A Garota De Bronte
14 XIII
Notas iniciais
( Narração Nathan)
Quando acordei, estiquei os dedos pelo sofá pequeno e senti o couro gelado nas extremidades da mão. Estava procurando por Jacey. Abri os olhos tentando encontrá-la, mas não a vi em lugar nenhum, nem nenhum sinal de que ela esteve realmente ali noite passada. Para onde ela fora?
Do outro lado da porta, eu podia ouvir os guardas conversando sobre alguma coisa que comeram no café da manhã. Sem demora, me levantei. Senti uma pequena pontada de desconforto nas costas. Embora o sofá fosse pequeno e desconfortável, pela primeira vez em uma semana teve uma noite decente de sono. O problema era que quando fechava os olhos para tentar dormir, as lembranças voltavam para roubar-me o sono. Na maioria das noites, ia dormir quando o sol já estava nascendo. Passava madrugadas inteiras remoendo e relembrando. Não era o medo de morrer, era o medo de como morrer. Nunca mais queria sentir uma faca entrando no corpo. Era como uma pedra fina de gelo cortando seus tecidos. O ferimento não foi tão fundo assim para que causasse a morte, por sorte, mas fundo o bastante para causar uma dor lancinante e fazer perder muito sangue. E no fundo eu sabia que toda vez que fechasse os olhos, sentiria a mesma sensação. O mais incrível era que a única coisa que afastava esses pensamentos sombrios da minha cabeça, era pensar na pessoa que me salvou a vida naquela noite. Ela funcionava como um amuleto para afastar tudo de ruim, mas do mesmo jeito que afastava também aproximava a lembrança do perigo que espreitava debaixo do internato.
Pensar em Jacey lembrava Augustus. De todas as pessoas na terra que serviriam para protegê-la de todo e qualquer perigo, Augustus era a única que não se encaixava nesse grupo. Além de ter todo o tom arrogante, ele andava como um pavão expondo as suas penas para todas as garotas que passava. Eu notei o jeito que ele olha para Jacey, Libby e Alyss. Como se estivesse as imaginando em outras ocasiões. Além disso, ele tentava resolver todos os mistérios sozinho como se a minha mentalidade não fosse nada comparada com a dele. Antes de tudo aquilo acabar, eu resolveria meus problemas com Augustus.
Aquele dia foi imensamente tedioso. Não recebi nenhuma mensagem de texto de Libby ou de Jacey. Elas estavam em aula das oito até as quatro da tarde, mas o sol já se abaixava no horizonte e nada delas. Cansei de esperar, peguei o telefone celular e digitei uma mensagem para Libby.
“Vão me visitar hoje?”
Sem resposta.
Ela deveria estar ocupada com alguma coisa ou com alguém, então enviei o mesmo texto para Jacey. Também não obtive resposta. Lancei o celular na cama, peguei o controle remoto e liguei a televisão.
Ela chiava de vez em quando mas até que os canais funcionavam bem. Liguei no noticiário. Eu conhecia aquele lugar e a notícia se tratava de um homicídio. Sim, era sobre o internato.
- Mais um corpo foi encontrado no Colégio Interno Bronte. O da jovem adolescente Caroline Adams Turner, de dezessete anos. Ela cursava o segundo ano do ensino médio. A polícia está trabalhando dia e noite no caso. Ainda não há certeza de nada sobre o assassinato de Penny Allen. – A câmera se voltou para uma homem ao lado da repórter – Estamos aqui com o detetive Martin. Ele está investigando os dois homicídios. Detetive, você acha que é possível ter alguma ligação com o assassinato de Penny com o de Caroline?
O homem, de cabelos grisalhos e olhos cinzentos, tomou frente para falar ao microfone da repórter. Ele se movia de modo misterioso e ao mesmo tempo sem jeito. – Os dois assassinatos foram se maneiras completamente diferentes. Primeiramente, o corpo da jovem na árvore foi deixado de maneira exposta, para que todos os vissem. Mas o corpo da segunda, foi encontrado encolhido dentro de um banheiro e a arma do crime foi totalmente diferente.
- Você quer dizer que podem ser dois assassinos diferentes?
- Sim, é possível. Mas porque não um só, apenas brincando com as nossas mentes?
- Quais as medidas preventivas que os alunos da escola devem tomar? E os seus pais? Estão tirando os filhos da escola?
- Ainda não sabemos quem é o assassino. Qualquer um pode ser. Temos fortes suspeitos. – Ele pigarreou. – Não acho que seja errado tirar o seu filho da escola, embora tenha ocorrido mais uma assassinato aqui, a escola continua segura para todas as crianças. Estamos cercando todo o perímetro do local e instalamos guardas armados por todos os lados.
Perdi a paciência e desliguei a TV. A escola era segura, mas o assassino conseguiu matar mais uma pessoa dentro da escola no meio do horário de aula. Não é possível que ninguém tenha notado.
Se os meus pais estivessem vivos, eu estaria longe daqui há dias. Mas não tenho para onde ir. Estou no internato há seis meses. Meus pais morreram em um assalto de banco. Meu pai levou quatro tiros por tentar reagir quando um dos ladrões usou a minha mãe como refém e enfiou uma bala na testa dela. Desde então, meus avós usam o dinheiro de herança para pagar o internato, pois estão velhos demais para cuidar de mim do outro lado do país.
Passei o resto do tempo aguardando por uma mensagem de texto ou sinal de vida das garotas, mas nada. Desisti e tentei dormir, assombrado pelos meus pensamentos.
(Narração Augustus)
A palavra “desesperado” traduzia bem como eu me sentia naquele momento. Recebi a tarefa de cuidar de uma garota de quinze anos, mas ela era tão incontrolável e impossível de contrariar que deixa a tarefa trinta vezes mais complicada. Ela era impulsiva, imparcial e tão teimosa que me deixava furioso, mas ao mesmo tempo me deixava loucamente preocupado com o bem estar dela. Quanto mais me irritava mais raiva eu sentia por não querer desistir. A melhor amiga, Libby, era tão doce e gentil, seria muito mais fácil tomar conta desta do que de Jacey. Ela me respondia mal, não dizia para onde estava indo e não me dava informações úteis sobre nada. Ou eu tentava entender ou dava espaço para que ela desse seus ataques de raiva e de teimosia.
Em uma noite, estávamos andando juntos até o dormitório e ela foi tão amável comigo que eu não conseguia acreditar que era realmente Jacey. Entretanto, minha ilusão se foi assim que viramos a esquina e eu soltei uma pequena frase sobre não gostar muito de Nathan. Havia alguma coisa nele e desde ontem, quando a garota (Caroline) morreu, estou com um enorme pé atrás em relação a ele. A garota disse, e eu ainda me lembro, de grandes olhos escuros. Os olhos de Nathan eram tão escuros e tão sombrios que não duvidava de que ele mesmo fosse o assassino.
Ele poderia tê-la matado. Ele poderia ter pegado o caco de vidro da janela da biblioteca quando caiu com Jacey. Poderia ter escapado pela janela do hospital e apunhalado a garota ali mesmo, dentro do banheiro. E a facada que levou dentro dos túneis... Já ouvi muitos casos de pessoas que se machucaram para serem excluídos das listas de suspeitos. Quando Jacey disse ontem que dormiria no quarto junto com aquele garoto problemático, senti vontade de explodir, de gritar com ela. Quis dizer a ela que suspeitava do amigo, quis realmente tentar convencê-la. Mas do jeito que a garota era teimosa, começaria a discutir comigo ali mesmo e a dizer o quanto eu era infantil e ciumento. E tudo o que eu menos queria, era começar uma briga com ela.
Então permiti.
Mas fiquei a noite inteira do lado de fora. Ela tentou me dispensar, disse que poderia tirar o resto da noite de folga, mas não. Preferi vigiá-los de perto. Quanto mais perto melhor.
Ainda estava sentando do lado de fora quando o hino começou a tocar dentro dos dormitórios. Àquela distância, não passava de um eco do som, mas vi Jacey se levantar e sair de dentro do quarto de Nathan com os cabelos bagunçados e a cara inchada de sono. Ela tomou um pulo quando eu disse bom dia.
- O que está fazendo aqui?
- Geralmente as pessoas respondem desejando um bom dia também, não com toda essa hostilidade.
Ela revirou os olhos. Do jeito que sempre fazia quando achava alguma coisa idiota e sem sentido. – Bom dia Augustus! – Ela respondeu com uma animação falsa. – Agora por que você está aqui mesmo? Lembro-me de ter mandado você embora ontem.
- Eu estou só fazendo o meu trabalho.
- Só isso?
- Sim.
- Tem certeza? Não tem... Nenhum outro motivo?
- Não.
- Tem, sim.
- Não tem, não.
- Tem porque... Espera – ela parou para olhar nos meus olhos. – Você dormiu essa noite?
- Não.
Jacey ficou surpresa. – Você está acordado desde ontem?
- Não. Eu tirei uns cochilos.
- Augustus! Assim você vai morrer! Poderia ter tirado a noite de folga.
Coloquei o calcanhar sobre o joelho e os braços atrás do pescoço para me acomodar melhor na poltrona. – E deixar você desprotegida durante a noite inteira?
- Os guardas estavam a noite inteira aqui na porta, não há necessidade.
- Mas os guardas ficam mais preocupados com o jogo de futebol do domingo do que com a sua segurança caso você esteja sendo esfaqueada dentro daquele quarto. Eles nem ouviriam você gritar.
- Está querendo dizer que Nate poderia ter me esfaqueado? – Ela cruzou os braços sobre o peito. O que significava que estava ficando brava. O que não era bom. – Augustus... eu sei que você não gosta dele mas ele não é nenhum assassino.
Eu não respondi nada, apenas balancei a cabeça. Se tentasse argumentar, Jacey começaria a defender Nate e acabaríamos brigados. Era melhor fazer o meu trabalho ao invés de discutir. No final, veremos quem está certo.
Acompanhei-a até o dormitório onde ela tomou banho e se vestiu para assistir às aulas. Todos os dias eram iguais. As mesmas aulas, os mesmos assuntos no intervalo. A mesma tagarelice de Libby. As mesmas risadas irritantes dos outros jovens... Os mesmos idiotas falando de Jacey pelas suas costas... A única aula diferente era a de teatro. Na qual podia entrar e assistir. O resto, ficava do lado de fora, no corredor.
Depois quando saímos do prédio onde ficavam as salas, tive que levar Jacey para as aulas de música, ela estava aprendendo a tocar piano com uma professora magricela. Eu não reclamava nem dizia nada, mas minhas pálpebras fechavam de sono enquanto ela martelava as teclas. Ainda depois disso, precisava levar Jacey para o dormitório e encerrar o meu dia, trocar de turno com o guarda noturno que ficava a noite inteira na porta do quarto dela, mas ainda faltava tempo para as onze. E não estava nem um pouco a fim de passar as ultimas horas trabalhando dentro do quarto de Nathan.
- Jacey, quer ver um lugar? – Eu já sabia de um lugar para distraí-la.
- Qual lugar? – Jacey começou a chutar uma pedra enquanto andava.
- Você vai gostar.
Levei Jacey para dentro do dormitório das garotas. Ela balançou a cabeça dizendo que conhecia o prédio e que passava todos os dias dentro dele. Como sempre, reclamando. Subimos a escada de emergência até o último andar e andamos pelo corredor do dormitório. O sol fraco do fim do dia tingia todo o espaço de laranja. Virei-me a direita e puxei uma escada de madeira. O lugar era como um porão, mas tinha acesso à caixa d’água e à cobertura. Subi a escada e olhei para baixo, Jacey estava insegura.
- Vamos! Sobe. Não vai se machucar.
Ela me olhou séria e depois abaixou os olhos. – É que...
- É que...?
Jacey respirou fundo. – É que na última vez que fiquei fora da vista das outras pessoas com um garoto, alguém acabou se machucando... E não acho que é uma boa ideia também porque ai tem muito pó.
- Eu estou aqui. Nada de ruim vai acontecer. Eu tenho uma arma. – Coloquei a mão em cima da pistola que guardava no cinto. A arma eu tinha, mas as balas eram só as doze que estavam no cartucho.
Ela olhou para a pistola e fez que sim, mas ainda estava séria. Estendi a minha mão e ela se puxou para cima. O lugar ainda era o mesmo uma semana atrás quando vasculharam todo o dormitório feminino. Cheio de pó, caixas com objetos perdidos de antigas alunas, caixas e mais caixas. Um feixe de luz entrava por debaixo da porta no fim do depósito. Era a única fonte de luz.
- Que lugar é esse? Você disse que eu ia gostar.
- Já estamos chegando lá, calma. – Andei até a porta e abri com um solavanco. Ela se abriu com um rangido.
A vista continuava linda. O topo do prédio das garotas era do lado dos jardins da escola e a parte mais ao norte, onde ficava a reserva. Do outro lado, a luzes da cidade mais próxima iam se acedendo, uma a uma, enquanto o sol se abaixava a oeste. A visão era realmente linda.
- Uau. – Jacey disse ao meu lado. Ela andou até o muro e olhou para baixo. – Dá para ver as pessoas andando lá embaixo.
- É. – Eu ri e coloquei os braços atrás do pescoço. – Achei que ia gostar mesmo.
- Sim... Como encontrou esse lugar? – A luz do sol bateu no rosto de Jacey e os olhos azuis gelados dela ganharam um toque de calor diferente. Não era dela mas realçava o que faltava.
- Em uma das investigações. Tivemos que vasculhar todo o prédio procurando pistas. Achei esse lugar aqui e gostei muito.
- É realmente lindo.
O telefone dela começou a tocar.
- É o Nate. Espera só um instante.
- Não. – Tomei-lhe o celular da mão e a puxei para perto. A princípio, notei a fúria nos olhos dela e antes que pudesse dizer alguma coisa, eu a beijei.
Notas finais
~Verônica.
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