A Garota Problema
35 Verdades - Parte 2
Notas iniciais
Me sinto ser cutucada e alguém sussurando meu nome ao longe. Resmungo coisas desconexas e me viro para o outro lado da cama. Aperto o lençol contra mim e acabo despertando quando a voz continua a insistir. Abro os olhos vagarosamente e tento enxergar alguma coisa além da escuridão do quarto. Olho para o lado e levo um susto quando vejo dois olhos no escuro me observando.
– Ei Juli, sou eu a Bler. — respiro aliviada.
– O que você quer Bler, ainda é de madrugada!.
– Eu vim te chamar para ver o ensaio da banda. — ela sussurra perto de mim e eu balanço a cabeça, o que foi idiotice já que estamos no escuro.
– Eu não vou. Quero dormir. — digo mentindo. Na verdade eu não queria encarar o irmão dela.
– Tem certeza? — ela insiste sussurando e eu concordo. — Então tá, pode voltar a dormir.
E suspirando Bler vai embora. Vejo quando a porta é aberta e um pouco de luz entra no quarto.
Suspiro voltando a colocar a cabeça no travesseiro e fecho meus olhos, tentando voltar a domir.
Mas não foi isso que aconteceu já que duas horas depois ainda estou acordada. Me remexo de um lado para o outro até que frustrada, jogo o lençol no chão e me levanto, seguindo para a porta em seguida. O que custava eu ir? Eu tinha sido convidada e não seria Vicente que faria eu deixar de fazer o que gosto. Tudo bem que eu o mandei se afastar, mas isso seria uma exceção e exceções existem.
Abro com cuidado a porta para não acordar Pablo que era o único no quarto e saio dali, caminhando em seguida para o caminho que dava no porão. Sem fazer barulho fui andando até chegar nas escadas, mas antes que pudesse descer aquela maldita escada enferrujada ouvi uma voz soar atrás de mim:
– Posso saber o que faz aqui acordada uma hora dessas, Juli? — paralizo.
Viro para trás e vejo Alberto com os braços cruzados vestindo um roupão e com a boca suja de chocolate. Levanto a sobrancelha e ordeno a minha mente á inventar uma desculpa e fazer com que a banda não seja descoberta.
– Eu... Eu... — olho para o lado e uma ideia surge — Fui beber um copo de água e acabei me perdendo. Sabe como é, eu ainda não decorei todos os caminhos.
Agora quem levanta a sobrancelha é Alberto e ele olha para a escada atrás de mim. Torço para que nenhum dos meninos ou das meninas aparecam agora e foco em Alberto que estava desconfiado.
– Então você não decorou quase nada porque os corredores do dormitório são para o outro lado. — me bato mentalmente. Droga, agora como eu ia sair dessa sem prejudicar os outros?
– Pois é, eu e meu senso de direção. Mas eu já estava indo mesmo, boa noite diretor. — sorrio amplamente e Alberto gargalha balançando a cabeça.
– Você não é uma boa atriz. Mas vou fingir que acredito. — ele murmura e se vira, e quando eu penso que estou livre ele volta.
– E Juli...
– Sim?
– Pode ir ver os seus amigos tocarem. Mas cuidado pois da próxima vez pode não ser eu a te ver.
Minha boca se abre. Alberto sabia. Alberto sabia. ELE SABIA. Como é que o diretor sabia? E por que ele não fez nada?
– Como você...? — deixo a pergunta no ar pasma.
– Esse internato é meu, sei de tudo que acontece aqui. — ele diz encolhendo os ombros — Agora boa noite e não vá passar a madrugada em claro, amanhã teremos uma novidade.
E Alberto sai dali me deixando descrente. Parece que existe mais coisas que eu não sabia do que pensava...
Me viro para a escada a baixo na minha frente e suspiro pela vigésima vez hoje, resolvendo não ir até lá. É melhor voltar para o quarto e ver se consigo dormir. E assim eu fiz, ao chegar no quarto me joguei de baixo das cobertas e rapidamente acabei caindo no mundo dos sonhos.
________..._________
Fico sobre as pontas dos pés tentando ver algo a minha frente que não seja as cabeças das pessoas tampando minha visão. Desisto e bufo irritada, bem que eu podia ser mais alta! Desisto de vez e vou para o lado de Laura que olhava ''discretamente'' Tomás mais a frente. Cruzo os braços e o falatório só vai aumentando cada vez mais.
Pois é, Alberto estava certo. Como ele disse hoje teríamos uma novidade e por isso estavam agora todos os alunos do segundo ano no auditório. Várias cadeiras estavam espalhadas pelo local mas como o número de alunos era grande, algumas pessoas acabaram ficando sem lugar para se sentar. E sim, eu estou entre elas. As meninas tinham conseguido lugar junto com Pablo, André e Valentina. Mas o resto estava de pé igualmente a mim, e eu não me importava em sentar ( a não ser é claro, que demorasse muito.)
Varro o espaço com os olhos e dou por mim a falta de Marcelo ainda. Ele já deveria ter chegado, ele tinha dito que chegaria hoje e até agora nada.
Balanço a cabeça espanando os pensamentos e inclino a cabeça para o lado, pegando Melissa me encarando. Ela estava com um sorrisinho cínico no rosto como sempre e de repente uma sensação me invade... Poderia ter sido ela á me dedurar ao invés de Vicente?
Busco pela figura desse e o acho perto de Gustavo e Tomás mais a frente. Ele estava de costas e a droga do meu coração começou a bater mais rápido quando percebi o quão lindo ele fica mesmo de costas.
Pare de ser idiota Julia!
Balanço a cabeça novamente e foco minha atenção no palco vazio á alguns metros na frente. Alberto e Matilde entraram e seguravam ambos microfones. Matilde tinha um sorriso falso no rosto enquanto o irmão parecia extremamente feliz. Seguro a risada assim que Alberto sem perceber acaba entrando na frente de Matilde, fazendo ela bater com a cara em suas costas.
Mas depois não consegui ver quase nada mais, pois tinha um garoto na minha frente, musculado que tapava minha visã toda. Tentei umas duas vezes me esquivar para conseguir ver, mas nada. O garoto parecia um armário.
– Com licença, dá para chegar mais para o lado para eu conseguir enxergar?. — pedi e o garoto se virou.
Ele assim que me viu colocou um sorriso ironico no rosto e entrou ainda mais na minha frente. O encarei cética e o reconheci... Era o Léo, aquele garoto do primeiro dia quando cheguei que eu ameacei. Respiro fundo olhando nossas diferenças de altura, eu batia em seu peitoral e com certeza ele era mais forte.
– Não estou a fim Lacoste. — ele responde e se vira novamente para frente.
Reviro os olhos irritada com aquele garoto.
– Será que dá para sair da minha frente? — insisti e novamente Léo se vira.
Mas agora ele me olhava maldosamente.
– Você não entendeu que eu não irei te dar licença? Agora se manca garota, antes que eu perca a minha paciência.
Ele diz na minha cara e eu me encolho. Não seja fraca Juli!. Retomo minha postura e o encaro nos olhos, dou um passo para a frente e ele estica o braço, atrapalhando minha passagem e me empurrando para trás. Sinto uma dor nos meus ombros pelo empurrão e gemo andando para trás.
Sinto Bler e Laura se levantarem atrás de mim e se colocarem ao meu lado. Elas me pegam pelos braços e perguntam se está tudo bem. Digo que sim e encaro Léo que estava com um sorriso de deboche no rosto.
Reviro os olhos e observo André se levantando junto com Pablo, Gustavo e Tomás se aproximando. Os quatros param na minha frente e encaram Léo que agora estava branco como papel. Deixo escapar um sorriso de deboche e ele me olha raivoso. Os garotos o encaravam sérios e até Pablo estalava os dedos, pronto para acertar com o punho na cara do idiota do Léo.
– Tudo bem meninos. — murmuro e eles me encaram.
Léo se afasta e vai lá para frente, ficando longe de todos nós. Agradeço e André cede a cadeira dele para mim. Agradeço a ele também e me sento junto com as meninas. Gustavo e Tomás voltam para seus lugares com André e eu encaro o palco.
Sinto meu ombro latejar e o aperto, fazendo uma careta de dor. Aquele filha da mãe deveria estar com raiva de mim desde do começo do ano.
Respiro fundo e sinto estar sendo observada. Procuro a pessoa que me olhava e me deparo com os olhos de Vicente, que transmitiam um pedido de desculpas silencioso. Franzo o cenho enquanto o encaro, mas a voz do diretor ecoando acaba com a troca de olhares.
– Bom dia alunos!. — Alberto cumprimenta e volta a falar. — Sei que muitos se perguntam o por quê de tudo isso, mas irei explicar. — ele olha para Matilde que concorda com a cabeça.
– Como todos sabem, o ano letivo já está acabando e com isso as provas estão chegando. E já que para alguns o ano foi bem conturbado, minha irmã e eu resolvemos planejar uma viagem como passeio para vocês, alunos do segundo ano. — gritos e palmas preenchem o auditório e abro um sorriso junto com as meninas e Pablo que pulava sentado.
– Shi... Silencio por favor! — Matilde grita no microfone e todos se calam. — Sabemos que isso é muito bom para vocês e que estão precisando de um descanso antes das férias, mas vamos manter a ordem. Bom, como o diretor ia falando é um passeio para vocês alunos e será para uma fazenda no interior de São Paulo.
Algumas vaias foram ouvidas e alguns risos foram escutados. Laura e Bler fizeram careta enquanto Pablo ria de alegria. Para ele, seria muito bom se encontrasse um ''caipira gostosão''. E isso é estranho vindo do meu amigo gay que pula que nem pipoca na cadeira.
– Silencio alunos... E queria deixar claro que este passeio não é obrigatório, então quem não quiser ir poderá ficar com o dia livre aqui no internato. As autorizações já foram enviadas para seus respectivos pais e esperamos que seja demais esse passeio. E ah, comportem — se. — Alberto termina e todos batemos palmas.
Não seria obrigatória a viagem, então eu não iria. Prefiria ficar aqui no internato tentando resolver minha vida. Matilde e Alberto descem do palco e os alunos levantam — se indo embora. Espero pelas meninas e Pablo que parecia que ia infartar de felicidade a qualquer instante. Assim que elas se levantaram fomos em direção a saida.
– E aí, voce vai querer ir Juli? — Laura me pergunta e eu encolho os ombros.
– Acho que não vou ir não. Não estou afim. — respondo o que eu pensava, mas para minha infelicidade as coisas não sairíam do jeito que eu esperava.
– Pois está enganada senhorita Lacoste. A senhorita tem um castigo a ser cumprido, e esse será ele. Seu castigo é ir obrigatoriamente a este passeio como instrutora dos seus colegas.
Me viro para trás vendo as figuras de Alberto e Matilde, um ao lado do outro com sorrisos no rosto. Arregalo os olhos e abro a boca... Isso não pode ser verdade!
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