A Fortaleza das Feras - Livro 01 (Caos e Ruína)
14 Capítulo 13 - Sora
Notas iniciais
Sora soltou um suspiro longo, fazendo com que saísse fumaça de sua boca devido o frio, e então vislumbrou o que se erguia ao redor. Era uma incrível construção da natureza, bela e assustadora. Os picos das montanhas reluziam em branco de neve, era um local frígido, a rocha cinzenta exposta. Quando chegasse o inverno, aquela região que dava início ao verdadeiro frio do Norte, ficaria coberta pelo branco da neve. Era um lugar silencioso, e a trilha que havia entre as montanhas era a mais rápida até Edom.
Fazer a volta seria tempo perdido.
― Deixe-me ver se entendi... ― Discorreu Perci, quebrando o silêncio enquanto cavalgavam. ― Seguiram vocês ontem?
― Alguém tentou, na verdade. ― Bart respondeu e olhou para Sora, a guerreira assentiu confirmando. Eles haviam explicado a situação, contaram toda as informações que haviam retirado do atendente na taverna. ― Mas o perdemos de vista, e bem, seria perca de tempo ir atrás.
― Pelos Deuses! Eu teria ido atrás. ― Concluiu a guerreira de cabelos curtos castanhos.
― E eu poderia evitar passar pelas Montanhas da Alma se tivesse uma opção melhor. ― Bart mudou de assunto, conforme atravessavam a trilha, ele estremeceu com o frio. ― Venderia a minha alma por um verão infinito.
― Que coisa horrível para se dizer. ― Retrucou Perci novamente, então deu um sorriso sarcástico ― Eu me prostituiria em troca de uma mansão com muitas lareiras. Oh não, eu já faço isso pela Fortaleza.
― Justo.
― Silêncio. ― Sora passou por eles, estavam mantendo uma cavalgada lenta. Ethan estava entre Kristin e Asher que seguiam em frente, Perci e Bart ficaram mais atrás tagarelando ― Não querem acordar um lobo abissal e virar o jantar dele.
Bart estremeceu com a ideia.
― Eu gostaria de ter um de estimação. ― Disse Perci, por fim.
― Você combina mais com uma víbora. ― Debochou o guerreiro loiro e imitou o barulho de cobra com a língua, Kristin e Asher seguraram uma gargalhada.
Perci ficou boquiaberta.
― Como ousa seu bastardo de merda...
― Contra fatos não há argumentos, minha querida! ― Asher retrucou, imitando o mesmo som de cobras chacoalhando.
― Fiquem quietos, não estou falando com vocês. ― Xingou Bart.
― Um dia, eu terei uma serpente gigante, e vou deixá-la almoçar vocês. ― Perci semicerrou os olhos, desafiando-o.
― Tenta sorte. ― Bart deu de ombros.
Os olhos de Perci queimaram e ela inflou, pronta para xingar o loiro quando o outro guerreiro interrompeu:
― Esperem. ― Kristin subitamente parou de cavalgar, todos fizeram o mesmo. ― Não se mexam.
Silêncio.
Uma brisa gelada percorreu o corredor de pedras, gerando zunidos do vento.
Então a sombra enorme surgiu na entrada de uma caverna, do outro lado da trilha. Os olhos brilharam azuis, e a pelagem branca refletiu na luz do dia conforme se aproximava sorrateiramente. Um lobo abissal, maior que um cavalo, e uma das criaturas mais mortais existentes em Sidgar. O animal caminhou lentamente na direção do grupo, cheirando o ar. Então rosnou, mostrando as presas enormes e os dentes letais.
O lobo uivou.
Então mais cinco integrantes da alcateia surgiram.
Um pouco menores que o lobo que estava à frente, mas tão grandes e tão assustadores quanto o líder.
E famintos.
― Corram! Agora! ― Sora gritou, conforme percorreu a trilha adiante, os demais correram atrás.
E os lobos abissais também.
Já haviam discutido o risco da travessia entre as Montanhas da Alma, mas dar a volta atrasaria um ou dois dias de viagem, e talvez um dia fosse crucial para completar a missão até Edom. Então o máximo que poderiam fazer no momento, era correr o mais veloz possível com os cavalos. Os lobos eram enormes, assombrosas criaturas famintas. Deveriam ter notado a movimentação deles há muito mais tempo, do que Sora poderia imaginar. Então ela percorreu, torcendo para que o grupo não a perdesse de alcance, conforme fazia as curvas da trilha de terra seca.
― Isso são os lobos abissais? ― Ethan questionou, visivelmente espantado conforme seguiam correndo. Não era medo em seus olhos, era algo mais, assombro e até mesmo um pouco de curiosidade. Por mais perturbadora e fatal que a situação pudesse ser naquele momento.
― Sim, piores do que poderia imaginar. ― Asher respondeu. Então olhou para frente, onde Sora os guiava. ― Piores do que eu imaginei.
Ninguém mais falou, apenas seguiram galopando atrás de Sora, disparando com o máximo de agilidade que os cavalos poderiam chegar.
E os lobos ainda estavam mais atrás, o suficiente para que os alcançassem logo a diante. Ela bufou, então impulsionou o cavalo cinzento para correr mais. As formas brancas e famintas atrás deles não iriam parar, ao menos que garantissem o jantar daquele dia.
― Por aqui. ― Sora falou, conforme desviou a trilha para a esquerda, o grupo a seguiu, assim como os lobos abissais que ficaram um pouco para trás. Precisava de tempo, por mais que fossem segundos a mais para que pudessem fazer algo. E pela direção que seguia... Poderiam se aproximar das terras de Tereza.
― Não vamos conseguir despistar eles. ― Falou Kristin, conforme alcançou Sora. ― Poderíamos deixar que ficassem com um dos cavalos.
Não era uma má ideia.
― Sim, mas precisaremos de tempo para parar e largar um dos cavalos.
Kristin abriu a boca para responder, no entanto, uma parede de pedra surgiu em frente, obrigando-os a parar. O restante do grupo chegou alguns segundos depois. Havia apenas dois caminhos, para esquerda, e para direita. Um levaria para o restante da trilha e o outro, conforme haviam verificado no mapa, daria para a floresta.
― Merda, merda, merda! ― Bart xingou, e xingou, conforme respirava com força.
― Perci, desça do cavalo agora. ― Sora falou, a guerreira morena ficou sem entender. ― Suba no meu, rápido.
― Por quê?
― Vamos deixar que eles tenham o jantar que procuram, o seu cavalo é o que tem menos bagagem, venha.
Perci não questionou novamente, rapidamente desceu e foi até Sora. Entretanto, um dos lobos surgiu.
Todos ficaram em silêncio, parados conforme o animal os cheirava. A guerreira morena paralisou, Sora manteve a mão estendida na direção de Perci para que subisse. E não ousaram mexer um único músculo do corpo.
No entanto, o lobo a cheirou.
Perci permaneceu detença, de costas para o animal quando sentiu a rajada quente em seus cabelos, o hálito do lobo tinha cheiro de carniça. Com um movimento rápido, ela tentou disparar contra o animal, pegou uma adaga e girou para cravar no crânio.
Porém, o lobo mordeu seu braço.
Não o suficiente para arrancá-lo, mas suficiente para deixar uma ferida enorme e sangrenta, Sora gritou quando Perci cambaleou e o animal deu uma patada em seu estômago, as garras expostas cortando a pele. Perci caiu no chão urrando com a dor. O lobo abissal preparou-se para avançar, no entanto, uma flecha atravessou seu crânio.
O animal caiu morto, e conforme o restante surgiu, mais flechas voaram do arco que Bart empunhava.
― Corra, para direita, procure ajuda. Agora! ― Sora gritou para Ethan, o príncipe assentiu e disparou, sumindo pelo caminho. Depois do pequeno pedaço de floresta ficava as propriedades da vidente onde geralmente desviavam o caminho, por sorte, poderiam encontrar algum viajante naquela região.
A jovem então, pulou para o chão e correu até Perci. Asher e Kristin já estavam de pé, os lobos os encurralavam contra a parede de pedra. O maior deles em frente, possivelmente o alfa.
― Faça um corte no cavalo de Perci, o cheiro de sangue deve agradar eles! ― Sora berrou o comando, a guerreira em seu colo gemia de dor. O braço estava destruído, deixaria uma bela e grande cicatriz, se conseguissem tratá-la em tempo. E em sua barriga havia um ferimento enorme, cortando a roupa, mas não profundo ao ponto de perfurar algum órgão. Estavam cobertas de sangue, completamente.
Kristin correu até o cavalo e usou a espada para fazer um corte em sua costela, deixando uma ferida enorme e mortal. O animal tombou no chão, sangue, tripas e entranhas quentes caíram junto, e os lobos dispararam famintos na direção das vísceras.
Mas não todos.
Asher permaneceu cobrindo o colega, mas não conseguiu ser tão rápido quando o lobo maior saltou e mordeu a perna de Kristin. Bart lançou uma flecha para fazer o animal soltar. O alfa resmungou de dor, mas parou de destruir a pele do guerreiro. Então, Asher desembainhou sua espada e disparou em direção ao lobo, para cortar sua cabeça, no entanto, este virou-se e devolveu o golpe com uma patada, que derrubou o guerreiro no chão, o braço arranhado e sangrento, mas não tão profundo. Uma ferida perigosa, mas não tão letal quanto a de Perci e Kristin.
O lobo abissal ergueu-se sobre Asher, pronto para dar uma mordida, quando uma adaga voou. A lâmina que Sora lançou cravou-se na pata do animal, que soltou um ruído de dor e se afastou. O restante da alcateia se banqueteava com o cavalo morto caído no chão.
O animal bufou, mostrando os dentes para a guerreira, os olhos azuis e mortais fixaram-se na íris verde dourada de Sora. Só então resolveu recuar, para comer as vísceras do cavalo morto. O olhar que lançara para a guerreira, ela percebeu, por mais confuso que fosse, era como se quisesse dizer: Vão embora, agora.
Um aviso, talvez.
Ninguém ousou articular nenhuma palavra, o animal recuou ainda se mantendo alerta a cada movimento dos guerreiros. Perci gemia de dor. Sora cuidadosamente, com a ajuda de Bart, colocou-a sobre o seu cavalo, ela montou, com cuidado para que não ferisse mais o braço ou abrisse a ferida na barriga. Perci sentou-se, urrando de dor apertou a barriga contra o sangue que escorria. Bart pegou uma túnica de sua mochila e a entregou para tentar estancar o sangue.
Asher ergueu Kristin, o guerreiro moreno era pesado, mas o ferimento não fora tão grave quanto o de Perci, embora sangrasse demasiadamente. Com dor e ligeira dificuldade, montou no cavalo e sentou-se. Sua perna latejava de agonia, e sentia o sangue escorrer e molhar a roupa rasgada.
Sora apenas lançou um olhar rápido para Asher, o guerreiro montou e então dispararam. A jovem sentia Perci ceder, a mulher começava a ficar zonza de dor e não levaria muito tempo para que desmaiasse. O sangue sujava a roupa de ambas enquanto disparavam.
Era culpa sua, Sora não conseguia deixar de pensar. Se não tivesse pedido para que Perci descesse, a guerreira não teria sido atingida daquela maneira tão fatal. E Kristin estava péssimo, por mais que o guerreiro tentasse não transparecer, suava gelado enquanto a dor latejava e eles corriam. Poderia ter feito diferente, pelos deuses, ela poderia ter pensado em lago mais inteligente menos perigoso... Se houvesse alguma opção.
Cortar caminho pelas Montanhas da Alma fora uma ideia tola. Sora sentia-se responsável por ter concordado com aquilo. Queria gritar e liberar toda sua raiva, mas não poderia, não poderia cometer outro erro, ainda mais com a mulher agora inconsciente que carregava em seus braços.
Ao longe perceberam a figura de Ethan.
Acompanhado por mais duas pessoas.
― Venham! ― Ethan disparou na direção, as pessoas que estavam do outro lado não ousaram se mover, observando de longe. ― Pelos Deuses, ela desmaiou?
― Está sangrando muito. ― Sora respondeu, então hesitou sem sequer encarar as pessoas paradas atrás do príncipe. ― Quem são? São confiáveis?
― Parece que sim. ― Eles voltaram a correr. ― Donos de uma fazenda e uma estalagem. Foi um milagre que eu tenha os encontrado.
Os olhos de Sora faiscaram.
― Ela está gravemente ferida. ― A guerreira prateada disse quando chegou perto do garoto e da mulher que os avaliavam.
Mas Sora subitamente sentiu seu corpo pedir para parar.
Um frio tomou sua barriga diante da mulher de olhos e cabelos negros que os observava.
Tereza.
E seu filho, Benjamin.
Ela era vidente, deveria ter previsto aquela situação e surgira ali para ajudar, uma protetora.
Pelos deuses, Sora ficou sem reação, mas fingiu não conhecer a mulher a sua frente. Não poderia arriscar que seus parceiros desconfiassem que ela tinha alguma ligação.
É claro que os guerreiros teriam motivos suficientes para desconfiar, mas Ethan havia os encontrado e estavam ali para acudir. O garoto ruivo tinha olhos esverdeados, mas não exalava uma aura tão sombria quanto a de Tereza. Deveria estar com uns dezessete anos, Sora ficou espantada, ele mudara rapidamente desde a última vez que haviam se visto.
― Passe-a para o meu cavalo. ― Ordenou a mulher sombria, Sora não questionou quando Bart passou Perci para o outro cavalo. ― Este é meu filho, Benjamin, eu sou Tereza Westenberg. Sorte de vocês que estávamos por aqui quando os lobos atacaram. ― Era como se a mulher falasse de líder para líder, apenas informando quem eles eram e nada mais.
Como se ela e a guerreira de cabelos prateados não se conhecessem.
― Sora Hill. Este é Bart e Asher. ― A jovem gesticulou para a guerreira desmaiada no cavalo de Tereza. ― O nome dela é Perci Escanne e aquele é Kristin Chael. ― Antes que Sora falasse, o guerreiro tombou do cavalo, estava sangrando demais e acabara desmaiando.
O garoto, Benjamin, correu até o guerreiro caído.
― Vamos amarrá-lo ao cavalo para leva-lo até a fazenda. Ajude-me a ergue-lo. ― Asher e Bart saltaram para pegar Kristin desmaiado, o garoto ruivo rapidamente o amarrou. ― Acho que está tudo pronto. Podemos ir? ― Ele lançou um olhar rápido na direção da mulher mais velha.
― Vamos. ― Tereza disse por fim.
Sora pensou responder algo, mas estava encharcada de sangue e ela fora responsável demais por aquele ferimento fatal para conseguir falar.
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