A Fã

3 Eu conheço essas duas!


O que eu vejo são duas meninas.

Só que não são "só" duas meninas. Não são "simplesmente" duas meninas. Não são meninas comuns como aquelas que o Juninho leva pra casa pra conhecer a gente dizendo que são as namoradas dele. Não. O grande caô é que eu CONHEÇO essa duas meninas. E pode acreditar, conheço muito bem.

A menina que parecia estressada falando era mais baixa e um tantinho mais forte em relação a outra, tinha o cabelo curto na altura das bochechas e dentes grandes. GRANDES. A outra menina tem o cabelo enrolado e longo. Lindo, por sinal. ENROLADO. Menina de cabelo enrolado e menina de dentes grandes. Eu não acredito.

Mônica. Marina.

CACETE!

Elas estão passando por mim quando a menina de cabelos enrolados me cutuca, sorri de um jeito muito fofo e diz:

– Ei, seu cadarço está desamarrado. Cuidado, você pode tropeçar!

Olho para baixo e vejo que estou usando meu All Star cano longo preferido. Como eu poderia estar de tênis se eu estava descalça quando saí do quarto? Agora que estou menos tonta, posso perceber que estou de usando uma roupa totalmente diferente da que eu estava usando quando fui sugada pelo pó mágico! Então isso também faz parte da feitiçaria? Senhor.

Quando termino de organizar meus pensamentos, vejo que Mônica e Marina, ou pelo menos garotas idênticas a elas, estão indo embora. Preciso fazer alguma coisa!

– Ei! Ei! Meninas, voltem aqui! – Eu grito sem pensar, e elas olham para trás, me encarando. Parecem meio confusas, mais vêm até mim.

– Oi? Você precisa de ajuda? Meu nome é Mônica! – A menina dentuça diz.

MANO. COMO ASSIM? NÃO ACREDITO!

– O-o-o-o-i M-mônica-a! – Digo, gaga demais. Aquilo estava acontecendo mesmo!

– Você parece nervosa... Aconteceu alguma coisa? – A menina de cabelo enrolado pergunta. Marina, claro.

Preciso dizer alguma coisa. Preciso dizer que conheço elas e que sou uma fã da Turma da Mônica, uma leitora. Mas e se não fossem elas? Elas chamariam o hospício pra me buscar, com certeza! O que fazer em um momento desses? É claro, até porque é super normal cair dentro de um gibi! Espera, eu estava mesmo em um gibi? É nessas horas que eu gostaria de ter a malandragem do Juninho ou a inteligência do Patrick para lidar com situações difíceis.

– Não, não aconteceu nada não.Eu, só... só queria saber que horas são. – Respondo derrotada, porque não penso em nada melhor pra dizer!

– São 16:30! Caramba Mônica! Marquei com o Franja as 17:00! Vamos! Prazer em conhecer você... Qual o seu nome? – Marina pergunta. Quando ela diz a palavra "Franja", eu tenho certeza de onde estou.

– Eduarda! – Digo, rápido de mais. Ai, meu Deus!

– Bom conhecer você Eduarda! A gente se esbarra por aí! – Mônica diz, daquele jeito forte e determinado que eu já conheço bem. Muito bem.

Quando elas se viram para ir embora, eu percebo uma coisa: está escurecendo. Não tenho aonde dormir, nem o que comer! A situação é crítica, porque percebo que isso NÃO é um sonho. Meus sonhos sempre são sem nexo e embaçados, coisas como jogar bola com zebras ou comer cocô. E aquilo podia até ser estranho, mas não era um sonho. Estava lúcida demais.

– Ei, não vão embora! E-eu... preciso de ajuda! – Digo, antes que elas se virem.

– Eu sabia! Você tá mesmo com um problema. Em que podemos ajudar? – Marina diz. Sempre tão fofa...

Pensa, Dudu, pensa! O que fazer em uma situação dessas? Contar que um pó me sugou para dentro da revista? Não, vão achar que estou fumando orégano. Vai, rápido, diz alguma coisa.

– Eu... Eu, é que... Fugi de casa!!! Isso, fugi de casa! – Eu digo, quase morrendo de vergonha. O que mais eu poderia fazer?

– Eita! Mas porque? – Mônica pergunta, meio assustada.

– Porque... porque eu... não aguentava mais aquele povo lá seeempre falando as mesmas coisas! "Você só tira notas baixas!" "Seja mais igual ao seu irmão!" "Irresponsável!" – Eu digo. Para parecer que estou com raiva, penso naquela vez que o Patrick comeu MINHA parte da pizza sozinho. Isso sempre me deixou com muita raiva!

– Você fugiu??? Tá maluca?? Seus pais devem estar desesperados procurando por você nesse exato momento! Não pode ter uma briga com os seus pais e simplesmente sair de casa, assim! "Nossa, hoje estou com muita vontade de fugir de casa, porque não?" – Mônica diz, quase enfurecida.

– Calminha Mônica... Ah, é um poço de delicadeza... Olha, Eduarda, entendo que tenha brigado com os seus pais, mas essa não foi a melhor atitude a ser tomada. O diálogo é sempre fundamental! Devem estar preocupados... – Marina disse. Eu sempre achei ela a mais madura de toda a turma. Grande Marina.

– Aaaah, que fiquem! De frescura, já tô cheia! Tô fora! – Eu digo, ainda fingindo! Acho que sou uma ótima atriz! Broadway, aí vou eu!

– Tá, tá tá. Eu e a Marina levamos você até a sua casa pra resolver isso logo! Vamos. – Mônica diz, puxando o meu braço. Uau. Ela é mesmo forte.

– Mônica, não arranca o braço da menina fora, ok? Nós te levamos até a sua casa e aí você pode... – Marina diz.

– NÃO!!! Quer dizer... Não... eu preciso esfriar... a cabeça, sabe? É! Estou muito deprimida, não estou pronta pra olhar pra eles de novo! – Eu faço uma cara de gatinho do Shrek, mentindo na cara dura! Acho que está dando certo!

– Hã... eu... Ah, ok, você venceu! Acho que não tem problema se você ficar lá em casa pra... "esfriar sua cabeça". – Marina diz.

– Ai, meu Deus, brigadaaaa! Marina você é a melhor! – Eu a abraço e não largo mais. Se é verdade que estou dentro da revista da Mônica, e provavelmente é, estou abraçando a Marina, cara! A Marina! Minha desenhista preferida... Se os meninos vissem isso... Se o Cadu e a Bianca vissem isso...

– Ainda acho que você precisa se resolver e... Marina, o seu encontro! Tá em cima da hora! – Mônica diz, olhando no relógio.

– Ai, é mesmo!!! Mas... e como fica essa situação aqui? – Marina diz, olhando pra mim.

– Pode deixar que eu resolvo! Agora vai, seu nerd está te esperando! – Mônica diz sorrindo. Marina também sorri, se despede e sai correndo.

– Puxa, vocês são incríveis, mesmo! Só a turminha de vocês para ser tão acolhedora com estranhos e... – Eu digo.

– Como assim "a turminha de vocês"? – Mônica pergunta, estreitando os olhos.

MERDA. TÔ ME ENTREGANDO!

– Ué, a sua turminha de amigos... v-vocês devem ser m-muitos né? Além desse Franja aí que você falou... – Eu digo. Ufa. Acho que colou.

– Sim, somos muitos mesmo... é como uma grande família, sabe? Acho que você amaria eles, precisa conhecer! Vamos, está escurecendo. – Ela diz, e nós vamos em direção a casa dela. Ah, Mônica. Eu JÁ conheço você e todos os seus amigos.

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Não demoramos muito pra chegar na casa dela. Apenas um minuto e olhe lá, porque era só sobrar umas duas ruazinhas curtas. Era perto do campinho! Ha-há, o campinho em que a turminha jogava bola, bafo e bolinha de gude quando eram crianças. Tô tão emocionada, e nervosa ao mesmo tempo!

Chegamos na casa da Mônica, e ela me oferece um lanche. É claro que eu aceito. Tudo bem que a minha mãe sempre diz que eu sou uma esfomeada, mas agora eu estou com uma péssima sensação de que não como a dias. Horrível. Enquanto ela prepara uns mistos quentes, eu fico encarando, observando cada detalhe.

A Mônica é exatamente igual as revista e gibis, com uma única diferença: ela é real, e está na minha frente preparando uns sucos. Está usando uma camiseta vermelha e jeans com bordados de coelho nos bolsos. Ela não é muito magra, mas está em boa forma. Eu sinceramente não sei porque o Cebola zoa ela, ou mesmo porque ela se preocupa tanto com o seu físico.

Ela me chama para irmos para o quarto dela e eu vou reparando a casa: idêntica a da revista, com dois andares. Quando chegamos ao seu quarto, que por sinal é acolhedor, ela me dá o suco e o misto quente e começa a falar:

– Eu só quero ver como você vai fazer pra sair dessa situação sem pegar um castigo! E dos grandes! Isso é sério, muito sério, sabia? – Ela me olha, com o rosto sério.

– Eu sei, mas... só preciso de um tempo. Eles não devem estar preocupados, eu sou... independente, sabe? – Eu digo, me virando como posso.

– Tudo bem... como é a sua família? Quer saber, esquece, acho que você não deve estar muito a fim de falar sobre eles e... – Ela diz.

– Não, não, eu posso falar! Bom, meus pais são divorciados, sabe? Isso, nunca foi um problema pra mim e pros meus irmãos, sempre aceitamos bem. Bom a minha mãe... – E continuo falando, sobre minha família de VERDADE. Além de falar sobre minha mãe, Juninho e Patrick, falo também sobre o meu pai. O meu pai mora na Bahia, e isso é massa, porque ele costumava nos levar lá fazer a farra.

Só que, de uns tempos pra cá, ele arrumou uma namorada que poderia ser a namorada do Juninho, de tão nova. E ainda por cima, metida a gostosa. Isso se tornou um problema. Ao que tudo indica, ele está mudando por causa disso. O número de telefonemas, mensagens no whatsapp e no facebook diminuíram. E muito! E isso afetou a todos nós, inclusive Patrick, que sempre foi o mais próximo dele. Triste vida!

– Caramba! Bom, a sua família parece ser muito boa e divertida... Esse seu irmão mais velho não deve ser mole... Parece até um amigo meu, o Titi... – Ela diz, e eu sorrio ao ouvir o nome do Titi. E não é que parecem mesmo?

– Pois é, esses homens não são mole! – eu digo rindo.

– Fato! Ei, ainda tem uma coisa a ser resolvida, Eduarda! – Ela diz.

– Dudu! – Eu digo.

– O quê? – Ela pergunta.

– Eu... não gosto muito que me chamem de Eduarda... acho que já me acostumei com Dudu! – Eu digo.

– Você não prefere... Duda? – Ela pergunta, sorrindo.

Conto a ela toda a história, que meus pais achavam que eu seria um menino e coisa e tal.

– Ahhhh, sim! Engraçado, isso! Ah, lembrei o que eu estava dizendo: e a sua escola? Como é que fica? Amanhã é sexta, ainda tem aula! – Ela diz, ficando preocupada de novo.

Ai, agora ferrou. O que eu falo? Não estudo? Sou super dotada e já estou na faculdade? Se eu bem conheço a Mônica, ela com certeza não vai ceder em relação a escola, porque o Maurício de Sousa sempre tenta colocar nas revistas da turma a preocupação em relação a escola. Porcaria de "politicamente correto". Então, decido o que fazer e começo a falar:

– B-b-bom... eu ia mudar de escola amanhã... Esse foi um dos motivos da briga também.

– Sério? E pra qual escola você vai? – Mônica pergunta.

– Colégio do Limoeiro. – Eu digo. Agora não tem volta!

– AAAAAH, brincou? Eu estudo lá! E a Marina também! Isso é muito coincidência! – Ela diz, toda animada. "É óbvio que você estuda lá, eu sei disso e muito bem!", eu penso.

– Realmente, muita coincidência mesmo, não acredito! – Eu digo, fingindo que tô mega surpresa.

– Você deu muita sorte em, Dudu? Bom, eu posso ver se te empresto uma mochila e uns materias, tipo lápis, borracha, caneta. Isso tudo porque a senhorita aqui resolveu FUGIR de casa! – Ela diz.

– Não me condena! Tô depressiva hoje! – Eu digo, fazendo uma carinha triste.

– Tá sei... vamos dormir? Meus pais devem demorar a chegar, foram resolver umas coisas... Amanhã você conhece eles... além do mais, eu to mortinha! – Ela diz, bocejando. Mal sabia ela que eu já conhecia a Dona Luísa e o Seu Sousa.

Ela arruma um colchão para mim, ao lado de sua cama. Eu me deito enquanto a vejo arrumar o material da escola, enquanto reparo o quarto, detalhadamente. É amarelo, coisa que eu nunca pude perceber, já que o mangá da Turma da Mônica Jovem é em preto e branco. Tem fotos dela com quase toda a turma: uma com a Magali, em que as duas estão fazendo um coração com as mãos. Outra com o Cascão, em que ela está abraçando o Cascão, e ele está com uma cara de quem está sendo sufocado.

Tem também uma outra foto em que está em a Mônica, a Denise, a Cascuda e a Marina, todas abraçadas e sorrindo muito. Isso me fez lembrar dos meus amigos lindos, o Cadu, a Bianca, as gêmeas Lima, a Ritinha, a Patrícia, a Fernanda, o Luís... amizade é tudo! E, por último, vejo uma foto dela com o DC! Cara, uma das pessoas que valeria a pena conhecer seria o DC. A foto deles estava tão cute cute! Meus maninhos iriam adorar ver isso.

Mônica finalmente termina de arrumar o seu material, apaga as luzes, liga o ar-condicionado e me deseja boa noite! Ali, na escuridão fico pensando na minha atual situação. Estava dentro do mangá da TMJ, impossibilitada de manter qualquer contato com o mundo lá fora. Da aonde saiu aquele pó mágico? Estou decidida a decidida a descobrir como voltar para casa, mas agora estou muito cansada pra isso. Tentando imaginar como seria o dia amanhã, tendo contato com a minha turminha preferida ever, caio no sono rapidinho.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.