Notas iniciais
Segundo capitulo do dia *_*

"Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar."
— William Shakespeare

Winterfell


Dois dias depois
Por algum motivo, Nicéia se sentia em casa naquele castelo. Aquela sensação não poderia ser comparada a quando estava em Rochedo ou Ponta Tempestade, mas era tão boa quanto. O ar puro e com um aroma fraco de pinheiros e neve, o vento frio da manhã e o sol fraco durante a tarde. Winterfell poderia ser tão acolhedora quanto fria, e se enganava quem pensava que a única coisa que os nortenhos possuíam era gelo, pois estes poderiam ser tão quentes quanto Dorne. Nicéia sentia aquilo a cada beijo de Jon Snow sobre sua pele, a cada suspiro, seu corpo pedia por mais, com os dedos enroscados nos cabelos encaracolados do rapaz, o puxando de encontro ao seu corpo, que era esmagado contra a parede de pedra.
— Jon — sussurrou estufando o peito em um pedido mudo para que ele continuasse.
Os dedos pouco habilidosos de Jon arrancaram os pequenos e delicados botões de pérola que se perderam sobre a grama verde, expondo os seios fartos e parcialmente escondidos pelo tecido fino do vestido. Os beijos traçaram um caminho perigoso pelo vale entre os seios da princesa, que perdia os sentidos e o bom senso cada vez que os dentes de Jon Snow entravam em contato com sua pele arrepiada. Nicéia não se importava com o frio quando o corpo de Jon a aquecia.
— Céus — murmurou desnorteada.
Sentia sua mente rodar, o coração bater forte e um líquido pouco conhecido escorrer lentamente por suas pernas, que tremiam perdendo as forças. Seu corpo despencou e não alcançou o chão por culpa dos braços fortes de Jon que a seguravam com firmeza, prendendo-a a seu corpo. Os olhos de Nicéia reviraram e um gemido alto deixou sua garganta, contudo, os lábios do bastardo cobriram os seus impedindo que ela voltasse a produzir qualquer ruído. Seus lábios se moldaram aos da princesa, sugando sua língua acetinada e iniciando um beijo cheio de desejo e ardor. O sentimento arrebatador que crescia nos corações de ambos era desconhecido e pouco explorado, Nicéia cresceu cercada por pais que se odiavam e evitavam ficar na presença um do outro e Jon pouco conheceu de sua mãe, nem seu nome ele sabia, mas via nos olhos de Catelyn a devoção que ela possuía, ainda sim, Jon Snow desconhecia aquilo que tinha em seu peito.
Era algo forte, quente e que parecia nunca se saciar, como um monstro sempre com fome desejando eternamente mais de algo que ele não sabia o que era. Não podia ser visto, mas ainda sim o deixava inquieto e sedento, os olhos verdes de leoa, o rosto imaculado de Nicéia e o brilho puro que carregavam.
— Jon, por favor — a princesa implorou fechando os olhos com força quando as mãos de Jon ergueram o vestido pesado afundando suas mãos na pele quente da jovem.
Os lábios inchados de Nicéia buscavam por ar, sua cabeça rodava e seu corpo não sentia nada além dos dentes que apertavam a pele de seu pescoço, deixando um caminho vermelho por onde os lábios passavam. Nicéia Baratheon nunca pensou que poderia perder a sanidade em tão pouco tempo, nunca pensou que alguém pudesse fazer com que seu corpo se incendiasse mesmo que no frio e na neve que cobriam aquela região.
— Arya me espere — o grito de Robb despertou o casal que se afastou rapidamente.
Nicéia ainda sentia seu corpo vibrar, mas encontrou forças para empurrar Jon para entre os arbustos verdes, escondendo sua presença, enquanto tentava melhorar sua aparência. A pequena Stark corria em sua direção com um sorriso largo nos lábios e logo atrás um pequeno lobo com os pelos cinzentos soltava grunhidos, ambos pareciam se divertir. Os olhos azuis que carregavam o norte se estreitaram em surpresa ao vê-la, a jovem Arya reduziu a velocidade, parando a frente da princesa.
— O que faz aqui atrás, Princesa? — a pergunta veio rapidamente.
A voz ofegante da garotinha deixou Nicéia sem fala.
— Me perdi. — Sorriu envergonhada, erguendo os ombros.
— O que foi que papai disse sobre os lobos, Arya? — novamente a voz de Robb gritou com tudo às suas costas, a assustando. — Princesa?
Os olhos azuis do herdeiro Stark brilharam quando visualizaram o rosto branco da jovem Baratheon. Contudo, os mesmos não deixaram de escorregar por seu rosto e se fixarem no decote aberto de seu vestido, que fora rasgado há poucos minutos por Jon. O rapaz engoliu em seco e pareceu não conseguir olhar para outro ponto que não aquele. Arya sufocou uma risada e limpou a garganta com a expressão divertida.
— As montanhas são muito belas, não é mesmo, Robb? — perguntou travessa, se agachando e pegando sua loba no colo.
— S-sim, claro, muito belas — murmurou desnorteado, tendo dificuldades para desviar o olhar dos seios parcialmente expostos. — O que?
Desta vez a pequena e marota Arya não foi capaz de engolir o riso, seus lábios se abriram, deixando que uma gargalhada alta explodisse por entre sua boca fina e rosada. Seu divertimento era tanto que inclinou o tronco para trás e depois se curvou sobre os joelhos, esmagando a pobre loba em seu colo, que reclamou pulando dos braços da dona.
— Antes que pergunte, acabei me perdendo durante uma caminhada. Achei que conseguisse voltar sozinha, me desculpe — a princesa disse rápido demais, deixando o jovem confuso.
— Procurava por algo? — Os olhos azuis formaram fendas de irritação em direção a Arya, que ainda se dobrava de tanto rir.
— O jardim de vidro. Levou-me lá no nosso primeiro passeio por Winterfell — mentiu com um sorriso doce nos lábios inchados pelos longos beijos com Jon. — Poderia me levar lá outra vez?
Robb sorriu lindamente, mostrando à princesa uma fileira perfeita de dentes brancos e brilhantes. Nicéia tinha a certeza de que suspirava pelo ar galante e cavalheirismo que envolviam Robb Stark naquele momento, contudo não o fez. Ao contrário, não conseguia desviar os pensamentos dos lábios macios de Jon Snow sobre a pele de seu colo e pescoço. Robb poderia ser o herdeiro e alguém "digno" de desposá-la, mas eram nos olhos escuros que Nicéia pensava durante o dia e nas sensações que seu corpo causavam durante a noite.
— Como desejar, minha Princesa — concordou ainda sorrindo enquanto estendia o braço como um verdadeiro cavalheiro, ato que Jon jamais havia feito, mas ela pouco se importava. Jon Snow era o norte, forte, gelado e rígido. — Leve Nymeria de volta ao canil e a alimente, Arya. Papai vai ficar furioso se lhe pegar com sua loba correndo por Winterfell.
A menina revirou os olhos e sorriu minimamente encarando o arbusto onde Jon ainda permanecia escondido. Seus olhos claros adquiriram um brilho malicioso que não fora percebido por Robb, já que estava mais preocupado em sorrir para a princesa. Quando iniciaram sua caminhada, a Princesa Baratheon olhou por sobre os ombros estreitos e encarou a pequena loba que permanecia parada observando o caminhar de ambos. Com o dedo indicador sobre os lábios ela pediu segredo e recebeu em troca um sorriso ainda maior e uma rápida piscadela. De alguma forma a jovem Arya sabia, talvez desconfiasse, contudo não parecia ser um grande problema. Ao longo de sua estadia na fortaleza nortenha, percebera a união que Arya possuía com Jon. Ambos eram apegados, mais do que Nicéia e Joffrey.
— Aqui é tão bonito, ouso dizer que mais belo que alguns jardins em Porto Real — murmurou, encantada.
Os olhos verdes observavam cada pedacinho daquela bela estufa, algo tão lindo que contrastava com a beleza rústica além daquelas paredes de vidro. O perfume das flores tornava o local ainda mais aconchegante e acolhedor, e se fechasse os olhos conseguiria se imaginar-se nos Jardins da Rainha, algo feito especialmente para sua mãe, um presente do rei após seu nascimento, também o único ato feito de bom grado para agradá-la. Mas um pequeno botão de pétalas azuis como a geada não estava ali em sua última visita. A pequena flor ainda não desabrochara e não havia outra igual por perto, fascinada pela beleza quase extinta se aproximou, tocando a madeira gasta e depois as delicadas pétalas azuis.
— É uma Rosa Azul do Inverno — o herdeiro explicou também se aproximando.
— Nunca tinha visto antes, nem mesmo em Jardim de Cima — confidenciou sem encará-lo, todavia sabia que os olhos azuis permaneciam colados às suas costas. — Lady Olenna possui as mais variadas espécies, rosas de todas as cores. Mas esta não. A rainha dos espinhos pode invejar seu belo jardim, Robb Stark.
— Rainha dos espinhos? — perguntou, divertido.
— Olenna Redwyne, mãe do Lorde Mace Tyrell. Ganhou este apelido por sua língua incrivelmente afiada — contou, finalmente deixando a rosa e se virando para
encarar o Stark, que permaneceria às suas costas, como o imaginado. Os braços cruzados sobre o peito e um sorriso pequeno nos lábios grossos. — Ainda acho que a velha Olenna morre engasgada com a própria língua, mas não sem antes bater o suficiente em seu filho, Lorde Mace. A quem ela mesma se refere como “Idiota demais para seguir seus conselhos ou administrar a Campina”.
Robb não deixou de rir após tal afirmação, Nicéia reclamar e até mesmo zombar da língua afiada da velha Olenna mesmo possuindo igual característica, que ele percebera que havia sido herdada dos Lannister, principalmente de Lorde Tyrion, o duende. Os lábios de Nicéia também sorriam, algo sincero e verdadeiro. Ia se Robb não deixou de achá-la ainda mais bela naquela tarde. Pensou em se aproximar, todavia achou pouco cavalheiro; ela não era sua prometida, mesmo que desejasse aquilo desde que a vira pela primeira vez.
— Não me parece alguém fácil de conviver — comentou sem desviar seus olhos dos da princesa.
— E não é. Lady Olenna é a velha mais insuportável que já tive o desprazer em conhecer. Mesmo assim consegue transformar um jantar entediante em algo um tanto interessante e até mesmo divertido, quando os comentários afiados não são direcionados a você, claro. Mas acredite, as pessoas pouco ofendem um Baratheon, afinal não desejam suas cabeças servindo de comida para os corvos que sobrevoam a grande muralha vermelha — seu tom era sarcástico e seus olhos brilhavam em um misto de divertimento e maldade, algo que a deixava ainda mais atraente aos olhos de Robb. Por algum motivo ele havia gostado do fato de Nicéia possuir um lado sombrio em sua alma, tornava-a mais interessante. — Mas me diga, essa Rosa Azul do Inverno, ela possui alguma história? Pois, aparentemente, só cresce em Winterfell.
— Sim, elas só florescem aqui no jardim de vidro. E sim, também para a história. Já ouviu sobre Bael, o bardo? — Nicéia negou, atenta. — Bom, minha mãe me contou essa história quando era pequeno, talvez não seja muito interessante, mas Bael, o bardo, seguiu a Estrada do Rei até entrar em Winterfell sob o nome de Sygerrik de Skagos, um cantor. Lá, cantou para o Senhor até a meia-noite. Lorde Stark, impressionado por suas habilidades como cantor, lhe perguntou o que gostaria como pagamento, e Bael pediu apenas a mais bela flor dos jardins de Winterfell. Como as Rosas Azuis de Inverno estavam florescendo, o Lorde aceitou lhe oferecer uma. Na manhã seguinte, porém, a solteira e virgem filha do Lorde havia desaparecido, e em sua cama estava a flor azul.
Nicéia ergueu as sobrancelhas, surpresa, pensou por alguns segundos que a história fosse bela e com algum significado, talvez Bael tivesse presenteado o Lorde com a rosa e não ao contrário. Mas o fim a surpreendeu ainda mais, de fato o cantor havia levado a mais bela flor de seu jardim.
— Não me parece o tipo de história que se conta a uma criança — murmurou enrugando a testa, um pouco desconfiada.
— E não é — concordou sorrindo. — Mas minha mãe me disse que não se trata apenas de uma história sobre uma rosa. Ela nos ensina que devemos ser astutos.
A princesa sorriu.
— Meu pai me contou que Lady Lyanna, sua tia as adorava — murmurou encarando os olhos azuis do herdeiro Stark. — Acho que sei mais sobre sua tia do que gostaria, afinal meu pai a amava, ainda ama. Isso talvez ainda machuque minha mãe. É errado um homem se casar mesmo amando outra mulher?
O tom melancólico de Nicéia deixou claro a Robb que o assunto era delicado. Soltou um suspiro triste, pois a história de sua tia Lyanna era ainda mais complicada do que o esperado e tão triste que poderia transformar um dia de sol em nevasca.
— Princesa eu...
— Sei que meus pais se casaram por pura política. Uniar, o novo rei, a casa mais rica de Westeros, afinal, um Lannister sempre paga suas dívidas. Tio Jaime e meu avô mostraram lealdade ao meu pai quando traíram o rei e ajudaram o exército de meu dele a invadir Porto Real. Foram cruciais na conquista, mas... isso não importa, meu pai deveria amar minha mãe, sua rainha, e não Lyanna Stark, não tenho ideia de como deve ter sido difícil, mas dói ver o desprezo que o rei parece ter com minha mãe. — Robb não sabia ao certo como agir, as defesas da princesa pareciam ruir aos poucos, e ele a via exposta. Lágrimas teimosas enchiam seus olhos verdes e uma expressão melancólica se apossou de suas feições delicadas. — Por isso recuso todos os casamentos que me propõem, que Lorde de Westeros gostaria de uma aliança com a coroa. Não desejo me casar por política ou pelas vontades mesquinhas por poder, quero que meu futuro marido me ame tanto quanto eu desejo amá-lo.
As tentativas de secar os caminhos molhados por seu rosto eram inúteis. Lágrimas não paravam de brotar de seus olhos claros, seus dedos trêmulos tentavam, mas não parecia ser o suficiente. Contudo, os braços fortes de Robb se fecharam ao redor de seu corpo, apertando Nicéia ao seu peito com força, tentando consolar a jovem princesa da melhor maneira que conseguia. Ele não possuía palavras, mas sentia que era seu dever afastar toda a tristeza que seu coração carregava.
O assunto Lyanna Stark sempre fora delicado para Nicéia. A jovem Stark morrera prematuramente, vítima das vontades de um príncipe louco que se importava apenas em satisfazer seus desejos, e aos dezesseis anos Lyanna Stark pagou o preço. Não entendia a força que, mesmo depois de morta, Lyanna exercesse sobre seu pai. Durante a Rebelião, o amor era puro e cheio de vida, mas agora que a coroa já pesava em sua cabeça, Nicéia sentiu que era apenas saudade de uma época que jamais voltaria. Uma história trágica com três protagonistas: um príncipe louco, um rebelde das terras de tempestade e o prêmio.
Mesmo de olhos fechados, as lágrimas não deixavam seu rosto. Escorriam até alcançar o manto do jovem lobo e depois morriam sobre a pele do animal. Ela não queria que fosse Robb a lhe consolar, queria que Jon o fizesse, e não compreendia de onde tal desejo havia brotado, o que a deixava confusa. Mas por hora, Robb Stark estava sendo exatamente aquilo que fora ensinado a ser, um cavalheiro. Deixou que seus dedos se afundassem nas costas cobertas do rapaz e o apertou um pouco mais forte, colando seu corpo magro e pequeno ao musculoso e forte de Robb. Sentia as batidas rápidas do coração do jovem contra seu rosto e gostou da sensação, não deixando de compará-lo a Jon Snow e o gelo fino que lhe cobria. Enquanto o Herdeiro era tão difícil de abrir quanto um livro, o Bastardo parecia uma porta sem fechadura. Robb e Jon eram opostos, e curiosamente o que Nicéia tanto procurava em um companheiro, mas dividido em duas pessoas distintas.
Com ela tão próxima a si, o cheiro de flores inundava seus sentido deixando-o embriagado. Com seus olhos parcialmente fechados, Robb se curvou minimamente sobre o corpo da jovem, apenas o suficiente para o nariz tocar o pescoço cheiroso da princesa. O corpo de Nicéia reagiu, esticando as pernas até que ficasse na ponta dos pés, tocando seu rosto ao dele. Por instinto Robb apertou suas mãos ao corpo magro de Nicéia a trazendo um pouco mais para perto de seu corpo, escutando o suspiro de aprovação. Desenhou o contorno de sua bochecha rosada com a ponta gelada de seu nariz, vendo um sorriso bonito preencher os lábios da jovem, o que foi imitado por ele. Os braços da princesa se agarraram ao pescoço de Robb, o abraçando apertado. Robb se sentia completo, com o coração cheio de vida e calor. Nicéia sentia que encontrara o que muito procurava, mas ainda sim não deixava de pensar em Jon Snow.
Do lado de fora da estufa, três pares de olhos presenciaram tal cena. Robert Baratheon não deixou de se sentir orgulhoso por sua filha, mas ainda sim temia perdê-la para sempre, seu peito doía com a menção em deixar a única coisa boa que havia feito em seus anos como rei para trás. Já os olhos do casal ao seu lado, possuíam expressões distintas. Catelyn temia em casar seu filho com uma Lannister, eles eram perigosos, mas não deixava de aprovar tal união, afinal seu Robb parecia apaixonado, e seu amor provavelmente era correspondido pela princesa. Contudo, Ned Stark parecia infeliz, mesmo que não demonstrasse, sabia em seu íntimo que o coração da princesa Baratheon não pertencia a seu filho Robb, mas sim a Jon. E já até mesmo conseguia escutar o som de outro coração se partindo.

Notas finais
Esse capitulo serve como um divisor de águas, mostra um pouco de quem é Nicéia Baratheon, muito alem da princesa fútil e volátil. É uma parte muito importante da historia, que ela retrata tudo o que sente em relação a Lyanna Stark, que sempre foi um fantasma no casamento de Cersei e Robert, nada mais justo mostrar o quanto Lyanna afetou a vida de Nicéia e em como foi prejudicial para ela, alem de tudo, Nicéia tem uma visão clara do amor e em como ela se sente sobre isso, e como a politica envolvendo os casamentos da monarquia a afeta... Bom espero que tenham gostado ♥