Notas iniciais
Boa noite!!

Asher cumprira com sua palavra

Chegara de madrugada em seu quarto, depois de terem festejado a noite inteira. Sora e Ethan haviam dançado, dançado e dançado mais. E então decidido voltar para a fortaleza. O príncipe havia a acompanhado até o seu quarto, e depois voltado aos aposentos que estava hospedado.

Deixando-a sozinha. E um pouco desapontada.

Até o guerreiro bater em sua porta, como havia prometido naquele dia mais cedo.

Não havia romance entre eles, apenas saciavam desejos e só. Aquele era um fato que ficara claro para ela há anos, não por ser proibido o casamento entre pessoas que pertenciam a fortaleza, mas simplesmente não havia mais que aquilo. Até mesmo já haviam mantido relações com outras pessoas, nada de emoção. Haviam crescido sem aquela expectativa para o futuro, então não era algo que pudesse interferir em qualquer coisa. No máximo, aproveitavam alguns momentos para horas de ócio e satisfação. Sequer sacrificar-se-iam um pelo outro, no melhor dos casos por um laço de amizade, e nada mais.

Na maioria das vezes, passavam bastante tempo implicando-se um com outro. Talvez uma forma de manter ainda mais longe um vínculo amoroso.

Sora demorou para conseguir dormir, diferente do guerreiro que estava abraçado em um travesseiro babando. A jovem suavemente levantou-se. Haviam passado horas saciando desejos, e depois haviam dormido e dormido de novo. Quando foram comer, já era fim da tarde e depois haviam voltado para o quarto da guerreira e aproveitado mais um pouco as horas, antes de tomar um banho frio e dormir novamente.

Estava próximo da meia noite, logo partiriam. A guerreira vestiu as roupas que estavam guardadas nos armários, e verificou se colocara o necessário nas mochilas. O restante que levariam para a viagem ficara com Kristin e Perci, então ali havia apenas uma muda de roupas extra, e um pouco de ouro que seria necessário.

Foi ao banheiro e jogou a água gelada no rosto, estavam partindo para uma missão perigosa. Aquela sensação queimava embaixo de sua pele, de ansiedade e dúvida, por mais que tentasse com o máximo de forças ignorar. Levariam o príncipe em segurança para Edom, e depois partiriam. E quem sabe, ela diria adeus para Temesia.

Por um momento observou o quarto, as roupas espalhadas, e a sensação de que talvez fosse a última vez que veria aquela imagem. Calmamente ela juntou as vestes do guerreiro jogadas no chão e se aproximou. Asher era bonito, um corpo bem definido devido anos de treinamento, algumas cicatrizes. Os cabelos escuros estavam grudados na testa suada.

Então jogou com toda a força a trouxa de roupa na cara de Asher.

Ele acordou resmungando e soltando palavrões.

― Já está no horário, vista-se. ― Sora virou-se até o armário, pegou as roupas de combate e começou a vestir, prendeu as adagas pequenas, as médias e procurou pela capa. Tudo na cor preta, com protetores de um couro duro e resistente, com adereços que facilitavam as armas ficarem escondidas e bem presas. Um modelito bem comum dentro da fortaleza.

Asher ainda estava despido quando se levantou, Sora observou os músculos das costas do guerreiro se contraírem conforme vestiu as roupas e juntou as mochilas do chão.

― Eu poderia tirar férias, qualquer dia desses. ― Rezingou enquanto terminava de prender a roupa de batalha. Verificou as mochilas e então pegou-as.

― Todos poderíamos. ― Sequer se deu ao trabalho de dar uma última olhada para o quarto quando saiu. ― Vamos logo, ou vamos nos atrasar.

Asher não disse mais nada conforme ela trancou a porta e retirou-se, deixando os restos de velas apagadas lá dentro.

A fortaleza durante a noite era ainda mais vazia e silenciosa, embora tivessem trombado com alguns guerreiros que saiam durante a noite, para missões, ou sabe-se lá o quê. Não fazia diferença saber, de qualquer modo. Conforme seguiram pelos corredores, saindo da ala dos dormitórios e passando pelos estábulos para buscar os cavalos, estava tudo silente. Seus passos ecoavam.

Em um passado distante, aquele local era cheio e movimentado, mas agora, com tão poucos guerreiros... Sora se perguntava por que todos não se reuniam e desertavam, não poderia ser feito nada caso isso acontecesse. Mas havia alguns que não largariam tal posição lá dentro, por mais baixa que fosse.

O combinado era encontrarem-se na entrada da cidade, então cavalgaram com pressa pela avenida principal de Temesia, percorrendo até o arco que demarcava a abertura nas muralhas de pedra cinzenta. A noite estava ligeiramente fria, e Sora ficou satisfeita por ter trazido as roupas extras e vestir a capa.

Adiante as quatro figuras já esperavam. Bart com o arco e a aljava entupida de flechas, visível nas costas, Kristin com a enorme espada de batalha, assim como Perci.

Todos os cinco guerreiros armados até os dentes, e o príncipe sem nada mais que uma mochila e roupas limpas. Ethan estava em silêncio montado em um cavalo marrom, Sora não percebeu se trazia alguma arma.

― Você deveria ter chegado no horário, sabe Sora, tecnicamente é a nossa capitã aqui. ― Perci resmungou e seguiu adiante cavalgando.

― Ignore, ela não dormiu direito. ― Sussurrou Bart quando Sora passou, ele piscou um olho. ― Todo aquele hidromel não deve ter caído bem.

Sora assentiu, seria uma longa noite até chegarem no meio do caminho, entre a ponte que cobria o rio e Temesia. Então eles dispararam para longe da cidade.

Alguns minutos seriam necessários para percorrer a campina que circulava o caminho, as colinas baixas e então adentrarem a Floresta Abissal, que se estendia a frente. A viagem até atravessar o rio duraria até o amanhecer, fariam uma pausa antes de passar pela ponte que ligava os dois lados do Rio Shira, e quando chegassem do outro lado parariam para descansar mais um pouco. Sora seguiu adiante com o cavalo cinzento, atravessar a campina era rápido.

Talvez fosse uma ideia tola almejar ir embora, talvez não houvesse tempo suficiente. A jovem suspirou, vislumbrando o céu estrelado quando adentraram a floresta. Aquele lugar, aquela missão, ela queria mais. Embora, não fosse algo possível em sua vida.

O caos iria demorar para se estender para outros locais, ela torcia para que não estivesse errada com aquela ideia.

***

Haviam dado uma breve verificada no local, já conheciam aquela região, mas certificar-se de que estava tudo seguro nunca era demais. Bart estava com o arco novamente preso as costas quando voltou para a clareira onde os demais estavam. Ele soltou um suspiro satisfeito e cruzou os braços.

― Tudo limpo, a ponte está há alguns metros à frente.

― Ótimo, ― Sora desceu do cavalo e o amarrou. ― Vamos deixar os animais descansarem um pouco.

― A verdade é que eu gostaria de dormir por uns dois dias. ― Bocejou, os olhos amendoados de Perci brilharam quando observou o local pouco iluminado. ― Acender uma fogueira não é uma opção, não é?

― Eu diria que não... O que acha, Bart? ― O guerreiro de pele bronzeada cruzou os braços, observando o jovem.

― Ao julgar pelas circunstâncias, Kristin, poderia chamar atenção.

Perci fez uma careta e se sentou no chão, puxou o capuz e tapou o rosto, iria aproveitar aqueles minutos para dormir, mesmo que muito pouco.

Sora revirou as mochilas e pegou um cantil com água e estendeu a Ethan, que alimentava o cavalo com uma maçã.

― Obrigado.

― Particularmente eu gostaria de beber vinho. ― Discorreu Asher ao sentar-se no chão, do outro lado da clareira. Seus olhos brilharam ao pensar no gosto do álcool.

― Ou o hidromel de Lionel. ― Complementou Sora.

― Todos nós, todos nós. ― Bart deu tapinhas nas costas de Asher.

― Sai daqui! ― Resmungou ao afastar o loiro.

O guerreiro deu uma risada e sentou-se do outro lado.

― Não me trate dessa maneira, sabe que temos uma história linda juntos.

― Como vocês vieram parar aqui? Quer dizer, ir para a Fortaleza. ― Ethan sentou-se no chão, Kristin do outro lado afiava uma adaga calmamente.

― Eu nasci bastardo, de uma camponesa com um lorde do Deserto Silencioso. Quando tinha oito anos meu avô iria me vender como escravo, então minha mãe fugiu e me deixou em Temesia. Nunca mais a vi desde então.

― E você sabe quem é o seu pai?

― De forma alguma, nem gostaria, possivelmente iriam me matar caso descobrissem que estou vivo. ― Kristin colocou a lâmina na bainha. ― Acho que no fim das contas, ser criado na Fortaleza das Feras não foi um destino tão ruim.

― Então isso explica você usar o sobrenome, é de sua mãe. ― O príncipe constatou, não parecia ter problema tocar naquele assunto, Kristin demonstrava aceitar tudo com bastante madureza.

― Já o restante de nós somos órfãos da guerra, não tem muito o que contar. Perdemos família, irmãos, e viemos parar aqui. ― Asher disse por fim, enquanto procurava algo para comer na mochila. De fato, estava certo, embora, não tivesse dado os detalhes.

― Até mesmo Perci?

― Ah, a história dela é um pouco diferente... ― Bart observou a mulher dormindo, então sussurrou: ― Os pais de Perci eram mercadores que foram mortos por ladrões, ela veio parar em Temesia e tornou-se uma criança de rua, mas era muito boa em arrumar brigas, roubar e espancar para alguém da idade dela. Então Arcádio um dia a encontrou e levou-a até a Fortaleza. Ela nasceu em Albor, em Alaros.

Asher lançou um galho na cabeça de Bart. O loiro soltou palavrões e Kristin gargalhou.

― Respeite a história dos outros, quando estão dormindo e não podem se defender.

― Ah, cala boca.

― A última vez que vocês brigaram terminou com os dois de cama por dois dias, cheios de hematomas. ― Sora advertiu-os. ― Se brigarem novamente, eu mesma farei questão de apagá-los por uma semana.

― Até parece que você vai fazer isso, mal deu conta de um lutador em Forte da Caveira. ― Retrucou Asher.

― Eu o matei.

― Aham. Porque ele estava distraído.

― Eu matei dois deles. E você se ajoelhou e quase lambeu as bo-

― Sim, claro, e encontrei o Mercador. De nada. ― Interrompeu Asher, Sora já estava de pé para pular em seu pescoço quando Bart ficou entre eles.

― Pessoal, acalmem-se. E lembrem-se, foi eu quem acabou com o resto dos mercadores de escravos. Meio que salvei o traseiro de vocês. ― O loiro sorriu, gabando-se quando Sora bufou e soltou palavrões.

― Da para vocês fazerem o favor de calar a maldita boca? ― Perci resmungou embaixo da sombra da árvore, ainda com o rosto tapado pelo capuz.

― Era para você estar dormindo, seu duende do inferno. ― Exclamou Asher.

Três adagas voaram.

Uma sobre a cabeça de Asher, cravando na árvore. Outra na frente de Bart, no chão. E por fim uma aos pés de Sora também, que resmungou e sentou-se novamente.

Asher, por fim, lançou um gesto obsceno na direção da guerreira de capuz.

Notas finais
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