A Fonte

15 Capítulo 15-O que você desejar


SEXTA FEIRA: São seis horas de viagem até Jacarandá, será que a cidade mudou ou continua a mesma coisa? Após uma eternidade o ônibus sai da estrada principal e entra na cidade. Os passageiros descem e agora preciso procurar a pousada. O endereço é o mesmo de quinze anos atrás, era a primeira coisa que você via quando chegasse a cidade.

Parece que a cidade cresceu e a pousadinha virou um hotel, vou descansar e amanhã vou procurar a imobiliária. Consegui contato via e-mail e vou tentar resolver com o cartório e voltar para casa.

Amanheci com passarinhos cantando, deve ser do viveiro do hotel, vou conhecer a cidade. Interessante, a cidade cresceu bastante, parecia cidade do interior mas mais moderna. Lembra um pouco a Gramado no Rio Grande do Sul. Lojas com estilo rústico e floreiras, muitas arvores nas calçadas e calçadas limpas.

As montanhas continuam lá, verdes e intactas. Tem áreas de reflorestamento e parece que há casas de alto padrão aqui.

Uma placa indica a direção do hospital e a outra para uma universidade federal. Quem diria. De repente lembrei do Carl, onde andaria ele?

— BI...bi...iii... July...sou eu, o Carl. Lembra de mim?

Havia uma ranger parada no semáforo e alguém me chamava. Os carros atrás começaram a buzinar.

— Vou estacionar ali. Me espera!

Atravessei a rua e lá estava ele. Estava usando uma camisa jeans clara e seus cabelos estavam mais compridos do que eu me lembrava. E aqueles olhos azuis esverdeados estavam brilhantes. Lindos! Eu nunca havia percebido que ele era um homem muito bonito.

— July... você voltou!

— Bom. Na verdade, eu vim vender a nossa antiga casa.

— Que pena, pensei que veio para ficar, como você está? Faz tanto tempo...

— O de sempre: trabalho e trabalho.

— Tem um café ali que é muito bom, vamos sentar e conversar. Você me conta tudo.

— Eu marquei com a imobiliária.

— Não se preocupe, o dono dela é legal, não vai se importar com um pouco de atraso.

— Oh... ok então.

Entramos e era realmente muito bonito, parecia uma lanchonete americana da década de cinqüenta. Sentamos para pedir e vi um senhor passando ao nosso lado e reconheci imediatamente:

— Mas... é o Seu Tobias?

— Sim e a Maggie está ali, naquela mesa.

— Eu quero ir cumprimentá-la!

— Então vamos!

Maggie sorriu ao me ver:

— Que bom que você veio!

— Você voltou para ficar? – perguntou Tobias.

— Não, eu vim para ...vender a casa.

— Ah, que pena.

— Quem sabe se você conhecer melhor a cidade você resolve ficar. Vou te mostrar algumas casas – disse Carl.

Fiquei na dúvida, estava no meio de pessoas tão queridas. Era como se estivessem comigo durante o tempo todo e fazia muitos anos que não os via. Estava me sentindo tão bem. Quem sabe, poderia arrumar um emprego aqui? Poderia reformar a casa, embora minha mãe detestasse esta cidade. Não sei por que.

— E então? – disse Carl. Posso ter pegar daqui a uma hora no hotel e levo você para mostrar a cidade.

— Mas e a imobiliária? Tenho que ir falar com eles.

— Não precisa, eles já sabem que você mudou de idéia. – disse Carl com um sorriso.

— Como? Eu nem falei com eles?

— Há, há, há – todos riram.

— Querida – disse Maggie. Carl é o dono da imobiliária.

— Ah, claro. – sorri sem graça.

— Bem, preciso resolver algumas coisas, mas dentro de uma hora eu estarei lá, ok?

Ainda fiquei um tempo com Maggie e Tobias, mas pensava no Carl. Ele estava tão bonito, tão radiante. Será que ele havia casado? Teria sua família? Senti ciúmes. Agora não sei se seria uma boa morar aqui. Ai que droga!

Maggie colocou a sua mão sobre a minha e disse:

— Julianne, esta é uma cidade especial, ela costuma realizar desejos, só tem que escolher com cuidado, eles podem se realizar.

— De novo – disse Tobias. Com esse papo de bruxa.

— Calma, a “July” sabe fazer a coisa certa.

Ela piscou para mim. Não sei o que ela quis dizer. Me despedi e fui me arrumar para esperar o Carl. Queria ficar bem bonita, depois pensei: Que bobagem, sou uma idiota!

Ele foi pontual, me levou para conhecer a cidade primeiro. Fiquei encantada, havia mudado para melhor. O numero de habitantes deve ter aumentado, mas continuava com carinha interiorana.

Havia várias casas muito bonitas, algumas a venda. Carl disse que veríamos com calma mais tarde e me levou para ver a minha antiga casinha. Ele me contou que toda aquela área viraria um centro comercial por isso queriam comprá-la. Senti um aperto no coração tudo mudava tão depressa. Antes do almoço ele queria mostrar a parte “mais nobre” como ele se referiu.

Fomos em direção ás montanhas, havia uma estradinha cercada de arvores e no final uma casa maravilhosa de dois andares. Era toda feita de madeira e tijolinhos. Carl disse que ele estava fazendo parte da construção e os móveis também.

O quintal era todo de gramado, rodeado de arvores e havia uma casa na arvore, um playground todo feito de madeira. Além de um jardim maravilhoso. Tudo muito bem feito.

Carl convidou para conhecer dentro. Entramos, tudo era amplo e bem iluminado naturalmente. Vi uma lareira feita com pedras e alguns móveis estavam prontos, todos feitos com muito capricho. Ele tinha talento mesmo. Havia uma grande mesa feita com madeira de demolição. Imaginei uma família grande ou vários amigos sentados ali.

— E aí, você gostou?

— Sim, é maravilhosa! Um sonho!

— Quer conhecer a dona desta casa?

— Ela está aqui? Nós invadimos?

— Há,há,há.. eu tenho a chave. Vem, ela é uma pessoa bacana, você vai gostar.

Um pensamento me ocorreu.

— Ai, será que é a ...Não, não... pára com isso.

Havia uma porta e ele me chamou:

— Venha July, apresento a dona da casa.

Entrei e era... um armário com um espelho que tomava a parede inteira.

— Mas é um espelho!

— Sim, ela é a dona desta casa.

— Eu... eu não tenho condições de comprar uma casa destas!

— Bem... tem um jeito...

— Como?

— Se casando com o dono da casa.

— Heim? Como assim? Do que você está falando? Eu nem sei quem ele é... e mesmo assim...

— July... você conhece...

— Quem?

— Olha... o dono e a dona da casa... se você quiser.

Fiquei olhando as nossas imagens refletidas no espelho. Meu coração estava batendo rapidamente.

— Oh, meu Deus! – e olhei para ele.

— July, eu...sempre amei você. Sempre tive esperanças de que você voltasse para cá. Eu esperaria você... para sempre.

— Carl... mas... e aquela indiana?

— Ah... isso já faz muito tempo. Eu preciso saber se eu posso ter esperanças.

Toquei o seu rosto e de repente ele ficou paralisado, como se estivesse em estado de choque.

— Carl?

Então ele me beijou... e agora foi a minha vez, foi como se fosse transportada para um mundo paralelo, vi flashes de cenas, cenas de uma outra vida: Anne, Carl, Maggie, Tobias, Ken, Kim, Kon, a fonte...

— Meu Deus... meu Deus!!! O que foi isso?

— Você viu também July? O mesmo que eu?

— O que foi aquilo? Vi você... estava diferente, como se fosse...

— Sim... um retardado...sem direito legal...

— Maggie tinha morrido... e mamãe...

As lágrimas começaram a descer e Carl me abraçava forte.

— Você trocou de lugar com a Anne... porque eu quis... meu pedido na fonte era ter você como esposa...

— Carl... as crianças! Onde elas estão? Precisamos encontrá-las!

— Bom, acho que elas ainda vão chegar...

— Quando? Eu quero vê-las!

— Geralmente leva uns nove meses...

Ele segurava o meu rosto e me beijava.

— Eu quero todos os três. – eu disse.

— Sim... quantos você quiser...

Me beijou de novo. Como esperei por este momento, estar nos braços dele, parece que foram muitas vidas.

— July?

— Sim...?

— Eu quero levá-los para assistir a abertura da Copa do Mundo aqui...

— Mas isso é logo, logo... vai ser daqui a...

— Então... é melhor começar agora...

Nos casamos e as crianças vieram como meus filhos e do Carl. Todos tem os olhos azuis esverdeados do pai e são lindos. Demos os nomes de Lucas, Sophie e Gustavo. Mas nós os chamamos de Ken, Kim e Kon.

Fomos assistir a abertura do Copa do Mundo. Todos nós: eu, Carl, Ken, Kim, Kon, Maggie, Tobias e minha mãe.

Notas finais
FIM (02/09/2015) Regina Massae Tanaka
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!