A Garota de Azul

1 Você Me Encontrou - Único Capítulo


Um Ano Atrás

—Felipe.– Chamou minha mãe enquanto saia da cozinha. –Porque não vai caçar alguns doces? Já está na hora.

Ela tomou um pacote de doces nas mãos, abriu-o e os colocou em uma cesta. Era noite de halloween. Eu conseguia ver através da janela as crianças indo de porta em porta atrás de alguns doces, logo elas chegariam aqui. Todas estavam fantasiadas de algo, uns de fantasma, uns de monstros e eu estava fantasiado de... olhei para minha própria roupa e dei de ombros. Naquele momento eu estava ajoelhado no sofá olhando pela janela, em busca de algo, que até então, não sabia o que era.

Meu cabelo loiro não era curto, ele batia um pouco acima do ombro. Meus olhos eram pretos, minha pele era branca e eu tinha apenas 9 anos. Naquele momento eu usava uma blusa preta e larga de manga comprida, uma calça de mesma cor, também larga e uma faixa vermelha amarrada entre os dois, escondendo a divisão que havia entre ambos. Parecia à roupa de um... lutador, eu acho. Uma máscara que acompanhava a fantasia estava apoiada na lateral esquerda de minha cabeça, cobrindo pequena parte de meu cabelo. Ah e eu também usava um rabo como o dos demônios mostrados nos desenhos. Ele estava preso na faixa.

—Querido?– Chamou minha mãe. –Você não vai sair?

—Não... – Minha voz saiu mais triste do que eu esperava. Todas as vezes que saia na rua algumas das crianças me maltratava e me batia, por isso estava convicto de que iria apenas olhar as crianças e não mais sair de casa sozinho.

Eu pude sentir o olhar preocupado da minha mãe pesar sobre mim, ela então acariciou minha cabeça e deu as costas, indo colocar os doces em cima da cabeceira ao lado do sofá, que também ficava perto da porta. Enquanto continuava olhando as crianças se divertindo do lado de fora, percebi a presença de alguém que nunca havia visto antes. Era uma garota de cabelos negros que iam até o ombro e vestido azul. Ela possuía um olhar entediado, na cabeça ela usava um diadema que tinha como enfeite um prego que começava de um lado e acabava do outro e também carregava uma cestinha de plástico, que era uma abóbora de halloween. Ela estava olhando para mim.

Um sorriso brotou em meu rosto, levantei rapidamente do sofá, peguei minha cestinha, que era igual a da garota e sai de casa, correndo em sua direção. Com o canto do olho, pude observar minha mãe na janela de casa olhando em minha direção, ela parecia sorrir, não tenho certeza. Ao chegar na garota, sorri para a mesma e estendi a mão.

—Oi, eu sou o Felipe.– Ela me encarava ainda com aquele olhar entediado. –Bom– Continuei. –eu nunca te vi por aqui... como se chama?

—Eu sou Eccho.– Ela apertou minha mão. Sua pele era fria e sua voz um pouco rouca. Agora, vendo-a de perto, pude perceber o quão pálida era sua pele.

—Quer ir pegar alguns doces comigo?!– Eu estava feliz, talvez eu e ela pudéssemos ser amigos.

Ela fez que sim com a cabeça e olhou em direção a porta da minha casa, eu também o fiz. Minha mãe saia de casa com uma câmera fotográfica na mão e com um largo sorriso. Acho que era a primeira vez que me via conversar com alguém.

—Oi!– Disse animada. –Sorriam para a foto!

Eu abri os braços, de modo que não ficassem na frente de Eccho e um largo sorrido, então ouvi o som da câmera. Não consegui ver qual a expressão de Eccho durante a foto, mas quando voltei a olha-la, seu tédio parecia ter ido embora. Mamãe abaixou a câmera e ficou sorrindo para mim e para Eccho.

—Então... vamos? – Disse para Eccho que já estava dando as costas para mim e para mamãe, começando a andar. Ela assentiu com a cabeça e fomos juntos caçar os doces.

Último Halloween

O halloween esse ano estava sendo um saco. Tudo começou quando eu decidi sair de casa para pegar alguns doces. Esse ano havia me fantasiado de mágico. Usava um terno preto, calça e sapatos sociais, também pretos e uma capa vermelha. Nesse dia eu havia pego muitos doces, mas alguns garotos que sempre me zoavam, acabaram me roubando e quando tentei fazer algo, me espancaram. Voltei para casa triste e irritado, estava me sentindo incapaz de fazer qualquer coisa. Cheguei em casa e vi um bilhete na porta, peguei-o e li.

Nós fomos até o mercado.
Vá brincar um pouco com os seus amigos.
Nós voltaremos logo.

—Mãe+Pai

Tentei abrir a porta, mas estava trancada, então amassei o papel, joguei-o no chão e sentei-me sobre o tapete que tinha em frente à porta. Coloquei a cestinha de doces ao meu lado, observando que tinha apenas dois doces e bufei.

—Pelo menos eles deixaram algo...- Sussurrei.

Não se passou muito tempo até que eu visse uma garota sentar-se sobre o asfalto. Ela tinha cabelos negros que iam até o ombro, usava um vestido azul e um diadema de um prego que ia de um lado da cabeça até o outro.

—Eccho...?– Sussurrei, levantei com minha cestinha em mãos e andei até ela.

Quando cheguei na garota, abaixei-me, olhando para ela, que se assustou e meteu a cestinha dela, que era a mesma de um ano atrás, no meu rosto.

—Ai!– Reclamei. Sentei ao seu lado e pus a mão sobre o olho. –Isso doeu...

Ela me olhou, como se dissesse desculpa e sorriu de canto. Coloquei minha cestinha no chão, tirei uma bala de dentro e estiquei a mão em sua direção.

—Toma.

Ela olhou para o doce que estava em minha mão, olhou para minha cesta e recusou com a cabeça. Recolhi minha mão, vi que ela voltou a olhar para frente e espiei sua cestinha, que infelizmente estava totalmente vazia. Isso me deixou mal. Recuei e novamente estiquei a mão na direção da garota.

—Vamos... pega.– Insisti e ela voltou a recusar.

Coloquei o doce dentro da cestinha da garota, tirei a outra bala que havia sobrado e sorri na direção dela, que agora me fitava. Abri meu doce, ainda encarando a garota, que sorriu, pegou o doce que coloquei na sua cestinha e também o abriu. Ambos colocamos o doce na boca ao mesmo tempo e ficamos lá parados, degustando o sabor um tanto azedo daquela bala.

Não se passou tanto tempo até que eu percebesse que na embalagem do doce vinha uma mensagem. No meu estava escrito algo como: "Esqueça o dentista. Eu sou delicioso!" Ri baixinho e me aproximei da garota para ver o que estava escrito no dela.

Você me encontrou.

—Você me encontrou...?– Olhei nos olhos da garota, que estava sorrindo para mim e ela fez que sim com a cabeça. Por fim me levantei e estendi a mão para ela. –Vem, vamos pegar alguns doces. –Ela segurou minha mão, levantou-se e pegamos nossas cestinhas.

Começamos a caçada aos doces. Eccho e eu andávamos lado a lado. Eu tentava fazer algumas piadas no trajeto entre uma casa e outra, que felizmente faziam a garota sorrir.

—Ei, você lembra do ano passado, quando nós nos conhecemos?– Ela assentiu com a cabeça e me olhou de soslaio. –Então, sabe aquela máscara? Vou fazer uma mágica para ela aparecer aqui.

Parei de andar, virei na direção dela e comecei a fazer uns gestos com a mão, até que levei a mão para dentro do terno e retirei a máscara de lá.

—Tandã!

Ela riu e voltou a andar, fiz o mesmo. Pouco tempo de caminhada depois coloquei a máscara no rosto sem ela ver e tentei assusta-la, mas acabei caindo bem em cima dela, derrubando-a também. Levantei tirando a máscara do rosto e olhando-a.

—D-desculpa, eu só...

Ela me olhava furiosa. Ela pôs-se de pé, agarrou sua cestinha com força e começou a correr atrás de mim, tentando me bater. Ela era rápida... acho que foi por isso que conseguiu me alcançar. Ela me bateu de modo que eu cai em meio a alguns garotos, derrubando alguns deles também. Quando me levantei, percebi que eram os garotos que me roubaram outrora.

—G-gente, essa é a Eccho.

Apontei na direção da garota, mas eles simplesmente me empurraram e continuaram andando.

—Sai daqui, seu muleque estranho.

Recuei alguns passos ao ouvir aquilo e olhei para Eccho.

—Me desculpa por isso...– Sem falar nada, e sem deixar eu completar a frase, Eccho agarrou minha mão e começou a me puxar em direção a uma casa.

Eu que toquei a campainha. Uma moça vestida de Morte saiu, sorriu pra mim e viu minha cesta.

—Doces ou travessuras!– Falei olhando para ela sorrindo de canto.

—Ora, ora...– Ela riu baixinho, pegou alguns doces e pôs na minha cesta. –Prontinho, ai está.

Olhei para minha cesta, para Eccho e voltei o meu olhar para a moça que ainda estava na porta.

—Você não vai dar doce para a minha amiga?

—Crianças e seus amigos...– Ela riu mais uma vez, entrou na casa e fechou a porta.

Olhei para Eccho, dei de ombro e fomos até outra casa. O mesmo fato se repetiu nas três casas seguintes. Quando percebi, minha cesta já estava cheia de doces e até agora não havia doce algum na cesta de Eccho.

Muito tempo se passou nessa caça aos doces. Nós paramos no meio da tarde, fomos até uma colina perto da saída da cidade e nos sentamos sobre a grama quente e macia. Enquanto Eccho olhava para cidade, coloquei alguns doces em sua cesta, fitei a garota por alguns segundos e voltei meus olhos para cidade. Dava para ver crianças ainda na caça aos doces, outras que já estavam cansadas, simplesmente sentaram no asfalto e começaram a comer seus doces. Peguei duas balas na cestinha, dei uma para Eccho e abri a minha. Agora na embalagem tinha escrito: "Vamos ser amigos". Mostrei a embalagem a ela sorrindo e olhei o que tinha escrito no dela.

Você me encontrou.

—Você tirou a mesma frase? Assim não tem graça.– Sorri e olhei para uma floresta que havia atrás de nós. Ela era cercada por um arame metálico e haviam placas de "PERIGO" por toda parte. –Que tal voltarmos? Acho que minha mãe já chegou em casa.– Ela concordou, então juntos voltamos para minha casa.

Quando chegamos em casa, minha mãe, meu pai e alguém desconhecido estavam conversando. Pude ver que a terceira pessoa segurava uma prancheta, distraído e aquilo despertou uma certa curiosidade em mim. Me aproximei aos poucos, até consegui pegar a prancheta e corri em uma direção aleatória logo em seguida. Minha mãe me seguiu.

Amigo imaginário.

Foi a única coisa que consegui ler antes que ela tomasse a prancheta de mim. Parei de correr atordoado e olhei para os meus pais.

—Amigo imaginário...?

Minha mãe entregou a prancheta de volta ao desconhecido, se aproximou de mim e me mostrou uma foto.

—Você lembra ano passado quando tirei aquela foto...?

A lembrança passou rapidamente pela memória e eu recuei alguns passos.

—Mas ela está bem aqui... não conseguem ver?– Apontei para Eccho, que agora estava do meu lado e minha mãe fez que não com a cabeça. –Mas ela...

Eccho segurou minha mão e quando eles pararam de prestar atenção em mim, para prestar atenção nas palavras do desconhecido, Eccho me puxou e nós corremos de volta para a colina. Quando chegamos até lá sentamos novamente na grama e eu olhei profundamente para Eccho. Ela não parecia ser de mentira. Levei minha mão até sua bochecha, acariciei e senti sua pele fria sob minha mão.

—Você é real, mas por que... por que eles dizem não te ver...?– Minha voz estava triste.

Eccho não falou nada, apenas se levantou e andou até a cerca metálica. Eu a segui. Ela abriu parte da cerca que estava partida e entrou por lá, eu também o fiz, mesmo sabendo que poderia ser perigoso, já que haviam várias placas de "PERIGO". Foi então que ela desapareceu correndo em meio as árvores. Eu comecei a correr, tentando alcança-la. Foi quando pisei em uma armadilha, por sorte esta não me pegou. Mais para frente, acabei pisando em outra, que também não conseguiu me pegar, mas uma hora parece que a sorte acabou... não sei bem... uma dor percorreu todo meu corpo, um clarão me tirou a visão e então eu me vi diante de Eccho... sentei ao seu lado sorrindo e toda aquela dor parecia ter sumido. Ela esticou a mão, entregando-me um doce e eu o peguei. Ambos colocamos o doce na boca e agora, na embalagem do meu doce tinha escrito algo como...

Eu encontrei você.

Notas finais
Espero que tenham gostado :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!