A Garota E O Fantasma
4 Capítulo 03
Enquanto caminhava pela rua, sem um destino certo, Alissa via Deyv em cada lugar pelo qual passava, ainda conseguia ouvir as conversas, os risos, sentir aquela alegria contagiante que ele tinha. Sentiu seu coração apertar e novamente as lágrimas tomaram conta de seus olhos.
– Caramba, como você é teimosa!
Alissa deu um salto de lado ao ouvir a voz de Deyv, logo vendo-o ao seu lado, a mesma roupa preta de sempre, aquela luz forte em volta dele, sentiu o coração subir para a garganta.
– Que ideia é essa?! – Repreendeu-o. — Quer me matar de susto?
– Bom, pelo menos íamos ser amigos fantasmas, tipo o Gasparzinho! – Ironizou.
– Não teve graça!
– Olha, não é por nada não, mas eu não acho uma boa ideia você estar falando comigo aqui não. – Advertiu.
– E por quê? – Quis saber.
– Porque vão te achar maluca!
Nesse momento, Alissa olhou em volta e só então percebeu as pessoas ao seu redor, algumas a olhavam um pouco espantadas. Ela respirou fundo revirando os olhos e continuou caminhando sem dar importância, já estava acostumada com o que as pessoas achavam dela. Deyv permaneceu caminhando ao seu lado.
– O que tá fazendo aqui? — Ela perguntou, passando as mãos pelo rosto.
– Eu vim porque você estava chorando, de novo! – Ralhou.
– E daí?! Geralmente a gente chora quando perde alguém importante! Leva tempo pra passar, sabia? – Rebateu, chateada.
– Você é mais forte que isso, Alissa, e eu sei que sabe!
– Só me diz como eu vou achar aquele cretino e pronto, tá?
– Ainda não. Não é a hora.
– E desde quando fantasma tem relógio? – Ela perguntou, furiosa.
– Vem cá, por que você nunca me mostrou esse seu lado implicante, hein? Eu adorei! – A voz de Deyv era um misto de sarcasmo e diversão.
– Não enche, Deyv! Acha que é fácil viver sem você? – Disparou tomada pela dor.
– Eu tô te vendo de lá de cima, esqueceu? Tô sabendo que não. E também estou vendo o que esta fazendo pela Karen, você é exatamente como eu achei que era.
– Ah, e como eu deveria me sentir recebendo um elogio de um fantasma? – Ironizou.
– Alissa, sou eu, o Deyv! Dá pra parar de ver apenas que eu tô morto e simplesmente me ver? – Pediu, sério.
– Isso é meio complicado. – Admitiu.
– Mas eu sei que você é capaz!
– Quer saber de uma coisa? Se você não fosse um fantasma eu ia te dar uma surra daquelas! Foi você que foi embora! – Desabafou voltando a chorar. — Pra que ir atrás daquele demônio? Pra que pular na frente da bala? Achou que era quem? O homem de ferro?! Agora eu a Karen estamos assim, incompletas! E a parte ruim é que a gente não pode te ter de volta!
Alissa parou, vendo as pessoas que a olhavam assustada, nem percebeu que estava gritando, com os olhos cheios de água ela esbravejou:
– O que é? Nunca viram uma louca não?! Tão vendo agora! Me deixem em paz!
E saiu, rumo a uma praça que ficava próxima ao cemitério. No fundo, Alissa não queria aceitar a partida de Deyv, Karen por mais que tentasse manter a calma sempre acabava chorando vez ou outra, estava sendo duro para todo mundo, para todos os amigos dele. Sentando em um dos bancos de madeira, Alissa abriu a bolsa tirando dela um caderno e uma caneta.
As noites escuras vagam, perdendo-se nos ruídos tenebrosos...
Assombrando a minha alma triste e vazia... Eu não quero me acostumar
A viver sem você... E como eu posso fazer isso? Me explique como
ser eu sem o seu sorriso, sua maluquice, sem aquela alegria que você
me ensinou a cultivar e que agora descansa a sete palmos da vida?
As feridas ardem na minha alma e continuam sangrando no meu
coração... Eu não posso ver mais nada... Além do escuro inóspito em que
você me jogou...
Respirando várias vezes para tentar recobrar a calma, Alissa se levantou e guardou as coisas indo para casa, precisava ver Karen, saber se ela estava calma, desde a morte de Deyv a garota passara mal duas vezes, ela estava preocupada com a irmã. Era hora de engolir as lágrimas e ajudar quem estava pior que ela. Secou as lágrimas e respirou três vezes soltando o ar pela boca antes de entrar em casa. Parando por um momento na sala, lembrara-se do primeiro instante que vira Deyv ali depois de sua morte, sua espinha gelou e ela saiu à procura da irmã, alcançando o corredor abriu devagar a porta do quarto e viu que a mesma estava deitada.
– Dormiu de chorar...
Com um salto, Alissa encostou-se na porta ao fitar Deyv sentado em sua cama.
– Caramba você tem que parar de fazer isso! – Repreendeu-o, irritada.
– Aparecer?
– Me assustar!
– Desculpe, eu deveria ter pedido um sino de anúncio ou um mensageiro real! – Zombou ele.
– Engraçadinho! – Ironizou.
– Que tal parar de ser teimosa e aceitar os fatos?
– Era só o que me faltava, receber conselho do fantasma do meu melhor amigo!
Nesse momento Karen abriu os olhos, Alissa sentou ao lado dela abraçando-a, a garota começou a chorar enquanto Alissa tentava acalmá-la. Deyv presenciava a cena com o coração partido.
– Shh... Tá tudo bem mana...
– Fala pra ela que eu não gosto de ver ela assim... — Deyv sugeriu.
– E você acha mesmo que vai funcionar?! – Disparou Alissa, irritada.
– O quê? — Karen perguntou, olhando a irmã, surpresa.
– Nada minha linda... Agora, vamos enxugar esse rosto e ocupar nossa cabecinha com alguma coisa tá?
– Leva ela pra praça. — Deyv falou de novo.
– Claro, ela nem vai mais se lembrar de você lá! – Disparou.
– Tá falando com quem Ali?
Alissa fitou o rosto vermelho e confuso da irmã que a olhava com surpresa. Deyv gargalhava sentado em sua cama, ela pensou em algo rapidamente para enrolar Karen:
– Ah, não é nada meu anjo, eu só pensei alto... Alto demais...
– Aposto que convenceu! — Deyv falou rindo.
– Fica na sua! — Ela sussurrou com raiva pra ele.
Acalmar Karen foi um tanto fácil, Alissa e ela assistiram a um filme e por algumas horas conseguiram se desligar daquela realidade tão triste que enfrentavam, mas dentro de si aquela dor ainda era forte demais, recente demais, difícil demais. Naquele momento parecia que ia durar para sempre, mas Alissa sabia que não era assim, algum dia, ela conseguiria lembrar-se de Deyv e sorrir mesmo que com os olhos cheios de lágrimas.
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