A Forma Do Vazio

1 Capítulo único


Quando deu por si, tentou se localizar no espaço. Foi quando constatou que não havia um. Um chão, paredes ou teto. Cores ou luzes. Sons ou cheiros. Nada. Nenhum indício. Melhor dizendo, só havia a ausência.

Não sabia onde estava, nem como chegara ali. “Talvez,”, pensou, “seja um sonho. Talvez seja a parte do sonho em que se está quase acordado, mas ainda dormindo.” Mas, se estava dormindo, por que estava acordado? Sentia apenas um vazio sufocante. Haveria o ar também sido eliminado, ou era fator psicológico, o segundo em que se esquece de respirar diante de algo que dê realce à insignificância, à pequenez; embora também fosse a sensação de temor e desespero de estar envolto em imensidão, ainda que ali não houvesse nada.

Se nada havia, se havia somente o nada, então o que era? Sentia, pensava, raciocinava até. Havia de ser alguma coisa, algum ser. Mas se sentia, onde estaria seu corpo, sua forma física? Tentou ver, mas não conseguia. Tentou se mover, mas nada ocorreu. Estaria imobilizado, ou nem sequer estaria ali? Uma mente sem corpo? Seria então parte de todo aquele nada?

Não sentia nada, a não ser os próprios pensamentos. Talvez a própria vida. Mas estaria mesmo vivo? Vida no meio do nada? Vida feita de nada? Como saber se está vivo quando não há com o que comparar? Se estava mesmo vivo, então haveria de sentir alguma coisa, experimentar algum sentimento. Mas como se provoca um sentimento? Já não sentia nada mesmo...

Não sentir nada...

Seria o mesmo que, de alguma forma, estar morto?

Mas se estava morto, como estaria pensando em sua situação?

Sem corpo físico, sem nenhuma sensação, sem noção de tempo ou espaço, da realidade em si. Seria uma alma então? Não literalmente uma “alma”, mas algo que dê uma consciência, um pensar, que anima o corpo. Sem forma, apenas uma existência que não pode ser provada...

Se não era físico, estaria além ou abaixo do “físico”?

Foi aí que percebeu que, assim como tanto a imensidão quanto sua existência eram vazios, desprovidos de caracterização.

Seriam então... a mesma coisa?

Não, a ideia era angustiante, uma mente trancafiada em um vazio eterno, uma prisão sem limites. Sua própria existência já era a prisão.

Mas... Aquela angústia... Era uma sensação! Não sabia o que era, nem como expressá-la em palavras, mas a sentia. Então estava ali de fato, não era um com o vazio. Uma forma de “vida”.

Mas o vazio ainda era sua prisão.

Se não podia fazer uso de sua “vida”, então de que adiantaria estar vivo? Ficaria ali, indefinidamente, talvez eternamente, sem nada? Somente com o nada?

Talvez fosse melhor desistir...

Mal lhe passou tal ideia, teve outra sensação, mais branda: uma súbita fraqueza. Embora não tivesse corpo, sentiu um buraco começar a se abrir dentro de si, de dentro para fora. Não apenas um, diversos buracos. Consumindo sua existência pouco a pouco.

Não sentia dor, apenas um cansaço. Se tivesse olhos, os teria fechado.

“Então, é isso.”

Enfim, acharia algum descanso para aquela curta e incógnita existência.

Fim? Morte? Não importava.

Haveria algo além? Também não importava.

Nada mais importava.

Absolutamente nada...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.