A Garota E O Diário
1 A Garota E O Diário
A garota acordou em uma sala escura. Não sabia onde estava e nem mesmo quem era. Apenas carregava consigo um sentimento de pura tristeza. A princípio, resolveu repousar um pouco sobre a baixa luz, mas sua mente encheu-se de perguntas que não acharam suas respostas.
Foi então um pequeno calor que sentiu no braço direito que iniciou a aventura. Apesar de ser relutante em sair dali, dado seu estado lúgubre, a garota começou a andar na direção que fornecia calor. A cada passo que dava, seu corpo começava a sentir cada vez mais o calor, que, apesar de sentido, não a tocava. Foi então que a garota tropeçou em uma suposta soleira e, consequentemente, bateu a cabeça em uma suposta porta. Apesar da dor, a garota não chorava ou apenas não conseguia chorar com isso. Por fim, após apalpar o lugar em que bateu a cabeça, conseguiu confirmar a identidade da porta. Foi apenas uma questão de tempo até que as apalpadelas encontrassem a maçaneta.
A garota, agora com a mão repousada na maçaneta, hesitou por alguns segundos e, lentamente, a girou.
A porta revelou feixes de luz intensa que, instantaneamente, cegaram a garota. Após algum tempo de arrependimento de ter aberto a porta, a visão da garota finalmente ajustou-se a claridade do local recém descoberto.
A garota via uma paisagem exótica e enigmática, isto é, céu azul com inúmeras nuvens segmentadas, um grande número de colinas que iam até onde os olhos conseguiam enxergar e um caminho a sua frente de grama baixa que se estendia até o topo de uma colina. Verificou, também, que encontrava-se dentro de uma caixa grande e metálica. Deu o primeiro passo em direção ao caminho que levava ao topo da colina a sua frente, e, finalmente, o calor a tocou, trazendo calor não apenas para seu corpo e curando grande parte da tristeza que antes sentia. Continuou cada passo com um pequeno sorriso no rosto.
Ao chegar no topo da colina, conseguiu ver vários animais silvestres, frutas e pessoas até as últimas colinas que escondiam o horizonte. Além disso, a colina, na que a garota estava, possuía uma macieira no topo, e ela provia uma sombra tranquilizante. Apesar de toda a serenidade do lugar, ainda faltava algo.
— Quem é você? — Uma voz aguda foi ouvida da macieira. De traz da árvore surge uma garota magra, de olhos esverdeados, cabelos cacheados e etnia parda, trajada em um vestido curto branco com adornos de flores nas bordas.
A garota simpatizou com a sua igual e disse-lhe quem era, que gostou do lugar e que gostou de conhecê-la, também.
— Prazer em conhecê-la também — Disse a garota do vestido branco — O que faz aqui?
A garota explicou que não havia um motivo especial de estar naquele lugar, além de ter sido atraída pelo calor e pela paisagem. A garota do vestido branco respondeu então:
— Realmente, esse lugar é muito inspirador. Eu e os meus amigos geralmente vamos nas aldeias, subimos nos cavalos e corremos por aí, procurando as borboletas com as cores mais exóticas. E você?
A garota então falou, de maneira desajeitada, que não lembrava de fazer nada do tipo.
— É sério? — Falou a garota com o vestido branco — Isso é meio triste… Quer saber? Você gosta de maçãs? — A garota concordou com a cabeça. Não lembrava de ter comido nenhuma maçã, mas sabia que todas as pessoas que tinham comido relataram que tinha um gosto ótimo — Ótimo! Pode me dar uma ajuda com as maçãs dessa árvore? Elas estão tão maduras… devem estar gostosas!
E então as duas garotas subiram na macieira bem rapidamente. A garota apanhou uma, duas, três maçãs enquanto a garota do vestido branco pegou só uma. Pensativa, ela se aproximou no galho da garota e disse:
— Isso não dará certo sem um cesto. Serão muitas maçãs para que nós duas possamos carregar. Espere aqui — Disse a garota do vestido branco, entregando a maçã que tinha coletado para a garota — Meu pai tem um cesto e, com ele, poderemos comer muitas maçãs e assistir o pôr do sol juntas! Volto já!
E então a garota do vestido branco desceu a árvore, saindo saltitando pela colina abaixo, em direção a uma pequena casa construída de madeira. A garota, ainda em cima da macieira, conseguiu coletar mais uma ou duas maçãs até que seus braços não conseguissem aguentar mais. Agora, apenas esperaria sua amiga retornar com o cesto para poder enchê-lo com mais maçãs.
Um tempo depois, a garota do vestido branco retornou sem o cesto, acompanhada de um adulto barbudo, trajado com um macacão cheio de palha. O homem, em seu físico, não era tão musculoso, mas era alto. A garota assumiu que fosse o pai da garota do vestido branco.
— Desça daí, ladra! — Disse o homem, apontando para a garota em cima da árvore — Essas maçãs são minhas!
A garota, sem saber o que fazer, derrubou as maçãs, desceu da árvore e explicou a situação para o homem, que não cedia sua misericórdia.
— Você não me engana — Disse o homem — Você sabia das minhas maçãs e tentou tentar a sobrinha da minha nora para te ajudar. Escute aqui — Disse o homem franzindo ainda mais as sobrancelhas espessas e dizendo num tom mais alto — Não quero mais ver você por aqui, entendeu? — Disse o homem, pegando todas as maçãs caídas e, depois de recolher todas, retirou-se para casa. Mas, antes disso, entregou duas maçãs para a garota do vestido branco, junto a um abraço e um obrigado dito bem baixo.
Assim que o homem se foi, a menina do vestido branco deu uma mordida demorada na maçã mais vermelha e, depois disso, disse em tom de deboche para a garota:
— Você não pertence a esse mundo.
E foi em direção a colina abaixo. A garota, então, ficou ali parada por um tempo, tentando segurar a vontade de chorar e, assim que seu coração começou a ceder, percebeu que não estava quente, apesar de o sol ainda tocá-la, o céu não estava bonito, apesar do pôr do sol majestoso que ainda tocava seus olhos, os animais já não mais importavam e as pessoas se caracterizavam algozes. A garota, então, viu-se novamente na caixa metálica e, pouco tempo depois, a porta trancou-se sozinha.
Mais uma vez, escuridão total. A garota negava-se a acreditar no que havia acontecido e tentava se culpar em contextos de prudência e confiança. Tais pensamentos surgiam a medida que suas lágrimas iam caindo.
Depois de um tempo, surgiram borboletas majestosas dentro da caixa, de alguma maneira. A princípio, uma borboleta amarela apareceu e fez uma acrobacia digna de aplausos. Depois disso, mais borboletas de diferentes cores foram surgindo: Azuis, púrpuras, laranjas, verdes… E todas elas começaram a definir uma música que começou a ecoar por toda a caixa metálica. Uma borboleta representou o violino enquanto outra representava o piano, outra a flauta e, desse modo, orquestraram uma linda melodia e uma bela coreografia. A garota achou fútil a princípio, mas ficou encantada com o decorrer da orquestra e a assistiu inteiramente sentada.
Foi então que uma minúscula falha na música retomou os pensamentos da garota para a garota do vestido branco, e então toda a orquestra desapareceu com um grito agudo. Só restou uma borboleta, cinza e bem diferente das outras: Ela tinha pernas humanas e não brilhava tanto quanto as outras. Foi quando a borboleta se encostou no canto da parede que começou a falar, com uma voz rouca:
— Sabe, isso foi um belo show. Foi mesmo. Você não precisa mais se preocupar com o mundo lá fora já que você tem algo tão bom aqui dentro, certo? — E, assim que a garota começou a concordar, intuitivamente, com a borboleta, a cor da borboleta começou a voltar. O cinza tornou-se um arco íris e as pernas bizarras desapareceram — Viu só? Isso pode muito bem durar para sempre. Basta apenas você encontrar o livro com o seu nome!
E a porta novamente abriu num estrondo. O ar, assim que penetrou a caixa de ferro, transformou a borboleta em pequenos farelos de papel. Um ar gélido encheu o local e uma luz suave enchia a caixa de metal com alguma iluminação.
A garota, com medo do exterior, aproximou-se lentamente da porta. Incrivelmente, o lugar que estava agora era diferente do anterior.
Tudo agora era noite, e a luz que entrava no lugar vinha da lua, minguante, que pairava no topo do céu estrelado. O que eram colinas, antes, tornaram-se planícies agora. Não havia animais ou construções, apenas as silhuetas de árvores mortas.
A garota, diferente de antes, foi tomada pela ira, agora. O que tinha feito ela para não merecer o mundo lindo que se encontrava anteriormente? A culpa, claramente, era da garota do vestido branco. A garota desejou que tivesse sua inimiga em frente agora, para que lhe pudesse ensinar uma lição.
Motivada por esse pensamento, a garota começou a andar para uma direção, mesmo que a direção não provia nenhuma vista. Ela acreditava que, seguindo em frente, encontraria a razão de sua raiva. As estrelas começaram a brilhar cada vez mais forte, as árvores começaram a ficar cada vez mais altas, mas a lua continuava no alto do céu, imóvel.
O lugar distorceu tanto, depois de um longo tempo de caminhada a passos fortes, que as árvores tinham seus galhos como raízes e subiam encurvadas e todas as estrelas desapareceram, mas a lua apenas ficou maior, mais próxima que parecia que poderia tocá-la. A garota, então, parou e refletiu sobre a situação, em busca de respostas. O que fazia naquele lugar horroroso, afinal? O que faria com a garota caso a encontrasse? Sentiu-se mais perdida que nunca e lamentou estar tão longe da sua caixa metálica.
— Não fique triste, garota — Uma voz rouca, conhecida, ecoou atrás dela. Assim que a garota se virou, tudo ficou escuro novamente e apenas sobrou a borboleta, agora cinza e com pernas humanas, que tinha conversado com ela anteriormente — Aquele não é o seu lugar. Seu lugar é aqui, longe de tudo e todos. Eu protejo você!
A borboleta disse, e transformou-se em uma borboleta arco íris novamente. Assim, começou a voar em círculos em volta da garota.
— Por que você não fala comigo, moça? — A borboleta disse numa voz suave — Você sabe que pode confiar em mim, não sabe? Lembra-se que eu falei do livro com o seu nome? — A borboleta parou de voar e pousou na frente da garota, que a observava sem se mover. A cena perpetuou-se por um bom tempo até que a borboleta continuou a falar, lentamente — Se você quiser, eu te levo até lá.
E, mais uma vez, a porta abriu-se num estrondo que produziu um som parecido com um trovão. A borboleta, mais uma vez, esfarelou-se em papel. Uma luz mais ardente entrou na sala agora. Na frente da garota, a porta aberta mostrou um mar de um azul lindo. Uma alegria veio, instantaneamente, em si e, sem pensar muito, atirou-se na água.
Então, a garota nadou, explorou o local e encontrou até algumas conchas. O sol estava brilhando num esplendor amarelo, a água estava calma e havia vários peixes nadando ao redor, de diferentes cores, espécies e tamanhos. Foi então que, ao longe, avistou pessoas. A garota começou a olhar as pessoas atentamente, e encontrou uma garota com o mesmo vestido branco que havia encontrado anteriormente. Não era a mesma garota, mas lembrava muito a portadora anterior do vestido.
A garota, então, sentiu um instinto de fugir daquele lugar, com medo de ser machucada novamente. Contudo, estava relutante, dado que queria passar mais tempo no local. Pensou em continuar nadando bem distante da garota, mas concluiu que ficaria apreensiva do mesmo modo. Pensou também que poderia dar certo ela falar com a garota, para poder nadar mais tempo em paz, mas ela não conseguiria fazer isso. Enquanto pensava, a maré a arrastava para mais fundo no mar, de volta para a caixa metálica. A garota, ao perceber que estava sendo puxada para dentro da caixa, tentou nadar e tentou mergulhar, mas nada deu certo. Por fim, apenas fechou os olhos e esperou que, quando os abrisse novamente, ainda estaria no mar.
E, então, tudo estava escuro, novamente, quando ela abriu os olhos. Mais uma vez estava na caixa metálica. E, mais uma vez, a borboleta cinza reapareceu.
— O lugar era lindo, realmente, mas você não precisa dele. Não tem para que se arriscar quando a segurança está aqui dentro, certo? — Disse a borboleta em um tom alegre. Esperava tornar-se da cor arco íris novamente, mas isso não aconteceu — Não fique triste, garota. Esse é o mundo, e sempre será. Não quer ver o livro com o seu nome agora?
Assim que a borboleta disse isso, um caminho, dentro da caixa, apareceu. E estendia-se até uma montanha longínqua. Era surreal: A caixa não era grande o suficiente para carregar tamanho cenário. Na encosta da montanha, havia uma ponte de corda que ligava a montanha a um altar. O céu era tão escuro que a garota pareceu estar no espaço, mas caía uma chuva gélida e forte do céu.
— Está vendo lá? — A borboleta apontou para o altar — Lá está o livro com o seu nome. Vamos logo!
E, assim que a borboleta cinza começou a andar em direção do altar, a garota começou a segui-la.
O caminho foi difícil, dado a iluminação pequena. A única iluminação vinha da borboleta cinza: Uma iluminação igualmente cinza e fraca. Cada passo que a garota dava formava uma poça de lama no chão. Foi continuando, seguindo a borboleta, e, um bom tempo depois, encontraram a ponte.
— Vá em frente — Disse a borboleta cinza com pernas humanas — O caminho a frente é seu.
E, então, a garota deu o primeiro passo na ponte de corda. Ela estava tão alto que, ao olhar para baixo, viu as gotas da chuva caindo, mas nunca encontrando um chão. E deu mais outro passo, e mais um. Quando a garota encontrou a metade da ponte, um relâmpago surgiu no horizonte. O trovão veio quase que instantaneamente. A garota continuou a andar até que chegou ao altar. Não conseguia encontrar nada em volta por conta da escuridão do lugar.
Olhou para trás para ver se a borboleta cinza a ajudava, mas ela não era mais uma borboleta. Era uma mariposa, marrom, bem maior que antes, isto é, do tamanho de um humano adulto, que tinha olhos vermelhos e emitia uma luz negra que, de alguma forma, se destacava na escuridão. A mariposa ficou parada, altiva, como se estivesse bloqueando a volta da garota.
A mariposa, por fim, apontou para a garota. Assim que ela o fez, a garota virou-se para verificar se havia aparecido alguma iluminação. Foi assim que, em um momento, um raio iluminou, em um flash rápido, todo o lugar e a garota encontrou o livro com o seu nome: Sua lápide.
Assim que a claridade do raio extinguiu-se, a imagem da lápide ficou gravada na mente da garota. Ela tentou olhar em volta, mas nada mais via além da imagem da sua lápide. Ela tinha um buraco no chão a sua frente, um passo de distância da garota.
A garota então parou. Fechou os olhos e encarou a imagem da lápide que apareceu em sua frente. Seu nome estava lá. Continuou encarando, pensando no mundo maravilhoso que encontrou, nos pequenos momentos de alegria que teve e, bem lentamente, a lápide foi se desfazendo de sua mente. A garota ouviu as asas da mariposa batendo, passos raivosos que causavam um relâmpago assim que tocava a ponte e gritos vindos de todos os lugares. Quando os passos chegaram atrás dela, quando os relâmpagos pareciam estar bem em cima de si, a imagem da lápide não havia desaparecido, mas tinha se transformado em uma outra coisa: Um diário com o seu nome escrito na capa.
O que veio depois foi silêncio absoluto. A chuva parou, os passos pararam assim como os relâmpagos também. E, quando abriu os olhos, viu o sol, colinas e o mar novamente. Olhou para trás, e não havia nenhum sinal de nenhuma borboleta, mariposa ou caixa metálica.
Algum tempo depois, o diário foi preenchido, e ali jazeram a mariposa e a caixa metálica.
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