A Garota dos vampiros
24 Fato ou Fake?
Notas iniciais
P.O.V. Henry.
Ninguém é tão bonito. Eu vejo os parentes da Rosie e a própria Rosie. A pele é pálida e absolutamente perfeita. Nem pintas eles não tem. Isso sem contar que a pele deles é fria.
No casamento da irmã dela, haviam muitos convidados usando lentes de contato vermelha e eles tinham as mesmas características que os parentes dela.
—Vai me dizer o que está te incomodando?
—Rosie.
—Oh!
—Mãe, no casamento haviam convidados que estavam usando lentes de contato vermelhas.
—E?
—Você já viu o jardim da casa dela?
—Todo dia, Henry. Somos vizinhos.
—Mãe, ninguém tem um jardim daquele. A grama é mais verde, as árvores parecem mais altas, as rosas mais vermelhas e até as frutas que dão nos pés tem um gosto melhor. Parece o céu. O paraíso. Você é boa com jardinagem mãe, mas nunca conseguiu deixar o jardim daquele jeito.
—Bem, Rosie é melhor com plantas que eu. Grande coisa. Filho, eu acho que você está gostando dessa moça e isso te assusta por isso está procurando defeito pra botar.
Disse a minha mãe sentando na minha cama ao meu lado.
—Me lembro do meu primeiro amor. Ele era tão bonito, quando me chamou para sair eu fiquei nervosa também. Lembro que passei dias vasculhando meu armário procurando a roupa perfeita, fui ás compras, comprei um vestido novo, fiquei preocupada se ele iria gostar. Mas, você herdou essa mania do seu pai. Ficar caçando coisa onde não tem nada.
P.O.V. Rosie.
Eu estava na cachoeira com a Amara. Ficava bem pra dentro da floresta e como uma fae cuja água é o elemento dominante nadar faz bem pra ela. Água de piscina não é como água do mar ou da cachoeira. Água de piscina é toda cheia de cloro, entre outras substâncias químicas.
—Termine com ele.
—Sai da minha cabeça.
Ela está na água e eu na floresta.
—Humanos não se dão bem no nosso mundo.
—O papai não se saiu tão mal e nem o Alaric.
Amara olhou pra mim tipo, sério?
—O papai e o Alaric tem paranoia, pesadelos, precisam de remédio pra dormir e eles tem medo da gente.
Ela tinha razão. Então, ouvi um barulho.
—Ouviu isso?
—Não.
—Amara, eu ouvi alguma coisa.
—E você tá com paranoia.
Então senti presas no meu pescoço. Usei a minha conexão com a terra, já que estava descalça para lançar um feitiço que fritou o vampiro. A minha luz torrou ele.
Mas, senti a escuridão me abraçar.
—Rosie!
P.O.V. Amara.
Sai da água e liguei para o papai.
P.O.V. Xerife Griffin.
Minha filha mais velha estava me ligando.
—Oi querida, estou...
—Pai, um vampiro atacou a Rosie!
—O que?!
Senti o pânico me dominar. Estava acontecendo de novo.
—Onde estão?
—Na floresta, na cachoeira. Vou colocar ela na água e fazer um feitiço de cura, mas pai ela tá sangrando e muito. E o cheiro pode atrair outros.
—Já estou chegando.
Me levantei correndo e peguei minha arma especial. Munição de prata e algumas granadas de verbena.
—O que foi?
—Um animal atacou a Rosie.
O Alaric entendeu na hora. Subimos na viatura, eu liguei a sirene e meti o pé.
P.O.V. Beth.
Quando ouvi a sirene fiquei mais que surpresa, fiquei chocada. Nada de ruim acontece aqui. O carro do xerife veio em alta velocidade e entrou numa estrada de terra que dava para dentro da floresta.
Então, ouvimos os disparos.
—Meu Deus! O que será que aconteceu?
P.O.V. Nick.
Quando cheguei e vi a minha filha com o pescoço estraçalhado, todo aquele sangue.
—Porque ela não cura?
—É o veneno pai. Me ajuda! Precisamos fazer isso agora. Coloque ela na água.
Ajudei Amara a colocar a irmã na água.
—Aguenta firme Rosie.
Enquanto Amara fazia o feitiço de cura e a água brilhava, o vampiro voltou atrás de mais. Tinha o cabelo todo cheio de dreds, a pele escura. Usava uma jaqueta de couro, calça também de couro e tinha uma aparência selvagem e os aqueles olhos vermelhos como o diabo.
—Fique longe da minha filha.
Apontei a arma para ele e como eu esperava, ele riu.
—Oh, como você é tolo humano.
Então, meti bala nele e quando foi atingido e as balas o feriram para dizer o mínimo... ele foi pego de surpresa.
—Como você é tolo, vampiro. Balas de nitrato de prata líquido, não tem o que tirar, vai direto para a sua corrente sanguínea.
Podia ver o nitrato de prata viajando pelas veias dele, o contaminando, queimando-o de dentro pra fora. E ele pegou fogo.
—Ela está bem?
—Vai ficar. O ferimento já curou mais do que deveria.
—E porque não cura totalmente?
—Ela é fae da terra pai. Estamos na água.
—Certo. Elemento dominante.
Entrei na cachoeira devagar, já que eu sei muito bem que quando está no seu elemento dominante o Fae pode ficar agressivo. Eles são criaturas predatórias e territoriais.
—Tudo bem querida, me deixa tirar a Rosie.
Amara me entregou a irmã e eu a tirei da água devagar sem movimentos bruscos.
—Deita ela no chão e joga terra no ferimento.
—Tem certeza?
—Joga logo pai. Cave primeiro. Quanto mais fundo você cavar, mais poderosa é a terra.
Tudo bem. Cavar.
Comecei a cavar com as minhas próprias mãos. Desesperado para não perder a minha filha como perdi a Juliette.
—Tá bom. Vou jogar água e você passa a lama no ferimento.
Amara fez uma bola d'água e a fez estourar bem no buraco que cavei formando um lamaçal. Peguei a lama e passei no pescoço ainda ferido de Rosalice.
—Vamos lá garotinha.
Vi a luz dourada no local e Rosie recobrou a consciência.
—Pai. Pai.
—Está tudo bem querida. Vou levar você pra casa agora. Vamos lá. Finja estar inconsciente tá?
—Combinado.
P.O.V. Beth.
O carro do xerife veio com a sirene ligada e parou na casa vizinha. Imagine o meu choque quando ele tira de dentro da viatura a filha Rosalice. Desacordada, toda suja de lama, terra entre outras coisas.
—O que houve?
—Ataque de animal.
Disse entrando correndo e carregando a filha. Ouvi o chuveiro ser ligado na casa ao lado e fiquei chocada.
—Meu Deus!
—O que foi mãe?
—Rosalice foi atacada por um animal no bosque. O xerife acaba de levá-la para dentro.
—E porque não levá-la ao hospital?
—Não sei Henry. Você mesmo disse que eles não gostam de hospital.
P.O.V. Rosie.
Eu tomei banho para lavar a lama, a terra. Demorei um bom tempo. E muito sabonete e muito shampoo.
—Você está bem querida?
—Estou. Tive que tomar três banhos, mas acho que estou finalmente limpa. Sem sangue, sem terra, sem nada, mas não posso dizer o mesmo do banheiro.
—Depois cuidamos do banheiro. Agora vou ter que fazer um curativo no seu pescoço, para as aparências.
—Eu sei.
Sabia que o meu pai tinha ficado mega preocupado. Ainda estava.
—Estou bem pai. Não precisa se preocupar.
—Sou seu pai, sempre vou me preocupar. E você vai ficar de cama. Vou pedir para o Doutor Cullen vir aqui ai ele te examina e faz um atestado.
—Tá.
Meu vô Carslile veio e me "examinou" trouxe minha mãe com ele e fez um atestado.
—Minha garotinha.
—Mãe, eu pareço mais velha que você.
—Não importa, sempre vai ser minha garotinha.
Disse a minha mãe que ainda me abraçava.
—Mãe, estou bem. Já curou.
—Eu sei. O que foi feito do animal?
—Uns tiros resolveram.
—Precisamos de um animal morto a tiros.
—Garanto que vão encontrar um. Um lobo. Sou mais inteligente do que pensa.
—Eu sei que é inteligente, mas na hora do nervoso a gente não pensa.
P.O.V. Beth.
Não consegui me segurar. Perguntei.
—Doutor? Ela está bem?
—Está. Fiz um curativo e ela vai ficar em casa por um tempo.
—Foi atacada por um animal?
—Foi. Mas, o xerife já matou. Um lobo que estava perambulando. Dei uma anti-rábica e ela vai ficar bem. Não se preocupe senhora, temos tudo sob controle.
O Doutor entrou no carro e foi embora.
P.O.V. Henry.
Os olhos dele não eram pretos? Parece que estavam pretos á dois dias. Agora, estão castanho dourados.
—Eu vou fazer torta assim podemos levar.
—Torta, mãe?
—É uma desculpa filho.
—Eu sei.
—Acha melhor de maçã ou de mirtilo?
—Maçã.
Não. Um lobo atacando de dia? Lobos são predadores noturnos. Comecei a fazer pesquisa. Fui até a prefeitura e pedi registros de ataques de animais.
E aqui em Magic Falls ocorrem ataques de animais desde sempre. Desde que a cidade foi fundada em mil oitocentos e sessenta e quatro. Com a desculpa de que precisava de alguns artigos para um caso procurei no arquivo municipal e quanto mais eu cavava mais eu achava.
Alguns dos registros estavam escritos com tinta, tipo aquelas canetas de pena.
"O cadáver da honorável senhora Eleonore Clark foi encontrado no bosque por caçadores de recompensas ontem á tarde. De acordo com o exame do Doutor Cullen, a senhora Clark foi atacada por um animal no bosque. A família ainda sofre com a tragédia e o corpo foi enterrado no cemitério municipal hoje á tardinha.-Joseph Galway, 27 de janeiro de 1864."
Corpos drenados, alguns estraçalhados, uma mulher afogada, uma que morreu com uma flechada.
Então procurei sobre um ataque que aconteceu em 1953. Havia um arquivo de vídeo. No computador, uma reportagem.
—Aqui é Francis Carlton falando diretamente da pensão Cullen onde um ataque brutal de um animal desconhecido tomou mais uma vida. Estão trazendo o corpo veja se consegue chegar perto.
Então, ao fundo eu vi aquela pessoa. A filmagem era preto e branco, mas... era ele. Eu pausei o vídeo e examinei melhor. Era o Doutor Carslile Cullen.
—Aquele é o médico? Doutor, Doutor o que pode nos dizer sobre o ataques?
Ele não respondeu, se escondeu da câmera. Voltou para dentro e não saiu mais.
Não. Eu não sou crédulo. Nem posso ser. As pessoas nascem, crescem, envelhecem e morrem. Esse é o mundo no qual vivemos. Não existe magia, nem misticismo e muito menos imortalidade. Mas, como posso negar o que esta praticamente sendo esfregado na minha cara? Pessoas sendo atacadas por um animal misterioso. Alguém que é belo demais, que nunca se fere, cujos olhos mudam de cor de um dia para o outro?
Eu vi os registros. A lista de convidados para o baile dos fundadores da cidade em mil oitocentos e sessenta e quatro emoldurada na parede do museu e o nome dele assinado lá. Doutor Carslile Cullen. Então, a filmagem de mil novecentos e cinquenta e três. Pessoas assassinadas, uma garota atacada.
Mas, se o Doutor Cullen é um vampiro como ele pode ser um médico? E porque atacar a própria neta?
Eu procurei e a Pensão Cullen fechou, mas a Mansão ainda existe e ainda é cercada por muitos hectares de floresta. Fica bem perto da cachoeira.
Fui até a casa dela antes da minha mãe ir bater lá com a torta.
—Oi Henry.
—Porque não foi para o hospital Rosie?
—Não gosto de hospital e nem foi tão ruim assim.
O curativo estava no pescoço.
—Qual foi o animal que te atacou, Rosie?
—Não faça perguntas para as quais não deseja saber a resposta.
Dentro da casa haviam várias antiguidades, em sua maior parte eram armas e livros. E plantas. Flores em vasos de cristal, copos de leite, violetas, rosas, lírios. O que não faltava era flor.
—E que tipo de resposta é essa? O Doutor Cullen fez isso com você, Rosie?
Ela olhou para mim e se irritou.
—Não!
As flores, todas as flores em todos os vasos morreram.
—O que diabos...
—Você realmente não deveria falar de coisas que não compreende. O quão rápido, vocês presumem o pior.
—O que diabos é você?
—Não vou te machucar Henry, mas realmente não deveria falar sobre coisas que não compreende. Meu bisavô jamais me feriria ou mesmo a um humano. Ele é uma das melhores pessoas que eu conheço. Se bobiar é mais humano que você.
—Rosie, você é vampira?
—Sou muitas coisas. Por milhares de anos nossas espécies dividiram este plano. Houve um tempo em que procuravam por nós por auxílio, ajuda e cura, mas ai... a ganancia falou mais alto. O sangue falou mais alto. Ambos os vampiros e os humanos começaram a nos caçar. Os humanos pelos nossos dons e os vampiros pelo nosso sangue. Então, minha vó criou o Reino Fae. Uma dimensão diferente desta onde vampiros não podem entrar.
—Fae?
—Fadas. Eu não tenho asas se é o que quer saber.
—Você é uma fada?
—Sou muitas coisas. Minha mãe biológica era Fae, quando estava grávida e beira da morte, fez um feitiço para salvar a mim e minhas irmãs nos transferindo para dentro do ventre da mulher sobrenatural mais próxima. Renesmee Cullen. A híbrida. Meio bruxa, meio vampira. Então isso nos torna meio fae, meio bruxas, meio vampiras. Quatro aberrações Tribridas.
—E o xerife?
—Ele é tão humano quanto você.
Ela pegou uma das flores mortas.
—Eu devo confessar que já esperava essa reação da sua parte, a rejeição, o ódio, o medo. E o que vocês não compreendem, vocês temem e o que temem, vocês tentam destruir. Tome a época do expurgo como um exemplo. Mulheres torturadas, espancadas e queimadas vivas sem misericórdia. Famílias inteiras destruídas, Covens dizimados, crianças que tiverem que crescer sem pai, sem mãe, se escondendo e com medo. Mas, as bruxas se vingaram dos mundanos. Usando sua maldita histeria contra eles.
Ela estava chorando.
—A caça ás bruxas de Salém? As bruxas orquestraram. Um sussurro aqui, um feitiço ali, um rumor acolá e pronto. Os malditos puritanos, católicos e crentes que uma vez tomaram as nossas famílias de nós se chafurdaram no próprio sangue e a minha ancestral estava lá para ver.
Meu Deus! Ela é um monstro.
—É uma questão de perspectiva Henry. Quando somos jovens nos ensinam a diferença entre um herói e um vilão, alguém digno de redenção e uma causa perdida. Um médico e um monstro. Mas, e se única verdadeira diferença, for só quem está narrando a história? Vocês nos veem como o inimigo, como algo absurdamente diferente de vocês. Mas, não é bem assim. Nós nascemos, vivemos, nos alimentamos como vocês, então porque não amaríamos? Porque não teríamos famílias, tradições?
—Acaba de dizer que as bruxas mataram os puritanos em Salém.
—Você convenientemente esqueceu de ouvir a parte onde nossas famílias foram massacradas. Salém foi vingança. Somos criaturas predatórias.
Ela respirou fundo.
—Bem, não podemos deixar essas flores deste jeito não é? Suma alento mama samoa.
As flores voltaram a vida. Elas simplesmente reviveram!
—Você já matou alguém?
—Presumo que se refira a um ser humano?
—É.
—Não. Mas, eu já matei um vampiro. Hoje. O primeiro eu matei, mas meu pai falou que teve outro. Atraído pelo cheiro do sangue.
—Os tiros. Pode-se matar um vampiro a tiros?
—Se você tiver a munição certa... sim.
—E qual seria a munição certa?
—Sinto muito. Não posso responder. Tenho que proteger a minha família. Mas, eu tenho que admitir, eu subestimei você.
Disse com um sorriso maroto e me apontando o dedo.
—Como isso é possível?
—O impossível é apenas uma palavra que os mundanos inventaram para negar a existência de criaturas e poderes além da sua capacidade de compreensão.
—Você vai me matar?
Ela revirou os olhos.
—Humanos. Não Henry. Eu não vou te matar.
Então, arrancou o curativo do pescoço. E não tinha ferimento nenhum.
—Você está magicamente curada, então?
—Algo do tipo.
—Porque sempre usa essas respostas evasivas?
—Porque não posso mentir. Nenhum Fae pode. É biologicamente impossível para nós. Mas, podemos manipular a verdade, mamãe chama de distorcer.
—Sua mãe também...
—Não. Ela pode mentir. Ela não é Fae.
—Fae são fadas, então?
—Sim. Mas, o que você conhece como uma fada é... uma fae do ar.
—Fae do ar?
—Fae são guardiões, protetores da natureza. E as bruxas são servas da natureza e mantenedoras do equilíbrio. As bruxas podem controlar todos os quatro elementos, mas a maioria dos Fae, só consegue controlar um.
—Isso implica que você consegue controlar todos eles?
—Sim. Uma das vantagens de se ser neta da Rainha Amara. Ter sangue real. E imagino, ser parte bruxa. Magia de bruxa é diferente de magia de Fae. Fae tem luz, bruxas não.
—Luz?
Rosalice respirou fundo e fez uma bola de luz cor de rosa com as mãos.
—Luz. Pode ser usada como arma e como ferramenta de cura. O problema com os Fae é que temos a beleza dos anjos, mas a maldade dos demônios. Quando ficamos irritados, nos sentimos ameaçados, desrespeitados... somos capazes de atrocidades inimagináveis. O último pobre coitado que ameaçou a minha vó que sabe. Minha vó é a primeira, a mais velha, a mais poderosa, ela tem mais de dez mil anos humanos. Ela conheceu Lilith. A mãe de todos os demônios.
—Está me dizendo que demônios existem?
—Mas, é claro. De onde acha que vem os feiticeiros?
—Como as bruxas?
—Não. Ai é começa a divisão das facções, mas imagino que seja complexo demais para um humano entender.
Facções. Todos Clãs, todos, os Covens e todas as facções.
—Isso tem algo a ver com o casamento da sua mãe não tem?
—Tem.
—Me conta.
—Porque? Assim vai conhecer nossas fraquezas e iniciar outro expurgo?
—Expurgo?
—A caça ás bruxas da era medieval. Chamamos de expurgo. Vocês devastaram vilarejos, cidades inteiras sem remorso. Houve um tempo quando humanos sabiam demais sobre Fae, vampiros, bruxas, lobisomens, etc. Não acabou muito bem. Para nenhuma das partes. Foi um banho de sangue. Humano e sobrenatural.
—E como você sabe?
—Porque meu padrasto e a irmã dele estavam lá para ver. Acho que se eles pudessem dormir, teria pesadelos. Ele não gosta de falar á respeito, mas também pudera, quase foi queimado vivo sob acusação de bruxaria. E ele era humano.
Ela sentou no sofá pensando, em algo que não parecia bom.
—Estive dentro da cabeça do vampiro que transformou meu padrasto. Eu vi a pior ameaça que qualquer um de nós, submundanos pode enfrentar um dia. Seres humanos ignorantes. Eu ainda consigo ouvir o crepitar das chamas, os gritos furiosos da multidão armada com tochas, forcados e pás. Posso ouvir o som do crânio da mãe do meu padrasto rachando quando o aldeão bateu na cabeça dela. Posso sentir o desespero deles. Se armados com tochas e forcados eles quase dizimaram o submundo, consegue imaginar o que fariam com as armas de hoje? Mísseis teleguiados, drones, metralhadoras, bazucas, ogivas.
Ela parecia estar passando mal.
—Não. Não quero nem pensar nisso. Não posso pensar nisso. Não sei o que eu faria, se perdesse a minha mãe, meus tios, tias, minhas irmãs. Acho que eu faria pior do que o que as bruxas de Salém fizeram. Tenho certeza que faria.
Ela se levantou e chacoalhou a cabeça para afastar o pensamento.
—Vou fazer um pouco de chá.
Olhando em volta eu via todas aquelas coisas penduradas nas paredes.
Voltou carregando duas xícaras. E me estendeu uma.
—O que é isso?
—Chá.
—De que?
—Camomila e mel. Sua adrenalina está muito alta, precisa se acalmar.
—Como sabe disso?
—Posso sentir o cheiro, posso ouvir seus batimentos. É apenas chá de camomila, se eu quisesse te matar, o que eu não quero, com certeza não seria por envenenamento.
Senti o cheiro do conteúdo na xícara verde e não senti nada anormal. Então, dei um gole e imediatamente me senti mais calmo.
—Não era para funcionar tão rápido.
—Na verdade, era sim.
—Colocou algo no chá?!
—Só um feitiço calmante. Isso ai é melhor que rivotril.
Feitiço calmante.
—Potencializei o efeito das ervas, nada mais.
—Potencializou o quanto?
—O suficiente para diminuir a sua frequência cardíaca e impedir o ataque de pânico que estava prestes a sofrer. Eu sei sobre suas crises de pânico, Henry.
—Como?
—Fae são telepáticos e a minha mãe e o pai dela também. Não me pergunte como.
—Pode ler a minha mente?
—Posso. Mas, bloqueio. Noventa por cento do tempo.
—E quanto aos vampiros? Água benta?
—Bebível. Se eles bebessem algo além de sangue.
—Crucifixo?
—Decorativo. Meu bisavô era filho de pastor, foi ele que nos ensinou a rezar o pai nosso. Ele é um gênio. Afinal o pai dele estava caçando vampiros em Londres, mas foi ele quem realmente os encontrou nos esgotos. Conseguir rastrear um predador não é para qualquer um.
—E ele acabou como um deles.
—Sim. É um dos poucos vegetarianos que existem.
—Vegetarianos?
—Eles não bebem sangue humano. Mas, é doloroso para eles ficar perto de vocês, mais ainda perto de mim. Sangue de Fae é como cocaína para vampiros.
—A coisa do alho?
—Eles não comem. Tem nojo de comida humana no geral.
—Sua mãe também?
—Não. Precisa comer para viver. E respirar. Minha mãe é uma híbrida. Mas, apenas comida não é suficiente. Ela prefere sangue.
—E você?
—Minha parte vampira é meio que um gene recessivo. O mesmo para as minhas gêmeas. Temos a habilidade de cura, a velocidade, a força. Mas, nada de sede de sangue. Comemos, bebemos, procriamos como vocês.
—Vampiros podem ter filhos?
—Geralmente não, mas sempre tem uma brecha.
—Sua mãe ficou grávida mesmo de vocês?
—Ficou. E ela pariu a gente. Fato interessante sobre Fae, não sentimos dor de parto, na verdade é como ter um super-orgasmo pelo menos foi o que a minha mãe disse.
—Espera ai, quando você pare, sente prazer ao invés de dor?
—Basicamente. É porque nós secretamos muita dopamina para induzir o parto. E mais ainda durante o trabalho de parto. Enquanto a criança sai. E raramente é uma criança só. É muito comum termos mais de um filho um de cada espermatozoide diferente.
—Você já teve um namorado Fae?
—Nunca tive um namorado.
—Mas, as suas irmãs tem.
—É. O namorado da Amara é um Shadowhunter.
—E isso seria?
—Ele tem sangue de anjo.
—Anjo? Anjo... tipo... anjo divino?
—Sim. Mas, o namorado da Lucy é um anjo, anjo, anjo caído. Daniel. Dizem que ele é o mais poderoso depois... de Lúcifer. Antes de escolher o amor ao invés da guerra, ele era o mais próximo do Trono.
—E por Trono você quer dizer...
—Deus. Eles não chamam de Deus, chamam de Trono. Acho que porque Deus implica masculino.
—E Trono não?
—Para eles não. Já perguntei ao Daniel como Deus era, mas ele disse que não tinha como descrever. E nem podia.
—Porque não?
—Humanos não podem ter prova de divindade. Ou você acredita ou não. Como minha irmã não é batizada, a alma dela não pode entrar no céu, mas como ela é sobrenatural, se ela morrer vai para o outro lado.
—Outro lado?
—Purgatório sobrenatural. Mundanos vão ou pra cima ou pra baixo, sobrenaturais ficam no meio.
—Puta merda!

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