A Garota & O Desejo
1 Contrato
Notas iniciais
Tudo acontecera em uma cidade do interior, foi uma bagunça para um lugar tão calmo e religioso, praticamente um refúgio para seguidores da igreja Adventista, o sábado tornava as ruas lugares desertos. Esse acontecimento mudou tudo.
Lívia sempre foi uma garota que, embora louca pelos prazeres que via em seu livro de biologia, sabia que não os alcançaria sem a presença de um parceiro, e ainda queria que este a amasse como um maníaco. Em todas as aulas de religião, que eram um horário por dia, ela olhava para Aliaksandr, um garoto alto e negro, cabelos ruins, olhos tão escuros que se destacavam para ela como um buraco negro que a sugaria a qualquer momento, um corpo de Davi. Isso era amor. Ela pensava, quero o amor e corpo desse ébano, Te amo, Ali. Seu corpo arrepiava só de estar no mesmo cômodo dele.
Seus pais iriam enlouquecer se soubessem que ela estava apaixonada por um garoto e isso iria piorar quando vissem que o garoto aparentava ser bem mais velho. Então tudo era disfarçado, os olhares de Lívia para com ele eram escondidos, ninguém percebia sua ousadia, a não ser por um ser, cuja a insanidade e a maldade se curvam para ele. Esse ser estava de olho na garota faz um tempo, sabia que ela não aguentaria por muito tempo sem conseguir o amor de Ali e na hora do desespero ele daria o bote.
Era quatro da tarde na cidadezinha do interior do Maranhão, o tempo estava fechado, chovia com uma força bruta. Mãe e pai de Lívia estavam fazendo amor em seu quarto e o som dos raios abafavam os gemidos do casal. A garota estava deitada no chão da casa pensando em nada mais, nada menos que Aliaksandr, olhou para a porta de vidro e pelo quintal viu o clima obscuro, logo pensamentos negativos invadiram sua mente: "Nunca vou conseguir o amor dele!", "Estou há dois anos amando e não consigo criar coragem para falar com ele".
Lívia lembrou da palavra que aprendeu na aula de português no dia anterior, esta é sinônimo de desgraça. Sentiu que seria de bom proveito que a expressasse no momento.
— Descalabro.
Um tremor a fez levantar. Um cheiro de enxofre e carne podre invadiu suas narinas e a deixou com náuseas. Sentiu a temperatura aumentar consideravelmente. Suas pernas ficaram paralisadas. Tentou gritar por socorro, mas o som não se manifestava, entrara em pânico.
Piscou e lá estava ele. Alto, careca, pele impecável, olhos totalmente negros, cabelos prateados, unhas tão grandes que dobravam formando formas estranhas, ele tinha um par de chifres enormes que dobravam para trás nas pontas. Vestia nada e carregava um cajado.
Lívia pertencia à uma família religiosa, ela já havia assistido a filmes de terror. Claramente esse ser é um demônio.
— Desculpe-me por ter me manifestado sem avisar. É que percebi o seu desespero pelo amor de um menino. Se prometer não gritar eu devolvo sua voz.
Lívia assentiu com a cabeça que não iria gritar. Logo sentira força voltando às cordas vocais.
— Por favor, não me mate. — implorou a garota fazendo o sinal de oração ao demônio.
O ser riu da cena de disse:
— Eu me manifestei porque quero te ajudar. Fale o que queres daquele garoto.
Lívia sentiu um arrepio na espinha. Olhou para os lados, esfregou os olhos para certificar-se de que a criatura não era ilusão ou algo do tipo. Eu quero que Ali me ame, pensou.
— Quero que Aliaksandr Andrade deseje meu coração, que me ame! Não aguento mais essa solidão!
O ser abre um sorriso macabro que revelam seus dentes de cor rosa. O que gera um certo humor na mente de Lívia a respeito dele.
— Em troca... Quero que seja minha companheira quando morrer. — afirmou o ser.
— Se não envolver o senhor me batendo por toda eternidade. Ou brincadeiras com fogo. Eu topo.
A criatura abre a palma da mão esquerda e materializa um papel cinza que flutua até as mãos de Lívia. Deve ser o contrato, onde devo assinar?
— Onde coloco sangue aqui? — perguntou a garota.
— Sangue?! Isso não é um filme. Assine o contrato com o dedo. — instruiu o ser.
Lívia escreveu o nome no papel com o dedo, saiu tinta como se fosse caneta. Ao acabar o ate, o contrato desaparecera, deixando uma leve fumaça no ar. A criatura acena despedindo-se e some num piscar de olhos, levando consigo o cheiro e a alta temperatura.
A garota olhou pela janela e abriu um sorriso. Sabia que finalmente o amor para ela se tornara algo possível, ou melhor... Ele está lá esperando por ela.
Talvez eles não sejam apenas para o mal como dizem.
Fale com o autor