A Garota do Apartamento 36
29 E a Guerra Começa! Lara vs Mente!
Notas iniciais
"Diga o que você pensa com esperança.
Pense no que você faz com fé.
Faça o que você deve fazer com amor!" — Ana Carolina
Eu realmente não tinha muito o que falar, a única coisa que eu queria fazer era sentir, sentir aquele corpo colado ao meu repleto de carinho e malicia, não conseguia entender como eu conseguia ficar no mesmo ambiente dela e não conseguir pirar de uma vez. O modo como ela anda, fala, os seus sonhos, a sua risada, seu sorriso. Tudo isso e muito mais me fazia feliz, me fazia querer ficar e se não fosse a minha desesperada luta por liberdade eu ficaria lá com ela deitada mais tempo sobre aquela cama macia encarando aqueles olhos nublados confusos e tristonhos.
– Eu tenho que ir Gabriela – Sussurrei lentamente, ela apertou mais fortemente sua mão contra a minha e mordeu os lábios tentando concentrar em algo.
– Lara... – Não deixei ela falar, me aproximei mais ainda dela e comprimi meus lábios nos dela em um beijo casto e calmo, um gemido saiu de sua boca quando eu puxei seu cabelo ainda mais de encontro a mim. Eu gostava disso, amava aquele gosto, sentia falta. Depois de tanto tempo longe de tantos meses sofrendo eu estava lá ao lado dela, mas não por uma boa causa, era minha despedida, era meu adeus definitivo. E ela sabia.
– Adeus Gabriela – Murmurei beijando mais uma vez seus lábios que agora estava molhado devido suas lágrimas, me afastei dela e deixei um sorriso sofrido brotar de meus lábios – Quem sabe um dia o destino consiga me unir a você, ele não pode ser tão filha da puta a foder o resto da minha vida.
Ela deu uma risada alta com minhas palavras, mas logo voltou com sua face chorosa, agarrou meu corpo nu com força como se pedisse com seus gestos para que eu ficasse, retribui o carinho, porem quanto mais tempo eu continuasse ali, mais doloroso ia ficar.
Me soltei dela e me levantei da cama, peguei minhas roupas que estavam jogadas desordenadamente no chão e as coloquei com calma sempre sentido aquele olhar atento sobre mim. Ouvi o ranger da cama e olhei para trás avistando aquele corpo nu e esbelto caminhando em minha direção. Aquele rebolado era sincronizado, e os modos com qual aqueles seios balançavam conseguiam me deixar ainda mais louca.
Ela se aproximou de mim ainda nua e passou e levemente seus braços sobre o meu pescoço roçando aquele corpo delicioso sobre o meu – Isso ainda não acabou – Sussurrou aquela voz pesada e quente, minhas mãos automaticamente foram parar em sua cintura, as apertando com força por causa da agonia prazerosa que passou por cada fibra do meu ser – Eu não vou desistir de você Lara, eu te amo.
Um sorriso brotou em minha face e eu ainda consegui dar um último beijo antes de murmurar calmamente – Estarei esperando morena – Passei a mão pelos seus cabelos negros e selvagens aproveitando a macies deles, encarei profundamente aqueles olhos e sussurrei antes de sela meus lábios nos dela – Eu também te amo Gabriela...
Não foi dito mais muita coisa, tinha acabado e nós duas sabíamos disso, foi uma despedida dolorosa e eu ainda não queria acreditar que havia acabado, nem no momento em que eu sai do apartamento dela, nem no outro momento em que sai com as minhas coisas prontas em direção ao saguão do aeroporto.
Eu estava sozinha agora...
Eu estava sem Gabriela.
[...]
– COMO ASSIM VOCÊ ESTA INDO PRA LONDRES?! – Tirei o celular da orelha na hora quando minha mãe começou a gritar com uma fúria tremenda, um sorriso enorme brotou na minha face e eu tive que segurar a risada do nervosismo da minha mãe que não parava de tagarelar no pequeno aparelho – QUE MERDA VOCÊ TEM NA CABEÇA LARISSA MAGALHAES LIMA?! VOLTE JÁ PRA CASA!
Ui ela falou meu nome completo, to encrencada! Me ajeitei mais na poltrona do avião e estralei as costas em um movimento rápido, esperei minha mãe parar de xingar ela mesma centenas de vezes de puta e murmurei – Posso falar agora?
–Lara, espero que isso seja mais uma de suas brincadeiras idiotas!
– Deixa eu falar?! – Falei tentando controlar o volume da minha voz, ela já estava conseguindo me irritar – Eu só quero um pouco de liberdade mãe, ser quem eu preciso ser e todas essas ladainhas de auto realização, eu tenho quase vinte anos ta na hora de eu sair de baixo de sua asa.
– Não! Não é isso o que você quer fazer, você só quer saber é dessas suas baboseiras homossexuais! Eu juro Lara, que se você não voltar pra casa nessas próximas vinte quatro horas é bom ir ficando por ai porque você nunca vai mais pisar os pés nesse país!
Mordi os lábios quando eles começaram a tremer ameaçando um choro, era realmente necessário tratar sua primogênita dessa forma? Como se fosse merda nenhuma, suspirei tentando controlar as minhas lágrimas e disse antes de desligar o aparelho que eu apertava com força nas mãos – Apesar de toda essas coisas que você me fala, ainda vou continuar te amando.
Minha voz saiu em um sussurro doloroso, cortei a chamada e desliguei o celular para que não houvessem mais outras ligações incomodas. Apertei com força os dedos sobre meus olhos controlando aquela vontade inútil de chorar no meio do avião.
Eu tinha que admitir, estava com medo de sair dessa, viajar pra um novo lugar sem saber o que ia acontecer comigo, qual seria minha nova rotina? Eu faria amigos? Conseguiria me sustentar lá? Conseguiria esquecer as mulheres da minha vida?
Porque mulheres? Sem tem o que na cabeça?! Você sabe que você só ama a Gabriela! “Sei lá talvez eu tenha gostado da Carla...” Sério que depois de tudo o que você passou você ainda pensa nela?! Ela foi uma piranha! “Ela fez aquilo para me defender, eu poderia estar pior se ela não tivesse falado aquilo!” Cala essa mente Larissa! Carla está fora ok? Acabou! Acabou... Há vai toma no CÚ!
Senti minha mão ser retirada levemente do meu rosto, abri os olhos e minha boca caiu por inteira – Ah não! Não, não, não, e não!
– Lara por favor me escuta...
– Que Lara o que! – A cortei tirando suas mãos macias das minhas, me ajeitei ainda mais na minha poltrona tentando me manter a distância dela. Vi ela morder seus lábios e aqueles olhos esverdeados determinados não me largavam nem por um segundo, tive que desviar o olhar para parar de encará-los – Que porra se ta fazendo aqui Carla! Como você me achou?
– Não precisa falar tão alto – Ela murmurou se encolhendo um pouco, porque eu tenho que ficar brava com um ser tão fofo como esse? Oh Lara, você quer um flashback para que lembre? – Eu precisava te pedir desculpas, eu falei com a Val e ela me disse que horas era seu voo!
Valéria mardita! – Ah ótimo, ta desculpada – Falei azeda tentando ignorar o modo meigo dela É eu tenho que admitir, ela parece um coala de tão fofa! – Mas agora é melhor você sair antes que o avião parta.
– Larissa é sério – Disse puxando meu pulso me fazendo encara-la, seus olhos estavam um pouco marejados e seus lábios muito trêmulos Isso é APELAÇÃO! – Eu não sabia o que fazer naquela hora! Ele ia te deixar muito pior do que você já tava! Ele era muito mais forte, eu tive medo...
Respirei fundo fechando os olhos e tentei me concentrar muito bem, relaxei meu corpo e me esparramei na poltrona.
“- Senhores passageiros, apertem os cintos para que seja realizada a decolagem...”
– Você deve ir embora Carla – Murmurei segurando todos os meus sentimentos penosos pra longe mim.
– Eu sei disso – Ela disse se levantando e arrumando a barra de seu vestido que ia até suas coxas, mordi os lábios disfarçando o meu estado malicioso e encarei aquela loira uma última vez – Quero que saiba que você foi minha primeira e única mulher da minha vida Lara – Não consegui segurar um sorriso quando sua face de porcelana começou a tomar uma coloração avermelhada, era bem obvio que seu pedido era sincero.
– Está tudo bem advogada, ninguém é de ferro – Disse tentando passar um pouco de ânimo pra ela, seus olhos estavam marejados e sua mente parecia ter entrado em conflito com alguma coisa porque ela não parava de me encarar. Esse tilts são meus loira! ...Pera ai.... Será que esse negocio que eu tenho pode ser contagioso?! OH MEU DEUS! SERÁ QUE EU TENHO UMA DOENÇA GRAVE E NÃO SABI...
Eu fui despertada dos meus pensamentos retardados quando senti uma leve pressão em meus lábios, senti meu rosto aquecer no mesmo instante e um suspiro saiu da minha garganta quando ela passou levemente sua mão na minha bochecha como se quisesse gravar cada parte do meu rosto. Não durou muito tempo, foi apenas um selinho, ela não tinha se importado com as pessoas em sua volta, nem mesmo com a aeromoça que tinha vindo checar o porquê dela ainda estar de pé. O que importava era perceber o seu rosto machucado e choroso pra cima de mim, apesar de tudo o que tinha acontecido entre nós eu ainda podia sentir aquela paixão fofa parecendo as boas épocas de Malhação. Acho que Carla seria minha paixão adolescente se eu já não tivesse noção de quem era o amor da minha vida. Era maldade comparar aquelas duas em uma tabela, as duas tinham seus altos e baixos, apesar de ainda conterem aquele olhar assassino que encolhe até as minhas bolas imaginarias. Vai saber desse meu louco coração!
– Moça o avião já vai partir- Disse a aeromoça morena da sua forma mais gentil possível – É melhor você se sentar para podermos decolar.
Carla encarou a aeromoça tentando pensar nas palavras certas por longos segundos sua boca abria e fechava fazendo quase som algum e depois de longos segundos ela se tocou do que estava acontecendo. Ela finalmente se sentou ao meu lado tentando agir o mais naturalmente possível, franzi o cenho quando ela se ajeitou na poltrona e colocou o cinto – Oche mulher, você vai pegar o avião?
Sua face ficou tão vermelha que não consegui deixar de rir, ela cruzou os braços em seu tórax apertando inocentemente os seus seios e murmurou baixo. Na primeira vez eu não prestei atenção até que ela falou um pouco mais alto ainda abraçando os próprios seios não tão bem disfarçados pelo decote Alguém por favor controle a Luxuria? Ela está prestando atenção demais nesses detalhes!
– Eu disse que eu já tinha comprado a passagem caso você não aceitasse as minhas desculpas! — Fiz um bico e cerrei os olhos pensando na doidera que aquela loira tava fazendo.
– Ta me dizendo que você seria louca o suficiente para ir até Londres só pelo meu perdão? — Perguntei desacreditada, ela estralou a língua e revirou os olhos quando ouviu o que falei.
– Não seja tão convencida, eu só ia até fazer ponte em Congonhas – Respondeu emburrada, dei um sorriso segurando uma risada desacreditada das palavras daquela moça boba. Dei um pequeno suspiro e passei meu braço sobre os seus ombros, ela ficou meio assustada no começo por causa da minha atitude inesperada, mas logo relaxou e aproveitou dos últimos momentos comigo.
Realmente não falamos praticamente nada o voo até São Paulo, a todo momento eu olhava pela janela do avião dando mais de quinhentos tipos de suspiro pensando na vida que eu deixei pra trás e principalmente do amor da minha vida que talvez eu nunca saberia se iria sair da minha cabeça.
–-
Dei um suspiro e continuei com os olhos fechados, ainda conseguia ouvir o barulho irritante daquele relógio de corda, tic-tac, pra lá e pra cá. Barulho irritante da porra! Tentei focar em outra coisa tentando não demonstrar tanto a minha impaciência, então fiquei ouvindo o barulho da caneta sendo rabiscada rapidamente na pequena caderneta em intervalos distintos, parecia que aquilo nunca ia ter fim. Até o barulho do aquecedor começou a me incomodar, eu estava um saco pra tudo calmo hoje, precisava de agitação, de uma boa noite que distraísse minha mente independente.
– É talvez tenhamos encontrado um problema – Abri meus olhos e voltei a minha atenção ao velho homem com um cavanhaque bem feito no rosto, seu rosto era neutro, seus óculos pequenos e seu terno marrom parecia do mais caro linho. Ele cruzou mais uma vez suas pernas magras e voltou seus olhos azuis na direção do divã de couro marrom escuro que eu estava deitada com a cabeça divagando em todo meu passado. – Foi uma história e tanto, mas acho ter encontrado a razão de sua briga interna senhorita Magalhães....
Sim senhoras e senhores! Eu procurei ajuda médica!
*Aplausos*Aplausos*
Me ajeitei melhor no divã e dei um pequeno sinal de confusão, ele deu um suspiro forte e começou a falar ajeitando seus óculos no rosto – É normal as pessoas falarem consigo mesma Lara, isso vem da infância, problemas com a família e também com suas questões sociais, você ficou muito afastada do mundo por causa de seus pais e acabou criando um pequeno porto seguro onde você consegue tomar controle das situações de uma forma... Como podemos dizer... Mais analítica.
Ele terminou o seu raciocínio e aguardou minha mente processar tudo o que ele tinha falado. Foram longas sessões até que eu conseguisse me abrir de verdade com o Dr. Yero, contado partes da minha vida e é claro a minha mais vivida aventura que ele mesmo denominou como A Garota do Apartamento 36. Ele ficou surpresa com as coisas que eu tinha falado e muitas vezes elogiou a minha coragem por ter partido do Brasil a uns cinco anos atrás.
É isso ai, já se passaram cinco fucking anos!
Tinha 25 lindos anos, continuava com meu corpinho agraciado por Afrodite e ainda tinha um ego maior que o Everest, aumentou relativamente depois que eu me mudei pra cá e cai nos braços das londrinas, sou livre agora não é? Eu já tinha me formado em gastronomia e trabalhava em um ótimo restaurante quatro estrelas como sub-chef perto do centro de Londres. Eu já tinha uma boa vida formada, era bem sucedida, consegui fazer amizades, nem sei porque encanava com isso, o povo inglês apesar de ser reservado conseguia ter um coração animado e também não ajuda fazer amizade com uma brasileira doida de pedra.
Mas o que me deixou chocada foi o fato das palavras do Dr. terem feito bastante sentido pra mim, passei por poucas e boas e minha mente foi só ficando mais poderosa. De uns anos pra cá, depois que eu me mudei, essa tendência minha de ficar meia hora divagando sobre algum assunto de interesse idiota na minha mente foi diminuindo, entretanto ainda me atrapalhava muito no meu serviço, nunca fiz uma besteira das grandes, porem era bom você estar com seu cérebro 100% na realidade caso você estivesse mexendo em uma frigideira flambando.
– Só resumi pra mim: Eu sou doida ou não? – Perguntei o olhando impaciente, não gostava desses dramas, a minha vida era um drama, puta que pariu eu sou o drama em pessoa! Vou deixar bem claro que você consegue viajar sem a ajuda de seus pensamentos Lara... Não culpe seus alteregos pela sua idiotice!
– Você não é louca, mas também não é normal – Respondeu a minha pergunta e vi a sombra de um sorriso aparecer em sua face, mas logo sua face séria voltou e voltou a detalhar o meu cérebro – Você tem um grau bem leve de esquizofrenia, mas não é nada demais, você não vê pessoas ou fala com as paredes, você só conversa muito consigo mesma e acaba indo pra uma outra dimensão dentro de sua própria mente.
– Tem um mundo na minha cabeça?
– No cru é exatamente isso – Respondeu ajeitando mais uma vez seus óculos que escorregavam pelo seu longo nariz, ouvi o pequeno barulho de seu relógio de pulso apitando, tinha acabado a minha sessão de terça – Não se preocupe Larissa, você de agora em diante se quiser pode começar a tomar uma série de remédios, vai fazer você ficar mais atenta com a realidade, mas ainda poderá acontecer de você ir para esse seu outro mundo.
Ele saiu de sua poltrona e foi em direção a sua mesa, me espreguicei e me levantei calmamente do divã enquanto isso, ele estava atento ao pequeno bloco de papel, parecia bem concentrado, seus cabelos brancos e ralos estavam jogados de lado dando um ar de garoto dos anos 50, eu realmente não sabia quantos anos aquela múmia tinha, mas tinha que admitir que aquele velho era bem útil.
– Essa é uma receita dos medicamentos – Disse cortando meus pensamentos, ele me olhava atentamente enquanto estendia o papel azul claro na minha frente, seus olhos pareciam querer me estudar a cada segundo e se isso não fosse o trabalho dele eu já teria saído correndo – Tente não misturar muito álcool com ele, são tarja preta entendeu?
Será que vai me deixar mais bêbada? Balancei a cabeça voltando a realidade antes que minha mente tomasse o controle, era bem obvio que aquele moço franzino, mas de pança cheia observava as reações idiotas do meu corpo. Peguei a receita de suas mãos e agradeci com um sorriso envergonhado no rosto. Ele pareceu não se importar, apenas se despediu e eu caminhei a passos longos pra fora da sala tentando andar calmamente, tentando. Ainda não estava acostumado a falar da minha vida, nem muito menos falar sobre a época mais turbulenta da minha vida.
E eu achava que meus problemas em Dourados eram ruins...
Sai da sala de consulta e dei um leve aceno de despedida ao passar pela secretaria em direção a saída. Ajeitei melhor a receita dentro do bolso da minha calça jeans e peguei meu sobretudo marrom carmim do pequeno cabide ao lado da porta emadeirada. Sai pra fora do escritório e respirei fundo o ar gelado daquela cidade movimentada. Mesmo estando em um bairro um pouco distante ainda era possível ver o pequeno movimento de carros e pessoas passando. Eu demorei longos meses até desaprender e aprender a dirigir no Reino Unido, foi um desafio não muito bem vindo, mas bem util.
– Nem é tão ruim assim...
[...]
– Lari, já está terminado o Camarão Bombinha? — Mordi os lábios me concentrando em colocar um pouco de molho por cima da comida de forma circular, nada excessivo, apenas para dar aquele gosto bom e charme eloquente, eu simplesmente amava aquele trabalho.
Limpei os cantos da porção e finalmente encarei o garçom que me espera pacientemente observando atentamente cada movimento meu — Esta ai Charles — Disse arrastando o prato em sua direção, ele num movimento ágil o pegou sem nem movimentar a comida e colocou em cima da bandeja dando uma piscada com aqueles miúdos olhos castanhos antes de sair.
– Está com vontade hoje eim Lari!
Dei um sorriso grande quando ouvi aquela voz grossa — Quando se faz algo que se ama você nunca vai comparar ela como trabalho — Respondi voltando apressadamente para a frigideira para já começar a preparar outro prato — Quer beber algo hoje Ben?
Esse era o pique daquela cozinha, aquele bando de pessoas que não paravam quase pra nada, a cozinha era grande e trabalhavam mais de vinte pessoas só para poder servir um restaurante que conseguia atender no mínimo umas duzentas e cinquenta pessoas por dia, raramente eu descansava, mas acredite não era por falta de opção, eu simplesmente amava aquilo.
– A brasileirinha me chamando pra sair em plena terça feira? — Ele respondeu montando com destreza um prato, suas mãos eram grossas, porem nem parecia atrapalhar o seu trabalho, era grande, mas magricelas, cabelos curtos e loiros presos por uma badana branca e olhos de um tom castanho escuro quase negros. Ele era subchefe como eu, o nosso Chef se chamava Alexandre, era um Italiano meio engomadinho que gostava de botar pressão em nossas costas, mas todo mundo sabia que ele era assim só porque queria o melhor do nosso restaurante. Esse ramo de culinária era bem disputado na cidade, qualidade, higiene e hospitalidade eram o mantra do lugar. E eu nunca reclamei do titio Alexandre, do ele mesmo que me recomendou para trabalhar aqui e acreditou que eu era capaz, não preciso nem dizer que superei todas as expectativas não é?
– Só diga sim seu palerma, não to com tempo pras suas piadinhas – Ameacei sem tirar a atenção do prato que eu fazia, ouvi sua risada se misturar ao ambiente repleto de barulho de aço e cheiros distintos deliciosamente únicos, dava fome só de estar naquela cozinha.
– Se for levar ele pra beber pode me incluir!
– Se eu não fizesse isso ia acabar aparecendo de qualquer forma Liza – Comentei com um pequeno sorriso nos lábios, senti aqueles braços finos rodearem meu pescoço e um beijo doce ser estralado na minha bochecha – Como pode me amar tanto?
– É que eu tenho uma queda por brasileiras gostosas – Respondeu me largando após soltar uma gargalhada, desliguei o fogo e coloquei o pedaço de carne no ponto certo no prato – É uma pena que não tenha algo de melhor entre as pernas...
– Sabe que o que eu tenho aqui é melhor que qualquer outra coisa que você já tenha provado! – Disse convencida, encarei aqueles olhos azuis piscina e soltei um sorriso malicioso a fazendo desviar seu olhar envergonhado de mim.
Ela ajeitou seu avental branco e saiu andando pra sua bancada tentando disfarçar em vão – Você prometeu não ficar jogando isso na minha cara!
– Foi você que começou minha ruiva gostosa! – Disse tirando meu olhar dela, mas meu sexto sentido já tinha percebido o quão ela ficou vermelha com a minha resposta, ouvi uma outra risada ser preenchida pelo ambiente e acabao vendo Ben e seu outro amigo Matt tentando não se matar na risada.
– Para de ficar vermelha Liza! Pelo menos você conseguiu comer ela! – Disse Matt que parecia que a qualquer momento poderia perder os dedos cortando aqueles legumes enquanto ria que nem um retardado, ele era baixinho, ombros largos e cabelos castanhos encaracolados, era o típico amigo babaca que você não consegue viver sem.
– Eu to tentando isso desde que essa doida chegou no restaurante...
– Cala a boca Benjamin, crie uma pepeca que conseguiremos conversar ok? – Respondi já deixando o prato pronto em cima da bancada, ele fez uma pequena careta rolando os olhos e voltou para o seu fogão industrial.
– Vocês amadores de bucetas me dão medo! – Disse Kevin saindo tão rápido quanto entrou para poder servir o prato pros clientes, acabei rindo junto com meus colegas enquanto aquele garoto moreno saia apressadamente da cozinha.
– Não sabe qual o bom da vida! – Disse voltando já pro outro prato.
– Nem me fale – Disse Matt piscando pra mim com aqueles olhos negros puxadinhos, fofo, mas retardado. Bufei e voltei ao trabalho ainda tinha muito o que fazer.
[...]
– Vai demorar muito pra se arrumar?
Mordi os lábios encarando aquela ruiva que estava escorada ao lado da porta, acenei rapidamente que não e peguei as chaves de casa do meu bolso e as encaixando na fechadura abrindo a porta de eucalipto com calma — Vai ser rápido Liza, mexe um pouco na tv enquanto isso.
Ela fez um muxoxo rápido e entrou para dentro do apartamento sem mais nem menos — Por favor entre! Fique à vontade.
Minha voz cínica não conteve a risada dela, ela apenas se jogou no sofá da minha sala e já catou o controle — Obrigada! — Acabei dando uma risada do tom falsamente educado dela já estava acostumada com aquilo, aquela mulher vivia na minha casa, dei de ombros e segui até o meu quarto.
Minha casa, vulgo apartamento, era confortável. Morava sozinha, mas na maioria das vezes Elizabeth ficava me fazendo companhia, ela também morava sozinha e gostava mais da minha casa do que da dela. Frescura assim dizendo.
O apartamento tinha uma sala espaçosa, uma cozinha maior ainda, um quarto e uma suíte, um banheiro e uma dispensa. Eu ainda queria comprar uma casa boa, mas por enquanto aquele apartamento era a minha vida “Ainda falta algo né Lara?”
Que porra mente idiota? O que você quer?
“O que eu quero? Há você sabe o que NÓS queremos, queremos Gabriela!”
Tem como vocês pararem de pensar nela? Vocês lembram o quanto foi duro pra mim a largar assim do nada?! Já faz anos!
“E você ainda não a esqueceu! Porque você não dá sinal de vida pra ela?”
Já conversamos sobre isso, para caralho!
Entrei no banheiro rápido demais e o fechei com força, minha cabeça começou a doer, já tinha bastante tempo desde que a minha mente não dava sinais claros de atividade, entretanto isso só começou a ficar pior depois que eu comecei a ir no psiquiatra. Encarei meu reflexo no espelho da cabine de remédios, meus cabelos estavam mais longos e claros, não sabia o porquê, mas gostei deles dessa forma. Meus olhos dourados tinham uma expressão assustadora, eu realmente estava ficando louca. Esse é o fim!
Abri a cabine de remédios e avistei aquele frasco amarelo cheio de pequenas pílulas, ainda não tinha usado, mas eu não aguentava mais. “Não faça isso Lara!” Senti minha cabeça latejar com um pouco mais de força, porem continuei, peguei o frasco tarja preta e o rosqueei rapidamente – Liberdade!
Peguei duas pílulas e joguei na minha mão, respirei fundo encarando aqueles comprimidos já estava mais do que na hora de acabar com essas vozes na minha mente.
“NÃO IREMOS DEIXAR!”
Minha mão se fechou rapidamente e a pior parte era que não tinha sido eu – O que esta acontecendo?
“Não tivemos escolha Larissa! Vocês quer nos matar! Não podemos deixar isso acontecer!”
Meu coração batia desenfreado, isso nunca tinha acontecido, nunca que minha mente tinha tomado total controle de uma parte do meu corpo. Eu estava definitivamente louca – É pra cair o cú da bunda!
Tentava abrir minha mão com a outra mão o que resultou muitas caretas da minha parte – Abre logo a mão porra! – Quase gritei e num momento de fúria bati minha mão na pia de mármore do banheiro ESSA DOEU PORRA! “EU SEI QUE DOEU CARALHO EU TAMBEM SENTI!” – Se doeu deixa eu abrir a minha mão!
“NÃO!” E ficamos lá brigando pelo controle da mão, acabei recendo dois socos gratuitos na boca do meu estomago e eu acabei caindo no chão gemendo de dor – Porque você está me batendo? Você não sente dor também?
“Pode doer em nós também, mas pelos menos você sossega esse seu fogo no rabo!”
DESGRAÇADOS!
Ouvi batidas na porta do banheiro e contive minha respiração quando ouvi aquela voz preocupada do outro lado — Lari você esta bem?
– Estou sim! Volta pra sala!
– Mas eu ouvi você conversando com alguém!
– Eu to ouvindo música, relaxa biscate!
– Idiota! – Ela gritou rapidamente e fiquei ouvindo seus passos se distanciarem calmamente.
– Você acha que ela já foi embora?
“Eu acho que sim...”
– Que bom... – Finalmente me toquei na merda que estava acontecendo comigo, eu ia acabar sendo internada se continuasse assim. Num movimento rápido tomei controle da minha outra mão boa e virei rapidamente os comprimidos dentro da minha boca. O pequeno pote amarelo caiu no chão derramando boa parte dos comprimidos e minha mente começou a gritar desesperada me fazendo quase explodir de tanta dor de cabeça, abracei meu pequeno corpo no chão gelado e fiquei aguentando aquelas sensações bizarras em meu corpo.
“ E neste exato momento no cérebro caótico de Lara...
– Ohh meu deus! Isso é o fim! – Aquilo estava uma verdadeira desordem, cada divisória onde ficavam as alteregos estavam um verdadeiro caos, dava para ver o fogo se alastrando em algumas partes, equipamentos eletrônicos estavam se destruindo e as alteregos começavam a ficarem cada vez mais fracas.
– Eu não acredito, depois de tantos anos... Ela está nos matando!
– A culpa é de vocês suas desgraças! Eu falei pra não mandarem tanto na vida dela! – Disse Culpa, tossindo fortemente, as outras alteregos já estavam desmaiadas no chão
– Não adianta culpar ninguém, sabíamos que esse dia iria chegar... – Disse Realidade com lagrimas nos olhos e como sempre lá estava Drama dizendo as palavras finais daquele pensamento bizarro:
– Adeus mundo cruel!
Será que era assim? Depois de tantos anos sobre o controle de sua própria mente a Lara finalmente estava livre? Ela não era mais louca ou algo parecido?”
Mas que porra foi essa na minha mente?! Finalmente abri meus olhos me acostumando com a volta dos meus sentidos, não queria saber o porquê de tudo ter sido tão estupidamente dramático, porem eu comecei a sentir que finalmente eu poderia ter um pouco mais de razão na minha vida.
Me levantei do azulejo branco do meu banheiro sacudindo a minha cabeça levemente, a dor de cabeça tinha passado e mesmo estando um inferno de frio me arrastei pro chuveiro e tomei um banho quente para tirar a tensão do meu corpo. Ainda conseguia ouvir certas vozes na minha cabeça, mas elas estavam cada vez mais fracas e eu me sentia mais energizada só de pensar que finalmente poderia ter um pouco de paz em minha mente.
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