A Garota do Ônibus
1 Capítulo Único.
Notas iniciais
A garota do ônibus.
Era uma rotina. Eduardo pegava o ônibus ás 14h55 no ponto em frente à igreja, entrava e colocava o passe, logo passando pela catraca. Andava até os últimos lugares e se sentava no fundo, do lado da janela. Abria sua mochila, pegava o livro que estava lendo, colocava os fones, ligando as músicas no aleatório e começava a sua leitura. Pelo menos até a terceira parada, quando, involuntariamente, levantava seus olhos das páginas do livro e esperava ansiosamente ela passar pela catraca.
E então, reprimia um suspiro. Era possível alguém ficar mais bonito a cada vez que se viam? Ele não sabia o nome dela, nem nada. A única coisa que ele sabia sobre ela, é que usava óculos, assim como ele, gostava de ler, assim como ele e que sua cor preferida era azul. Além dela ser a moça mais bonita que ele já vira.
Ela se sentava nos bancos da frente e ele continuava a observando o trajeto todo, até chegarem no terminal. E lá, infelizmente, se separavam.
Ele fazia isso todos os dias úteis, e quando chegava os finais de semana, lá estava ele, pensando na garota.
Era uma quarta-feira, assim que Eduardo viu o ônibus virar a esquina, se levantou, retirando o cartão do bolso da frente de seu jeans surrado. Estava frio, o que era uma maravilha para ele. Eduardo nunca gostara do calor, muita gente suando, insetos, e pessoas cheirosas ficavam cada vez mais difícil de achar. Mas o frio, ah, o frio. Era a sua estação preferida.
O ônibus parou e as portas duplas se abriram, subindo rapidamente os três degraus, Eduardo passou o cartão em frente a maquininha, que apitou. Levantou sua bolsa lateral e passou pela catraca, indo direto para os lugares no fundo do ônibus. Sentou-se no assento do lado esquerdo, ao lado da janela. Colocou seus fones e ligou a música no aleatório, logo pegando “O Despertar do Príncipe” de dentro da sua mochila.
Começou a ler, prestando atenção a todas as linhas, lendo com cuidado para não se perder nos balanços que o ônibus dava. One More Ligth tocava em seus ouvidos, enquanto seus dedos batucavam contra a capa do livro, na batida da música.
Logo o ônibus fez a primeira parada, depois a segunda e depois, finalmente, a terceira. Colocou o marcador na página em que parara e levantou seus olhos para a entrada do ônibus.
E logo ela apareceu. Observou com afeição a mulher, que passava o cartão do passe na máquina e depois passava a catraca. Continuou a observar, até ele notar, com desespero, que ela caminhava em sua direção. Olhou tudo ao seu redor, vendo que o único lugar vago era ao seu lado.
Seu coração saltitava em seu peito, e mesmo com vento entrando pelas janelas do ônibus, ele tinha certeza que estava suando frio. Ele ficou imóvel, olhando pela janela, mas desviando vez ou outra para a mulher sentada ao seu lado.
Pegou seu livro, que estava em seu colo, e o abriu para tentar ler, ou apenas esconder seu rosto vermelho.
— Você também gosta dos livros da Colleen Houck? — Ele se sobressaltou com a voz doce que, aparentemente, estava puxando assunto com ele.
— Eu... É... — Pigarreou, tentando controlar sua fala. — Sim, são ótimos.
— Eu já li esse. Muito bom. — Eduardo se virou para poder vê-la com mais clareza, e com deleite, pôde perceber que os olhos dela eram verdes, intensos, que ficam ótimos com o cabelo loiro ondulado dela.
— É, realmente. — Mordeu a parte interna de sua bochecha, pensando em falar algo que não seja tão ridículo quanto o que ele já havia falado. — Eu gosto da Saga do Tigre.
— Sim! — Ela falou alegre, um sorriso estampado em seu rosto. Começou a mexer em sua bolsa e retirou o livro “A Maldição do Tigre” de lá. — Estou lendo pela milésima vez. Mas o que posso fazer? É mais forte do que eu! — Riu.
E, para desespero de Eduardo, que não sabia como parar de corar tanto, a risada dela parecia sinos tocando. Ou harpas. Eduardo riu também, tentando disfarçar a vergonha.
— Verdade. — Concordou, assentindo.
— A propósito, meu nome é Alice. Muito prazer. — Ela estendeu a mão para ele, que a pegou, balançando duas vezes e a soltando.
— Eduardo. E o prazer é meu.
No decorrer do caminho, Eduardo e Alice conversaram, sobre música e livros. Ele não sabia como aquele sentimento, que já estava ali, pudera fortalecer com apenas uma conversa.
Começaram a sentar juntos todos os dias, trocaram números e conversaram mais durante a madrugada, por SMS. Eduardo estava encantado com o jeito dela, e com sua voz, e com seu jeito, e com seu cheiro doce. E risada? Eduardo estava viciado nela!
Eduardo estava perdidamente apaixonado por Alice.
E, uma coisa que ele não sabia: Alice estava perdidamente apaixonada por ele, também.
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