A Garota da Lua
39 O GALO – Caminhos duvidosos
Acordei em um lugar mergulhado na escuridão, deitada em um chão terra duro, sentia muito frio e o ar estagnado, meus braços e pernas estavam amarrados em uma posição desconfortável, algo duro machucava meu quadril, minha cabeça latejava e minha garganta arranhava de tão seca. Não enxergar nada a minha frente, a não ser o breu, lutei contra as cordas que me prendia, mas ela parecia que se apertavam mais a cada tentativa de afrouxá-las, machucando meus punhos já doloridos. Não sabia o que fazer, receava que meus sequestradores descobrissem que eu acordei, caso gritasse e me fizesse dormir outra vez, contudo, outra pessoa poderia me ouvir e me ajudar, estava dividida nesse dilema, quando notei a presença de alguém, forcei meus olhos tentando ver onde estaria, mas não precisei de grande esforço, pois logo pude ver uma figura de forma humana, porém transparente e borrada.
— É você? – perguntei, já convicta que era o mesmo espectro que me perseguia. Há algum tempo, mas, agora com cores de uma pessoa, apesar de os detalhes não estarem definidos, no entanto, já dava para reconhecer um homem.
— Sim, Dama da Lua – ele me respondeu, sua voz era menos fantasmagórica.
— Você pode me ajudar? – pedi, mostrando-lhe minhas mãos amarradas, pois ele era minha única esperança, ele não respondeu, mas as cordas desataram e minhas mãos e pés se soltaram.
— Como você fez isso?
— Não sei, apenas pensei e aconteceu – ele me respondeu, sem emoção na voz.
— Você sabe onde estamos? Parece uma caverna — Pois conseguia sentir as paredes de pedras com as minhas mãos, apesar de serem muitos lisas assim com o chão.
— Deve ser uma das cidades subterrâneas, há várias por aqui – o espectro esclareceu, como se lembrasse de algo do seu passado.
Assim, me recordei de algo que já havia estudado, há algum tempo atrás, sobre as cidades subterrâneas da Capadócia, existiam dezenas delas com vários níveis, muitos deles ainda obstruídos, possivelmente, estava em um desses, nunca iriam me encontrar lá, fui colocada ali para ser esquecida.
— Como sairemos daqui? – perguntei, pois não conseguia pensar em uma resposta.
— Você não pode desaparecer e surgir em outro lugar? – o espectro indagou em dúvida, já que ele fazia isso o tempo todo.
— Já fiz isso umas duas vezes, mas eu não consigo mais – As duas únicas vezes que consegui fazer isso, foi quando estava desesperada para achar meu filho.
Ainda continuava sentada no chão, coloquei a mão no meu quadril dolorido para saber o que tinha me machucado, encontrei no bolso da minha calça, o saquinho com o cristal que On havia me dado de presente, dizendo que poderia me ajudar a achar o caminho certo.
— Como isso poderá me ajudar? – indaguei, tirando o cristal do saquinho de seda, onde estava, e o lugar se iluminou, deixando me ver as paredes de pedra, mas com sua superfície relativamente lisa, talhada por mãos humanas, haviam portas que levavam a corredores por todos os lados, eu sabia que essas cidades subterrâneas podiam ser enormes, cerca de dez mil pessoas poderiam viver nela, para escapar das sucessivas invasões que aquela região sofrera.
— On, você é o cara! Obrigada! – falei, agradecida pelo presente ao meu salvador ausente. – Mas, qual será o caminho certo? – Havia muitas possibilidades e nenhuma dica, então nesse momento, um pequeno ponto de luz se projetou mais à frente, com uma estrela guia indicando o caminho a seguir.
Aquele lugar parecia um labirinto com vários aposentos, corredores estreitos, escadas íngremes bem difíceis de subir, não tinha ideia do que poderia encontrar a cada passo, algumas vezes, escorreguei e meus pés vacilaram na beira de precipícios. O espectro desapareceu, ele não precisava passar por isso, pois, podia ir para qualquer lugar, desde que eu tivesse por perto. Já estava cansada de andar, minhas pernas pesavam uma tonelada cada uma, parecia que não iria sair nunca dali, foi aí que deparei com uma imensa pedra redonda, como uma moeda que deveria pesar cerca de meia tonelada, ela fechava a passagem, da possível saída, mas nunca conseguiria movê-la sozinha, mesmo assim, eu tentei, empurrei-a com toda a minha força, porém ela não se moveu nenhum milímetro sequer, por isso, desabei no chão, desanimada, sem saber o que fazer, foi quando o espectro surgiu na minha frente.
— Por que você está sentada aí?
— A pedra. Ela está bloqueando o caminho – respondi, apontando para ela.
— Então, tire-a daí – ele proferiu como se fosse a coisa mais simples do mundo.
— Olha, você acha que já não tentei isso! Não tenho força suficiente! Precisaria de uns dez homens para mover isso!
— Por que você sempre fala que não pode? Ou não consegue?
— Porque não posso!
— Você fala como um mortal. — Isso me fez parar e refletir, será que era isso, eu pensava como uma mortal, como se tivesse as mesmas limitações, ao contrário dos meus iguais que sempre tinham mais truques, porque não pensavam como eu.
— Você tem razão – admiti. — Preciso parar de pensar como um mortal. Tenho que mover essa pedra. – Então me concentrei, dizendo a mim mesma que poderia, depois comecei a empurrar.
No começo, ela não cedeu, mas aos poucos se movimentou, primeiro lentamente, depois, girou com facilidade desobstruindo a passagem, não acreditei que fiz aquilo, dei um longo suspiro de alívio e prossegui meu caminho, guiada pela luz do cristal que On havia me dado, até chegar a uma parte mais bem cuidada, com indicações de saída nas paredes, escadas reconstituídas, havia várias pessoas por lá, eram turistas visitando a parte aberta ao público da cidade subterrânea. Ninguém reparou quando me misturei aos outros visitantes e sai, calmamente, pela entrada principal.
Agora, eu estava livre, mas não tinha dinheiro ou documentos para voltar para casa, poderia dar um telefonema, contudo, antes precisava encontrar um lugar seguro para ficar, com medo que algum dos meus sequestradores estivesse por ali. Subi por uma escadaria ladeada por tendas de suvenires até uma pequena cidade, devia estar bem desarrumada e suja de terra, por isso parei em frente de um espelho que estava sendo vendido e tentei me ajeitar o melhor possível, não queria ser confundida com uma maluca ou com uma mendiga, entrei em uma pequena loja de chá. Um homem de meia idade, que parecia o dono veio me atender, segurei meu pingente de turquesa e pedi a ele.
— Senhor, preciso dar um telefonema.
— Claro, madame! Qual o número? – Dei o número do celular de Gabriel, tínhamos a melhor telefonia do mundo, nosso telefone sempre tinha sinal e podia funcionar em qualquer país por pura magia. Ele me entregou assim que fez a ligação e Gabriel atendeu.
— Gabriel, aqui é Diana.
— Diana, estávamos procurando por você! Onde você está? – Gabriel perguntou, ansioso.
— Não sei, estava presa em uma cidade subterrânea, mas consegui fugir.
— Qual delas?
— Não sei, eu estou em uma casa de chá, na rua principal da cidade, mas ainda não sei qual é o nome da cidade. – Assim, olhei em volta procurando por um nome até achar um folheto esquecido no balcão. – Derinkuyu. Acho que é esse o lugar.
— Não saía daí, estarei aí o mais rápido possível – recomendou
— Está bem! Eu ficarei aqui. – Desligamos.
— Senhor, não tenho dinheiro, mas gostaria de um chá. – Não gostava de me aproveitar das pessoas, contudo era um caso de necessidade, eu precisava de algo para beber e me acalmar um pouco, depois eu o pagaria quando Gabriel chegasse. O homem concordou com a cabeça e foi preparar o chá para mim.
Sentei do lado de fora para observar o lugar, após o meu reconfortante chá de menta acompanhado por pequenos doces folheados, pedi para ir ao banheiro para me limpar um pouco, mas quando sai, vi na rua, dois homens parados, olhando em volta, como se procurassem por algo, meu instinto acendeu um alerta vermelho, fiquei dentro da casa de chá, até que eles se afastassem, então fui até o atendente, segurei minha pedra.
— Senhor, preciso de algum dinheiro emprestado, quando um homem chamado Gabriel chegar, ele lhe devolverá tudo, diga-lhe que tive que fugir, pois estão atrás de mim e que eu entrarei em contato. – O homem me encarava com os olhos arregalados, sacudindo a cabeça afirmativamente, concordando com tudo que eu falava, em seguida, abriu a gaveta da caixa registradora e me entregou um maço de nota, que eu não tinha a ideia do valor.
Sai apressada da casa de chá, parei em uma lojinha e comprei um lenço igual aos que mulheres do lugar usavam para cobrir a cabeça. A senhora na loja falou o valor que eu não entendia, então mostrei a ela as notas de dinheiro que carregava e ela pegou o valor certo da mercadoria. Coloquei o lenço na cabeça para cobrir meus cabelos, que sempre chamavam atenção devido a cor avermelhada, caminhando rápido e olhando para os lados de vez enquanto para ver se estava sendo seguida, voltando para a área turística, para me misturar, assim passaria mais desapercebida.
Foi quando notei que aqueles homens que já tinha visto antes, andavam pelo meio da multidão, ainda procurando por algo, que sabia ser eu. A qualquer momento, eles poderiam me avistar e ali não era o melhor lugar para começar uma luta, por isso, mantive a cabeça baixa e acabei chegando ao estacionamento dos ônibus de turismo, que aguardavam a volta dos seus ocupantes, que saíram para conhecer a cidade. Os motoristas esperavam o pessoal das suas excursões, fumando, conversando e bebendo chá em um grupo mais adiante, e aproveitando de uma porta aberta, entrei em um dos veículos, sentando-me no último banco, fechei a cortina e me abaixei, rogando que todos os lugares não estivessem ocupados. Não sei por quanto tempo eu fiquei ali, acho que cochilei, até o grupo de turistas entrar no ônibus, conversando animado e uma senhora idosa, com um chapéu de palha, sentou-se ao meu lado.
— Olá, querida! – Pelo seu sotaque, notei que era inglesa. – Não vi você antes aqui – observou, intrigada, segurei minha pedra de turquesa e olhei para ela.
— Sim, eu estava aqui antes, a senhora não se lembra? – falei, suavemente, olhando nos seus olhos, ela piscou.
— Sim, claro que estava aqui antes, querida.
— Para onde vamos agora? – indaguei, assim que o ônibus começou a andar e o guia a falar algo sobre a programação do dia seguinte.
— Ora, querida! Para nosso hotel em Goreme.
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