A Forma Final
1 Seja bem-vinda princesa.
Notas iniciais
A chuva havia passado já a algum tempo, mas seu cheiro ainda era presente no bosque onde uma figura bem vestida se despedia de sua protetora e companheira de viagem.
— Obrigada por tudo Nádia. – Disse a menina com um vestido de seda verde simples que combinava com seus lindos cabelos ruivos, enquanto abraçava a querida empregada.
— A Honra é minha, Princesa Selena. – Respondeu Nádia com a boca na mão se segurando para não chorar. – Prometa-me ficar longe de encrencas e jamais, repito, jamais revelar sua identidade real.
— Você sabe muito bem que eu nunca faria isso, me caçariam até morte se fizesse.
As duas se abraçaram mais uma vez, sabendo que daqui pra frente elas não se veriam por muito tempo.
— Tem certeza que não quer que eu guarde esse amuleto? – Perguntou Nádia apontando para um amuleto em forma de águia, característico da família real. – Assim que alguém ver saberá que você é Selena Deen, a princesa perdida de Grindalia.
— Não, é a única recordação que tenho da minha mãe, prefiro assumir o risco. – Ela respondeu guardando o amuleto na bolsa.
— Então vá, a escola de magia fica logo após essa colina. E lembre-se, diga sua verdadeira identidade apenas para o diretor da escola em pessoa, diga o código “O rubi está entregue” e os guardas de Ravenwood lhe levaram até ele.
— Entendido. – A princesa respondeu dando tchau para a carruagem que levava Nádia na direção contrária. – Sentirei saudades... – Ela cochichou para si mesma.
Ao subir a colina tomando cuidado com a lama deixada pela chuva, Selena deixou escapar um suspiro diante da bela vista que contemplara:
O grande campus da escola de magia de Ravenwood com suas belas construções e jardins estavam diante dos seus olhos. O lugar que passou dias viajando para chegar finalmente estava ali.
A princesa então carregando sua pesada bolsa, desceu a colina em direção a estrada principal que levava para os portões da escola. Muitos alunos ainda se encontravam ali vestidos com o uniforme de Ravenwood se despedindo dos parentes. Ela já ia logo passando pelo portão quando um guarda a parou. Inicialmente ela estranhou muito a situação pois sempre se acostumara a ser reverenciada por guardas, e não barrada.
— Nem mais um passo. – Disse o guarda preferindo para-la com a mão ao invés de usar a lança pontuda como obstáculo.
— Sou uma aluna. – Ela respondeu.
— É o que todos dizem. Onde está seu uniforme?
Selena preferia não utilizar o código tão cedo, mas sem escolhas ela cochichou para o guarda:
— O rubi está entregue.
O guarda hesitou, endireitou sua postura e então respondeu:
— Me acompanhe por gentileza.
Os dois se distanciaram da multidão no portão e seguiram por um caminho estreito entre as construções do campus, eventualmente alguns funcionários passavam e cumprimentavam o guarda, e olhavam com ar de curiosidade para Selena, já que normalmente as pessoas que circulavam pelo campus utilizavam uniforme e não um simples vestido.
Depois de alguns minutos de caminhada eles chegaram a uma construção baixa e pequena de apenas um andar. Era apenas uma casa comum se não tivesse uma placa em sua entrada indicando que era a residência de Merle Ambrose, diretor de Ravenwood. Selena teve de ler duas vezes a placa para acreditar que era ali que o famoso e poderoso diretor morava, nem mesmo a guarda circulava pela área, não que alguém ousasse enfrenta-lo ou causar problemas por ali é claro.
O guarda se aproximou da porta e estava prestes a tocar a campainha quando a porta se abriu sozinha. Uma voz mansa e rouca os convidou para entrar, mas apenas Selena o fez.
De dentro a pequena casa parecia três vezes maior do que de fora, revelando na verdade dois andares sendo o segundo inteiramente ocupado por várias estantes cheias de livros. No térreo, um velho senhor repousava no meio da sala em uma poltrona vermelha lendo um manuscrito que flutuava no ar, ele então virou seus olhos para a recém-chegada e abriu um sorriso.
— É uma honra conhece-lo, senhor diretor. – A princesa disse fazendo uma pequena reverencia.
E antes que a princesa pudesse se apresentar, Merle já lhe respondeu:
— A honra é toda minha Princesa Selena, e não se assuste, lhe garanto que ninguém está a ouvir nossa conversa. – Quando na verdade o motivo de sua surpresa era Merle já tê-la reconhecido de cara.
“ Bom, ele é Merle, um dos feiticeiros mais poderosos que já existiu, se não o mais. Obvio que me reconheceria” ela pensou.
— Sente-se, por favor. – Ele convidou apontando para a poltrona ao lado da sua.
— Receio que o senhor tenha medo de que eu venha causar problemas aqui na Escola, um dos poucos lugares neutros em relação a grande guerra. Preciso explicar que na verdade ouve um grande erro, minha família não teve nada a ver com o início dessa guerra que se alastrou pelo mundo, como todos pensam.
— Já imaginava que essa seria a verdade. Eu conheci seus pais, meus pêsames princesa, sei que eles não se aliariam a esses revolucionários com ódio no coração. Apenas me confirme, foram eles, não? Foram os revolucionários que assassinaram o Rei de Grindalia.
Selena mudou sua expressão para uma cara séria e respondeu:
— Sim, eu vi com meus próprios olhos a anos atrás, não me esqueço dessa cena que me causa pesadelos até hoje. Meu pai se recusava a utilizar o imenso poderio militar que Grindalia tinha, e tem até hoje, para conquistar novas terras. Meu tio Alfric armou uma emboscada no pátio, assassinou meu pai e tomou o controle do palácio, aqueles que permaneceram ao lado de meu tio são chamados de revolucionários. Alguns guardas deram suas vidas para me proteger e me entregaram para Nádia, minha protetora. Passei anos viajando sem parar para diversos lugares fugindo do exército de meu tio, porém a cada dia isso se tornou mais complicado, já que a maioria dos reinos declarou guerra à Grindalia depois que Alfric começou a atacar povoados de Reinos vizinhos.
— É realmente uma grande tragédia... – Merle disse com um ar de raiva. – E sua mãe?
— Foi forçada a confirmar publicamente a versão da história de meu tio, de que estrangeiros orquestraram a morte de meu pai, além de é claro, apoia-lo na sucessão do trono. Acontece que se eu ousar abrir minha boca para meu povo, serei assassinada pelo meu tio, se eu abrir minha boca para alguém de fora, ninguém ligará, todos odeiam os grindalianos, ainda posso ser alvo de um ataque por vingança daqueles que perderam parentes nessa grande guerra, mas a maioria pensa que fui assassinada junto com meu pai.
— O que nos leva a sua vinda para Ravenwood, acredito que não haveria lugar melhor onde milady poderia estar. – Disse Merle tentando aos poucos mudar de assunto. – Permita-me a ousadia, mas quantos...
— 16 – Selena respondeu sorrindo. – Tenho 16 anos.
— Uma excelente idade para ingressar em Ravenwood. Agora preciso saber a respeito de sua aptidão mágica, sabe que é uma obrigação ter aptidão mágica para cursar Ravenwood, ela é trabalhada no primeiro ano durante seis meses. Mas se não conseguir... daremos um jeito.
— Ah, quanto a isso não se preocupe. – Ela então levantou o braço direito com a palma da mão virada para cima com os dedos juntos apontando para o manuscrito que ainda flutuava na sala. Ela então fechou sua mão, e o manuscrito perdeu forças, caindo logo em seguida no chão.
— Bravo! – Gritou Merle aplaudindo a pequena demonstração de mágica. – Pouquíssimas pessoas apresentam aptidão mágica sem treinamento em Ravenwood.
— Bom, eu nunca estudei em Ravenwood, mas tive algumas aulas com Harold Butterford, professor da matéria da balança quando ele viajou para Grindalia. Eu ainda era uma criança, mas ele me ensinou algumas coisinhas.
— Eu deveria ter desconfiado que uma aluna tão exemplar tivera aulas com Harold. – Disse Merle rindo. – Bom, já escolheu qual matéria irá cursar em Ravenwood?
— Ainda não decidi. – Ela respondeu pensativa. — Na verdade, não sei quais são todas as opções, o senhor poderia me listar?
— Mas é claro. – Merle respondeu, logo em seguida dando tossidas para limpar a garganta. – Feitiços Ofensivos: Matéria do Fogo, Feitiços Defensivos: Matéria do Gelo, Feitiços Destrutivos: Matéria da Tempestade, Feitiços Construtivos: Matéria da Mitologia, Feitiços Curativos: Matéria da Vida, Feitiços Degenerativos: Matéria da Morte, e por último, a matéria na qual Prof. Harold da aula, Feitiços Estratégicos: Matéria da Balança. Perceba, que todos com exceção da balança, que já faz isso por si mesma, se completam.
Selena, mesmo ao ouvir tudo atentamente, ainda se mostrava em dúvida.
— Não precisa escolher agora, minha querida. – Disse Merle com calma. — Descanse e me diga amanhã sua resposta, receio que teve uma viagem longa e difícil, não?
— Tem razão. Obrigada pela conversa, e acima de tudo pela compaixão com a minha causa. — Ela disse já se levantando.
— Não foi nada, vou pedir para que alguém lhe acompanhe ao dormitório feminino.
— Obrigada mais uma vez.
Merle retribuiu com um sorriso.
— Ah, antes que eu me esqueça, sua nova identidade aqui em Ravenwood será Bianca Bloom.
— Tudo bem, gostei do nome.
Chegando ao dormitório, Selena tratou de colocar suas bagagens nos respectivos lugares e então se jogou na cama, com os olhos abertos olhando para o teto, pensando se Nádia estava bem e como seria seu futuro daqui para frente na escola.
Quando inusitadamente a campainha de seu quarto tocou. Inicialmente ela achou estranho, se lembrava de que não teria uma colega de quarto justamente para não pôr sua identidade em risco. Ela então se levantou e foi andando até o olho de vidro: Um garoto vestindo o uniforme de Ravenwood com um grande carrinho cheio de pacotes estava do lado de fora. Ele parecia ter a mesma idade que ela, fora seu cabelo que era cor prateada. Ela abriu a porta e disse:
— Pois não?
— Serviço de entrega de pedidos. – Ele disse conferindo uma prancheta. – Você por acaso é Bianca Bloom?
Selena quase se pôs a responder “não”, mas lembrou de sua identidade nova.
— Sim sou eu.
O garoto tirou os olhos da prancheta e analisou a garota:
— Você é nova? Aqui está informando que você é do segundo ano, mas não lembro de te ver cursando o primeiro.
— Eu pulei o primeiro ano, entrei na escola já com aptidão mágica por isso não cursei o primeiro.
— É mesmo? É raro ver alguém que pulou o primeiro ano, além de mim, mas entrei em Ravenwood ano passado por isso estou no terceiro. – Ele disse enquanto mexia nos pacotes do carrinho. — Me chamo Thomas, curso a matéria do gelo. Aqui está seu pedido, são dois pacotes, um com uniformes e outro com materiais escolares. Quer que eu coloque aí dentro?
— Por gentileza, Thomas.
Thomas então foi entrando segurando as duas caixas uma em cima da outra e se dirigiu a mesa no canto do dormitório, quando de repente avistou algo que o fez se desequilibrar de surpresa por uma fração de segundos, até restaurar seu equilíbrio: O amuleto da família real de Grindalia sob a mesa.
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