A Garotinha: Sherry

7 À Luz de Velas


Notas iniciais
"Há homens que são como as velas; sacrificam-se, queimando-se para dar luz aos outros." - Pe. Antônio Vieira

A escada parece não acabar nunca. Talvez eu devesse ir mais rápido... se não estivesse com medo do que vou encontrar. Talvez seja Sherry, mas temo que esteja morta... não, não vai estar! Continuo descendo degrau por degrau enquanto a luz da lanterna foca as paredes queimadas e descascadas. A escada range aos meus pés e o escuro tenta encobrir meus olhos. Estou me acostumando.

Mas não compreendo uma coisa: Varla me chamava de Jack, mas em dado momento ela gritou meu nome, limpo e nítido como se fosse algum conhecido dela. Certo que eu havia dito meu nome, mas ela não estava acreditando ser eu Jack? Porque a repentina mudança de Jack para William? Bem, creio que não me cabe dizer isso. Afinal, Varla ainda está viva... ou morta, não sei. Talvez tivesse realmente me chamado de William tentando entrar no meu “jogo” para que, de alguma forma eu desse alguma brecha para ela.

Meu ombro ainda dói, mas começo a sentir que a escada está no fim. Tento apressar a descida, mas meu corpo parece não querer ir. Estou muito cansado e se fizer mais algum esforço físico vou desmaiar. A lanterna ilumina uma porta preta, não sei discernir, mas tem um símbolo circular desenhado nela. Giro a maçaneta, ela abre.

Tudo parece que foi de fato queimado. As paredes, o piso, o teto... tudo parece ferro enferrujado sem muitos tijolos. Poderia dizer que estaria ao ar livre se não fosse pelas paredes feitas de solo, oriundas do buraco feito para a construção do porão. De coisa inteira, apenas via o teto e algumas velas acesas e dispostas por todo o chão em forma circular. Mas o que era aquilo? Não consigo entender o que estaria fazendo aquilo ali na escola... Poderia ser a resposta pelo caos total naquela cidade, talvez. Sinto um arrepio. As velas começam a brilhar intensamente e começo a ouvir um barulho de música. Uma música infantil, mais que me deixa incomodado. Parece mais uma caixinha de músicas.

O brilho das velas se intensificam mais e não consigo enxergar direito. Todo o local é iluminado e vejo imagens de alguns animais saltitando no fogo enquanto vejo tudo aquilo. Parece muito belo, até que um unicórnio pula, mas não uma projeção de fogo. É um unicórnio de verdade.

–Droga, Sherry previu tudo isso com aquele desenho?

O unicórnio pulou para mais perto de mim, mas não parecia amigável. Pelo contrário, ele começa a andar na minha direção. Tento abrir a porta, trancada. Ele começa a ficar vermelho, como se tivesse espirrado sangue nele. O unicórnio está mudando, agora não consigo reconhecer o que é, lembra um rinoceronte, mas ainda é um... o desenho de Sherry. Era exatamente isso: uma coisa informe que lembrava tanto um como o outro. Aquela visão na minha mente tinha assumido uma posição real.

Empunho minha beretta em direção a ele e por um momento não perco o equilíbrio escorregando no que parecia ser sangue. Tento pensar em como matar aquilo, se é que poderá ser morto com os nove últimos tiros de handgun que tenho. A coisa avança lentamente na minha direção, procuro sinais de Sherry, mas não encontro nada. Empunho a arma com mais firmeza e aponto para o que parece ser o chifre.

O primeiro tiro parece acertar o olho esquerdo e a criatura grita. Consigo enxergar um filete de sangue saindo da sua cabeça, o que me dá um pouco de euforia para continuar. Corro até a outra extremidade do local e atiro mais uma vez. Erro. Continuo mirando na cabeça do anima e gasto meu terceiro tiro na sua perna, fazendo-o cambalear um pouco, porém não limitando muito seus movimentos O animal agora ganha velocidade e está correndo em minha direção armando uma “chifrada”. Ele está bem próximo de mim e tento correr, mas sinto uma forte dor no meu ombro bom, que provavelmente não está mais tão bom assim. Consigo chegar do outro lado sala novamente, o animal continua me perseguindo.

Giro rapidamente para ele e o vejo perto das velas que formavam uma espécie de círculo. Então subitamente sinto um forte desejo de atirar nas pernas do animal. Primeiro consigo acertar as pernas da frente e o derrubo no chão depois de gastar quatro tiros. Me aproximo um pouco mais e acerto se chifre. O animal continua vivo, então dou o tiro restante em sua cabeça. O animal grita um som agudo que parece mais uma sirene... minha cabeça gira. Sinto meus sentidos me deixando novamente, tudo está começando a ficar escuro, não consigo ouvir nada direito. Caio no chão, tento me levantar mais não consigo... tudo fica escuro novamente.

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É como se o mundo estivesse se restaurando sozinho. Vejo tudo mudar de uma hora para outra, as coisas parecem mais nítidas, o escuro sumiu. Em outras palavras, o Outro Lado foi embora. Olho pela janela e vejo um pouco de luz. Um pouco, pois a bendita névoa não permite que veja muita coisa. Consigo enxergar as cinzas caindo lá fora, tudo parece ter voltado ao normal... ou pelo menos, ao comum.

É estranho viver em uma cidade que vive passando por momentos distintos. Hora noite, hora dia. E cada um com suas características peculiares. De dia, tudo parecia estranho. Porém à noite, as paredes pareciam coisas mortas, haviam corpos espalhados por toda a cidade e cadeira de rodas... tudo por culpa dela. Mas sei que isso está prestes a acabar... Só preciso esperar um pouco.

A luz é reconfortante. Quando se experimenta o escuro uma vez, experimentar a luz pode doer aos olhos. Mas quando se vive trancado na noite, o que se há a fazer é esperar o nascer do sol e rever a luz se torna um grande anseio. Penso nisso todas as noites que passo, toda vez que o Outro Lado beija a minha face. Mas então vem este, este que agora estou. Embora maluco e enigmático, este lado me faz lembrar que ainda há uma possibilidade de restaurar a Ordem, paz, céu... seja lá o que querem chamar. Agora finalmente posso sentar e esperar, sabendo que o que espero virá até mim.

Vejo as últimas cerâmicas se colocarem em seus lugares enquanto começo a observar novamente o bar. Há um balcão principal que fica no centro em forma de um quadrado onde há várias estantes com garrafas e bancos em volta. Um pouco mais à esquerda, há algumas bancadas ao lado de um fogão. Sinto o forte cheiro de álcool que me deixa um pouco tonto. Percebo que há coisas diferentes nele, comparando à ultima vez que vim aqui, como por exemplo uma janela quebrada com estilhaços no chão. Mexo no bolso e retiro um fragmento de Ametista, que detecta a presença de criaturas revelando um grande brilho roxo. Volto a me sentar na cadeira, agora um pouco mais bonita, que estava sentado antes. Volto a olhar pra janela esperando que ele venha até mim.

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Abro os olhos e me deparo com o escuro. Não vejo mais as velas. Na verdade, não vejo mais nada a exceto de um ponto brilhante no meio da sala onde deveria estar o corpo daquela coisa. Tento procurar a lanterna e a arma tateando com o pé. A primeira coisa que acho é a arma. Sinto o peso familiar da mochila nas costas, abro-a. Coloco a arma e puxo a pequena lanterna acoplada às chaves do carro. Ligo-a. Verifico todo o chão e consigo encontra-la próximo ao ponto brilhante. Pego a lanterna e o pequeno objeto que parece ter a consistência de uma rocha. Tento ligar a lanterna. Nada! O tempo que passou ligada enquanto eu estava apagado deve ter consumido a bateria. Colo ela dentro da mochila e vou até a porta. Ela abre quanto giro a maçaneta.

Subo as escadas e a subida é mais curta do que antes. Encontro a sala do zelador, que parece do mesmo jeito, exceto pelas paredes e pisos que se encontram como qualquer parede e piso devem ser: sem queimaduras, ferrugem ou sangue. Tento abrir a porta que dá no pátio, mas parece emperrada. Retiro o emblema e procuro o espaço especial para coloca-lo. Encontro no meio da porta e posiciono o emblema lá, dando uma leve batida. O “click” familiar avisa que a porta foi destrancada, eu a abro e dou de cara com a costumeira névoa, as cinzas caindo e um pouco de luz.

Decido verificar o ponto brilhante, que já não brilha mais. Como havia sugerido, era um fragmento de rocha, mas não sei qual. Decido então retirar o livro que encontrei na biblioteca, pelo menos serviria para alguma coisa. Sento no chão do pátio, que já não tem mais o símbolo em forma de guarda-chuva. Pelo silêncio do rádio, não parece haver mais criaturas por aqui, então posso ficar tranquilo.

Começo a folear o livro buscando alguma imagem para comparar e encontro uma bem parecida: Quartzo Rosa. Eu estava com um fragmento de Quartzo nas mãos, e pela cor era rosa. Começo a ouvir o rádio chiar, tento guardar o livro rapidamente e deixo cair a pedra dentro. Ótimo, agora tenho os dois guardados. O barulho do rádio se torna diferente, começa a emitir vozes. Tiro o aparelho de dentro. O pequeno rádio vermelho estava com o fragmento de Quartzo dentro do buraco que havia no meio.

Mas como? Então é um rádio com leitor de rochas? Decido ouvir as vozes.

–... um rinoceronte...

–... filha... um... órnio...

–... eu... gos... deles...

–...en... senhe... ois...

–...legal... desse ver... qui...

–Talvez... ora durma.

O rádio para de emitir vozes e de chiar. A pedra é expulsa do buraco do rádio e decido ouvir novamente. Quando aproximo, o rádio parece puxar com alguma espécie de atração magnética. Solto o fragmento de Quartzo e ele é atraído rapidamente para o buraco. Ouço novamente as vozes, uma garotinha e provavelmente seu pai. Não consigo compreender muito, mas creio que parecem discutir sobre o animal que acabo de matar. Ao terminar a gravação, o fragmento é repelido novamente. Guardo o fragmento em um bolso diferente da mochila.

Penso em voltar para o J’s bar encontrar Jill. Provavelmente Sherry não está mais aqui, vasculhei praticamente tudo. Afinal, quem me mandou para o porão queria a minha morte, não poderia ser Sherry... Varla talvez. E ela está aqui, preciso voltar para o bar, encontrar Jill e avisar isso, além do que, preciso de umas balas extras, já que as minhas se foram.

Respiro fundo e pego o mapa de Raccoon City mais uma vez. Faço um xis sobre a região da escola e começo a caminhar para o primeiro pavimento e posteriormente para a saída.

Notas finais
Ao descer as escadas, William encontra velas em forma de alguma espécie de símbolo ou ideograma. A luz dessas velas geram algo que o faz gastar todos os projéteis restantes. William ouve novamente a sirene que o faz desmaiar novamente. Ao acordar, ele encontra a cidade novamente banhada por uma luz e descobre uma nova função do pequeno rádio vermelho. Por fim, ele decide voltar para o J's bar onde pretende reencontrar Jill.