A Garota da Lua

6 O Diabo - Emoções intensas


Pela manhã, me arrastei para fora da cama, minhas têmporas latejavam e meu corpo pesava, me aprontei para o trabalho, tomei um analgésico e caminhei como um zumbi até o metrô, estava com a testa encosta no vidro frio da janela, de olhos fechados, esperando minha cabeça parar de doer, quando ouvi alguém ao meu lado.

— A noite foi animada. – Olhei para o lado e lá estava ela, a mesma velhinha que já havia encontrado antes.

— A senhora outra vez! – disse, sem disfarçar a irritação, não estava muito a fim de conversar naquele momento, por isso fechei os olhos e encostei de novo a cabeça na janela.

— Então, parece que a noite foi boa mesma – ela insistiu.

— E o que que a senhora tem a ver com minha noite? Ou com a minha vida? – digo de modo grosseiro.

— Só me preocupo como você – respondeu, humildemente, parecia magoado com a minha reação.

— Desculpe. – Fiquei envergonhada por tratá-la mal. – Sim, a noite excelente.

— Namorado novo?

— Não, não tem namorado novo, pelo menos, ainda não – rebati, de mal humor, ela pareceu não gostar da resposta.

— Cuidado, Diana, nem tudo é o que parece.

— Como você sabe meu nome?

— Minha estação! – Levantou e saiu correndo pela porta, sem me dar uma resposta.

Acabei chegando um pouco atrasada ao museu, Helena já estava lá, atarefada, levantou a cabeça ao perceber a minha presença, assim que entrei na sala em que trabalhávamos.

— E aí, Diana, como foi a noite?

— Depois a gente conversa — Não estava muito a fim de conversar agora, ainda, me sentia bem enjoada.

— Então, foi ruim?

— Não.

— Então, foi boa?

— Sim.

— O que vocês fizeram? – Ela estava muito curiosa, sabia que ela não me deixaria em paz para trabalhar se não falasse nada.

— Fomos há um restaurante indiano, comida boa e papo bom.

— E depois?

— Depois, ele me levou para casa.

— E depois?

— Mais nada.

— Como mais nada! Nem um beijinho. – Ficou decepcionada.

— Não, sem beijinhos.

— Combinaram a sair de novo? – Ela quis saber.

— Não ficou nada certo. – Mudei rapidamente de assunto – Onde está o senhor-sol? — Senti falta de Hélio.

— O senhor-sol chegou cedo e está mostrando o museu para os homens que irão fazer a segurança. Suzana está abismada, porque isso não estava no contrato, mas ele disse a ela que achou o nosso museu pouco seguro. É ela parece concordar com tudo que ele fala, agora – segredou em tom de fofoca.

— Meninas! – Suzana entrou na sala, parecia irritada, junto dela estava Hélio e quatro brutamontes. – Esses senhores farão a segurança dos objetos cedidos pelo museu, que o senhor Hélio representa, inclusive da estátua do deus dourado. – Em seguida se virou para ele. — Não entendo por quê, Hélio?

— Já conversamos sobre isso antes, Suzana. – Ele falou, delicadamente, para ela, em tom de intimidade, que pareceu relaxar. Pensei se estaria rolando algo entre ele e nossa supervisora.

— O que ele está achando, que alguém vai colocar aquela estátua no bolso e sair andando. É muito exagero! – Helena comentou, depois que eles se afastaram, tive que concordar com ela.

No meio da manhã, recebi um telefonema de Gabriel, mesmo tentando negar, eu gostei disso.

— Bom dia. Como você está?

— De ressaca.

— Sabe o que eu achei no meu carro?

— Não – respondi, sem me esforçar para adivinhar.

— O livro que você ganhou de presente.

— Tinha me esquecido dele.

— Se você quiser posso levar ele até aí.

— Não precisa ter esse trabalho por isso, Gabriel.

— Não é trabalho nenhum, é só uma desculpa para encontrar com você – confessou. Não pude resistir, então concordei. — Eu tenho uma ideia ainda melhor. Passo aí na hora de ir embora, assim posso dar uma carona para você. Está bem assim? – Novamente, aceitei, para quem não queria se envolver, eu estava entrando nessa rápido demais, mas não conseguia resistir.

Gabriel chegou no horário marcado no museu, que ainda estava aberto para visitação, havíamos combinado nos encontrarmos bem na entrada, pois seria mais fácil.

— Então, é aqui que você trabalha? – Ele me perguntou, parecendo interessado.

— Sim, é um dos melhores do país— respondi, orgulhosa.

— Posso conhecer?

— Claro que pode e para isso que esse lugar serve, para ser visitado! Vamos, você nem precisa pagar. – Estava empolgada, pois adorava mostrar o que fazíamos lá. Para isso, andamos pelas salas de exposição, eu, entusiasmada, falava sobre tudo, como havia sido montada cada uma das salas e as histórias das peças expostas.

— Estou sendo uma chata— disse, quando dei conta da minha tagarelice

— Não, eu estou gostando. Continue. – Ele me animou.

— Você está sendo gentil, vamos embora.

Mas, durante a nossa caminhada pelo interior do museu, acabamos chegando perto das salas fechadas que estavam sendo preparadas para a grande exposição que aconteceria em poucos dias.

— E essas salas aqui, por que estão fechadas? – Ele quis saber, curioso.

— Essas salas estão sendo preparadas para a exposição, que eu falei ontem.

— É onde está o tal deus dourado que você falou?

— Sim, ele está guardado aqui

— Podemos visitá-lo?

— Não. Ele está cercado por um forte esquema de segurança. Hoje mesmo, chegaram mais homens de seguranças, especialmente, trazidos para essa exposição.

Enquanto conversávamos, eu percebi que Gabriel olhava as salas com extremo interesse, parecia muito curioso. Neste instante, uma pessoa apareceu no final do corredor, não conseguia saber quem era, mas não dei muita importância, então ele começou a andar em nossa direção, e então reconheci Hélio. Reparei que Gabriel retesou todos os músculos do seu corpo, como se preparando para um ataque, enquanto Hélio se aproximava com passos lentos e firmes, como um felino pronto para saltar sobre a presa. Ambos pareciam preparados para uma briga, com certeza, aqueles caras se detestavam.

— Gabriel, há quanto tempo? – Hélio fingiu ser cordial, assim que se aproximou de nós.

— Faz muito tempo mesmo, Hélio – respondeu Gabriel, de modo seco.

Por um curto espaço de tempo seguiu-se o silêncio perigoso, parecia que um iria pular no pescoço do outro a qualquer momento, tinha que quebrar a tensão.

— Estou mostrando o museu para Gabriel, mas já estamos indo embora — expliquei em um só folego. Nesse momento, Hélio percebeu a minha presença.

—Vocês estão juntos? – Hélio perguntou, com uma certa irritação.

— Estamos – Gabriel disse em um tom desafiador.

Podia jurar que dos olhos de Hélio saíram faísca e a temperatura do ambiente aumentou.

— Já estamos indo. Boa tarde, Hélio. – Despedi-me e sai puxando Gabriel pelo braço, que primeiro ele resistiu, mas depois cedeu e saímos juntos do museu, deixando Hélio parando nos olhando, enquanto nos afastávamos.

— O que foi aquilo? – indaguei, atônita, enquanto caminhávamos em direção ao carro dele.

— Aquilo o quê? – Gabriel rebateu de modo casual.

— Você e Hélio lá dentro pareciam que queriam se matar. Deve ter acontecido algo de muito grave entre vocês.

— Sim, aconteceu, mas no tempo certo você saberá. – Ele foi evasivo, mas não conseguia esquecer aquela cena de dois machos-alfas, quase se atracando dentro de um museu.

— Mas, vocês quase brigaram lá dentro. – Não queria deixar essa história passar assim.

— É apenas por divergência de opiniões. – Gabriel veio com uma explicação pouco convincente. – Mas, você tem razão, foi por sua causa que não brigamos lá dentro.

— Não, aquilo é muito sério, eu vi nos olhos de vocês aquilo envolve paixão e ódio.

— Esqueci de como não podemos esconder as emoções de vocês – disse, olhando sério para mim.

— Como assim? Não entendi! – Chegamos no carro antes de ele falar algo sobre sua observação, no entanto não queria desviar do assunto principal.

— Vocês brigaram por causa de uma mulher? – perguntei, timidamente, já dentro do carro.

— Sim, foi por causa de uma mulher – Gabriel admitiu e nos seus olhos passou uma sombra de tristeza. – Mas, não quero falar sobre isso agora, não quando estou com você.