A Garota da Sapatilha Amarela conto
1 Incontáveis Olhos
Notas iniciais
As pessoas temem aquilo que não entendem e eu penso como seria se elas compreendessem tudo na vida. Única certeza que todos têm há milênios é que, no fim, todos morrem. Não entendo porque fui escolhido para essa função, mas não tenho nada ha reclamar. Não eu. Enquanto milhões de pessoas se perdem em pensamentos destrutivos eu me perco em incontáveis olhos, assustados, felizes, tristes, confusos e assim vai. Não é uma coisa ruim gosto de me preencher por um momento e logo depois olhar em volta e não ter mais olhos para ver, mais, olhos para caminhar ao meu lado.
Observo a garota permear a rua enquanto consigo ouvir seus sapatinhos na calçada de pedras. Ela salta pulinhos sorrindo, cantando uma música de ninar no mesmo tempo em que observa um caminhão do exercito passando pela rua, entra numa floricultura e de lá sai com rosas nas mãos voltando a salta pulinhos sorridente caminhando de volta para sua tão sonhada casa.
Caminho vagarosamente pela rua começando a cantarolar a mesma musica da garotinha tão pequena e frágil. As pessoas pensam que eu sou um ser, sem coração ou algo do tipo, no entanto, não é bem assim que as coisas funcionam, pelo menos, comigo não é. Eu me apego a certas criaturas, mas não posso me dar ao luxo nem de tocar apenas observar de longe, vendo a vida passando e analisando como a pessoa aproveita essa vida. Até que um dia eu tenho que visitar e segurar sua mão, e eu posso, enfim, me apresentar como uma velha amiga ou um velho amigo. Algo nela me intriga demais da conta, não sei se é por causa do seu jeito extrovertido já tão pequena, ou suas manias, ainda mais uma que por sinal; um tanto, estranha para esse século. Ela sempre calça o mesmo sapato, o sapatinho pequeno tintado de amarelo. Um sapatinho que ela demonstra amar profundamente, talvez seja porque o pai a presenteou quando a mesma nasceu sabendo que levaria um tempo para ela poder calçar os lindos sapatos chamativos. Mas ela não larga de jeito nenhum fico a pensar o que ela fará quando os sapatinhos não servirem mais.
Eram tempos de guerra, dor e muita tristeza, mas nada, nada abalava aqueles lindos olhos felizes, aquele sorriso estampado no seu rosto, o ar de vida que a mesma exalava por todos os lugares, que, cada vez mais despertava meu interesse interno, e eu sei, o relógio que eu carrego falta muito para me avisar que está na hora. E eu fico feliz por isso, feliz que você ainda não saiba que seu lindo sapatinho tem tempo de vida para seu totalmente, fim.
Observo as casa do alto, um monte de pontinho brilhante, brilhando com as lamparinas que não apagam que estão cheia de combustível. Sorrio de canto fitando o céu acima de mim brilhando com dezenas de estrelas. Chego perto da sua janela vendo sua mãe cantando a canção de ninar que você tanto gosta e fico a imaginar quando você enxergara que o mundo existe muita dor também. Queria poder ter a chance de mudar tudo de poder aumentar o prazo, mas eu não posso. Regras são regras e devem ser cumpridas, por mais que a gente não goste delas.
Caminho lentamente atrás dele no tempo em que vislumbro os ombros decaírem gradativamente enquanto ouço seus pensamentos tumultuados em minha mente, não consigo controlar um sorriso se formando em meu rosto. Ele agarra o envelope fortemente em seus dedos trêmulos, seu coração pulsando descontroladamente. Queria ter um saco de pipoca nesse momento para assistir essa cena que se seguirão. Não que eu goste de ver confusões se formando, eu gosto de ver como as pessoas lidam com a tensão que se forma numa pequena nuvem que vai passo a passo aumentando de intensidade, até que uma hora, ela está enorme se espalhando por todo aposento. Ela sim gosta de assistir com um sorriso enorme estampado em seu rosto.
Observo-a tentar retirar a carta da mão dele e vejo-o respirar fundo e caminhar lentamente para o sofá sentando-se bruscamente nele. Enquanto lágrimas brilham em seus olhos para caírem ela suspira pesadamente deixa a carta cair de sua mão e caminha para a cozinha dobrando-se na beirada da pia tentando recobrar o ar que lhe faltam no pulmão. Observo meu relógio mais uma vez e verifico que não, ainda falta um tempo para eu poder visitá-la. Sorrio de canto voltando meus olhos para ele notando a nuvem pesada em sua cabeça encharca-se de água, porém o mesmo se mantém forte e é isso que eu gosto nele, e eu já sei de quem a garotinha puxou.
As grossas lágrimas molhavam a face da garotinha saltitante ao olhar seu pai vestido naquelas roupas que para ela não significa ser coisa boa. Seu pai coloca suas mãos em seus ombros para acalmá-la de algum modo, no entanto, vejo-a inclinar sua cabeça para o lado se afastar da mãe dar as costas a eles e caminhar em direção ao seu quarto enquanto as lágrimas ainda desciam por seus olhos. Ela segura o pequeno par de sapatos em suas pequenas mãos tremulas, caminha com os olhos baixos enquanto percebe as mãos grandes de seu pai em cada lado do seu rosto perguntando-a o que ela esta fazendo, ela sorri elevando os olhos a ele e suspira comentando:
— Estou lhe dando o meu sapato predileto papai. Para você lembrar-se de mim e da mamãe nessa caminhada que você andara.
— Querida. Não precisa disso. — dizia beijando toda sua face. — Vou sempre me lembrar das duas.
— Você caminhará sozinho papai. — continuou ela. — Então leve de presente. — sorri.
— Eu amo vocês. — beija a testa das duas. — Vou voltar para casa, vou voltar para as duas.
E lá se foi o homem da sua vida, o pai que ela tanto ama. Vejo sua mãe desabar no chão chorando se torturando com os seus pensamentos com uma única certeza; ele não vai voltar. Respiro fundo enquanto sorrio de canto caminhando lentamente atrás do homem que sem querer trouxera o buraco negro nos corações da sua família, o buraco negro consumidor de tudo que é bom; o mundo existe muita dor também pequena.
Ele segurava fortemente a linda sapatilha de cetim amarelo que na época que ele comprara trabalhou muito para poder dar a ela esse presente de coração. Assoprou a poeira que estavam no sapato e no exato momento que analisou os sapatinhos dela sentiu vontade de chorar de saudade. Saudade pela sua filha e esposa que ficaram para trás. A guerra estava acabando com ele, feridas por fora e por dentro doíam muito. E ele desistira sabia que não iria sair vivo daquele lugar, não o culpo por desistir talvez até eu se estivesse em seu lugar e visse tanta morte, tanta dor, tanta tristeza. Também desistiria. Não havia mais lágrimas para chorar, reclamar não resolveria nada e fugir só gastaria energia, então, o melhor a fazer era enfrentar como um soldado, um verdadeiro soldado que vai a luta, um soldado que morreu na guerra, um herói.
Analisei os segundos em meu relógio de bolso e respirei fundo vendo a neblina escura cobrir todo o aposento de onde ele estava. Caminhei lentamente pela neblina tentando ignorar todas as imagens que me invadem por um momento, todas as lembranças que todos vêem quando ela aparece, os segundos que você para e analisa tudo parece que não irá se acabar parece que vocês têm tantas, mas são tão poucas comparadas as minhas. Sorrio para ele examinando os seus olhos, os olhos de alivio e dor ao mesmo tempo e eu me apresento como um velho amigo seguro sua mão e saio com ele da neblina escura enquanto seus olhos observam tudo em volta, assustados.
Ela observa-se para o pequeno espelho grudado no guarda-roupa respira fundo contando mentalmente enquanto sente seu coração se afundar cada vez mais, se afundar cada vez mais nas profundezas do mar. A mesma está caindo e não há ninguém para segurar sua mão; existe muita dor no mundo garotinha. Ela aperta o outro par de sapatilhas amarela em seus dedos tentando manter o ar em seus pulmões. Tentando não desabar com a dor que lhe consome o peito. Ela sente um tumultuado de sentimentos raiva por ele ter sido convocado, raiva por ter partido, raiva por muita gente ter morrido, tristeza que não o verá mais, não por enquanto. Dor por estar segurando sapatilha que não é sua mais, que o que era dela fora destruído na guerra, destruindo junto com base onde ele mantinha-se.
— De sua amada filha. — colocou a sapatilha no seu túmulo enquanto deslizava seus dedos pelas letras cravadas nele.
Sorriu no tempo em que se colocava de pé novamente examinando o túmulo por uma ultima vez. Segurou a mão de sua mãe que chorava baixinho e partiram de volta para suas vidas, tristes. Mas elas, juntas seguiram seu curso normalmente lutando com a dor em seus corações a dor de não poder rever a pessoa amada. A dor de um buraco negro aperto e jamais fechado; o mundo existe muita dor também. Elevo minha cabeça viro-me e me afasto assobiando enquanto deslocava-me lentamente para outros lugares, outros olhos, outros risos. Mas nunca deixando de examinar o meu relógio, pois, a vida passa e uma hora ela termina sem nem você ter a chance de perceber que ela passou.
FIM
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