A Garota De Roupas Excêntricas.
3 A Pista de Skate.
O muro da escola era o que podemos denominar de enorme paredão. A mochila nas costas pesava com o skate. Infelizmente topei entrar nessa. Faz tempo que não voamos nessa prancha de quatro rodas, praticar o meu Kickflip, ter a noção de que você pode voar sim, nem que seja por pelo menos poucos segundos. Greer estudava minuciosamente uma maneira de pularmos aquilo, enquanto Mattie havia ido checar se o porteiro estava cochilando ou muito bem atento.
- Se pormos o nosso pé nessa base aqui e estender o braço o suficiente, dá para alcançarmos! Até porque, não é tão alto assim. – Falou saindo de sua pose pensativa e esfregando as mãos, apanhando sua bolsa do chão a colocando no ombro direito.
Uma criatura chega ofegante. Era o Mattie. Apoiou suas mãos nos joelhos, curvando sua coluna para frente e sugando o oxigênio desesperadamente. Isso foi o que, uma maratona?
Reorganiza-se.
- Me escondi em uns arbustos que dava um ângulo perfeito para a cabine dele! Está muito bem acordado! Uma hora devora uma revista em quadrinhos, na outra ele checa a passagem.
A tentativa de passar pela porta principal foi para o ralo junto com a minha coragem.
- Onde eles estão? Eu queria tanto um autógrafo! – Alguém sussurrou tristemente. Com certeza era uma voz feminina, aguda e meio desgostosa.
- Fica assim não! A gente os acha por aí! – Outra menina consolou-a.
- Vai, vai, vai! – Murmurou aperreadamente o George.
Fui o segundo a subir, o primeiro havia sido o Mattie. Não ouve um barulho tão alto, apenas um ruído rápido de pés chocando com o chão. Estiquei o máximo que pude o braço esquerdo para escalar o muro branco. Esforcei o outro braço e consegui subir. Encarei o chão, essa porra deve de ter três metros. Fiquei meio enjoado e zonzo ao enxergar o Mattie me chamando e prendendo a risada. Preguei os olhos tão fortemente que chegou a liberar água deles. Desprendi dali, caindo feito saco de batatas no chão. Mattie emitiu uma gaitada.
- Tombo da porra, man! Você parecia aquelas folhas voando no ar e se estatelando no chão, sendo que elas caem suavemente e você não! – Seus risos foram aumentando. Ainda no chão, lamuriei o meu estado e olhei para cima, encarando outro ser humano prestes a dar um salto estilo ninja.
- Jerônimo! – George deu o aviso e eu rolei para o lado, temendo que ele se estabacasse em cima de mim. Ouvi apenas os dois pés cravando o chão. É foda! Por que só eu, até agora, fui o único que me estrepei?
- Tá lascado hoje para andar de skate, viu? – Estendeu sua mão e eu a aceitei.
Escutei outro corpo caindo severamente no chão. Eu já estava doído, vendo uma pessoa passar pelo mesmo é torturador.
- Pois é, Greer. – Pus as mãos na cintura e deixei minha coluna ereta para a dor aliviar. – Somos dois.
Estendi a mão e ele também se levantou, com dificuldade e gemendo. Seu cabelo caia suavemente pela testa.
- “Tamo” fora! – Gritou comemorando.
- Skate!
- De volta aos velhos tempos.
Lembrete: Se alguém flagrar, postar na rede e correr pelo mundo, fugir para Timbuktu e mudar o nome para Pikachu.
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A pista estava lá, intacta e com pelo menos, quatro caras curtindo suas manobras. Sorri ao relembrar de quando tinha 13 anos e sempre corria para cá somente para andar de skate. Um cara passou por umas barras de ferro de uma escada e fez uma darkslide perfeita. Seus amigos vibraram.
- Que diabos nós estamos esperando? – George indagou deitando o objeto no chão liso e já montando. – LOL, eu ainda consigo me equilibrar!
Disse ele impressionado e dançando em cima do skate. Há um ano não visitamos essa pista desde que nos envolvemos com o Jerry. Eu não sei qual é o problema do skate para ele, qual a visão, qual a mensagem ruim que esse esporte transmite? Ninguém nunca me disse nada de errado com isto.
Os meninos copiaram sua ação e já montados, afundaram na pista de skate, rindo igual a crianças. Sorri involuntariamente e o sol foi tapado pelas nuvens grandes e espessas em um tom de cinza claro, só dando indícios de pancadas pequenas de chuva. Suspirei e retirei o skate da mochila. Por uns segundos, estudei o adesivo colado em suas costas. Uma família de caveiras sorrindo alegremente, como todo o belo sorriso da caveira. Deitei-o no solo e montei. As lembranças do início da adolescência amontoam-se em vários cantinhos da minha memória.
Dou o impulso com o pé e deslizo já na rampa, com uma brisa derrubando o meu capuz. Realizei um Airwalk. Eu não perdi minha essência. Vi o Greer executar um switch stance.
Voltei minha atenção ao meu equilíbrio, até porque, o tempo que entrei em hiato com esse esporte é consideravelmente muito, para mim.
Respirei com força e me preparei para efetuar a minha favorita. 540. A sensação de voar é inegável, planar no ar sem necessitar de asas, somente impulso e determinação. Mantive os olhos bem abertos, mas devorando cada segundo tranquilo do momento. Algo que vinham roubando de nós. Nem parece agora que fazemos parte de uma banda e estamos entrando para o mundinho pantanoso das celebridades. Eu me senti um ser humano comum. Eu me senti humano.
- Tá fodão ainda, hein Edrick? – Mattie elogiou e eu freei abruptamente o skate. Ri e ele elaborou a simples ollie antes de chegar mais perto.
- Ali tem outra pista, com mais obstáculos! Vamos lá, cara! – O sol reapareceu das nuvens espessas e elas foram se dispersando e desmanchando-se calmamente. A temperatura estava agradável.
- Povo da silva! Vamos lá pra outra pista! – Berrei não só chamando a atenção deles e sim, também dos outros skatistas presente ali. Abaixei a cabeça imediatamente.
- Depois eu que sou o retardado mental, né? – Mattie segredou furiosamente.
As rodas do skate dos meninos aproximaram-se rangendo na pista chata. Ajeitei o meu skate entre o braço e chegamos. Notadamente, ela é bem mais ampla e com mais corrimões e pirâmides. Deslizei por um corrimão e efetuei um Smith Grind com sucesso. Saltei na pista e comecei a ziguezaguear até ouvir uma freada espasmódica e eu pulei do meu skate, fazendo-o dar cambalhotas. Parou perto de um caixote emborcado.
Elevei o meu olhar e enxerguei uma meia listrada e outra preta cinzenta de bolinhas, o mesmo vestido de cetim preto que havia avistado hoje na chegada, os calçados distintos e o cabelo em tom de arco-íris. A pele parecia à cor da neve de Minneapolis.
É ela.
Ela virou. Seu vestido não balançou com o movimento, ao contrário, foi só o seu cabelo estrambótico. Nossa distância não era muita e eu fui perfurado por majestosos olhos castanhos escuros, mas com a luz do sol refletida, a íris ficara mais clara.
- Foi mal... – Uma voz calma e muito bonita, melodiosa e um pouco rouca, mas só um pouco mesmo. – Foi repentino!
Ela deu um sorriso pequeno. Estranhamente eu quis sorrir também, mas o omiti em minha expressão ainda assustada.
- Err... – Hein? – Não foi nada não! Só acho que devia prestar mais atenção.
Disse simpaticamente, mas sem sorrir.
- Você também. Não descolava os olhos do skate!
- É que... – Cocei a nuca, me encabulando. – Faz tempo que não o curto!
- Emily! Você tá bem? – Aquela punk surgiu de não sei onde, expressando sua preocupação com aquela garota. – Veada! Tu toma cuidado quando estiver andando nesse negócio, porra!
Pensei por uns segundos que ela iria devorar sua amiga somente pelo olhar matador.
- Afê, e naquele dia que você simplesmente passou por cima do moleque de nove anos e quem foi parar no hospital? Você!
- Claro. Eu voei em cima de um caixote! Por pouco não fraturei o pescoço!
A menina que gritava com ela com os nervos exasperados girou-se e me encarou como se eu fosse alguma arte em exposição. Em seguida, sorriu abertamente.
- Olá. Você foi quase à vítima dela ou o criminoso dela?
Elas riram sintonizadas e aquele mesmo garoto meio grunge apareceu enlaçando as mãos na cintura da punk.
- Tá bem, Emy? Eu quase que tinha uma crise de pânico ali!
- To sim, eu consegui frear. – Todos os olhares se voltaram para mim. Os azuis cobaltos do menino, o verde mar de sua “namorada” e o castanho escuro com alguns tons claros daquela menina.
- Vocês estudam da Minneapolis High School? – Vazou da minha boca.
- Claro! Mas como são quinze minutos de intervalo, nós sempre saímos para vir aqui pra pista ou ir fazer qualquer outra coisa! – Emily, respondeu alongando seu sorriso e já exibindo seus dentes tão bem juntos e alvos.
- Como você nos conhece? É o tal novato que o povo lá tava comentando? – O menino perguntou ainda colado com a outra.
- Não só ele. Nós todos! – Greer posicionou-se ao meu lado e os outros dois também. George tinha em uma de suas mãos o meu skate. Ele me deu.
- Legal!
- Você é bem diferente. – Ah claro. Sempre temos que contar com o idiota da turma. E ele é sempre o Greer. E sim, ele se referiu a Emily.
- Eu gosto. Sinto-me eu. – Isso despertou um interesse em mim, na conversa se formando ali. Verifiquei o horário em meu relógio: 10h23min.
- O sinal toca às dez e meia, não se preocupe. – O grunge comentou. – A propósito, meu nome é Cameron York!
Apresentou-se.
- E o meu é Cynthia Campbell.
- E acho que o meu já é conhecido também. É Emily Longbottom!
- Eu os vi na entrada. São chamativos!
- Talvez a mais chamativa seja ela. – Cameron apontou para a menina dos cabelos multicoloridos e finalmente despregou da outra garota.
- Nós somos desse jeito porque gostamos de ser assim. – Cynthia explicou. – Emily também dá grandes lições às pessoas. É uma ótima conselheira!
Bagunçou a franja enviesada da amiga.
- Bem, mas você é o que? Uma gótica? Uma mistura de tudo que dá uma gótica alegre?
Mattie indagou interessado e investigando seu visual.
- Não me rotulo como uma gótica alegre, nem sei se isso existe. Sim, eu misturo tudo. Posso ir do punk ao emo, apesar de que não o curto muito. Eu faço um misto de tudo, mesclo coisa com coisa! Coisas que as pessoas pensam que jamais combinariam e eu as faço pensar que não, ou então, elas rejeitam porque estão com o orgulho ferido!
Absorvi cada palavra dela bobamente. Pisquei os olhos com força e me certifiquei do horário. Oh God! Dez horas e vinte e nove minutos.
- Vamos gente, já tá na hora. – Cameron pôs um braço ao redor do pescoço da Emily e o outro no da Cynthia.
- Não acho bom vocês gazearem aula logo no primeiro dia de aula de vocês! – Alertou a garota das misturas.
Passamos a os seguir.
- Por que chegaram agora para as aulas?
- Porque somos uma banda nova de pop que tem que passar a imagem de estudiosos e de que não perdeu suas raízes, já que o filme da música pop está meio queimado na mídia! – Notei um descontentamento fundo na voz do George.
- Desculpe, não ouvimos pop.
Fazem bem.
- Claro! Isso é muito notável. – Greer rebate sarcasticamente. Rolei os olhos.
Fomos então, seguindo o mesmo rumo de volta para a escola. Eu estava animado com a possível ideia de matar aula. Só que pensando pelo lado sensato, esse seria o pior disparate da minha vida e carreira.
Minha atenção durante o trajeto gruda-se na pequena pessoa a caminho da escola na minha frente. Okay, isso está meio estranho.
Continua...
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