A Fortaleza das Feras - Livro 01 (Caos e Ruína)
9 Capítulo 8 - Sora
Notas iniciais
Após se retirar do Salão das Feras, Sora foi para a taverna que frequentava há bastante tempo.
Lionel tinha bom gosto para decoração, a guerreira constatou enquanto observava cada canto. Mas Sora não o vira perambulando pelas mesas, ao invés dele havia um rapaz desconhecido servindo os clientes, enquanto Ranborn, seu parceiro, estava no balcão.
― Senhorita, é a segunda vez que aparece aqui hoje. ― O homem aproximou-se, Ranborn tinha uma idade próxima a de Lionel, dois guerreiros e amantes aposentados. Mas seus traços eram diferentes, os olhos finos e negros, os cabelos lisos e igualmente escuros, características comuns para um homem que nascera em Odalia. ― Diga-me, tem falado com Tereza?
― Já faz algumas semanas que não a vejo, nem tenho notícias. Você tem? ― O homem pegou um copo e começou a limpar. Eles eram casados há anos, e Tereza, se casara com Aeron, irmão mais novo de Lionel. Era uma família insana, que ela sabia que fazia parte. Um pedaço de sua vida que nem seus colegas da fortaleza conheciam, ou Bart, que era seu amigo mais próximo. Uma família que ela gostaria de ter, mas que sempre vivera escondida, por causa das circunstâncias atuais e o que eles haviam feito para poder sobreviver após a Queda.
― Não, a não ser a cevada que recebemos no último mês, não falei mais com o meu cunhado e nem sua esposa. ― Ele largou o copo no balcão e observou a jovem. ― Tereza me dá arrepios, sempre foi assim. ― Ranborn sorriu. De fato, aquela mulher dava medo até em Sora. ― Mas sinto falta, é uma pena que eles não possam vir nos visitar.
― Bom, tenho uma missão em Edom, talvez na volta eu possa passar na casa deles para ver como estão.
Ranborn sorriu novamente.
― Muito bem, ficarei no aguardo. ― O homem colocou o copo sobre o balcão. ― Algum plano para o Festival Outonal?
― Além de beber durante a noite inteira, e depois dormir metade do dia? Não, nenhum plano. ― Deu de ombros, mas sorriu de canto, maliciosamente.
― Não vejo ideia melhor! ― Gargalhou Ranborn, enquanto se apoiava no balcão com os braços cruzados. Vestia-se tipicamente de preto, Sora nunca o vira usando outra cor. ― Acho que seus amigos estão chegando. ― Os olhos pretos correram para a entrada da taverna, enquanto enchia a caneca de cerveja para a guerreira.
O homem foi atender um cliente, e Sora permaneceu sentada esperando e observando.
A jovem calmamente ergueu os olhos cor de esmeralda, após tomar outro gole de cerveja e percebeu a presença feminina, seguida por um homem alto e musculoso.
Sora sorriu.
― Achei que não iriam aparecer mais. ― Os dois guerreiros pegaram duas cadeiras e se sentaram, Sora cruzou os braços sobre a mesa e os encarou, erguendo uma sobrancelha, a satisfação estampava seu rosto ― Olá Perci. Olá Kristin, eu já esperava por você.
― Esse brutamontes me convenceu, mas não pense que concordo com a sua ideia estúpida de pegar o ouro e ir embora. ― Resmungou Perci, os olhos amendoados faiscaram levemente irritados. Sora sorriu novamente, e fingiu desinteresse.
― Tanto faz, não temos muito a perder, de qualquer forma.
― Quando partiremos exatamente? ― Questionou Kristin, visivelmente interessado.
― Depois do festival, então... Depois de amanhã. Estou em dúvida se seria melhor ao entardecer ou de madrugada.
― De madrugada, quando estiver passando a meia noite, com certeza. Assim teremos um dia todo para nos curar da ressaca. ― Asher surgiu atrás dos dois guerreiros, seguido por Bart. Eles pegaram mais cadeiras e se sentaram. ― Oi, Sora. ― Sorriu com escárnio, ela devolveu a mesma expressão.
― Faz sentido, durante a noite também fica mais fácil sair sem chamar atenção. ― Kristin concordou, ponderando. Sair durante o momento em que a cidade ainda dormia, era uma boa ideia. Atravessar a Floresta Abissal seria o mesmo perigo que em qualquer outro horário do dia.
― Bom, acho que vou preparar meu arco e minha aljava. ― Estufou o peito Bart, visivelmente satisfeito.
Era exatamente o que Sora precisava, eles estavam de acordo. Viajariam até Edom, receberiam o ouro, e a partir desse acontecimento, cada um seguiria suas vidas como bem desejasse. Ela só iria voltar a dormir em paz quando tivesse condições suficientes para comprar uma passagem só de ida para outro continente, bem longe da Fortaleza, ou de Temesia, e daquela maldita ameaça mork. Mesmo que aquela decisão implicasse desaparecer da vida de tantas pessoas.
― Enfim, o que você acha do tal príncipe? Confia nele? ― Perci pegou a caneca de cerveja quase cheia de Sora, e tomou tudo em um gole só.
― Seria uma tola se confiasse totalmente nele, por isso não cogitei a possibilidade de ir sozinha até Edom. Arcádio ofereceu a ideia, disse que o pagamento de cinco pessoas poderia ser todo meu, mas recusei e chamei vocês.
― É claro que o general iria preferir que somente uma pessoa fosse, assim sobrariam mais guerreiros para ele aqui. ― Vociferou Perci, irritada. ― Está ficando escancarado que Temesia tem exércitos mais poderosos que a Fortaleza. Somos em torno de quantos? Um pouco mais de cento e cinquenta?
― Cento e cinquenta e sete, desde que um grupo desertou no início do verão. A fortaleza tem se mantido de pé porque, além de abrigar e dar um pouco de treinamento para soldados edesianos, ainda é dona de um vasto conhecimento nas bibliotecas e nos arquivos, então, ainda há quem pague para guardar segredos aqui. ― Respondeu, Asher, lembrando daquele evento caótico onde Arcádio mandara outros guerreiros caçarem os desertores, um ato cruel. E havia ficado realmente feliz em não ter sido escolhido para aquele trabalho. Ele então voltou-se para Sora. ― E mais vão desertar. Um guerreiro da Fortaleza equivale a três guerreiros do exército de Temesia. Nós somos melhores, nós treinamos soldados, mas estamos diminuindo. Se a magia ainda existisse, poderíamos ser centenas, que iriam equivaler a milhares de homens comuns.
― É uma pena ninguém saber como eles bloquearam tudo. ― Kristin soltou um suspiro, desanimado. Sora sabia que ele era como ela, e alguns anos mais velho, quando ocorreu a queda. Deveria ter lembranças ainda mais fortes do pouco de magia que corria em suas veias. Então tudo foi extinguido.
― Imagina, poderíamos tentar descobrir. ― Animou-se Bart.
― Não tem nenhum registro sobre como isso ocorreu. ― Sora poiou o rosto em uma das mãos. ― Eu revirei todos os livros que continham a história da Queda na biblioteca, e não diz nada exato. Apenas que foi erguida uma muralha invisível ao redor do continente, que não deixaria nenhum filho de fada ultrapassar, e o sacrifício para isso fora a extinção da magia para cada ser vivo que possuísse.
― Isso é muito injusto, sacrificaram sem dar satisfações nenhumas. ― Ponderou Perci.
― Foi tudo para o bem maior. ― Articulou Kristin, aquela ideia o deixava visivelmente incomodado. ― E agora estamos cientes dos morks de volta no continente. E não há nenhum resto de magia para nos defender, nem algum fae que esteja vivendo no continente, e depois da matança após a Queda, duvido muito que outros fae possam tentar vir até aqui ajudar.
― Parece que estamos realmente fodidos. ― Perci sorriu. ― Vamos brindar toda essa merda.
Então eles beberam.
Sora não esperava que fossem passar tantas horas na taverna, e até mesmo esquecera de comer quando chegou em casa e vomitou toda a cerveja que haviam ingerido. Ela permaneceu sentada no chão do banheiro, talvez horas, ou minutos, estava tão zonza que sequer teria noção de tempo. Haviam bebido como nunca naquela noite, e até mesmo festejado um pouco. Todos sabiam que um perigo eminente iria estourar há qualquer momento, mas seguir suas vidas e tentar manter a sanidade da melhor forma possível, era o melhor jeito para lidar com aquilo.
Depois de tomar um banho gelado, sequer se deu o trabalho de se vestir e então desabou na cama. Cada guerreiro tinha o direito de receber aposentos na Fortaleza, havia uma ala própria para isso, eles moravam ali, e os quartos não eram tão ruins. Era espaçoso, havia uma mesa com uma poltrona, uma estante que Sora usava para guardar livros, o guarda-roupa e um banheiro relativamente grandes. Era um local consideravelmente bom, comparado a situação em que muitas pessoas ainda viviam naquele continente.
A jovem não se mexeu durante toda a noite, e foi acordar somente no meio dia seguinte, quando ouviu batidas na porta. Ela bufou, resmungou e se encolheu ao se cobrir, percebendo que ainda estava nua. Deu de ombros e ignorou as batidas mais uma vez.
― Sora? Está tudo bem? ― Ethan.
Soltou palavrões baixinhos quando pegou um travesseiro e o abraçou, sua cabeça latejava e cada som que vinha de fora parecia ser dez vezes pior e mais alto.
Ele deu mais duas batidas.
Silêncio.
― A maldita porta está aberta. ― Ela lembrou-se, por descuido havia deixado a porta destrancada na noite anterior, estava enjoada e bêbada demais para lembrar daquilo. Sora se arrependeu amargamente por ter esquecido.
Foi possível ouvir o trinque girando, e a cada som da porta rangendo fez com que sua cabeça latejasse.
― Está tudo.... Ah... Você está nua? ― As costas de pele branca estavam expostas, nada mais que isso, no entanto, Ethan ficou um pouco inquieto.
― Sim, e daí? ― Sora não se virou, não o encarou torcendo para que o príncipe desse a meia volta e fosse embora.
Mais um minuto de silêncio, e ele ficou ali.
― Asher e Kristin estão procurando por você, eles me indicaram onde ficava o seu quarto e pediram para chamá-la. ― Bom. Pelo menos ela não precisaria questionar como ele havia encontrado o seu quarto. Mas ainda assim, malditos eram Asher e Kristin por contar.
― O que eles querem?
― Acho que querem ver o que precisam comprar de suprimentos.
Sora gesticulou para que ele fosse embora, confirmando que havia entendido. Ethan não protestou, saiu sem fazer ruídos quando fechou a porta novamente. Lentamente a jovem se levantou, trancou a porta, vestiu-se e prendeu os cabelos grisalhos em uma longa trança. As vezes se perguntava por que não cortava bem curtinho, ou como Perci, na altura dos ombros. Mas por fim, após encarar a túnica cinzenta e a calça preta justa, constatou que o cabelo longo era, pelo menos, bonito.
Embora fosse pouco útil.
Encontrar Asher e Kristin não fora uma tarefa difícil, eles estavam na feira que acontecia na praça principal. O local estava cheio, e os preparativos para o festival a noite corriam, as pessoas de um lado para o outro com as decorações laranjas, amarelas e vermelhas. Todavia, visualizar os guerreiros fora uma tarefa simples. As roupas de combate indicavam que deveriam estar treinando pela manhã. Algo que ela poderia ter feito, caso não tivesse dormido mais que o necessário. Sora aproximou-se dos guerreiros e cruzou os braços abaixo dos seios.
Estava vestindo uma túnica cinzenta solta, de mangas compridas por causa do ar relativamente frio, e uma calça preta justa. Botas marrons até o joelho, e, para não perder o costume, duas adagas presas as coxas.
Eles conversavam distraídos, apenas visualizando o que estava disponível para vender.
― O que vocês querem, afinal? ― Asher quase saltou, não notara a presença da jovem aproximando-se, e Kristin apenas virou-se, os cabelos escuros estavam presos, a personificação de um guerreiro brutal e frio.
― Asher quis comprar uma espada nova. Então viemos e aproveitamos para ver o que seria necessário levar de comida.
― Não precisa de muito, não faremos tantas refeições no meio do caminho. Depois que atravessarmos o rio chegaremos em um vilarejo, podemos comprar mais por lá, descansar e comer.
― Foi o que eu pensei. ― Asher observou-a dos pés à cabeça com os olhos de cor escura. De longe e de costas, o que os diferenciava era o corte de cabelo, mas de perto, Kristin tinha a pele mais bronzeada. ― Já compramos o que vamos precisar.
Sora pensou em questionar sobre onde Ethan estava, ele havia a chamado e saído, e ela constatara que deveria estar ali, com os guerreiros, mas errara feio e não havia sinal do príncipe na praça. No entanto, por fim, questionou:
― Perci e Bart, onde estão? ― É claro que ela não iria dar o braço a torcer e mostrar que estava curiosa com relação à onde o príncipe deveria estar.
― Bart eu não sei, Perci está dormindo como um bebê. Nem parece aquele demônio cruel e irritante. ― Respondeu Asher, Kristin pareceu soltar um suspiro cansado. ― Poderíamos ter passado a noite juntos, Sora, assim você acordaria cedo e não perderia o treinamento. ― Sugestivo, muito, sugestivo.
― Em uma outra oportunidade. ― Respondeu, Sora. Ah, ele não iria perder o momento para flertar com ela, aquilo era fato. Ainda mais quando estava tudo em seu devido lugar, os mantimentos, o horário para partir, naquele dia não havia mais motivos para estresse.
― Podemos nos encontrar depois do festival, o que acha? ― Piscou malicioso, Sora apenas lançou um olhar em confirmação.
Kristin já estava se preparando para ir embora, quando a guerreira virou-se e acenou de longe para eles. No fim das contas, não precisavam mais dela para resolver aqueles detalhes.
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