A Fortaleza das Feras - Livro 01 (Caos e Ruína)
3 Capítulo 2 - Sora
Notas iniciais
Correr noite adentro fora a melhor opção, porém, não o suficiente para que não a encontrassem. Foi uma surpresa quando Sora deslizou para a rua de pedras abaixo e foi surpreendida pelos guardas do Mercador, parados nas sombras, aguardando a sua chegada.
A guerreira amaldiçoou os deuses por aquele imprevisto, por ter sido desatenta o suficiente para não notar aquelas sombras a perseguindo, esgueirando-se entre as casas e a noite. Ela tentou contrapor, mas percebeu que não seria a melhor opção, não quando havia cinco homens atrás dela. Por fim, Sora não protestou quando a arrastaram pelas docas, sabe-se-lá-para-onde. Concluiu, no entanto, que a arrastariam para as arenas, levando em consideração que naquela noite haveria um show.
E, aparentemente, Sora seria o prato de entrada.
Que fosse então.
Conhecia bem o suficiente aquela cidadezinha, toda a podridão que era disfarçada pelo comércio cheio de variedades e de cores. Não era a primeira vez que estivera ali para completar uma missão.
Embora, ela estava começando a ficar apavorada, principalmente quando eles a jogaram em uma espécie de corredor de alcovas. Não a trancaram, apenas arrastaram, mas o local estava no mínimo cheio. Havia pelo menos três homens em cada cela, que Sora facilmente reconheceu como sendo escravos. Provavelmente da mesma origem dos quais ela havia encontrado anteriormente. No final do corredor havia uma porta de madeira, os guardas continuaram a empurrando. Ela resmungou, rosnou para eles, mas não tentou fugir. Não era inteligente tentar, ainda mais quando ela conhecia a forma que funcionava aqueles locais.
Aparentemente, ela seria jogada aos leões.
Era assim que eles chamavam o espetáculo inicial, aquela espécie de clube da luta, ridículo, onde homens lutavam até a morte, e burgueses apostavam suas cabeças. Nas arenas, eles sempre iniciavam com uma entrada, geralmente jogando algum prisioneiro moribundo para que o lutador principal abatesse em frente aos pomposos homens que preenchiam as arquibancadas. A guerreira podia ouvir os gritos de animação da torcida, malditos que pagavam para ver sangue.
Mas, se queriam sangue, ela poderia dar um pouco a eles.
O guarda, um homem alto, bem maior que o moribundo que ela havia cortado a garganta mais cedo, parou em frente a enorme porta de madeira. Outro guarda o aguardava, armas estavam dispostas em um painel na parede.
― Por ali. ― Ordenou o homem, apontando para a parede ao lado ― Escolha. ― Uma ordem, ríspida e direta para ela. Sora não pensou duas vezes, escolheu as armas que mais lhe chamaram atenção. Duas facas alongadas, levemente curvilíneas, e aparentemente, as que estavam mais afiadas comparada as demais opções que havia ali.
― Ropher, vamos mesmo jogá-la? ― Questionou o brutamontes que mantinha a guerreira presa.
O outro homem, no entanto, deu de ombros.
― O Mercador quer um show de entrada. Vamos joga-la aos leões e veremos o quanto de apostas conseguimos.
― Tem algum nome, criatura? ― Questionou o guarda que a arrastara pelo corredor. Sora conseguia ouvir a gritaria vinda de fora, estavam ansiosos para a próxima atração.
Excitados para ver o derramamento de sangue, e torcendo para que tivessem apostado no indivíduo certo.
― Não interessa. ― Ela cuspiu, os guardas não pareceram se importar.
― Ótimo, então vamos abrir. ― Quem respondeu foi Ropher, o guarda magrelo.
Eles não entregaram as armas em suas mãos, mas abriram a porta, e a luz da arena bateu em seu rosto.
Então a chutaram para a arena, derrubando-a no chão de terra seca, jogaram as lâminas logo depois.
Só então fecharam a porta atrás dela.
Quando Sora ergueu-se, a plateia rugia ferozmente para o início da disputa que se seguiria.
***
A jovem torceu para que seus companheiros estivessem ali.
Entre aqueles olhares gritantes e sedentos, Sora desejou que Asher e Bart tivessem tomado a decisão de ir até as arenas sem a presença dela, conforme haviam combinado, caso ela se atrasasse e não chegasse a tempo para compartilhar as informações que obtivera.
Calma e levemente atordoada, ela levantou-se, juntou as facas que estavam no chão e se posicionou, observando a entrada de seu adversário, do outro lado do círculo da arena.
O chão entre eles era de uma terra seca, que levantaria poeira, com algumas manchas escuras que ela julgou ser sangue velho e seco, possivelmente o resultado da noite anterior.
Mas ela não iria fugir.
Ainda mais quando aquelas facas sujas e afiadas estavam em suas mãos.
Que bela noite estava tendo. Primeiro: raptada. Segundo: estavam contrabandeando escravos. Terceiro: cortara a garganta de um homem. Quarto e não menos importante: agora teria que cortar a garganta de outro.
Que os deuses lhe protegessem, embora, ela soubesse que não era merecedora de tal amparo, não quando não era melhor do que aqueles que haviam a atirado ali.
― Para darmos continuidade à noite! ― O guarda magrelo surgiu no pequeno palco que havia próximo à entrada. Então ele lançou um olhar rápido para a jovem, e até mesmo cruel, que foi devolvido da mesma maneira: ― Que entre o Leão!
Sora permaneceu parada, esperando o oponente.
Então a porta do outro lado da arena se abriu, e um homem gigante surgiu.
Merda. Merda. Merda.
Era só o que repetia em sua mente, e a melhor forma de resumir a situação. Asher, seu colega na missão, avisara que aquilo poderia acontecer..., mas encarar realmente, fez com que hesitasse.
Poderia correr, fugir enquanto havia tempo, no entanto... O homem gigante carregava apenas uma espada, e vestia apenas botas e uma calça marrom. O peitoral era enorme, peludo e musculoso, não era do tipo atraente. O rosto, quase o rosto de um ogro, traços grossos e brutais, cheio de cicatrizes, assim como o resto do corpo.
Que fossem para o inferno, ela já passara por situações tão complicadas e saíra viva, um homem grande e burro não seria o suficiente para fazê-la hesitar. Sora deu um passo para trás e segurou com força as duas facas. Amaldiçoando-se, talvez teria sido mais inteligente escolher a espada.
― Leão! Leão! Leão! ― Era dessa forma que apelidavam as criaturas que lutavam ali, patético.
Que bela porcaria, pensou Sora antes de correr.
O lutador partiu na direção da guerreira e ela não teve tempo para se preparar, então percorreu e desviou do golpe. A espada gigante cortou o ar onde Sora estava antes. E ela imaginou o que poderia ter acontecido se estivesse ali, no momento em que o golpe atingiu o nada. Teria sido uma cena grotesca.
Pelos deuses, só entravam monstros naquela arena.
Monstros e pessoas estúpidas e suicidas o suficiente como ela.
A guerreira saltou novamente quando a lâmina surgiu, desviou do golpe e falhou quando tentou revidar, o Leão usou a espada para lançar outro golpe. O plano saíra do controle, mesmo com o aviso de Asher, aquilo não iria terminar bem. Sora desviou de outro baque, não poderia deixa-lo acertar. Um soco daquele homem seria forte o suficiente para derruba-la. Aquele fato a obrigava a utilizar toda a agilidade que os anos de treinamento haviam lhe fornecido.
Como uma dança desajustada, ela desviou de mais e mais golpes. Tentou algumas vezes revidar, mas era sempre a mesma sequência, ele golpeava, ela desviava, depois de avançar algumas vezes ela tentava atacar, e ele sempre se defendia desviando as lâminas da guerreira. Sora forçou seus pés no chão, também não poderia cair, seria um risco fatal se acontecesse aquilo. E não poderia deixar que a facas caíssem, estaria tudo arruinado se aquilo chegasse a acontecer.
E enquanto lutava para não errar, a multidão gritava sedenta pelo derramamento de sangue. As apostas corriam, provavelmente todas contra ela.
Tomou fôlego quando outro golpe surgiu a sua frente, já haviam dado a volta na arena circular. Sora estava toda suja com a poeira da terra, além de estar suando como nunca. Sentia calor, muito calor. Desviou mais uma vez, e outra, e outra.
Onde diabos Bart e Asher estavam?!
O homem se aproximava, ela deu alguns passos para trás e então tropeçou. Só não deixou as facas caírem, como um bêbado segurando seu copo de cerveja. O lutador virou-se para ela, ergueu a espada de lâmina gigante.
Sora olhou para os lados, pronta para desviar do golpe.
E assim o fez, a espada cortou a terra no local onde ela estava antes, e ainda encolhida no chão, outro golpe foi desferido.
Ela desviou.
E ele ergueu a espada novamente, com mais raiva.
Então ela viu uma flecha cortar o ar acima de sua cabeça.
E outra, e mais outra, e outra.
No total, atingiram em poucos segundos cinco homens nas arquibancadas. A arena ficou em silêncio. Até mesmo o seu oponente parou para ver o que acontecia.
Eles haviam conseguido, Bart havia disparado aquelas flechas, e se ele estava ali, Asher também estava.
Por um instante, ela jurou que o leão da arena iria desviar a atenção da luta e correr para as arquibancadas, onde o tumulto acontecia. Mas ele ignorou completamente, quando se voltou para ela e rosnou.
E aproveitando o momento de distração, Sora ergueu-se e se preparou.
A espada gigante veio com toda a força na direção da guerreira, e ela desviou. Girou e agachou-se quando usou a sua lâmina para atingir o oponente. Rápido, exato e certeiro, o golpe rasgou a perna do grandalhão e ele urrou de dor. Sangue jorrando na sua cara. Porém, não o suficiente para pará-lo. Com fúria ele correspondeu o golpe, ela desviou.
Havia ira e força, mas não havia técnica e inteligência. Sora já percebera como funcionava a sequência de golpes do grandalhão, sabia a velocidade que usava para cada movimento. E enquanto o mundo gritava de desespero ao seu redor, ela golpeou. Primeiramente atingindo a outra perna, acertando uma veia fatal atrás da coxa fazendo com que o lutador caísse de joelhos no chão.
Ele urrava, de raiva e dor, quando ela andou ao redor dele.
Avaliando.
Jogando as facas no chão e pegando a espada do lutador.
E então girou com toda a leveza que tinha, que parecia não combinar com a brutalidade explicita. Lançou o último golpe, com a frieza de um assassino.
A cabeça rolou na terra seca.
Sangue jorrava.
Poderia comemorar a vitória, caso não tivessem aberto a porta da arena. Mais dois grandalhões surgiram. Do outro lado, ela pegou uma lâmina e lançou. Rápido e certeiro, na cabeça do homem furioso.
Mais um corpo caiu no chão sangrando, e o próximo continuava vindo.
A flecha cortou o ar quando atingiu a cabeça do outro lutador, o homem caiu no chão.
Mortos.
Sora então correu na direção das arquibancadas, não era uma vitória, era apenas mais uma luta... Sangrenta e sem princípios. A jovem tomou impulso e saltou sobre a divisória que havia entre a arena, só então começou a subir.
Precisava encontrar os colegas. Então seguiu pelos degraus das arquibancadas, a flecha viera daquela direção. Guardas saltaram para o local que ela estava, porém, com golpes precisos e ágeis ela os derrubou rapidamente. Estava um caos tão grande que sequer sabia se haviam acertado os senhores dos escravos ou não. Aqueles lançamentos haviam sido específicos demais, certeiros demais, os alvos atingidos pelas flechas poderiam ser quem ela suspeitava.
Então uma mão surgiu e a envolveu para as sombras.
― Bart? ― O loiro fez sinal para que ficasse em silêncio. Então a arrastou para um corredor acima.
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