A Garota-problema.
3 Capítulo 3 : Então vem ...
Notas iniciais
Caminhei até a lanchonete . Coloquei no prato uma maça e um toddynho. Os caras populares sempre bebiam uma coisa azul com alto teor alcoólico ... Essa sempre foi uma das poucas coisas que me faziam querer entrar pro grupo. Eles nunca odiaram a escola, porque era lá que começava a diversão pré-final de semana. Incrível. Se não fosse o fato de que se um deles resolvesse "abrir o bico" , rodavam os cinco . Pra ser exata , Lucas, Erick, Juan, Tiago e o Davi. De todos, eu tenho que admitir, o Davi era o mais responsável e maduro. Na verdade, ele não era popular ´porque queria. Fizeram dele assim. Sabe o cara gato que usa Vans , anda de Skate e lê Clarice Lispector ? Então. Ele dispensava a imagem do cara malhado, sem cultura, ignorante , fútil e que vive pra pegar mulheres. Ele não era assim, e isso fazia dele melhor.
Nem percebi , fiquei parada por dez minutos olhando os caras , na verdade , um deles e você sabe qual é. Era estranho, sem querer eu o admirava , e não era pouco. Fiquei perplexa , e todo mundo percebeu, inclusive ele. Notei as risadas que vinham acompanhadas de " Sério? Ela não tem chances " . Mas, no fundo, se tinha alguém ali que sabia que não precisava ser a mais linda e bem arrumada para conquistá-lo , esse alguém era eu.
- E ai apaixonadinha ? — Liz Cochichou
- Você não devia falar comigo aqui , lembra ? — Retruquei
- Eles pensam que eu tô te enchendo o saco.
- Ah sim, só assim pra você vir falar comigo.
- Nem vem chatinha, eu sempre venho.
- Tirando os trabalhos, mentiras e favores ... Quase nunca.
- E você? Paralisou no Davizinho ? Eu vi Heim .
- Você e todo mundo por aqui , né?
- Você curte ele ... Tá estampado na sua cara .
- Não, eu não gosto dele, eu só ... — Ela me interrompeu , fazendo uma cara de sarcasmo — Ah, deixa pra lá, você nunca acredita.
- Você quer ele Mandy, e vai ter. Aposto que vai — Gargalhou e assim andando — Mas amanhã, porque agora , eu , ele e os caras vamos vazar desse lugar de merda. — Gritou permitindo que todos escutassem .
Como vocês não sabem, chegou a hora de dizer. Liz era a minha única e melhor amiga naquele lugar . E adivinhem ? Ela ama o Davi desde sempre . Desde que eu a conheci. O que aconteceu foi que, desde sempre ela se relacionava melhor com a galera, sem contar os hormônios, malditos hormônios que fizeram dela a mais gostosa da escola. Dai, a galera popular começou a chamar ela pros bailes, pros bares, pras festas . E como ela não é idiota a ponto de dispensar a realeza, ela se rendeu sem me deixar de lado. Nos víamos sempre depois da aula, eu ajudava ela com as aulas de português, mas era apenas um pretesto pra estarmos juntas. Ainda assim, ela era parte da realeza dos Diamonds. Eu amo os Diamantes . Eles me fascinam . Essa coisa dos polos, do que é sensível e do que é bruto . Irônico mesmo é que sem querer, comecei a chamá-los assim, de Diamonds, sem motivo algum .
Como a Liz disse, o Davi foi embora , junto com o resto dos "capachos reais" . Provavelmente eles foram pro Viaduto . Geralmente , uma galera bem legal se reúne lá pra cantar rap e andar de sk8 . Era um lugar bem íntimo rodeado de gente que não fazia a menor ideia do que significava. Era como as praças do interior ... uma coisa meio, sei lá, válvula de escape. Pelo muito que eu conheço, eles estavam lá enchendo a cara em pleno dia de semana , fumando um beck . Durante a aula de história, eu ficava imaginando o que eles estavam fazendo lá, me corroendo pra saber qual seria a burrada da vez.
- E como eram os servos da Idade Média ? — O professor de História estiloso, com barbar por fazer, perguntou pra turma — Anna? Luiz? Amanda ? Ah ... Olha quem resolveu aparecer .
- Bom te ver também — Pensei — Pra você ver, vim dar o ar da minha graça nesse "lugar" .
- Gentilezas a parte, e a resposta da minha pergunta , qual é?
- Ué, servos, Capachos, submetidos , subordinados, essas coisas que todo mundo critica . Inclusive, eles existem até hoje — Discursei — Vossa senhoria poderia conceder-me o direito de ir até o toalete ?
- Obviamente , minha cara, assim que você concluir as tarefas reais , vulgo, atividades de A a D que estão no quadro — Respondeu
- Pois bem, voltemos a escravidão — Murmurei
Fiz as atividades que o Alexandre pediu , na verdade, pensei que tivesse feito , só que o caderno estava completamente em branco . Me perdi cantando Ideologia do meu ídolo Cazuza. Sussurrava então "Meu partido, é um coração partido " , e realmente , as ilusões estavam todas perdidas. O que é que o Davi tinha na cabeça ? Ele sempre fala, fala e no fim das contas não diz nada . Bateu então, o sinal , o que eu aprendi ? Que Cazuza sabia bem do que falava em suas letras. De alguma forma, mentiras sinceras estavam me interessando . A minha única certeza era que ás 6 algo aconteceria pro bem, ou pro mal.
No caminho de volta, como sempre, me deparei com um grupo de meninos folgados que vivem em função de azarar garotas inocentes , já que as "impuras" não tinham a menor graça. Enfim, eu caminhava , enquanto eles gritavam coisas do tipo " Que delícia" , quando não era coisa pior. Ta ai uma coisa que eu não entendo . Mulheres não são pedaços de carne . Se tem uma coisa que eu odeio, é esse tipo de tratamento . Então, eu caminhava tentando deixar de lado essas asneiras que eles diziam . Até que enfim, cheguei em casa.
A porta, misteriosamente, estava aberta. Geralmente tudo fica trancado porque a casa fica sem mais ninguém. Meus pais trabalham o dia todo, meu irmão estuda até a noite . Quando terminei de abrir o portão , vi flores. Muitas flores. Mias o menos 5 buquês , fora as rosas espalhadas pelo chão da sala. Não. Não é nada romântico. Eu já imaginava o trabalho que ia dar pra arrumar aquilo tudo . O dinheiro foi gasto completamente atoa. Só de pensar me dava raiva . E é claro que tinha um cartão no meio das flores, tudo ali era clichê. Sinceramente ? Pensei em nem me dar ao trabalho de ler. Esses cartões sempre vem cheios de mentiras, promessas que jamais vão ser cumpridas. Eu gosto de realidade, mas devo confessar que no fundo eu até gosto . Era bom saber que alguém se importava comigo ao ponto de comprar flores, ainda que fossem as clichês rosas.
Não me segurei e abri o bilhete. Ele dizia " Querida Mandy, mil perdões por ter saído assim , de repente . Pensei que você já estava envergonhada demais pra que eu fosse lá te abraçar . Ah Mandy... Eu quero cuidar de você , sua besta . Vem comigo ? "
Seu pensamento agora deve ser " Ah, como ele é fofo, dê uma chance " . Não, eu não sei acreditar nele nem em nenhum outro garoto do mundo.Palavras são simples de escrever , de dizer, de inventar . Aprendi a confiar em provas, no que se firma com o tempo. Mas, as pessoas geralmente desistem de conseguir a minha confiança no meio do caminho, o que só confirma a minha decisão . No fim das contas, eu não sou forte como pensam, sou a mais frágil tentando se proteger.
Eis então que no relógio do meu celular já marcavam 17 horas . Estranho como o tempo passou depressa . Eu havia planejado arrumar o cabelo, arrumar o quarto, comprar um short novo, eu precisava arrumar um pretesto para adquirir finalmente meu short branco com estampa da bandeira da Inglaterra , mas, assustei-me ao perceber que eu só s]tinha uma hora . Sim. Eu estava decidida a ir.
Corri então para o banheiro — "Um banho pelo menos" — Eu disse respirando fundo. Instintivamente. A correria era tanta que assim que abri o chuveiro me dei conta de que esqueci a toalha no quarto. Não me preocupei. Eu estava sozinha . A água, por sinal, lavava as barreiras que eu havia construído durante anos. Levava junto consigo o meu bloqueio . Eu realmente pretendia dar espaço pra que Davi me ganhasse . Eu resolví pensar em mim, mesmo sabendo que a Liz gostava dele Gostava não, amava perdidamente .
Quinze minutos depois, já me sentia leve. Tão leve que me peguei cantarolando " Sei quem é amigo, sei quem é inimigo, sei quem vai correr, quem vai ficar comigo, e na hora do perigo? E quando a casa cai ? os guerreiros ficam, os comédias saem ". Pra quem não sabe, não há maior prova de tranquilidade do que cantar Flavio Renegado, sinceramente .
Apressei-me porque o tempo não para. A hora da verdade já se aproximava . Ah, eu precisava correr, mas a vontade era parar no tempo , sério. Abri então a porta do banheiro , tranquilamente atravessei a cozinha. Despida. Completamente sem roupa, molhada. Ai, quando eu finalmente avistei o quarto, quem estava sentado no sofá ? Sim, era ele , me olhando, perplexo , quase sem piscar . E eu, bom, comecei a rir ao invés de fazer alguma coisa.Eu não tenho problemas com a Nudez. Com mostrar o corpo. O hilário era como ele parecia se divertir com o que estava vendo.O cara já saiu com trocentas mulheres e viu noventa e nove por cento delas sem roupa, e vem se divertir justo me vendo pelada?
- É ... você devia parar de me olhar agora — Sorri
- Não tem como, desculpa ai — Respondeu
- Ah, tem sim ! Nunca viu isso não ?
- Você assim ? infelizmente não — Se levantou — Mas, não pense que eu sou um tarado .Você é linda, muito linda. Com uma saia gigante cobrindo as pernas, ou sem roupa. Você é incrivel de qualquer forma.
- Aprendeu essa fala em que filme? Aposto que foi no American Pie, bem a cara desse .
- Você realmente não acredita em mim — Caminhou na minha direção me entregando a sua blusa de frio enorme. — Ainda, porque vai aprender a acreditar .
- Ah sim, senhor confiável , obrigada pela blusa. Ja já eu te devolvo . -A andei depressa até o meu quarto. Deparei-me então com as roupas que eu já estava cansada de usar . "Usemos então o clichê" , suspirei . Coloquei então minha blusa cor berinjela de estampa " Skates Bored " e meu short Azul marinho. Quem me conhece,com certeza já me viu umas três vezes na mesma semana com essa roupa.Pronto. Bandana no cabelo, tênis rainha nos pés.
- Vamos então ? -Gritei saindo do quarto.
-Pra onde ? — Davi disse me olhando.
- Não íamos sair? — Perguntei me aproximando dele.
- Eu disse que passaria aqui as 6, só isso.
- Ah, para, não tá pensando em ficar aqui não né?
- Na verdade, sim. Claro, Obvio.
- Impossível, meu caro. Daqui a pouco a senhora Júlia chega com seu fiel escoteiro Rodrigo, mais conhecido como meu pai.
- Ouvi dizer que o apelido mudou , Ele virou " Meu sogro"
- Temos mesmo que vazar daqui.
- Porque ? você pretende fazer alguma coisa errada ? Hummmm, interessante .
- Qualquer coisa que eu fizer aqui, sozinha com você, vais er errado pra eles. Sério.
- Então existe alguém capaz de te domar, Mandy ?
- Não sou bicho , nem megera pra ser Domada .
- Interessante . Alguém controla você.
- Eu tenho que ser sempre a revoltada ?
- Não. Mas você é maravilhosa assim como é. Segura, certa, madura, chatinha.
- Você realmente não me conhece.- Andei até o banheiro para lavar o rosto.
- Então me deixa conhecer — Ele veio atrás de mim.
- Se você descobrisse, eu teria que matar você. No fundo, eu não sou megera, mas , eu virei uma.
- Eu aceitaria qualquer coisa pra te conhecer, sabe? As vezes eu penso que você é o maior misterio que eu já conheci. E eu preciso te decifrar , sinceramente .
- Chega de drama. Uma hora você aprende , bobão.
- Muito bom escutar isso, sua besta — Disse chegando perto de mim. — Mas, tem uma parte que eu tenho urgência em conhecer . — Foi chegando perto de mim como se fosse me beijar — Sorriu .
- E , o que seria isso ? Já imagino.
- Você não faz ideia , garanto.
- Será ? — Cheguei ainda mais perto.
Notas finais
> Comentem que eu posto mais.
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