A Fórmula do Sorteio
1 Capítulo 01 - A Aposta
Daqui a alguns anos, em um futuro mais próximo do que imaginamos... — Rio de Janeiro.
Na caixa econômica Federal, o amigo de trabalho de Diego – Jota – Lembra-lhe do horário e das tarefas a cumprir enquanto o mesmo ainda está atendendo sua última cliente do dia.
-Boa tarde, Dona Belinha.
-Boa tarde, meu filho. Que fila demorada?
-É... O sistema está meio lento novamente hoje. 1, 2, 3...
-Sei. Vou sacar a aposentadoria.
-Todo o salário?
-Sim, toda essa merreca. Antes do dia dez o salário já acaba. -Diego entrega o aposento da doce senhora, que o surpreende.
-Pode me fazer um favor? -Sim, claro!
-Não desperdice sua vida aqui. Adeus.
-Nossa... Ok!
-Jota observa a saída de Dona Belinha.
-17 horas e 55 minutos, Diego. Tá na hora de fechar seu caixa, lembre-se de que aqui não tem esse papo de hora extra ou banco de horas.
-Sei. Só mais um minuto, estou quase acabando.
-Você ainda tem que fazer seus relatórios, contabilizar tudo, colocar o dinheiro no cofre boca de lobo e ainda pagar um café pra galera no bar do Seu Tuninho.
-Sei, show de bola; e qual é a aposta de hoje? 1, 2, 3...
-Três minutos, e quase todos apostaram, desde o rabugento do Sr. Hernani até a nossa amada faxineira Dona Eulália...
-Dona Eulália apostou? Espere aí... você reduziu mais um minuto desde a última aposta? -Jota desconversa.
-São só detalhes. E todos vão acompanhar, torcendo contra você é claro, mesmo aqueles que não apostaram.
-Nossa, acho que estou começando a ficar famoso. Quem marca o cronômetro? E não me diga que é você? -Jota dá um sorriso sarcástico.
-Euzinho aqui, pode confiar!
-É disso que eu tenho medo. Não tem outro pra marcar?
-Ôôôô, lembre-se do juramento!
-Ambos falam juntos:
-Sempre dormir com a consciência tranquila.
-Preparado?
-Bom... E quem vai garantir sua honestidade?
-Diego sorri para si mesmo.
-Você me conhece; não somos escravos do dinheiro!
-É disso que eu tenho mais medo ainda...
-Não enrola, já vai dar 18 horas. Preparado?
-Espere, espere, espere?!?
-O que foi, vai tremer no último minuto?
-Hum... Não é isso, só quero saber quanto é a grana?
-Cerca de R$ 1.340,00... Livres.
-Diego começa a pensar no que fazer com o dinheiro.
-Cinema, pipoca, cervejinha, taxi, hotel, reparo na magrela...
-Jota se mostra curioso.
-Magrela? Que magrela?
-Minha bike!
-Você ainda continua com aquela bicicleta velha? Essa sua paixão pelas bicicletas é muito estranha... Vai levar a bicicleta pro motel também? -Não seja ridículo. Sim, eu topo!
-Até que enfim, preparado?
-Sim! 1, 2, 3...
-Jota avisa pros outros funcionários. -Ele aceitou, galera. Então inicio o cronômetro no três, atenção: um, dois, três; valendo.
03 min.
-Na tentativa de uma trapaça rápida, Jota derruba a cadeira de Diego, que dá dois passos para trás, cambaleia, mas não cai.
-Trapacear não vale!
-Foi mal, vou dar distância pra você.
-Obrigado!
-Diego fecha seu caixa de pé, pega todo dinheiro que já havia separado, registra o relatório, corre pelo corredor onde está a faxineira, Dona Eulália, que, por sua vez, joga água com sabão no chão, propositalmente, na frente de Diego.
-Hi, tá cheio de sabão no corredor; é melhor o senhor dar a volta ou desiste logo dessa corrida boba, nem sei pra que isso; o senhor não precisa provar nada a ninguém.
-Diego resolve correr o risco e passa pelo corredor ensaboado, que faz com que ele patine de forma desequilibrada, escorregue e, finalmente, caia no chão, sem nenhum controle. Ele percebe que perde preciosos segundos...
-Quer dizer que até a senhora apostou contra mim? 1, 2, 3...
-O sorriso doce e carinhoso de Dona Eulália confirma.
-Desculpe, meu filho; é que eu não resisti! -Confessa Dona Eulália enquanto o ajuda a levantar-se.
-Tá tudo bem, eu não me machuquei... muito.
-Tá tudo bem mesmo? É melhor você ficar por aqui para não se machucar. Eu vou limpar toda essa sujeira!
-É... Estou todo molhado, minhas costas doem.
-Ô, meu filho, estou tão arrependida de ter apostado contra você... Será que você pode me perdoar?
-tudo bem! Tudo bem mesmo!
-Diego vê a porta do elevador se abrir...
-02 min. e 20 segundos restantes e o cronômetro continua... – Jota avisa.
-Desculpe, Dona Eulália, depois converso com a senhora! 1, 2, 3...
-Diego corre para o elevador, toca no botão do quarto andar, mas o mesmo é imediatamente desligado pelo segurança do Banco, que o acompanha pela central de monitores e dá enormes gargalhadas; até porque, é mais um apostador.
-Pensaram em tudo, eim? Mas não desisto nunca.
-Insistente, Diego, então, começa a correr pelas escadas por três andares, já estando suado, molhado e demonstrando sinais de cansaço.
-01 min. e 32 segundos... E contando. -Jota aproveita para pressionar.
-E o tempo passa, tontontontonnn.
-No último andar, Diego enxerga alguém fechando a porta pelo lado de dentro.
-Não, não, não pode ser. Aaaahhh, droga!
-E, ao final, verifica que a porta está trancada.
-Pensa, pensa, pensa!
-Mas ele não desiste: continua até o quinto andar, desce pela escada de incêndio de volta para o quarto andar, mas o computador de registros está desligado.
-O grupo de apostadores começa a comemorar:
-Heee!
— Hier!
-Viva!
-0:39 segundos restantes. –Jota alerta.
-Então, Diego corre até a sala do superintendente, Sr. Hernani, porque sabe que o computador central do prédio não pode ser desligado, e inicia o registro final, enquanto os funcionários contam os segundos. O tempo implacável não para a contagem acompanhada pelos funcionários apostadores.
-10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3...
-Diego se lembra da proporção de vitórias e perdas de 3 por 1 para que seus dons possam passar despercebidos e seus amigos não tenham medo daquilo que não conhecem para não virem a prejudicá-lo no futuro.
-Espere aí um segundo... Não posso vencer esta aposta, pois venci as últimas três apostas, isso significa que tenho que perder esta... Controle, é tudo uma questão de controle, vencerei a próxima.
-O auto-falante do Banco interrompe a contagem:
-Relatório incompleto, lançamentos apresentam erros contábeis, verifique os lançamentos de débito e crédito e tente novamente.
-E todos comemoram:
-Heee!
— Hier!
-Viva!
-Uhu!
-Tuninho, Tuninho...!
-Jota reclama:
-Seu filho da mãe, você fez o mais difícil! Não é à toa que é o meu melhor amigo, 02 min. e 58 segundos; ganhando a aposta, você erra um relatório! Tá esquecendo adição e subtração?
-Surpresos, alguns funcionários questionam o tamanho da velocidade matemática de Diego. Um caixa mais antigo ficou mais uma vez surpreso.
-Como pode ser tão rápido?
-Ah não fui tão rápido assim e ainda errei no final.
-O Superintendente admite estar maravilhado.
-Incrível!?! Devo-lhe os parabéns, você é bom.
-Até Dona Eulália.
-Parabéns. Meu filho, na próxima, apostarei em você.
-Mês que vem tem mais, galera!
Jota pergunta:
-Sabia que você tem uma relação de erro e acerto numa proporção exata na faixa de 3 por 1?
-Sério isso? O que quer dizer?
-Acho que devemos diminuir a cerveja e aumentar os legumes.
-Diego se surpreende.
-Pare de inventar modas e teorias.
-Deve ser só um acaso mesmo... E aí, vamos comemorar no bar do seu Tuninho?
-Diego se vê obrigado a recusar o convite.
-Hoje não dá mesmo... Seria um prazer tomar umas cervejas com a galera do trabalho, mas hoje tenho um compromisso e nem sei como me safar dessa. 1, 2, 3...
-Diego exclama sentindo um pouco de dor no ombro, e desperta a preocupação de Jota.
-O que houve com o ombro?
-O de sempre.
-Deslocou outra vez?
-Comicamente Diego coloca a culpa na faxineira e sorri.
-Não foi nada, acho que foi um efeito chamado Dona Eulália.
-Dona Eulália, passando na hora, aproveita para dar um puxão de orelhas em Diego.
-Ei, minha culpa não; eu disse pra você ficar sentadinho quietinho, mas vocês jovens, têm toda essa explosão de hormônios, velocidade e etc. Mas não se engane, experiência é tudo!
-Diego não perde uma oportunidade.
-Ah, meu muito obrigado, nem sei como agradecer.
-Metido!
-Sarcástico Jota exclama em conversa com Diego:
-Ah, é hoje?!
-O quê?
-Não é hoje que a "Mamãe" vem te buscar?
-Ficou chateado porque perdeu a aposta?
-Vocês vão visitar o tal médico de malucos hoje, certo?
-Diego fica meio sem paciência com Jota, mas responde, na esperança de terminar logo o assunto com o amigo.
-Não te obriguei a apostar em mim e não é médico de malucos; trata-se de um psicólogo, um atendimento mais do que normal. Aliás você bem que precisa de um! E tem mais, psiquiatras é que são médicos de malucos, eu só não tô muito afim. 1, 2, 3...
-Jota tenta acalmar os ânimos.
-Relaxa, acredito que já seja a 4ª tentativa este mês, estou certo? E acho que você não terá saída; vai lá logo, atende ao pedido da sua mãe e se livra logo disso.
-Sra. Lurdes, mãe de Diego, entra na sala sem que o mesmo a veja, enquanto que ele continua a reclamar.
-Nem me lembre disso, dá calafrios só de pensar. A essa hora há 99% de chance dela já estar no estacionamento do Banco. Nem sei como eu fui aceitar essa proposta da minha mãe; se eu sair pela porta da frente há 50% de chance dela não me ver e aí eu fujo e digo depois que me esqueci do tal psicólogo.
-Diego começa a planejar, sem ainda perceber a presença da mãe e Jota prende o riso. Então Diego percebe o furo.
-Hãm... sei...
-Mas que sorriso é esse?
-Acho que, dessa vez, você não tem saída.
-O quê? Não acredito que ela está atrás de mim!
-Filhote... O senhor Jota me convidou para entrar e fazer uma surpresa para o menino mais escorregadio que conheço.
-Em seguida, senhora Lurdes cumprimenta Jota. -Muito obrigada senhor Jota.
-Jota mal consegue segurar o sorriso sarcástico.
-Não há de quê, Sra. Lurdes, espero tê-la ajudado.
-Ajudou e muito... Filho, como é que fala com a mamãe?
-Hã, Oi mãe, bença? 1, 2, 3...
-A Senhora Lurdes, sempre muito faladeira...
-Deus o abençoe; como você está? Está bem? Tem se alimentado direito? Mal posso esperar para sermos atendidos pelo Dr. Johnson, você se lembra dele, não é? Já faz alguns anos, mas tenho certeza de que ele também está muito ansioso para vê-lo. O carro está no estacionamento...
-Sem graça, Diego dá um sorriso pra mãe, que vai andando na frente.
Diego fala baixinho para Jota.
-Jota, você me paga...
-É sempre um prazer ajudá-lo meu amigo! Boa sorte com o tal médico de malucos.
-Jota fica rindo sozinho.
-Engraçaralho... você é muito engreçaralho pra cadilho.
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