A Fortaleza das Feras - Livro 01 (Caos e Ruína)
6 Capítulo 5 - Sora
Notas iniciais
Sora manteve Ethan preso enquanto eles cavalgavam para Temesia.
Como haviam previsto, fora necessária uma tarde para alcançarem a cidade, e o príncipe não reclamou em momento algum, nem por estar caminhando amarrado, nem por possivelmente estar morrendo de fome, e muito menos pelos golpes que recebera mais cedo da jovem prateada.
Quando alcançaram o fim da Floresta Abissal, Bart ofereceu para Ethan um pouco de comida que sobrara, a água eles vinham dividindo por todo o caminho. O príncipe aceitou sem pensar duas vezes, e devorou cada pedaço em silêncio. Estava com muita, mas muita fome, aparentemente. Durante o caminho eles também haviam extraído mais algumas informações dele. Sobre como vinha fugindo dos soldados mork, como fora espancado e então largado no Bosque Negro, que ficava do outro lado do Rio Congelado e era a porta de entrada para a Floresta Abissal. Ethan também não entendia o motivo de terem o deixado vivo e largado. Parecia ser um divertimento fazer com que soldados mork de vez em quando surgissem para o amedrontar.
E Sora permanecera calada, não era mau humor, não estava irritada, apenas ficara quieta, embora, ouvisse tudo atentamente. Não gostava daquela ideia de uma Legião Mork ter invadido o continente. Aquilo significava que todo o sacrifício, toda a matança, fora em vão. Ou ao menos havia adiado a guerra, para ter se estendido mais um pouco naqueles anos passados.
Quando Temesia surgiu a frente, há cerca de meia hora de caminhada na campina que cercava a cidade enorme, pareceu que tudo ficou mais simples. As muralhas que circundavam eram enormes, monstruosamente altas, e era possível ver apenas as torres da Fortaleza das Feras, que cortavam os céus ainda mais altas que a muralha. Era uma visão extraordinariamente linda. A cidade que fora construída há séculos, quando os guerreiros das feras eram um símbolo de força e poder. Agora era apenas um símbolo, não havia tanta força, nem tanto poder.
E nem tantos guerreiros assim.
Pelo menos, não era da maneira que divulgavam ser.
Sora imaginava que em mais alguns anos a fortaleza se tornaria apenas mais um local para criar soldados mercenários, que não iriam se destacar mais. Afinal, por qual motivo manter o nome de Fortaleza das Feras, se sequer havia domadores de feras? Haviam caçado e matado todos no passado. E agora, mantinham um nome poderoso, para fingir que ainda tinham algum tipo de capacidade extraordinária.
A guerreira desceu do cavalo quando fizeram uma breve pausa e voltou-se a Ethan:
― Você se comportou. ― Foi a única coisa que proferiu quando cortou as cordas que prendiam as mãos do príncipe. Ethan massageou os pulsos doloridos, e murmurou um obrigado. ― Pode subir.
Só então dispararam para a fortaleza.
Faltava pouco para chegar, mas ver a cidade distante, fora necessário para despertar a pressa que sentiam para chegar no que poderiam chamar de casa.
Não trocaram palavras durante o percurso, permaneceram focados em atravessar o caminho. Estavam ansiosos, a festividade para a chegada do outono seria nos próximos dias, e estariam de folga, se tudo desse certo. Temesia era um distrito independente dos reinos, embora estivesse localizada na região de um, não dava satisfações e nem poderia ser considerara parte. Era um local cheio de etnias misturadas, que adotara os próprios costumes ao longo dos anos. Lembrava um pouco alguns traços de Forte da Caveira, a diversidade e a independência.
O sol já se tornava fraco no céu e em alguns minutos já estavam atravessando os abissais portais de pedra. E Ethan parecia exausto, relaxara aos poucos enquanto corriam, mas Sora percebeu que ele ainda estava ofegante e cansado. Com a claridade da tarde ela também notara que ele estava com uma aparência de pouca saúde. Aquelas deveriam ser as consequências por ter passado os últimos dias fugindo. Ele era um príncipe, não fora treinado para sobreviver daquela maneira, aquilo era fato.
Uma longa avenida pavimentada com pedras cinzentas se estendia além dos portões, Ethan tentou absorver o máximo de detalhes enquanto corria. As pessoas e seus traços diferentes, as cores da cidade que se mesclavam entre o cinza da pedra, o marfim das casas e o vermelho dos detalhados. As decorações, as informações todas misturadas, causando um pouco de poluição visual, mas ainda assim, chamativas e interessantes. Diferente de todo o branco cegante que vira no Castelo de Gelo. Era movimentada, era como se Temesia tivesse vida.
Conforme atravessaram a grande avenida que se estendia até a Fortaleza, as pessoas na rua reconheciam quem corria em disparada para a construção de pedra. Guerreiros brutais que trabalhavam por dinheiro. Mas ainda assim, não pareciam temer, nem admirar, era simplesmente como se já estivessem acostumados com aquelas idas e vindas.
A Fortaleza das Feras era constituída por torres altas que se erguiam como garras, que por pouco não tocavam as nuvens, devido à altura que a cidade se encontrava no solo. Temesia era uma cidade linda, de construções harmoniosas, e a fortaleza no centro só servia para deixar a visão ainda mais bela quando fazia sombra nas casas ao redor. Algumas torres eram interligadas por pontes altas, que Ethan conseguiu visualizar mesmo estando longe. E ao redor de toda construção, outra muralha de pedras circundava, só que menor, mais baixa, como se estivesse ali apenas para delimitar o território. A monstruosidade da fortaleza não parecia tornar necessário muralhas grosseiras para ser protegida, como as que abrigavam a delicada e colorida cidade.
― É uma cidade incrível, não é mesmo? ― Quebrou o silêncio, o guerreiro loiro, quando atravessaram o portão da Fortaleza.
Ethan apenas concordou, em silêncio. De fato, a cidade era linda. E bem diferente das torres cor de marfim que conhecia em Edésia. Era avivada, mas ao mesmo tempo rodeada pelas rochas cinzentas da muralha e coberta pelas sombras da fortaleza. E movimentada, cheia de casas e lojas.
Nos portões da fortaleza facilmente era possível notar os guardas espalhados, armados e à espreita de qualquer pessoa estranha que surgisse. Embora todos ali conhecessem a figura prateada de Sora, não se importaram quando os dois guerreiros se dispersaram no pátio e ela seguiu para a grande porta da construção.
― Desça. ― Ordenou a jovem quando já estava no chão. Ela calmamente amarrou o cavalo e Ethan a observou. Já vira guerreiras, mulheres como aquela eram raras. E ele sabia, sem sombra de dúvidas, que não era uma ideia muito inteligente desafiá-las, mesmo com uma aparência tão bela, Sora deveria ser perigosa.
Mas as vezes também achava interessante a possibilidade de ver toda a fúria de uma beleza como aquela.
― Não vou amarrá-lo novamente, então não faça nenhuma merda. ― Ela o encarou, os olhos verdes felinos e penetrantes. ― Sempre que finalizamos uma missão, o guerreiro com a patente mais alta da equipe vai ao encontro do General, para reportar os detalhes. Para a sua sorte, príncipe, desta vez sou eu.
Guerreira com a patente mais alta, entre os três que conhecera, Sora ficava cada vez mais intrigante. Bart certamente teria idade a dela para menos, então Ethan concordou com a ideia de que ela deveria estar em um nível superior ao dele. Mas Asher, ele havia julgado que o guerreiro liderava a missão da qual retornavam... Só que não, era ela.
Mas, por fim, Ethan assentiu, e não falou mais nada.
Ele não ousaria fazer nenhum movimento perigoso, não quando estava naquela posição, e muito menos quando sabia que um passo errado, seria suficiente para arrancarem a sua garganta.
Só então adentraram o grande salão da fortaleza. Era semelhante com a sala do trono do Castelo de Gelo, mas era cinzenta e não havia um trono. A Fortaleza não era comandada por um rei, ou por uma rainha, era apenas um quartel glorioso. No caminho não passaram por mais guerreiros. Ou estavam todos fazendo guarda ao redor da cidade e da fortaleza, ou estavam todos em missão. Ou simplesmente em outra ala da construção, treinando as habilidades brutais. Ethan não sabia dizer, mas fizera questão de tentar deduzir.
― Vou levá-lo até o general, ele deve saber de algo importante. ― O tom de voz desconfiado, Sora o observada pelo canto dos olhos.
― Obrigado. ― Ethan respondeu, simplesmente. Não sabia se deveria estar grato por toda a generosidade que ela havia oferecido. Aquela guerreira poderia ter cortado sua garganta facilmente mais cedo, mas ponderara e o levara até ali, simplesmente porque achava tudo muito suspeito.
E a jovem permanecera em alerta, a cada instante e a cada movimento dele, conforme caminhavam pelos corredores de pedra. Sora somente parou quando surgiu uma porta enorme no fim de um caminho cheio de janelas, ela soltou um suspiro e empurrou a entrada, entrando com Ethan atrás. A jovem anunciou, sem mais delongas:
― General Thormann, este sujeito diz ser Ethan Rosenrot, príncipe herdeiro de Edésia, o grande reino do Norte. ― A figura de um homem sério estava sentada na ponta da mesa oval da sala enorme. O general deveria ter em torno de quarenta anos, cabelos grisalhos, uma barba bem-feita com alguns fios brancos. Os olhos cinzentos estampavam anos de experiência em batalha, além da circunspeção frívola. Ethan reconheceu a figura, Arcádio Thormann. O único domador vivo, que liderava a fortaleza. Os boatos diziam que ele escolhera sacrificar sua fera para sobreviver a matança que se seguiu após a queda, e que havia auxiliado a caçada aos outros guerreiros sobreviventes.
Havia sangue em suas mãos.
Mas havia poder, e uma circunspeção grave de alguém que reconstruíra um império.
O general cruzou os braços na mesa de madeira, exibindo os músculos de anos de treino. Um guerreiro legítimo. No entanto, Ethan não gostou dele. Algo o incomodava, toda a corrupção, todas as vidas que estavam em suas mãos... Não que ser quem ele era não o colocasse em uma posição delicada como aquela.
― Já imaginava que você poderia aparecer por aqui. ― Sem olhar para os dois jovens, o general organizou a papelada que estava em sua mesa. ― Meu nome é Arcádio Thormann, sou o líder e general da Fortaleza das Feras. ― O homem vociferou, a voz grave e contida. Dando um breve aceno com a cabeça pediu para que se aproximassem.
Sora passou em frente ao príncipe, visivelmente acostumada com aquele tipo de conversa. Ethan se aproximou, e sentou-se em frente a jovem.
― Recebemos a notícia sobre o ataque dos mork enquanto você estava fora, e isso é um grande problema. ― O homem voltou-se para Sora. ― Como o encontrou?
O modo como analisava Ethan, verificando cada detalhe com os olhos frios. O príncipe recuou, estava jogando um jogo perigoso, com alguém que tinha de fato poder. Talvez ter ido até ali, com todas aquelas pessoas preparadas e inteligentes, fosse ainda mais arriscado.
― Quando estávamos alcançando o fim da Floresta Abissal, ele estava nos observando. ― Sora falou, trocando palavra “espionando” por “observando”, enquanto limpava as unhas, ligeiramente arrogante, sem se dar ao trabalho de olhar para o príncipe.
Ali, na fortaleza, ela certamente estava em uma posição acima da dele.
Ethan era apenas mais um cliente desesperado.
― Conte-me, Ethan, o que aconteceu exatamente? ― Questionou o general.
Ethan soltou um suspiro breve, e reuniu todas as informações antes de despeja-las.
― Há dez dias um exército mork saqueou Ansélia. Devastaram tudo, muitos do meu povo morreram. ― Ele pausou, agrupando forças para continuar: ― Meus pais, os reis de Edésia estão mortos. Tentei encontrar os meus irmãos, sou o mais velho, no entanto, quando cheguei ao corredor dos aposentos deles, os soldados mork já estavam lá. Eles espancaram Vincent e arrastaram Olívia, não pude fazer nada. Então fugi, mas corri até a sala do trono para pegar isto ― ele puxou o amuleto da Rosa Invernal e mostrou, provando que não mentiria. Sora desviou o olhar para observar a joia, demonstrando um relance de interesse, mas o general continuou concentrado encarando o príncipe. ― No entanto, lá um dos Três Príncipes Mork surgiu, acho que o nome dele era Raiden, talvez esteja enganado, pois em seguida eu apaguei. ― Ethan se calou, tentando juntar as memórias.
― E então? ― Arcádio Thormann ergueu as sobrancelhas.
― Algum soldado deve ter batido na minha cabeça, eu não sei, mas naquele momento eu simplesmente apaguei. E acordei somente no outro dia, espancado, quase tendo uma hipotermia, e largado na beirada do Rio Congelado. Acho que eles queriam que eu sobrevivesse e fugisse, mas estava tão desesperado que simplesmente sai. E então decidi que a melhor coisa para fazer era vir para cá. Temesia não pertence a nenhum reino, e seria perigoso viajar sozinho até Edom, principalmente quando estavam me perseguindo, tive que desviar o caminho. Então, quando percebi, havia me afastado de Ansélia, mais e mais... E vocês devem ser fortes o suficiente para lidar com uma Legião Mork.
Era suspeito, de fato. A cidade, Edom, era muito mais próxima de Ansélia do que Temesia. Sora inclinou-se, ainda pensando sobre a história que o príncipe contava. Algo parecia simplesmente, errado. Mas ela não conseguia entender o que era exatamente, então apenas continuou avaliando-o. Poderia fazer seus questionamentos depois, do jeito dela, bem longe de Arcádio.
― Nós temos um preço, você sabe disso. ― O general observou.
― Eu sei. Meus pais guardavam parte do nosso ouro em Edom, ainda dentro do território edesiano. Posso solicitar que o Lorde Thaery forneça esse ouro, ele ainda é vassalo de Ansélia. ― Ethan falava tudo com tanta convicção, que deixava claro que tivera muito tempo para pensar. Era esperto, de qualquer forma.
O que tornava tudo ainda mais suspeito.
― E como vamos saber se Edom não foi saqueada pelos soldados mork ainda? ― Sora questionou, não conseguia conter a desconfiança. No entanto, Arcádio inclinou-se interessado pela pergunta. Aquele era um fato intrigante, e bem possível de ter acontecido, ao julgar pelos dias que haviam passado.
Mas após ajuizar por um instante, quem respondeu foi o general, como se estivesse lembrando de alguma informação perdida:
― Não recebemos notícia de um ataque em Edom, parece que a Legião Mork está contida apenas em Ansélia. Não tiveram coragem de atravessar o Rio Congelado e navegar pelo Shira para outras partes de Sidgar. Isso provavelmente desencadearia em uma guerra, parece que estão esperando mais alguma coisa acontecer. Podemos escolta-lo até Edom, já que você mencionou ser perseguido. Quando chegar lá, certifique-se que o pagamento chegará até aqui, e terá a Fortaleza das Feras como aliada em seus exércitos para tomar Ansélia de volta.
― Obrigado.
Gratidão brilhou nos olhos do príncipe, mas o homem a sua frente apenas voltou-se para a papelada. Estava apenas fazendo o seu trabalho, nada a mais, nada a menos. Não era um fato que poderia mudar a sua vida, pelo menos, ainda não.
― Amanhã conversaremos com mais calma, para obter mais detalhes e sobre números. ― Concluiu o general. Ethan sabia que a Fortaleza exigiria pagamento, todos naquele continente sabiam. E de certa forma era justo, afinal, eles prometiam fornecer os soldados mais bem preparados e habilidosos. Tê-los como aliados era importante. ― Por hora, o assunto está encerrado. Vamos solicitar que arranjem um quarto para você, roupas e alimento. Ficará na cidade até que tudo esteja acertado, aproveite o festival do outono. Se precisar de algo a mais, pode nos solicitar. ― O general voltou-se à Sora. ― Quero que fique para conversarmos sobre a sua missão. Ethan, você está dispensado.
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