olha levantando uma sobrancelha, como se esperasse que eu já o conhecesse.

–Alexander Ashford.

____________||____________

Entro no hospital e chego à recepção. O rádio chia como nunca, mas não consigo ver nada. Puxo a lanterninha acoplada às chaves do carro e a ligo. Tento iluminar melhor o ambiente. Vejo próximo a bancada da recepção um banco de espera com um pequeno papel branco com algo escrito. Vou até ele e quando vejo me assusto com o que está escrito.

– — — — — — — — — — — -

Querido William,

Logo te encontrarei e trarei a você o mesmo que você trouxe para mim, isto é, a morte!

Com amor,

Varla Linai

– — — — — — — — — — — -

Guardo o papel no bolso. Provavelmente, Varla está aqui, o que explica o chiado do rádio. E se ela for o “demônio”, então preciso liquidá-la. Se tivesse tido coragem na escola, teria matado ali mesmo. Começo a sentir ao mesmo tempo desespero e ódio.

–Varla, você precisa e vai morrer! –Digo pra mim mesmo em voz alta.

Não consigo me conter, começo a rir tendo como música de fundo o chiado do rádio. A mensagem permanece em minha mente, mas não paro de rir. Varla vai morrer, de uma vez por todas. Triste pelo seu irmão, que não conseguiu mata-la. Agora ela já era.

Continuo rindo, rindo e rindo. Sinto dores de cabeça, náuseas mas não consigo me conter. Vejo as paredes se modificando, a luz indo embora e continuo a rir, rir como se não houvesse amanhã. O cheiro de ferrugem, podridão e morte tomam meu nariz. Mas não paro de rir, afinal, logo o cheiro de morte terá mais um componente: Varla! Continuo rindo, rindo, rindo...

Notas finais
William parte para o Raccoon Hospital na tentativa de encontrar a coisa e matá-la de uma vez. Ao meio do caminho, ele reencontra Jill. Após refletir sobre algumas coisas, William chega ao hospital e decide entrar. Embora o rádio avise sobre a presença de criaturas, ele decide seguir em frente até que encontra um recado direcionado para si escrito por Varla. Em outro lugar, Sherry se deixa ser levada por Alexander, entregando a ele a sua própria sorte.