A Garota de Edmundo
9 Dentro do livro, em cima da estante.
Notas iniciais
Lizie prendia o cabelo de Lucia cuidadosamente, enquanto eu ficava deitado na cama de Lucia olhando para cima um pouco impaciente. Ela colocou mais alguns grampo, pegou uma fita e amarrou.
-Pronto, Lucia, o que achou?
-Estou linda, obrigada!- Lucia exibia um lindo sorriso. Eu bufei.
-Que foi Eddie, não gostou? – falou Lucia um pouco preocupada.
-Não – disse abrindo um sorriso – você está linda, é isso que me preocupa!
-Quer dizer que você pode namorar, mas eu não? – disse Lucia alfinetando bem onde ela queria.
-Não! Você é muito nova para isso! – então eu captei uma possibilidade naquela frase – Você está namorando?
-Eddie, Eddie, Eddie – apareceu Susana atrás de mim – Você é tão cego! Ela tem dezesseis anos, está na hora de arrumar um possível marido!
-Susana! – disse Lucia um pouco alarmada – Eu não quero me casar tão cedo!
-O que há de errado, todo mundo de casa com a minha idade! – ela suspirou – Acho que vou ficar para titia!
-O que há de errado nisso? – disse Lizie olhando o chão — Minha mãe só se casou aos trinta anos.
-Eu não quero ser uma vergonha para a minha família, uma velhinha que ainda é sustentada pelo pai.
-Então ao invés de ser uma velhinha sustentada pelo pai, você quer se tornar uma velhinha sustentada pelo marido! Além disso, você não precisa ser sustentada pelo seu pai, você pode... – falou Lizie, antes de ser interrompida.
-Não enfie essas ideias estúpidas na cabeça de minha irmã – Susana disse tapando os ouvidos de Lucia – Mulheres não devem trabalhar! Além disso, não pretendo ser uma velhinha sustentada pelo marido.
-Se você não quer trabalhar, você pretende o que? Se matar quando chegar a velhice? – disse Lizie ironicamente – Você acha que vai se livrar de um problema arranjando outro?
Não entendi, mas ao que parece Susana entendeu o que ela quis dizer, destapou os ouvidos de Lucia que estava protestando havia algum tempo e foi embora se mais nada dizer.
Lucia levantou da cadeira e saiu dizendo que ia procurar um sapato que ela queria usar. Olhei para Lizie sem entender e ela fechou a porta do quarto.
-Uma vez, antes de você chegar em sua casa eu cheguei e conversei com a Susana, que estava aqui – disse Lizie confidente – Não como, mas a conversa chegou a um ponto crítico e eu disse a ela que ela nunca seria jovem para sempre como ela queria. Falei que essa vida de futilidades que ela vivia ia leva-la ao inferno. Desculpe-me, Edmundo, simplesmente saiu, eu não queria... Às vezes eu faço isso quando estou com raiva, me desculpe.
-Lizie, isso realmente foi demais, mas não posso dizer que Susana não merecia. Agora, pelo menos, eu entendi o que você quis dizer – e mais pensando em voz alta que conversando com ela terminei – Se livrar de um problema, este seria a velhice, arranjando outro e este seria o inferno?
-É.
Refleti um pouco e conclui.
-Foi uma boa estratégia, maximizar os problemas, fazendo-os parecerem maior, para depois do choque mostrar a realidade e mostrar que pode ser mudada.
-Você não acha que foi demais? – disse um pouca insegura – Pode ser que eu tenha forçado demais esse negócio dela não se lembrar de Nárnia.
-Foi um pouco demais – tive que admitir – Mas temo que tenha sido necessário, como a única solução. Tenho mesmo que mesmo assim não seja o suficiente – suspirei infeliz, estava quase desistindo.
-Saiba que eu a farei acreditar novamente, a farei lembrar-se de Nárnia – disse ela com convicção.
-Eu acredito em você e confio no seu poder de persuasão, mas por que você quer tanto isso? – disse desconfiado.
-Ela é a sua irmã e você a ama muito, isso é o suficiente para mim – com um sorriso meigo.
-Você é incrível!
Descemos na sala, onde todos estavam prontos para sair, íamos a um teatro ver Hamlet, que na minha opinião é o melhor de Shakespeare. Pedro estava com uma carta na mão e com um sorriso travesso no rosto. Ele deixou que eu visse a carta e depois a escondeu e quando estávamos saindo disse para que as garotas fossem na frente que nós íamos fechar a casa, eu entendi imediatamente que ele queria me mostrar a carta e quendo elas saíram perguntei:
-É de Eustáquio?
-Sim, mas é endereçada a você, leia e depois se puder me mostre – ele me passou a carta e eu a guardei dentro de um livro meu que estava numa estante próxima.
Fechamos a casa e fomos ao teatro, prestei parcialmente a atenção no teatro, minha curiosidade me levava a pensar sobre o que estava naquela carta a alguns quilômetros, dentro de um livro, em cima da estante.
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