A Garota da Lua
12 O Eremita – A busca do conhecimento
— Tem certeza que a senhora quer deixar esse recado mesmo? – a secretária perguntou, reticente, devia pensar que sou maluca, uma daquelas fãs fanáticas.
— Sim, é esse o recado que deve dar a Samuel, por favor. Pode anotar o número do meu telefone. Diga-lhe que é urgente. – Então passei o meu número, pedindo para que ela entregasse a ele, em vez de jogar na lata do lixo ou colocar em uma pilha junto com outros recados. Acho que meu pedido deu certo, pois quinze minutos depois meu telefone tocou, enquanto eu caminhava, a procura de uma livraria onde pudesse comprar outro exemplar do livro.
— Diana, você me ligou? – Era Samuel do outro lado da linha, parecendo preocupado.
— Como sabia que era eu?
— Seu recado foi bem claro. O que aconteceu com Gabriel?
— Eu não sei, não consigo encontrá-lo, mas parece que ele foi capturado por Hélio, se faz algum sentindo para você. Uma mulher chamada Jane me mandou procurá-lo.
— Jane? Você a viu? – Agora ele que estava surpreso.
— Sim, hoje, no metrô.
— Então, você já sabe de tudo.
— Não, só uma parte, mas não consigo acreditar nessa história.
— Diana, venha agora até a minha editora, lhe darei o endereço para conversarmos.
— Você é o dono da Nos caminhos para o Oriente?
— Sim, sou.
— Estarei aí o mais rápido possível – Desliguei e peguei um taxi, pois queria entender toda aquela história maluca, ainda achando que estava sendo enganada por um bando de louco, talvez, alguma seita de fanáticos ou algo parecido. Pensava, tentando organizar todos os fatos, olhando distraidamente pela janela, quando vi um homem já idoso na calçada, por algum motivo sabia que ele iria correr e para atravessar a rua na frente do táxi.
— Cuidado! – gritei para o motorista, que devia ter me achado uma louca, mas tirou o pé por um instante do acelerador, o carro perdeu um pouco de velocidade, que deu tempo suficiente para ele frear, quando o homem idoso apareceu na frente do carro, que ainda chegou a encostar na perna dele, e ele apenas perdeu o equilíbrio, caiu e levantou-se logo depois, xingando o taxista.
— Essa foi por pouco, moça. – O motorista suspirou, aliviado.
E sem outros percalços, cheguei a editora, que ficava em um prédio de três andares com fachada de vidro, já havia estado ali antes, no andar térreo funcionava a livraria, em que houve o coquetel de lançamento do livro dele. Na livraria, indicaram o caminho para o escritório, fui anunciada por uma secretária e Samuel já me esperava.
O escritório de Samuel tinha um ar oriental nos tapetes persas, nos móveis, e assim como na casa de Gabriel, nos quadros e gravuras nas paredes, haviam grandes estantes que estavam cheias de livros, alguns com aparência bem antiga, e algumas vitrines, onde enormes livros estavam expostos, mostravam figuras do tempo medieval, parei um segundo para admirá-los, deveriam ser raridades e valer verdadeiras fortunas
— Não sabia que a livraria era sua.
— É uma forma de publicar meus livros e de poder fazer o que gosto, escrever e ler, tenho feito isso há muito tempo. Mas, infelizmente, com o passar dos anos preciso desaparecer por algum tempo, depois faço minha reestreia com outro nome e minha editora passa para um novo dono, que sou eu mesmo. Ninguém entenderia um escritor que vivesse para sempre. – Ele me revelou, apontando para os livros que eu admirava.
— Foi você que escreveu esses?
— Alguns desses, outros eu conheci os autores e até mesmo publiquei-os. Então, finalmente, você descobriu quem realmente é, Diana.
— Jane me contou, mas ainda não acredito, apesar do que tem acontecido comigo nos últimos tempos. – Considerei, pois havia muitos fatos estranhos ocorrendo, além de todo mundo contar a mesma história.
— Eu sei que é difícil entender, diferentes dos humanos, não procuramos explicações para o que somos, aceitamos nossa natureza sem precisarmos de motivos ou razões. Mas, você foi educada como humana, compreendo que sua mãe fez isso para protegê-la do seu pai.
— Proteger-me do meu pai? Como assim, ele é tão terrível assim?
— Sim e não, ele é muito poderoso, mas não tão terrível, nos dias atuais. Ele só luta pelo que acreditava, e ele acredita que nosso mundo está sendo destruído pelos humanos, que eles precisam ser detidos, por isso, houve a guerra, e tudo que foi construído no ocidente e no oriente desmoronou, mergulhamos na idade das trevas. Perdemos quase toda a nossa força, muitos de nós desapareceram ou foram para o Esquecimento, nos dispersarmos, enquanto, os humanos cresceram e se tornaram mais destrutivos. Mas, agora... Estamos recuperando nossa força e poderes, muitos se reuniram-se em torno do seu pai novamente.
— Você está dizendo que foi meu pai que começou a guerra? E o Senhor do Oriente? – Fiquei em dúvida, pois Jane me contou outra história.
— O Senhor do Oriente tentou impedir a guerra, mandou seu filho para negociar.
— Gabriel?
— Sim, Gabriel ou Enlil, para nós. Nunca um lado interferiu com o outro, seu pai não gosto dessa intromissão, e o prendeu, não era uma prisão propriamente dita, ele não podia sair, mas circulava pela casa, como um convidado, assim vocês se conheceram e se apaixonaram.
— E eu o ajudei fugir e ele me abandonou — considerei, apesar de me lembrar do sonho que eu pedia para ele ir embora, sozinho.
— Ele me contou que você pediu para ele ir – relatou, coincidindo com o meu sonho. – Mas se arrependeu, passou estes últimos milênios, vagando pela Terra, procurando por você.
— E agora ele me achou, mas não disse nada.
— Ele percebeu que você não se lembrava, mas nunca duvidou que era mesmo você, Diana, apesar de estar um pouco diferente.
— Como assim?
— Você era mais alta e mais forte, seus cabelos também estão um pouco diferentes, apesar de ter quase a mesma cor, assim como seus olhos, sua mãe deve ter feito isso para disfarçá-la, assim como entregá-la para os humanos a criarem. Porém, para salvar Gabriel e a si mesma, precisará recuperar a sua força.
— Como? Não sei como fazer isso.
— Vou ajudá-la, Diana. – Não tinha ideia de como ele poderia me ajudar ou o que eu precisaria fazer, mas tinha que tentar, porém, algo me ocorreu.
— Onde está o Senhor do Oriente? Ele é o pai de Gabriel, poderá nos ajudar?
— Diana, lembra da estátua que está no seu museu, a do deus dourado?
— Sim, claro que me lembro.
— Ele é o Senhor do Oriente. Seu pai o transformou em uma estátua, antes da guerra e a escondeu por anos, até ser colocada em um museu, doada por ele próprio. Era uma isca para Gabriel, mas por algum motivo, eles a trouxeram para aqui —revelou com pesar, eu não podia acreditar que aquela estátua era o pai de Gabriel, mas isso explicava tudo, a presença de Hélio como guardião, o reforço na segurança do museu, quando soube da presença dele.
— Foi por minha causa? Talvez, eles soubessem que eu trabalhava naquele museu. – Tentei entender, juntando as peças como em um quebra-cabeça.
— Possivelmente, mas vamos tem alguns fatos que você precisa saber. Vamos! – Samuel me convidou
— Para onde? – Estava ao mesmo tempo curiosa e preocupada, pensando que se poderia cair em alguma armadilha.
— Para minha casa, preciso mostrar algumas coisas para você — explicou, já se dirigindo para porta. Na garage do prédio, entramos em um potente carro conversível alemão.
— Belo carro!
— Infelizmente, é uma das minhas fraquezas, acho estas máquinas fascinantes, assim como os aviões e computadores. Aqueles dos nossos povos que conseguiram se adaptar, o fizeram bem, mas os que não conseguiram vivem por aí, causando problemas para os humanos ou simplesmente desapareceram.
— Que tipo de problemas?
— Como aquele que você evitou no metrô, o acidente com o trem.
— Como você soube disso?
— Somos uma comunidade pequena e também um tanto fofoqueiros — confessou e caiu na gargalhada e tive que rir também
— Fiquei curiosa sobre uma coisa, na sua noite de autógrafo, várias pessoas cumprimentaram Gabriel. Eles são como vocês? – quis saber, me lembrando que apesar de Gabriel afirmar não conhecer ninguém, muita das pessoas ali presentes parecia conhecê-lo.
— Como nós. Sim, havia vários da nossa pequena comunidade. Gabriel é um líder muito conceituado entre nós.
E enquanto conversava, o carro seguia para cada vez mais longe do centro, entrando por ruas que eu não conhecia, cercada por uma vegetação que aumentava de densidade, olhava ao redor insegura, ele percebeu.
— Não se preocupe, minha casa está perto. Eu gosto de estar cercado pela natureza, de onde tiramos nossa força, apesar de estar ficando cada vez mais difícil, conseguir lugares assim.
Finalmente, chegamos a uma bela casa, de designer arrojado e com lindo jardins, ele abriu o portão acionando um controle remoto.
— Você usa bastante a tecnologia. – Observei, tinha ideia que ele poderia fazer tudo isso, apenas usando à vontade.
— Não quero desperdiçar minha energia com pequenas circunstâncias do dia a dia, por isso, uso os avanços dos humanos — esclareceu, entrando pelo portão e parando uma garage, onde havia outros carros modernos de luxo, que eu olhei com certo espanto.
— Sou homem, querida, gosto destes objetos — falou com um ar de satisfação.
Nós entramos para a casa através de uma porta lateral na garage, admirei a sala móveis modernos em aço e couro, com detalhes decoração orientais, nos tapetes, quadro e estatuetas, até mesmo, em uma grande peça que julguei ser um instrumento musical, parecido com uma harpa.
— Seja bem-vinda ao meu lar, Dama da Lua! Deseja beber algo?
— Não, obrigada.
— Fique à vontade, voltarei já. – E se retirou para o interior da casa.
Eu fiquei sozinha, olhando a paisagem de um verde exuberante através das grandes janelas, pensava como era bonito e raro um lugar assim hoje em dia, quando um outro homem entrou na sala, era jovem, bonito, com cabelos e barba negros, bem aparados, e profundos olhos escuros, à primeira vista parecia ser filho de Samuel, mas na segunda olhada, perguntei:
— Samuel, é você? – Estava estarrecida pela mudança.
— Essa é minha verdadeira aparência. — Ele se apresentou abrindo os braços. – Em breve, Samuel irá falecer e seu filho, ou seja, eu mesmo, irá herdar a editora e continuará o trabalho da família.
— Venha! Vou lhe mostrar algo.
Ele me conduziu através da casa, até uma porta que abriu e entramos, era uma biblioteca com enormes estantes de livros cobrindo todas as paredes
— Gosta de literatura grega? – ele me perguntou, sem compreender o que isso tinha a ver com o caso, respondi que sim.
— Tenho aqui um raro exemplar de Odisseia. – Empurrou uma parte da estante, que se abriu como uma porta. – Entre! – convidou, me dando passagem.
Levei um susto, ao ver paredes e estantes forradas de armas de várias épocas, em uma exposição típica de um museu.
— O que é tudo isso?
— Minha pequena coleção, eu a venho reunindo aos longos dos séculos. Mas, o que eu queria lhe mostrar era isso aqui. – Ele se dirigiu até uma estante e pegou um arco e uma aljava. – Tome são seus. – E me entregou.
— O que que eu vou fazer com isso? Não sei nem como segurar essas coisas.
— Você reaprende. Era muito boa nisso. A melhor.
— Mas, você está falando de alguém que não sou eu.
— Sim, é você. Vá lá para fora e treine! Posso tentar ajudá-la, mas as minhas armas sempre foram as palavras, não as espadas.
— Não tenho tempo para aprender. Precisamos salvar Gabriel.
— E evitar um colapso mundial.
— Colapso mundial?
— Sim, seu pai está ficando mais forte, ele poderá atacar os humanos, e não necessariamente com armas.
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