A Garota de Capa Preta
4 Uma pausa: Lembranças
Notas iniciais
Caro leitor, meu tempo está se esgotando. Eu estou perdendo aos poucos a minha memória, portanto preciso de apressar. Eu estou perdendo os detalhes... Eu estou me esquecendo.
Você deve estar se perguntando o que aconteceu de tão ruim há irmãzinha da garota de capa preta. Eu sinto muito, mas não posso te dizer. Na verdade, eu me recuso a dizer. Só quero que tenha em mente que foi uma coisa ruim, mas não pense em mais nada além disso.
Eu aprendi, com o passar dos anos, a pensar somente nos momentos de alegria. Esses sim valem a pena lembrar. Todos nós já sofremos alguma vez, todos nós passamos por momentos difíceis. Eu diria que é como uma escada, você decide se sobe o desce. Eu me fortaleci com minhas dores, eu subi. Mas a garota de capa preta não, ela continuou no meio da escada. Ela ficou sem rumo. Ela ainda se encontra no meio de um nada. Pobre garotinha.
Ela se culpa por tudo que aconteceu de ruim aos seus familiares, seus amigos, até mesmo pessoas que nem conhecia. Ela passou muito tempo se torturando com tais pensamentos. Sempre se perguntando "por que não dei mais valor ao que eu tinha?"
Isso é um fato. Não importa o quanto a gente ame alguma coisa ou o quanto demostre esse amor, quando perdemos esse algo sentimos que não fizemos o suficiente. Mas o que passou, passou, e só nos resta seguir em frente.
Ela passava as tardes trancada dentro do quarto, com o rádio ligado no último volume, sentindo como se ninguém a entendesse. Ela poderia ter saído daquele quarto e passado mais tempo com sua família. Mas sua família poderia ter ido lá. Não adianta procurar um culpado, porque já foi, aconteceu. Se fosse um caso em que tivesse um único culpado eu diria que devia punir esse culpado pelo que fez, mas ambas as partes erraram. Já foi.
Essa dor no peito que nossa garotinha sente parece nunca passar. Essa dor forte, dilacerante, que parece cortar sua carne de dentro pra fora. Você grita, você chora, você se revolta, você faz tudo o que está ao seu alcance. Mas nada alivia.
Você se mataria? Ela pensou muitas vezes nessa possibilidade, mas toda vez que chegava perto disso se lembrava de algo que sua mãe dizia. "Parece haver muita coragem em alguém que quer se matar. Quem em sã consciência tiraria a própria vida? Porém, além de corajoso, é um covarde. Você quer se matar porque não aguenta mais? Você é fraco. Os fortes são aqueles que não desistem e continuam".
A mãe da nossa garotinha era forte, destemida, e era rara as ocasiões em que se podia vê-la abalada. Ela não tolerava fracos. "Você chora na frente dos outros por algo que te aconteceu? Pois deveria chorar escondida, ninguém aguenta fardos".
Talvez você pense que ela fosse rígida demais. Sim, ela era. Mas foi essa mesma rigidez que fez nossa garotinha continuar viva. Apesar de tudo ela fez algo que sua mão se orgulharia. Apesar de tudo, ela não desistiu.
Caminhando pelas ruas escuras e desertas do que já foi um dia uma cidade, a garota de capa preta se forçou a lembrar da infância. Havia muito tempo que não pensava nela.
Assistir desenhos, lamber o saquinho de suco, pegar a figurinha do salgadinho e colar na pele. Colecionar figurinhas de chiclete, andar de bicicleta, brincar de casinha, pentear e cortar o cabelo das bonecas. Brincar de fazer comidinha com panelinhas, abraçar ursinhos, dizer o que pensava na cara das pessoas. Brincar de amarelinho, pular corda, brincar de esconde-esconde, desenhar e pintar. Comer doces, algodão-doce, misturar sabores de refrigerante, andar pelo chão sem pisar em rachaduras.
Ah, a infância. Não saber o quanto o mundo pode ser cruel e difícil. Ser inocente.
Ela se lembrou da primeira vez em que andou de bicicleta, do medo que sentiu, e em como a sensação maravilhosa de ter conseguido pedalar sozinha superou a dor que sentiu na queda.
Se lembrou de quando a sua mãe batia a massa do bolo e ela implorava pra pegar o restinho que sobrasse. Ela sentia falta do bolo da mãe, da comida, dos abraços, do carinho. Ela queria desesperadamente dar um abraço na mãe. Mas a mãe dela já não estava mais ali.
Como ela queria voltar no tempo e dar apenas mais um abraço, mais um beijo, poder dizer o quanto a amava, o quanto ela era importante.
Caro leitor, se você pudesse sentir a dor que nossa garotinha está sentindo agora... Eu sugiro que assim que tenha uma oportunidade abrace uma pessoa que ama bem apertado, nunca se sabe se amanhã você poderá vê-la novamente. Nunca se sabe o que pode acontecer.
Acredite, as coisas mudam. O tempo passa depressa pra quem não aproveita o momento, e embora coisas novas cheguem, as antigas se vão. E tudo o que resta depois são só memórias.
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