Carlos sobe as apinhadas ruas do morro sustentando sua máscara de rei.

"Se aquele merda pensa que vai traficar o que quer que seja sem a minha permissão, ele está muito enganado", pensa, enquanto se certifica de que sua arma está no cinto. Ele não podia dar bobeira, a qualquer momento algum pivete metido a bandido pode aparecer e tentar "acabar com ele". Como se fosse fácil. "Sou eu que mando nesse morro, e ninguém vai fazer nada aqui sem a minha permissão".

Ao chegar em um beco escuro, ele tira a arma do cinto e adentra na escuridão. Ele se assusta com os passos atrás dele, mas se lembra de que são apenas os seus dois guarda-costas. Ele caminha para frente de um grande portão, de onde saem três homens com grandes fuzis nos braços.

— Abre — murmura para eles, que hesitam. — Abram essa merda agora — Ele pega o revólver na cintura. — Esqueceram de quem manda?! Abram agora!

Os homens abrem o portão e esperam até que todos estejam do lado de dentro para trancá-lo. O Homem do meio acena em direção aos fundos, indicando onde o chefe dele está. Carlos faz sinal para que seus companheiros aguardem por ele ali e segue para os fundos.

O lugar é um galpão enorme, com várias divisões internas. Nessa área que da para o portão, pode se ver algumas vans coloridas e muitas armas e caixotes. Nos fundos do galpão se encontra uma espécie de escritório camarim. Um lado possui móveis executivos, aparentemente novos, que contrastam com a imundice do lugar e com o outro lado, onde se encontra várias bancadas com espelhos, perucas, maquiagens, tintas e outras coisas do gênero.

James está sentado atrás de uma mesa executiva, em uma confortável cadeira de couro, enquanto lê alguma coisa em seu laptop. "Gringo imbecil", pensou ele. James é de algum lugar da Europa, Carlos não sabe muito bem de onde, exatamente. Ele se dirige para uma poltrona em frente à mesa, espantando uma ratazana no meio do caminho.

O homem detrás da mesa nem ao menos pisca, continua entretido por alguns instantes, até levantar os olhos para ele.

— Creio que você seja o Carlos — diz, com um forte sotaque. — Ouvi muitas coisas ao seu respeito.

Carlos continuou a observar ele, sem ligar para o que ele acabou de dizer. Após alguns instantes ele ativa a trava de segurança do revólver, mas continua com ele na mão, pois sabe que esse cara não é tão inofensivo quanto aparenta.

— Também ouvi coisas sobre você — responde.

James esboça um sorriso frio e calculista.

— Espero que tenham sido coisas boas...

— Na verdade — interrompe Carlos. — Ouvi dizer que você estava louco para levar uma bala na testa.

Ele levanta uma sobrancelha, como se não soubesse o motivo da agressividade.

— Estou confuso... — diz ele. — O Senhor vem até o meu local de trabalho e me fala uma coisa dessas... Não é muito cordial.

Carlos solta uma longa gargalhada.

— Você só pode estar de brincadeira comigo! — grita ele, destravando a arma e apontando para a cabeça dele. — Diz que é uma brincadeira.

James sorri e levanta as duas mãos, em sinal de paz. Ele se levanta calmamente e se dirige à um armário, no canto no local, de onde ele tira uma grande mala e coloca na mesa.

— Ouvi dizer que você cobra um pedágio para as... "operações" do morro — diz ele, abrindo a mala e revelando o seu conteúdo. Ela estava estufada de euros.

Carlos, que continuava com a arma apontada para ele, a solta e avança sobre a mala. Ele pega um maço de notas e sente o cheiro, enquanto ri.

— Quanto temos aqui?

— 100 mil euros — responde ele, se apoiando na parede. — Acho que é o suficiente para o tempo em que eu irei permanecer aqui.

Carlos levanta os olhos para James.

— Você tem tanto dinheiro assim, jogado por aí?

Ele assente.

— Com o que você trabalha, afinal de contas?

James faz um sinal e o leva para uma porta que se encontra ao lado do camarim. Ao chegar na frente dela, ele avisa:

— É melhor se preparar...

Ao ver o que está por detrás da porta, uma onda de náuseas atinge Carlos. Além do forte cheiro de urina, sangue e sujeira, jogados pelo chão se encontram vários homens, mulheres e crianças.

E entre esses seres imundos está Amanda, cujo os olhos ardem e a boca tem gosto de sangue.

Notas finais
O primeiro capítulo deve sair até o fim da semana. Comentários são MUITO bem-vindos.