A Garota do Elevador
1 O primeiro dia do resto da minha vida.
Notas iniciais
Me levantava da cama em um susto. O relógio já estava marcando oito horas da manhã, e eu precisava chegar em meu trabalho as oito e meia, meu chefe era meio explosivo com atrasos. E na parte do Departamento da advocacia haviam vários querendo a minha vaga. Não podia deixar isso acontecer, tinha que chegar lá na hora.
Abro meu guarda-roupa, pego um terno amarrotado, e tomo um banho de poucos minutos, assim que me olho no espelho, vejo que meu cabelo, geralmente arrepiado para cima de uma forma meio desajeitada, não estava “arrumado”, mas eu não tinha tempo. Por isso deixei meus curtos cabelos pretos daquele jeito. Saí dali assim que percebi o tempo que estava perdendo, coloquei meu terno, peguei um copo de leite, bebi, e escovei meus dentes, tudo isso em curtos dez minutos, ainda tinha 20 minutos para chegar em meu trabalho.
Desci as escadas de meu apartamento correndo, e fui esperar um táxi. Mas como em cinco minutos, três taxistas me ignoraram, eu apenas saí velozmente em direção ao meu trabalho. Sempre acompanhando a hora pelo relógio.
Após exatos dezoito minutos, eu estava no hall de entrada. Precisava chegar ao vigésimo andar rápido, mas um grupo de senhoras estavam em minha frente atrapalhando minha passagem. Estava tentando ser educado, mas não podia esperar, já eram oito e vinte nove... Por isso fiz algo que me arrependo amargamente...
— Oh meu Deus! Aquilo é um gato preso nas árvores? – falei alto o bastantes para elas ouvirem. É claro que era mentira, mas uma vez na vida não faz mal.
Como tartarugas, elas se viraram cada vez mais devagar, e quando viram que eu havia mentido, a senhora do meio falou:
— Seu mal menino! Saia daqui!
Ela levantou a bolsa, acho que era para me bater, mas algo inusitado aconteceu... Uma borboleta parou na frente da senhora, e ela juntamente com as outras, saíram correndo. Se eu soubesse que era só isso...
Após essa irritante situação, corri até o elevador, e apertei várias vezes o botão do vigésimo andar. E quando estava prestes a fechar a porta, uma pessoa colocou a mão rapidamente, e a porta começou a se abrir. Não posso escrever o que pensei nos milésimos de segundos antes da porta abrir, mas tudo isso desapareceu quando vi uma das mulheres mais bonitas que eu já havia avistado. Seus lindos cabelos ruivos ondulados, se encaixavam exatamente com sua jaqueta de couro, assim como seu batom. Seus olhos me faziam viajar em um mundo completamente lindo. Fiquei tanto tempo a encarando que quase não notei quando ela falou comigo:
— Senhor? Algum problema? – ela perguntou.
Era claro que havia um problema, seria demitido por causa dela. Poderia ter chegado na hora em meu trabalho, mas por causa dela, e das senhoras, eu vou ser dispensado. Era o que eu deveria dizer. Mas quando olhei seu sorriso, eu me encantei de vez, e não pensava mais em nenhum problema, somente em chama-la para sair, e como não tinha muito tempo...
— Só o problema de eu não ter o seu telefone, e nem termos nada marcado para esse fim de semana... – provavelmente a coisa mais estupida que eu disse.
Eu não era desses caras que sai pedindo o telefone sem nem saber o nome, mas foi o que saiu da minha boca, pensava que ia levar um tapão, mas:
— Curto e grosso... – Ela para de falar e pensa um pouco, já estávamos no 15º andar – Gostei! – Ela sorriu. – Prazer, Holly! – ela falou quando me entregou um papel com o seu telefone.
— Matthew! – me apresentei e peguei o papel de sua mão.
Quando o elevador chegou ao vigésimo andar, eu me despedi de Holly, e fui até ao meu escritório, esperando ser chamado a qualquer momento, até que ouço uma voz gritando meu sobrenome:
— STILINSKI!
Engulo seco, enquanto vejo meu chefe de quase dois metros de altura, com porte de atleta, corte estilo militar, e rosto intimidador, adentrar em minha sala.
— S-senhor? – gaguejo me levantando.
— Eu avisei! MAIS UM ATRASO, E SERIA DEMITIDO! – ele gritou comigo, cuspindo mais que uma cachoeira. – Sabe o que isso significa? – ele suavizou sua voz e eu acenei com a cabeça positivamente devagar. – Você está demitido! – ele fez uma voz de bebê estranha, o que não combinava com seu corpo de king kong.
Me levantei e fui direto para o elevador fazer o caminho de volta para casa, e pegaria minhas coisas no dia seguinte. Então, fui embora para casa, certo de que ainda tinha dinheiro para pagar um jantar à moça. E que a empresa me pagaria o que estava me devendo.
Chegando em casa, eu me joguei na cama, e dormi por um tempo...
Acordo ainda a noite, e sem levantar do sofá, olho meu celular, havia uma mensagem. Quando a abri, pude ver de quem era. Holly, e na mensagem dizia: “ Olá, sou eu, a garota do elevador, sobre sairmos amanhã, não vai dar. Mas qualquer dia pode me chamar.”
Subitamente uma sensação de loucura vem em minha cabeça. Por que esperar até amanhã? Poderíamos nos ver hoje, e era o que eu iria fazer. Mandei uma mensagem perguntando onde ela morava, e ela me mandou o endereço.
Tirei meu terno, e fiz minhas higienes básicas, coloquei uma roupa mais casual, e saí novamente da minha casa.
Quando cheguei no apartamento, eu joguei uma pedra, aonde era sua janela, e poucos minutos depois ela apareceu lá embaixo.
— Olá, senhor Matthew! – ela falava em um tom irônico, e sorrindo ao me cumprimentar.
— Como vai senhorita Holly? – falo no mesmo tom em que ela havia falado.
— E o que o senhor preparou para hoje? Um passeio na ilha do algodão doce? Talvez uma visita aos cavalos mágicos? Podemos comprar um pônei? – Ela fala tudo tão rápido, e insanamente, que acabo achando que ela tinha problemas. Depois de um olhar desesperado meu, ela começou a rir. – É brincadeira!
Nervosamente e em forma de alívio, eu ri também.
— Vamos? – ofereci minha mão para ajudá-la a descer a escada com aqueles saltos.
O dinheiro que eu tinha guardado, só dava para um restaurante, curiosamente perto da casa dela, por isso fomos caminhando...
— O que você faz da vida Holly? – pergunto no meio do caminho.
— Sou veterinária.
— Veterinária? Que legal! Como pôde ver hoje mais cedo, sou advogado. Ou pelo menos... – dou uma pausa – Era.
— Estaria mentindo se dissesse que não ouvi os gritos. Mas veja pelo lado bom, você poderia estar devendo o aluguel.
Fiz uma careta, e coçei minha nuca.
— Bem... –estávamos na frente do restaurante, então mudei de assunto. – Dizem que a comida aqui é ótima. – Nunca havia ouvido falar sobre a comida dali, mas era o que podia pagar.
Entramos, escolhemos uma mesa, e ficamos esperando o garçom vir.
— Você tem algum hobbie? – Holly perguntou para mim.
— Eu... Gosto de tocar teclado. E você?
— Eu amo colecionar coisas. Por exemplo, hoje comprei mais um livro para minha coleção.
O garçom chegou rápido. E eu fiquei torcendo para não ter nada caro no cardápio. Acho que ela percebeu a minha cara, e falou:
— Hoje estava mesmo querendo comer um hambúrguer...
— Eu também! – falei aliviado. – Dois hambúrgueres para a gente.
A noite foi incrível! Conversamos, rimos, e foi perfeita. Após pagar a conta, estava a levando até seu apartamento, e finalmente chegamos.
— Acho que agora é onde nos despedimos, ou ficamos em um silêncio constrangedor. – disse depois de ter virado para ela.
— Ou nos despedimos em alto estilo...
Ela me puxou pela gola, para perto dela, e me beijou, lentamente, naquela fria e pálida noite. E assim que nos afastamos, eu olho em seus olhos, e fiz a pior coisa que um homem pode fazer no primeiro encontro:
— Holly, eu acho que eu estou apaixonado por você!
No mesmo momento em que falei isso, ela tirou suas mãos da minha nuca, deu um sorriso sem graça, e apontou para a portaria de seu apartamento.
— Acho melhor eu ir. E depois, nunca mais nos vermos. – ela sorriu, e entrou em seu apartamento.
Falar eu te amo na primeira vez que sai com alguém, é estupidez, burrice. POR QUE EU HAVIA FEITO ISSO? Talvez porque eu realmente a amasse, e sentisse que era ela a certa... Ou porque eu não sei me despedir, e soltei uma frase dessas.
Voltei para casa desolado, havia perdido meu emprego, possivelmente a minha futura esposa. Mas nada pode ser tão ruim que não possa piorar, com um carro anônimo jogando lama em você.
Parece que o destino não estava piedoso comigo naquele dia. Mas eu sabia, que em algum lugar do mundo, a mulher certa para mim existia. E que mesmo após ser demitido, não era o fim do mundo. Ganharia uma indenização, que daria para pagar vários aluguéis, até arrumar um emprego, e finalmente voltar a me sustentar. E o meu conselho para vocês: nunca, eu disse NUNCA diga eu te amo, em seu primeiro encontro. Mas foi aí que descobri, que aquele era o primeiro dia, do resto da minha vida.
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