A Fuga
3 Capítulo 1: A paciente do quarto 142 [Parte Final]
Notas iniciais
***
“Está mais calma, Hannah?” disse a mulher “Você esta muito nervosa.” hesitando, continuou “não a culpo por isso. Mas você só pode ter perdido a cabeça!! O que achou que estava fazendo?”
Eu desviei seu olhar. Trisha Figgs fora a mulher que cuidou de mim e do meu pai desde que eu nasci. Ela sempre esteve presente nas horas boas e ruins. Mas eu não tinha o que falar. Tudo o que eu via em minha mente era um vazio preenchido pelo escuro. Talvez ela soubesse de alguma coisa.
A senhora Filg tinha um jeito de ser que variava entre se preocupar e reclamar. Conhecendo ela, é fácil perceber que ela é apenas uma mulher que se preocupa com aqueles que para ela têm valor. Apesar de as vezes ela exagerar um pouco.
Sorrindo, eu disse:
“Mas está tudo bem, senhora Filg, não precisa se preocupar comigo.”
Foi só então que eu percebi que algo estava errado. Trisha Filg? Como ela podia estar ali? Como eu estava ali? Arregalando os olhos, virei a cabeça para todos os lados. Estava deitada em uma cama, mas ela tinha um cheiro diferente do que eu estava acostumada. Havia 2 janelas e uma porta aberta. As paredes eram pintadas de cor de creme. A luz estava acesa; ainda era noite. A mulher estava sentada na beira da cama me olhando com apreensão.
“Como que” disse, hesitante “vim parar aqui?”
“Você veio até mim, minha pequena” respondeu Trisha, com um leve sorriso.
“Como assim?”
“Bateram em minha porta há pouco tempo. Quando fui ver quem era, lá estava você caída no chão.” — após uma pausa e um suspiro, ela continuou — “há muita coisa que você precisa me contar.”
Eu não entendo, pensei. Como podia me lembrar disso tudo? Esse pensamento foi certeiro. De repente senti como se fosse atingida por uma pancada, que me fez segurar a cabeça com os braços, aterrorizada. Sim.. eu me lembro! Minha mente parecia ter voltado a funcionar. Meus olhos estavam escancarados. Era como se uma infinidade de informações estivessem sendo processadas ao mesmo tempo. Outro soco. Eu sentia como se estalos estivessem vindo de dentro para fora da minha cabeça. A dor era insuportável!
“AAAAAAAAAAAAH” me ouvi gritar, com todas as forças que consegui.
E então, o vazio...
***
“Hannah? Hannah! Acorde!”
Trisha estava de novo ao meu lado. Os primeiros raios de sol já adentravam pela janela e tocavam meu rosto.
“O que aconteceu?” perguntei.
“Você está fraca, é só isso.”
Não, pensei. Algo estava errado. Quando fechei os olhos e tentei lembrar do passado, as coisas fizeram um pouco mais de sentido. Tudo estava normal, exceto por um aparente vazio que eu sentia.
“Há quanto tempo eu...”
“Ficou fora? Algo em torno de 2 anos” ela concluiu, com um ar de lamento.
Dois anos? Tudo isso? A única imagem que me vinha em mente era uma rotina sempre igual de tomar remédios, comer, fazer as necessidades básicas, ir para o banho de sol e então tomar mais remédios e dormir.
“Eu fugi” disse, ingenuamente.
“Eu sei, minha linda. Isso foi muito perigoso. E...”
“Foi de propósito. Eu... ” – e então hesitei. Será que devia confiar nela o suficiente para isso? “Estava cansada de ficar ali. Eles me tratam como louca. Todos, sem exceção.” A imagem de Erza, a mulher que tomou conta de mim veio imediatamente a minha cabeça. Eu estava mentindo, mas não havia outra opção. Prossegui: “E eu estava sozinha e eles...”
“Calma, não precisa se preocupar com isso agora. Por enquanto você só precisa descansar.”
“Mas e se eles vierem atrás de mim?”
“Eles não virão.”
As coisas seriam simples demais se fossem assim. Mas eu realmente acreditei na senhora Filgs. Ela era a única pessoa com quem eu estava contando naquele instante. Ela estava cuidado de mim. Ao finalmente abrir os olhos percebendo a minha volta sem a visão embaçada e sem sentido que estava até então foi que eu vi: meus braços estavam enfaixados. Meus dois olhos podiam vê-los, o que isso significava que.. Sem pensar duas vezes joguei desesperada o cabelo para frente.
“Não precisa se preocupar em esconder seu olho.” Ela me disse “Mas você precisa me explicar o que está havendo. Mas agora não é uma boa hora. Quando você estiver melhor, eu desenfaixo seu braço e espero respostas, mocinha!” Sua voz tinha ficado estranhamente autoritária. Ela segurava minhas bochechas e apertava de leve. Mas ainda continuava o tom de preocupação que sempre surgia na sua voz.
Eu fiquei dormindo por algum tempo. Só acordava para comer alguma coisa trazida pela senhora Filgs. De vez em quando eu abria os olhos e via ela ao meu lado. Como sempre. Lembrei dos tempos de infância em que meu pai saia para trabalhar e eu ficava em casa, e ela comigo. Sempre foi como uma mãe para mim. Ainda mais depois que..
Ao perceber, eu estava acordada, chorando. Pouco importava que dia era, se era manhã ou noite, tudo havia desmoronado. Por um instante, eu senti a completa solidão. Eu segurava a cabeça com as mãos e afundei para frente. A realidade bateu em minha porta e entrou toda de uma vez: minha mãe estava morta. Foi como se eu revivesse todo o dia em que ela...
Mas não sou capaz de pensar nisso de novo. Eu jurei que ia esquecer. Eu tenho que esquecer. Não dela, mas do momento em que ela sumiu. Não havia nada a ser feito. Eu nunca mais veria o seu lindo sorriso outra vez. Ainda sinto sua falta. Penso em todas as coisas que devia ter feito ou dito, mas ela já não pode me ouvir. Eu já não posso vê-la na minha frente e senti-la em um abraço apertado. Imagino como meu pai devia ter se sentido... Onde... está ele? Pensei.
“Pai!” gritei. Trisha apareceu na porta e olhou para meu estado. Ela correu e então me abraçou.
“Calma” disse “ele está bem.” — Ela então parou um instante, e continuou: “pensando na sua mãe?”
Eu não consegui responder. Apenas afirmei com a cabeça, que estava em seu peito. Sua roupa manchava de lágrimas.
“Onde ele está?” tentei dizer.
“Ele está.. viajando.” ela me disse. “Voltará em breve de Lammina.”
“O que ele está fazendo lá?”
“Resolvendo assuntos da escola, você conhece seu pai: ocupado como sempre.” ela soltou uma gargalhada, hesitou e continuou “mas eu tenho a chave da sua casa. Se quiser passar lá, é só me pedir. Logo, logo você estará boa. Jovens se curam muito rápido! Hahaha” riu ela de novo.
Na manhã do dia seguinte eu estava de pé. Fui até a pequena cozinha da casa de Trisha Filgs e quando cheguei, ela estava cozinhando alguma coisa no fogão.
“Ai! Que susto, menina!” disse ela, com um pulinho, derrubando a colher. “Chega em silêncio como um fantasma!”
Eu ri.
“Desculpe. É que eu estava ansiosa para que me ajudasse a tirar as faixas, se não for incômodo.”
“Claro que não!” disse ela, com os lábios curvados em um sorriso meigo.
Ao tirar as faixas, percebi que haviam várias cortes, mas eram pequenos. Além disso, eles estavam quase cicatrizados, apesar do pouco tempo.
“Eu gostaria de passar lá em casa” anunciei.
“Não acha cedo ainda para..”
“Eu preciso ir” insisti. “Deixa, Trish, por favor!”
“Como se eu conseguisse dizer não a você, menina! Você sabe disso e se aproveita, né?! Vá lá! Mas não demore! Se for demorar um pouco que seja, venha aqui avisar ou me ligue!”
A casa dos meus pais era a uma esquina depois da de Trisha, apenas alguns metros de distância. Eu segui até lá. O sol brilhava muito forte. Pensei que minha pele fosse derreter: há muito que não sentia o calor do sol do lado de fora do hospital. Segundo a senhora Filgs, há dois anos.
Ao chegar em casa, abri a porta com a chave que ela havia me passado. Não havia nada de diferente, pelo que eu me lembrasse.
Tranquei a porta por dentro e então sentei na sala, entre a televisão e o sofá por alguns instantes. O que devo fazer? Pensei. E se eles estivessem me procurando? Não...
Após pensar por algum tempo, decidi que não valia a pena me preocupar sem saber de nada. Apenas liguei a TV e me sentei no sofá.
Foi então que, com os olhos abertos e tomada pelo medo, eu vi o que diziam os jornais. Trisha Filgs estava enganada. Eu não teria mais uma vida normal. Eles estavam me procurando. E se eu ficasse parada, eles me pegariam em questão de minutos.
Hannah Lenn não deve mais existir.
É hora de partir! Rapidamente peguei minha mochila de escola que achei escondida em meu quarto que ficava no primeiro andar da casa. Eu costumava esconder as coisas em cima do telhado, que podia ser visto pela janela alta. Por alguma razão minha mochila estava lá, coberta em vários panos.
Sem tempo para questionar, corri para o quarto do meu pai, que ficava próximo ao meu. Eu sei que é errado mas em situações de crise como essa, não havia o que fazer: peguei uma carteira contendo seus documentos e os meus, além de cartões de crédito e dinheiro. Se não fosse assim, eu não conseguiria ir para lugar algum. De qualquer forma, ele não teria que pagar pela minha estadia no hospício então eu estaria fazendo a ele um favor. Pensando assim, eu saí de casa.
Meu celular estava em um bolso da mochila de cor vermelha e cinza. Ele era rosa. Algum dia eu devo ter gostado dele com essa cor. Seja como for, havia 15 ligações perdidas. Era Trisha. Assim que atravessei a rua, ela gritou meu antigo nome:
“Hannah! Pra onde vai?!”
Parei. Meus pés e pernas congelaram. Ainda com o celular em mãos, digitei rapidamente uma mensagem:
“Preciso ir. Me desculpe. Não me chame de Hannah. Assim que puder te dou notícias. Não se preocupe. Bejios. Adeus.”
Como se o botão de enviar me desse forças, eu consegui mover cada vez mais rápido as pernas. As casas, prédios e lojas passavam por mim como borrões. As pessoas na calçada eram apenas obstáculos. Eles não podiam saber quem eu era. Se alguém me descobrisse e entregasse, eu voltaria àquele lugar. E voltar depois do que eu fiz é algo impensável. Se isso acontecer...
Ainda assim na minha mente um vazio me dizia que alguma coisa estava incrivelmente errada. Mas não havia tempo para pensar. Pelo menos não agora.
Notas finais
e não deixem de comentar u_u
mesmo que esteja um lixo, podem dizer kk
críticas e opiniões são sempre bem vindas o
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