A Fuga
1 Prólogo: Mijka Hans
"As câmeras registraram na noite de anteontem a fuga de Hannah Lenn, uma ex-estudante de 18 anos que, há pouco mais de 2 anos, no mês de novembro, em um acesso de loucura, teria invadido a Escola Regional de Heints e matado Gibbs Nickle, o vigia de 46 anos que estava responsável por cuidar do recinto na noite que ficou conhecida por todos como 'a noite da invasão'. Muitos na cidade estão em pânico, pois Hannah supostamente poderia estar envolvida em outros assassinatos. A perícia diz que ela pode ter feito várias outras vítimas por toda a região de Heverga. Pedimos sua ajuda para caso veja esta agora, cujos cabelos louros, olhos castanhos, altura mediana são as características mais marcantes. Espera-se que ela possa ter mudado a aparência, mas segundo o hospital, ela teria uma cicatriz no rosto. O cuidado é essencial. Ela pode ser perigosa. Apesar de ser uma garota aparentemente normal, em seus ataques de loucura pode ser muito perigosa para si e para os outros."
Assim dizia a notícia ao ser exibida na televisão, com a manchete: 'Louca foge do hospital psiquiátrico interno de Havens'. O repórter exibia um sorriso falso e confiante dentro da sala 142, cuja única janela encontrava-se quebrada. Estava iluminada no momento em que estava sendo filmada, e o repórter mostrava orgulhoso os cacos de vidro espalhados pelo chão da sala e também do lado de fora do hospital, com gotas de meu sangue trilhando, na grama, junto a pegadas, um caminho para longe dali, até que elas desapareciam em meio ao asfalto...
Há alguns dias eu já não me chamo Hannah. Disso não posso esquecer, custe o que custar. Desde o momento em que decidi fugir daquele que fora o meu inferno, meu nome é Mijka Hans. Mas ainda não acabou. Há 2 anos eu me envolvi em coisas que não devia, descobri aquilo que deia ter sido segredo, e agora não há mais como voltar atrás. Se eu o fizer, o país irá padecer. Eu nunca me perdoaria por isso. Ainda mais com essa cicatriz em meu rosto que me seguirá pelo resto da vida. É como um lembrete da minha missão. Do meu erro. Da descoberta “herege”. Todo aquele que descobre algo que não devia ou que estava muito bem escondido atrás de uma longa e espessa parede de mentiras acaba pagando um preço. O meu foi especificamente 2 anos de internação, a tortura mental, a loucura e uma cicatriz. Mas uma vez aberto um pequeno buraco na imensa parede quase impenetrável, é necessário seguir em frente e quebrá-la até conseguir atravessá-la ao outro lado. Não sei o que me esperará lá, mas não posso voltar atrás.
Mudando de canal, uma outra notícia com o mesmo assunto me fez rir com a ingenuidade. Dizia:
“... a noite da invasão foi o dia em que a nossa cidade conheceu a loucura de uma jovem garota, Hannah Lens, ex-estudante que tinha na época 16 anos, conhecida por ter matado o vigia Gibbs Nickle na chamada 'noite da invasão'. Peritos fizeram uma simulação do que havia ocorrido: Ela teria ficado o dia inteiro em Heints, sua escola. Seu pai, Dimas Lens, de 43 anos, atualmente preso, percebeu sua demora e então foi em sua busca. Hannah era tida por ele, ex-diretor de Heints, como uma garota normal e muito afetiva e correta. Aparentemente não foi assim que ela agiu no momento em que, por volta das 22 horas, teria invadido a sala onde ficava seu pai e então fora pega de surpresa pelo vigia. Tomada pela psicose, ela teria atingido o vigia com uma faca que trouxera de casa. Este caiu semi-morto, mas antes disso, ainda teria conseguido chamar ajuda. Hannah, tomando consciência dos atos e temendo seu próprio comportamento, teria tentado se matar atingindo seu próprio rosto. Momentos depois ambos foram levados para o hospital. O vigia não resistiu ao ferimento e morreu. Hannah ficou com uma cicatriz em seu rosto, e foi detectado transtorno de personalidade aguda. Segundo especialistas, ela era instável e poderia perder a consciência e assumir-se como uma assassina a qualquer instante. Foragida desde anteontem, não se teve registro de sua saída da cidade. As autoridades estão em busca dela. Desejamos a todos que sejam cautelosos...”
Sim, foi isso o que aconteceu. Talvez não. Já pouco me lembro do que houve nesse dia. Também não me lembro o porquê. Talvez eu seja louca. Tudo o que sei é que agora estou no meio de Gates, uma cidade pequena e com silêncio sepulcral, quase completamente deserta. Algumas lojas ainda arriscavam ficarem abertas, afinal tinham que tentar lucrar de alguma forma, apesar do medo de todos pela menina louca e perigosa que devia estar rondando a cidade.
Hannah Lenn? Mal sabem que ela nem mais existe. Tudo o que restou foi uma marca, a única lembrança que adquiri desses tempos, e uma nova pessoa: Mijka Hans. Eu já sei que não terei um tempo fácil a partir de agora, afinal escolhi pelo caminho mais difícil. É possível que minha vida nunca mais volte a ser como um dia foi. Mas eu preciso chegar ao final disso tudo. Se conseguisse mostrar a todos a verdade, tudo isso acabaria e minha vida talvez pudesse voltar a ser o que um dia já foi. Mas não será simples. De primeira instância, o principal fato é que depois de tanto tempo já não me lembro do que era a verdade. Não sei mais distinguir a verdade da mentira. Todos dizem que eu quem matei aquele homem. Teria sido eu? Mas, se fui eu, então por que eu fiz isso? Será que tenho mesmo transtorno de bipolaridade? Será que, no fim das contas, sou louca?
[…]
Em frente ao espelho de um cabeleireiro que trabalhava em um bairro simples de Lok, cidade onde um dia morei, olho, através de lentes de contato de cor castanho escuro, por uma última vez aquela a qual eu devia chamar de “eu” de agora em diante: cabelos curtos e pintados de um azul tingido e claro, uma franja que cobria o lado esquerdo do rosto. De fato, assim ninguém me reconhecerá. Ainda assim, preciso agir com o máximo de cautela. Se for descoberta, eu seria levada de novo para aquele hospício. Não posso deixar isso acontecer... Pelo menos não até conseguir mostrar a todos a verdade. A minha verdade.
Saindo do cabeleireiro, olhei para o céu: estava azul igual a cor do mar nos bons dias. O sol brilhava com intensidade. O calor era reconfortante; cobria-me e esquentava o meu corpo. Dava-me o combustível que seria necessário para começar minha jornada.
A partir de hoje eu serei Mijka Hans!
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