A Garota de Capa Preta
3 O meio
Notas iniciais
Caminhando lentamente, olhando tudo ao redor, a garota de capa preta largou o guarda-chuva no chão. A chuva artificial já tinha parado, e embora não sentisse frio, ela se agarrava a capa como se fosse a coisa mais valiosa do mundo. O que na verdade era.
Ela parou em frente de um prédio abandonado, todo destruído e repleto de destroços. Imagine, caro leitor, um cenário de algum filme. Um cenário sujo, feio, como se fosse de uma cena pós-guerra. Era assim que parecia aquele prédio. Tudo ali era tão falso, que nossa garota se perguntou, não pela primeira vez, se ela era de fato real.
Ela se sentou em cima de uma grande pedra, que estava próxima do prédio. Alguma coisa aconteceria naquela noite, ela sentia isso. Os brancos iriam fazer alguma coisa. Mas ela não se importava, já que eles não pudiam atingi-la, ao menos não mais.
Ela continuou se lembrando da mãe. A dor de perde-la foi equivalente a perder uma parte de seu corpo. Ela perdeu uma parte de seu corpo, uma parte do seu coração. A sua mãe, a mulher que cuidava dela, a abraçava, dava carinho, fazia comida, ela sentia falta disso tudo. Até mesmo das broncas que levava dela. Ela não se lembrava dos detalhes, mas sabia que houve uma época em que discutiu muito com a mãe. Nossa garota fechou os olhos, inconsolável. Eu te amo. Era isso que queria ter dito a sua mãe, e agora era tarde demais.
Não se pode voltar no tempo, caro leitor. Eu devo ser o primeiro a desobedecer essa lei da natureza. E acredite, eu vou pagar um preço muito caro por isso. Mas eu não quero que o futuro seja assim. Um nada. Não foi isso que imaginei para os meus filhos, para minha esposa, para os meus familiares e amigos.
É incrível a capacidade que temos de dar valor ao que perdemos. Ouvimos isso desde pequeno, mas essa pequena frase só faz sentido quando vemos que é tarde demais. Quando alguém que você ama morre, ou quando você está perto da morte, você percebe o quão fútil foram os motivos de tantas brigas e discussões. Você percebe que uma palavra, uma frase, um gesto, fazem a diferença. Você percebe que o dinheiro não é tudo, que ele não passa de um pedaço de papel.
Mas essas mesmas notas de papel compraram muitas pessoas. Pessoas que poderiam ter ido a luta, reivindicado seus direitos, sua liberdade. Que foram usadas e agora estão mortas. E os que não estão mortos estão dentro de suas casas nesse exato momento no futuro, parados, imóveis, incapazes de agir por conta própria.
Eu tenho orgulho de dizer que nunca fui um amarelo. Eu era um azul. Embora a maior parte da população tenha se alienado e se rendido, existia aqueles que não queriam ser controlados. Eles questionavam, eles falavam o que queriam, pensavam por conta própria. E foram caçados, um por um. Mas antes de termos sido pegos, lutamos.
Acredito que se tivéssemos ouvido a garota mais cedo, teríamos vencido. Mas fomos pegos de surpresa. Quando abrimos os olhos, o mundo já tinha mudado, lentamente, mas mudava. Você tinha que obedecer regras idiotas, respeitar pessoas desprezíveis que riam na sua cara, você não tinha liberdade de expressão. Você não tinha o direito de lutar.
Mas nos unimos, e lutamos mesmo assim. O mundo entrou em uma guerra que durou anos, e muitas pessoas, incluindo inocentes, morreram. Os azuis, quando pegos, eram levados a uma espécie de prisão cercada e vigiada 24 horas por dia, e lá sofremos muito.
Eu classifico os brandos em dois tipos:
. O tipo 1 são aqueles que ajudavam o Magistrado a controlar tudo. Pra que controlar todos, se você só precisava controlar aqueles que controlavam todos? Isso incluía presidentes, artistas, até mesmo pastores.
. O tipo 2 são aqueles que são doentes, mal parecem humanos. Tem uma mente demoníaca, e sente prazer em atormentar os outros. Esses são os guardas, aqueles que ficavam encarregados de dar conta das pessoas que não obedeciam. E eram os responsáveis pelas punições dos azuis.
O tipo 2, esse tipo de branco, nos prenderam, e tentaram a todo custo nos tornar amarelos. Nos torturaram tanto física quanto mentalmente, e a cada dia, a cada noite naquela prisão doentia, eu sentia que a humanidade me deixava mais e mais. Eu prefiro nem dizer o que acontecia ali, caro leitor, porque era além da sua compreensão. Era mais do que um arrancar de dentes ou unhas com alicates. Era mais do que mostrar imagens que nos faziam vomitar, até mesmo desmaiar.
A maioria dos azuis não resistiram e se renderam. Alguns morreram e poucos, como eu, conseguiram fugir. Mas não julgue aqueles que se renderam. Ás vezes me pergunto, se eu tivesse ficado por mais algum tempo naquele lugar, não teria me rendido. Eles lutaram, lutaram até o fim, antes da prisão e na prisão. Naquele inferno. Eu me orgulho de ter feito parte deles.
A guerra, antes disso, envolveu bombas, armas nucleares, tentamos usar a tecnologia contra eles. Em parte, acho que foi culpa nossa o mundo ter chegado a onde chegou, um lugar tão feio. A guerra não leva a nada. Mas sem a guerra, como poderia haver chance para a felicidade depois?
Eu queria entender o que se passa na cabeça de uma pessoa que só pensa no poder. Por que quer tanto ser o líder? Mandar e controlar as pessoas ? Um líder deveria ser escolhido, deveria nos proteger, não nos ameaçar e nos matar. O que mudaria na vida dele ser dono de um território? Ter o prazer de dizer: eu mando ali?
Nossa garotinha, por anos, pensava nisso, e tentava descobrir as respostas. Depois de tanto tempo, ela ainda não entendia, assim como eu. A felicidade não se encontrava naquele que tinha tudo, mas naquele que tinha pouco e se contentava com isso.
Como alguém poderia fazer mal a uma criança? Ela também se perguntava isso. Até onde um ser humano poderia ir pra conseguir o poder? Depois de tantos anos, essa mesma questão voltava. Não tinha sentido isso. Como poderiam machucar uma criança indefesa, que mal sabia que o mundo não era só desenhos, brincadeiras e doces?
Ela se esforçou pra não chorar, mas era tarde demais. As lágrimas caíam descontroladamente, enquanto ela pensava na irmãzinha. Ela era tão pequena... Por que fizeram aquilo? Como puderam fazer algo tão cruel a sua irmãzinha? Podia ser com qualquer um, talvez até com ela, que na época tinha 12 anos, mas porque com a irmãzinha?
Lucy, quatro anos, com os longos cabelos preto cacheados, que sempre sorria e cantava. Que sempre abraçava todo mundo, que sempre amava todo mundo. Ela não merecia isso. Não merecia...
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