A Garota da Lua
29 Touro – A teimosia - não tem como parar agora
— Não podemos parar agora! – Helena insiste, ela me trouxe de motocicleta, e observamos a casa de Samuel de longe, escondida pela mata ao seu redor, que parecia mais fechada do que da vez que estive aqui, tornando a construção quase invisível.
— Como eu posso entrar ali? – Estava aflita, pois, mesmo ao longe, podia sentir as proteções mágicas, como pinicasse a minha pele.
— Tem muitos chegando para o julgamento. Será a nossa maior reunião depois de séculos, muitos querem ver o Senhor após tanto tempo, mas não estão gostando nada da ideia do julgamento de Gabriel. Samuel nos ajudou. Tome! – Falando assim me entregou uma mochila com roupas tradicionais do oriente. – Para você cobrir este cabelo vermelho, alguns se vestirão de forma tradicional. A roupa está encantada, anulará o efeito da proteção da casa.
Vesti a roupa ali mesmo, torci para que desse certo. Nesse momento, havia algumas pessoas chegando, a maioria de carro, quando me aproximei do portão com Helena, que falou algo para o homem de guarda no portão e ele se abriu.
— Você tem o poder de convencer as pessoas? – perguntei a ela, enquanto colocava o lenço sobre a minha cabeça.
— Sim, um deles. Vamos! — Ela me cortou, já havia percebido que eles não gostavam de revelar quais eram seus poderes.
A casa que eu entrei não era a mesma que conheci antes, parecia muito maior por dentro que por fora, tinha sido transformada em um palácio com paredes de cerâmicas azuis retratando animais alados, piras onde se queimava incenso, alguém tocava o grande instrumento que já vira ali.
— Parece um palácio! – sussurrei no ouvido de Helena, enquanto entravamos com cautela.
— Meu pai não está acostumado com a vida moderna.
No fundo da sala, sobre um patamar mais elevado, havia um imenso trono dourado e, ao lado dele, outro menor, me sentia em um filme antigo, mas agora era real e perigoso. O salão ainda estava vazio, Helena me puxou para o interior da casa, que parecia mais normal para os tempos atuais.
— Para onde estamos indo?
— Para as masmorras.
— Masmorras? – Aquilo já era demais para mim, mas continuei a segui-la, descendo por uma escada longa e escura até um lugar de paredes de pedras, que realmente parecia uma antiga prisão – Acho que seu pai vai ter que acostumar com o mundo atual, mais cedo ou mais tarde – comentei
— Esse é um pequeno probleminha, ele não consegue, quer voltar tudo como era antes.
— Como? – Fiquei espantada, imaginando que meu pai não iria gostar nada dessa ideia.
— Acho que você não vai gostar da resposta.
Não havia guardas, o que achei estranho, como eles conseguiram segurar Gabriel ali? Apesar de já ter visto isso antes na casa do meu pai, porém, lá, Gabriel estava enfeitiçado, e, agora, ele parecia bem lúcido quando nos aproximamos da cela, onde estava preso.
— Gabriel! — Helena chamou, ele levantou a cabeça, lentamente, e olhou na nossa direção, então me viu, levantando-se em um pulo.
— Por que você a trouxe aqui? – Ele parecia bem zangado com a irmã.
— Para tirar essa ideia louca da sua cabeça.
— Que ideia? – Parecia que não me contaram algo.
— A ideia dele que precisa se entregar e ir com Eres, porque acha que deve isso a ela e para proteger você — Helena me explicou, de mudo ríspido, aborrecida com o irmão.
— Será melhor para todos — Gabriel concluiu.
— Não, não será, não para você. Você não deve nada a ninguém nem a mim, nem a ela. – Tentei parecer calma nesta hora, fingir indiferença, mas não estava conseguindo.
— Ela se sacrificou por mim, eu devia estar lá com Eres, porque está lá por minha culpa. No começo dos tempos, eu era jovem e um tanto impulsivo, fui punido por meus erros, mandado para outra dimensão, como você. Mas, Ninlil foi atrás de mim, porque me amava, ficamos muito tempo lá juntos. Assim ela se tornou Eres, A Senhora do mundo inferior, quando a deixei.
— Mas você conseguiu sair? – Lembrei-me do meu sonho.
— Sim, mas ela quis ficar, tinha medo de aconteceria conosco aqui fora, e a deixei para trás – ele relatou com tristeza, pensei como a nossa história também era parecida.
— Mas, foi opção dela, cada um de vocês fez a sua escolha. Não pode se culpar por isso, por algo que aconteceu a milhares de anos atrás. – Porém, naquele momento, ouvimos um barulho, alguém descia as escadas, não havia como fugir.
— Ei! Vocês não podem falar com ele até o julgamento! — Ouvimos gritarem para nós.
— Só desejava ver como meu irmão está! — Helena foi quem falou, enquanto escondia o meu rosto.
— A Senhora da escuridão proibiu, qualquer espécie de visita! – Senti arrepios ao ouvir isso, quando olhei para o nosso interlocutor, tive uma surpresa, era só um vulto escuro, com uma forma humanoide.
— E você, quem é? – Ele percebeu minha presença e flutuou na nossa direção, e em um piscar de olhos, uma das minhas flechas zuniu em direção dele e no instante que ela o atingiu, a criatura desapareceu no ar.
— Você não devia ter feito isso, Diana! – Helena me advertiu. – Ele faz parte do séquito espectral de Eres.
— O que era aquilo?
— Ele era como nós, mas foi punido, com o tempo perdeu a identidade e o rosto, se tornando apenas sombras a serviço da sua senhora.
— E isso pode acontecer com Gabriel?
— Depende da sua força e determinação, mas mais cedo ou mais tarde, todos que são mandando para lá perdem sua identidade – Helena relatou, enquanto me enchia de desespero.
— Você não quer isso? Temos que tirar você daqui! – Olhei nos olhos dele.
— Como? – Helena perguntou.
— Você não pode desapareceu ou voar ou algo parecido? – indaguei a ele, deu um sorriso triste para mim.
— Não, Eres tirou todo a minha força, não posso sair daqui. Ela tem esse poder. – Pensei em uma forma dele conseguir alguma energia, mas não seria muito apropriado, então tive outra ideia.
— Tome! Fique com isso! – Retirei meu cordão do pescoço e entreguei a ele.
— Não posso aceitar! – ele recusou, não querendo segurá-lo
— Você não tem escolha, coloque-o! – ordenei e ele obedeceu. E no momento em que fez isso, ele me olhou de um modo diferente.
— Como você conseguiu tanta energia? – perguntou desconfiado, tive que rir.
— Depois eu conto para você – respondi, dando um sorriso malicioso, sabia que ele não imaginava que era por causa do nosso bebê. — Consegue sair daí?
— Acho que sim, mas é melhor esperar um momento mais propício.
— Já ficamos tempo demais aqui. Precisamos ir embora! – Helena aconselhou.
Saímos em silêncio, de volta ao salão principal, que naquele momento se encontrava bastante cheio, teríamos que esperar para ver o desenrolar dos fatos, por isso eu e Helena ficamos em um canto escondidas, onde podíamos ver pessoas vinda de quase todo o oriente, as de pele mais morenas e barbas do oriente médio até as de pele pálidas e olhos puxados do extremo oriente, muitas trajavam roupas típicas, mas a maioria usava trajes modernos, parecendo deslocadas no tempo, naquele ambiente.
A cada minuto, a sala se enchia mais, mas não chegava ser uma multidão, até que ouvimos uma trompete tocar alto a grande porta principal se abriu e as pessoas se separam, formando um caminho pelo meio até o grande trono, então o Senhor do Oriente surgiu, como um imperador imponente, ciente do seu poder, vestido o mesmo traje que usava quando era uma estátua, mas agora não era mais dourado, mas azul escuro, em sua cabeça a mesma coroa brilhava, ao seu lado caminhava Kira, vestida como uma rainha com seu traje marrom dourado e na sua cabeça uma rica tiara de ouro e pedras preciosas, porém ela não parecia muito satisfeita.
Os dois sentaram-se nos tronos, um homem apareceu ao lado deles, vestindo também roupas tradicionais, reconheci Samuel. Notei que a maioria das pessoas que estavam na sala não sabiam bem como agir, pois, há muito tempo, já estavam vivendo em um mundo bastante diferente do que aquela sala representava, alguns pareciam ricos empresários e magnatas, com os rostos preocupados, por não saber qual seria o futuro deles agora, no entanto, alguns outros pareciam bastante felizes pela retomada de um passado de glória.
Havia um burburinho no local, com todos falando há mesmo tempo, que cessou quando Senhor do Oriente ergueu a mão, pedindo silêncio.
— É bom está de volta depois de tanto tempo! – Nesse momento estourou ovações e ele pediu novamente silêncio. – Mas, meu coração se encheu de tristeza, quando vi que o nosso mundo foi destruído! – Dessa vez só se ouviu alguns gritos, a maioria ficou calada e ele continuou: – Entretanto, pretendo restabelecer a nossa antiga ordem. – Apenas alguns aplausos e muitos rostos contraídos de preocupação, claramente, desejando que isso não acontecesse. — Para isso, começaremos a punir aqueles que causaram o nosso declínio. Traga o prisioneiro!
— Discurso preocupante! – Ouço alguém falar atrás de mim! – Virou-me e vejo Enki, completamente, envolto em uma capa com capuz.
— O que você está fazendo aqui, Enki? – Helena perguntou, surpresa.
— Falar com nosso pai – ele respondeu, sem alterar a voz.
— Acho que isso não é uma boa ideia – eu o advirto.
— Mas, é a minha única chance.
— Silêncio! – Helena pede, colocando o dedo na frente dos lábios, no momento que alguém hesitante se aproxima do trono e informa algo para o senhor sussurrando.
— O prisioneiro fugiu! – O senhor repete a mensagem em voz alta. – Alguém o ajudou!
— Aqui! — Sinto segurarem meus braços e vejo que Helena, também, está presa — Aqui, senhor! – Enki grita – a Dama da Lua e sua filha Baba, elas o traíram.
Logo aparecem os espectros de Eres, nos levando até a frente do trono.
— A amante de Enlil, a filha do Senhor do Ocidente e a sua própria filha, senhor. Foram elas que ajudaram o Senhor dos Ventos escapar – Enki repete a acusação.
— E quem é você? – O Senhor do Oriente pergunta, sem ver o rosto do acusador.
— Sou seu filho Enki. Vim tentar reconquistar seu coração, meu pai – ele anuncia, retirando o capuz e mostrando seu rosto, ao lado, Kira parece desnorteada, vendo seus filhos serem acusados de traição por outro filho.
Eres aparece do meio da sala, vestida com um lindo vestido dourado, como uma rainha.
— Senhor, peço que me entregue a Dama da Lua para que ela tome o lugar do seu amante! — Pede, se inclinando, humildemente, diante do trono. Estou perdida.
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