A Fonte
10 Capítulo 10-A invasão
Eu sentia que Carl estava mudando, depois de ter enfrentado Ed Jr, ele não gaguejava mais e me olhava diretamente nos olhos quando conversava comigo. Um olhar confiante.
A semana foi tranqüila apesar de Carl voltar do trabalho todos os dias quase a meia noite e completamente exausto.
Sabia que Ed Jr iria aprontar alguma coisa, tipos como ele não iam deixar como está. Eu precisava descobrir uma maneira de Carl ser considerado capaz e não depender de mais ninguém.
Precisava de um advogado para orientação e Maggie talvez conhecesse alguém.
— Ah sim, tem o Nick. Acho que ele é de uma turma anterior a sua. Ele tem um escritório de advocacia na cidade vizinha, podemos ir lá. Uma das minhas sobrinhas trabalha com ele. Vou ligar para ela.
Carl iria ficar dois dias fora à serviço e só voltaria domingo à tarde. Seria um bom momento para ver o advogado. Peguei as crianças e fomos com a Maggie para a cidade vizinha.
— Bem – disse Nick. O que podemos fazer é entrar com um novo pedido, o juiz analisa e dá o veredicto se ele está apto ou não.
— E do que precisamos?
— Testes, testes de Q.I., de personalidade, entrevistas com psicólogos e o testemunho do chefe dele dizendo que ele é totalmente capaz de assumir as tarefas e as responsabilidades.
Olhei para Maggie, isto seria a parte mais difícil.
— Ok, obrigada, doutor Nick.
— Julianne, não é? Eu me lembro de você.
— É? Puxa...
— Um ano mais nova, a menina mais bonita da escola e tinha a outra mais inteligente. A Juanne e a Anneju.
— É faz tempo.
Fomos para casa, no dia seguinte choveu o dia inteiro e a noite não ia parar. Sabia que Carl só voltaria no domingo a tarde, resolvemos dormir cedo.
Já devia ser perto da meia noite quando começaram os raios e trovoes:
— CABRUMMMM....
— MÃE!!!
As duas crianças maiores entraram correndo no quarto com medos dos trovões. Ajeitei-os na cama de casal e fui buscar o caçula. Não era justo deixá-lo sozinho, apesar dele estar dormindo tranqüilo.
Com três crianças na cama, ficamos um pouco apertados e a chuva não dava trégua. Percebi que tinha várias goteiras no quarto. De repente ouvi um barulho:
— CRÁS!! CABRUMM...
Pensei ter ouvido um barulho de vidro quebrado mas não tinha certeza. De novo senti um calafrio, uma sensação de perigo.
Saí devagarinho da cama e encostei o ouvido na porta do quarto. Escutei vozes, será que o Carl já chegou e veio com alguém?
— É... a vadia ta lá em cima sozinha... o marido ta viajando...he...he...he...
Tranquei a porta, era o único quarto que tinha chave. Ainda bem que as crianças estavam aqui comigo. Ken acordou e veio ao meu lado:
— Tem gente mamãe?
Pedi que fizesse silencio, precisava pensar:
— Psiuuu... vamos fazer o seguinte, você e a sua irmã vão para debaixo da cama, ta bom? É uma brincadeira, não saiam até eu chamar.
Ele não acreditou, mas obedeceu. Peguei o Kon e o coloquei debaixo da cama também. Fui até a porta, alguém estava subindo as escadas.
— O telefone! – lembrei. A extensão da cozinha estava quebrada, então se eu discasse aqui, os bandidos não perceberiam. Liguei para a Maggie, ela atendeu imediatamente:
— Maggie, é a Ju. Alguém invadiu a casa. Chama a polícia depressa! — desliguei e peguei a bengala que Carl tinha usado anteriormente.
Ouvi alguém girando a maçaneta da porta e me preparei para lutar.
De repente começaram a bater na porta da sala.
— Bam...bam...bam! Saiam...quem estiver aí, estou avisando senão vou mandar chumbo!
Era a voz de Tobias, ouvi passos descendo a escada e logo em seguida a porta dos fundos bateu.
Ken já estava ao meu lado:
— E agora?
— Vamos ficar quietinhos até a polícia chegar.
Esperamos nem cinco minutos quando ouvi a voz da Maggie:
— Julianne, é a Maggie. Está tudo bem? Não tem mais ninguém, vocês estão seguros.
Abri a porta.
— Graças a Deus! Estão todos bem. – ela me abraçou.
Maggie me ajudou com as crianças e as levamos para a casa dela. Além do Tobias, mais três colegas de Carl da marcenaria estavam vasculhando a casa, o quintal e a vizinhança a procura de suspeitos. Hoje o jogo de baralho tinha sido na casa da Maggie.
Eles ficaram comigo até a polícia chegar. Contei o ocorrido e parecia que a cidade toda tinha acordado e vinham ver. Assalto ou crime era inexistente ali, todos estavam preocupados.
Nada foi levado, a intenção era outra. As paredes da casa estavam pichadas com palavrões e frases como a vadia e o retardado. Dentro eles também picharam as paredes e espalharam sujeiras pelo chão.
Já estava quase amanhecendo quando Carl chegou. Ele preferiu dirigir a noite toda do que pernoitar em algum lugar.
— Meu Deus! July, o que aconteceu? Cadê as crianças?
— Elas estão bem, estão com a Maggie.
— O senhor é o dono da casa?
— Sim policial. Acabei de chegar, eu estava fora a serviço.
— Aparentemente é uma ameaça, sua esposa disse que nada foi roubado. Conhece alguém que teria motivos para isso?
— Sim, mas não tenho provas — e olhou para mim.
— Precisamos da perícia e do depoimento de vocês.
— Eu vou – eu disse.
— Não, fique aqui com as crianças. Eu vou, eu posso fazer isso – disse Carl.
Ficamos hospedados na casa da Maggie enquanto a casa era arrumada. Carl e Tobias não foram trabalhar na segunda feira.
Para a nossa surpresa, um caminhão parou em frente e desceram os colegas de Carl trazendo ferramentas e madeira para ajudar na reforma.
Ken queria ajudar a todo custo, mas seria perigoso lá dentro. Ele ficou emburrado, então resolvemos transformá-lo em um garoto de recados, para avisar quando o almoço ficasse pronto ou o café com bolo da Maggie estivesse servido.
Eu e Maggie nos revezávamos na cozinha. Os homens trabalhavam cantando e em conjunto, uma verdadeira equipe. Todos abriram a mão de um dia de serviço para vir ajudar, eles realmente gostavam do Carl. No final da tarde, nós tínhamos uma casa totalmente reformada e pintada.
Ficou linda, fizeram até um balanço grande na varanda aonde cabiam dois adultos ou então um adulto com três crianças.
Ao anoitecer, sentei no balanço para dar a mamadeira da noite ao Kon. Kim veio e sentou no meu lado esquerdo e Ken veio para o lado direito e pôs a cabeça no meu colo e colocou os pés para fora. Coloquei o Kon sentado na perna esquerda apoiado no meu peito e virado para mim. Enquanto ele tomava a mamadeira, as duas crianças conversavam animadamente e Carl estava sentado na escada da varanda e olhava para nós.
Não sei como começou o assunto, as crianças falavam sobre o que iam ser quando crescessem. Um queria ser piloto de formula 1 e Kim queria ser estilista. Ela não conhecia a palavra, mas queria fazer vestidos bonitos para desfile. Perguntou ao pai:
— Pai, e você? O que você quer ser quando crescer?
— Sua boba, o papai já é adulto – zombou Ken.
— Sim, mas eu também tenho um sonho.
— O que é?
— Eu quero ser um bebê de um ano de oito meses.
— Ah, não. Olha o Kon, ele só fica mamando!
— É, e a mamãe tem que ficar limpando ele.
— Por isso mesmo...
— Há, há, há... – as crianças acharam graça.
Mas Carl estava sério e olhava para mim, então percebi a malícia na resposta dele e fiquei sem jeito.
— Ok crianças, hora de dormir.
Com a casa reformada, não achei justo para o Carl continuar a dormir no sofá então resolvi fazer uns arranjos. A casa tinha mais dois quartos. Antes as três crianças dormiam no mesmo quarto e o quarto menor ficava com a bagunça. Deixei Ken e Kim no mesmo quarto. Quando crescessem poderia trocar e deixar um quarto para os meninos e o menor para a Kim. Por enquanto, colocaria o berço de Kon no quarto menor. Carl ficou empolgado com a volta para o quarto de casal, então eu disse que dormiria no quarto do Kon. Ele pareceu ficar desapontado, mas não falou nada. Talvez, quem sabe com o tempo a gente se entenderia.
Nick apareceu, precisava falar conosco. A esposa do Ed Jr o havia procurado para denunciar o marido. Ela desconfiava que o marido era desonesto pois ele fazia várias falcatruas na empresa mas quando ouviu ele falando sobre o que ele e um comparsa haviam feito com a família de Carl, achou que já era demais. Ele precisava pagar pelos erros, e ela tinha uma proposta para nós. Eles devolveriam a madeireira para o Carl e declarariam que ele está apto para ter seus direitos legais restabelecidos e em troca, nós não o acusaríamos de invasão e tentativa de agressão. Ed só responderia pelos crimes de sonegação de impostos e outros crimes legais. Eles iriam embora e nunca mais voltariam. Ela e Nick iriam garantir isso e agora tínhamos a cidade inteira ao nosso lado.
Aceitamos o acordo, e estávamos felizes agora sim, tudo daria certo.
No dia seguinte, estávamos planejando o que poderíamos fazer quando tudo estivesse certo quando Ken foi até a janela da frente e chamou:
— O Seu Tobias está lá fora.
— Vou ver – fui lá fora e ele parecia meio desorientado.
— Tobias, tudo bem? A Maggie está bem?
— Eu... não sei. Ela não acordou para fazer o meu almoço... ela não quer acordar.
— Carl? – chamei ele.
— Eu vou lá, fique aqui.
Novamente aquela sensação de mal estar. Fui até o muro que separava as duas casas e esperei. Carl entrou na casa de Tobias e ficou um tempo. Saiu com o rosto lívido. Saí pelo portão e fui ao seu encontro. Ele colocou as mãos nos meus ombros e disse:
— July, eu preciso de você agora. Preciso que você seja mais forte do que nunca. A Maggie... ela faleceu...
— NÃO, NÃO,... Eu quero vê-la... eu preciso...!!!
— Presta atenção, preciso que você fique aqui. Vou com o Tobias ao hospital, ele precisa de ajuda. Você me ouviu? Preciso que fique com as crianças...
Fiz que sim com a cabeça, as lágrimas desciam sem parar.
— Oh Maggie, justo você? Meu Deus, agora que tudo ia dar certo. Por que? Por que?
A ambulância chegou e a vizinhança toda correu para a rua. Ao perceberem o ocorrido começaram a se aproximar da casa. Alguns entraram na casa e saiam chorando, sem querer acreditar no ocorrido.
As crianças estavam assustadas e vieram até o portão:
— Mãe?
— Calma, eu estou aqui.- e abracei todos.
Só vi o Carl a noite, ele voltou só para tomar um banho. O velório seria no clube e ele tinha avisado os familiares que viriam pela manhã.
Eu só queria um abraço dele, mas não podia dizer nada.
Maggie e eu tínhamos tantos planos sobre um emprego de meio período para mim. Assim poderia cuidar da casa e das crianças. Se a Anne decidisse voltar, Maggie se encarregaria de conversar com ela e a adaptaria a nova realidade. Mas Anne não voltaria.
E você Maggie, minha amiga, minha conselheira, minha segunda mãe, se não fosse por você eu perderia toda a minha sanidade mental aqui.
Carl ia voltar para o velório e disse que voltaria de manhã para me buscar juntamente com as crianças.
Eu havia conversado com elas sobre a Maggie, e elas foram muito mais corajosas do que eu imaginava. Elas entenderam, choraram um pouco, sentiriam saudades. Maggie estaria em seus corações e sempre lembrariam dela.
As dez horas da manhã, Carl voltou para nos levar. O telefone da sala tocou, ele havia sido arrumado e Ken foi atender:
— Alô? É o Ken... sim o filho mais velho. Bem... eu estou bem. Tá sim, mãe é para você. Uma moça chamada Anne.
— Anne?! – meu coração parou. Eu vou atender lá em cima.
Subi, esperei ele colocar no gancho e encostei a porta.
— Anne? É você mesma?
— Sim, sou eu... a fugitiva.
— Mas onde você está?
— No momento... quase aí, devo chegar em uma hora mais ou menos.
— Você... está vindo para a enterro?
— Também, eu soube através de um conhecido que postou no Instagram. Mas o verdadeiro motivo é que eu voltei para a minha família.
— Vo...você quer trocar? Mas e a sua nova vida?
— Ah querida, aquele Robert é um galinha. Ele me trocou pela secretária do gerente comercial.
— Eu sei, a Carolina. Eu já esperava. Mas por que agora?
— Você não queria? Então, eu quero tentar de novo, conquistar o Carl e cuidar dos meus filhos.
— Eu... espero você...
Desliguei, estava arrasada. Queria chorar, gritar, não era justo, depois de tudo pelo qual passamos. Nem percebi que o Carl estava na porta.
— Hã? Oi... eu nem percebi voce aí.
— Então era a Anne e vocês vão trocar?
— É...é você sabe, trocar...fofocas. Coisas de mulher, eu conto minha vida e ela conta a dela.
— Sei... e vocês vão trocar na fonte de Jaca com landa?
Agora o meu coração bateu mais forte.
— O que você disse?
— Vocês vão fazer pedidos para trocar de lugar?
Céus, ele sabe!
— Como você sabe?
— Eu estava lá, July. No dia em que vocês fizeram seus pedidos. Eu havia esquecido de perguntar a Anne se ela podia olhar a roupa para mim. Então eu ouvi vocês duas conversando e me escondi atrás de um arbusto.
— Você ouviu tudo!
— Ouvi a Anne dizendo que queria ser livre, sair da cidade e se ver livre do seu marido idiota.
— Carl...
— E ouvi você desejar um marido e filhos...
— Meu Deus, o que você fez?
— Eu percebi que uma queria a vida da outra, então eu fiz um pedido também.
— O...o que você pediu?
— Desejei que vocês duas trocassem de lugar.
— Céus! Foi você! Mas por que fez isso?
Já estava desesperada, ele sabia, sabia o tempo todo.
— Por...porque eu amo você July! Eu a amo desde quando você era uma garotinha que se mudou para cá... mas você não gosta nem um pouquinho de mim, não é?
— EU GOSTO! Gosto muito, amo você. Amo seus filhos demais! – e toquei o seu rosto.
— Então vamos deixar como está!
— Não, não podemos! Eles são os filhos da Anne. Ela está vindo para cuidar de você e das crianças. Dê uma chance a ela!
— E quanto a mim, July? Por que não podemos ter uma chance também?
Vi seu rosto, suas lágrimas, meu melhor amigo, meu único amigo verdadeiro, corajoso, honesto, integro, amoroso e não agüentei. Saí correndo para o quintal dos fundos e chorei desesperadamente. Quando achei que não poderia ser pior, ouvi a voz da Kim:
— Não chora mamãe, ela vai para o Céu.
Abracei forte esta criança que eu amava de todo coração. Vendo o meu desespero, Ken também veio trazendo o irmãozinho. Abracei todos, amava aquelas crianças, amava o pai delas. Amanhã eu não estaria aqui e eles não se lembrariam de mim, nada, absolutamente nada. Eu seria apenas uma amiga de infância dos pais deles.
Carl também estava desesperado, agora perderia para sempre a única mulher que realmente amava. O que estava pensando quando também jogou a moeda na fonte? Sua vida era um inferno, aquilo era só uma brincadeirinha de adolescentes, nada vai mudar mesmo.
Naquele dia, Anne voltou uma hora e meia depois. Parecia animada ao encontrar a amiga, mas ao ver sua realidade dentro de casa, subiu e se trancou no quarto.
No dia seguinte, já era oito e meia, Anne não havia acordado, o padre estava esperando por ele, então Carl pediu ao filho:
— Ken, vai lá cima acordar sua mãe.
Ouviu Ken gritar de cima que a mãe estava maluca de novo. O que era normal para eles.
Depois de um tempo ela desceu e ele pensou:
— Ela ainda está com o mesmo moletom cinza de ontem...mas, estava tendo alucinações? É a July?
— O que é isso? — ela perguntou.
Ele ficou sem fala, respondeu: pão e leite. Ela subiu correndo de volta e fechou a porta. Parecia que falava com alguém ao telefone. Desceu em seguida com o rosto transfigurado:
— Aonde está a minha mãe?
Ele não conseguia responder direito e ela saiu correndo pela porta.
Agora ele estava perdido. Era a July, a fonte atendera ao seu pedido. Não era alucinação, certo? Para as crianças parecia tudo normal, era a mesma mãe de todos os dias.
Se era a July...Oh Meu Deus!!! Ele fizera uma coisa terrível! Ele escutara ela dizer que não era casada e não tinha filhos, mas e a mãe? Ele esquecera. A mãe de Anne morrera quando ela era criança, mas a de July deveria estar viva e era muito próxima a ela. Talvez ainda morassem juntas.
Pegou as crianças e foi atrás dela.
Chegou ao cemitério, ela parecia que tinha chorado muito. Ao vê-lo, se levantou, pediu uma moeda e depois saiu correndo.
Ele sabia aonde ela iria, ia desejar desfazer o pedido e que tudo voltasse ao que era antes. Também preferiu isso, não queria vê-la desse jeito. Foi para casa e depois pediria desculpas ao padre.
Começou a faxina na casa mas não parava de pensar em July, na dor que causara a ela. Ouviu o portão abrir e lá estava ela. Disse que estava com fome e pediu desculpas. Mal podia acreditar. Anne nunca pedia desculpas, até as crianças estranharam.
July parecia mais calma, acreditava que no dia seguinte quando acordasse, a fonte teria revertido tudo e ela teria a mãe de volta.
— Quem sabe, ele pensou. Ela ficaria com as crianças hoje? Não faria mal a elas, não é? Pior do que a mãe não seria. E Ken era esperto, qualquer coisa chamaria Maggie e Tobias.
Ela aceitou e ele foi, ainda preocupado. Decidiu que ligaria de hora em hora para ter certeza.
O padre ficou muito contente, eles iam ficar o dia inteiro fora ajudando a recolher doações de cidade em cidade. Carl não teria como ficar ligando a toda hora. De alguma forma ele sentiu que as crianças ficariam bem, não sabia explicar, ele rezava, ia a missa todos os domingos e gostava muito da Maggie. Mas pela vida que tinha, ele não tinha motivos para acreditar em milagres ou justiça divina. No entanto, ao ver July ali, em sua casa, sentia uma sensação de paz que a muito tempo não sentia.
Aos poucos ele foi se acostumando com a mudança em sua vida, vê-la ali como sua esposa e mãe de seus filhos, vendo os felizes como nunca tinha visto.
Ele não podia falar que também tinha participado do pedido na fonte, July iria odiá-lo para sempre. E se eles quisessem que tudo voltasse ao que era antes, precisaria que os três: ele, July e Anne estivessem presentes. Ele havia chegado a conclusão sozinho.
Algo estava acontecendo, não era só este fenômeno inexplicável, ele também estava mudando ou melhorando rapidamente.
E havia July, ele estava apaixonado, como sempre havia sido. Ela não percebia e como poderia?
Quem sabe com o tempo, ele se declararia e podiam ser marido e mulher de verdade? Quem sabe ele poderia ter seus direitos legais de novo e se tornar digno desta mulher linda?
No dia seguinte ao bazar, July foi a madeireira e Ed foi para cima dela. Carl se sentiu impotente de novo, estava desesperado não podia perder o emprego, seus filhos iriam para o orfanato. Sabia que perderia a July. Vendo-o tão covarde e fraco ela o desprezaria, assim como a Anne. July o odiava, viu em seus olhos a raiva que sentia por ele. Ela o xingou e estava certa, mas o que poderia fazer? O jeito era esperar as coisas acalmarem um pouco. Pelo menos ela vai ficar longe do Ed por enquanto, pensava ele.
Ed estava de mau humor pelo acontecido e mandou ele vir trabalhar mais cedo no dia seguinte.
Estava nos fundos lavando as peças das maquinas quando ouviu assobios e os colegas pareciam mais exaltados. Tobias veio chamá-lo:
— Carl... a Julianne...
Ele foi correndo o que a July estava fazendo aqui?
E lá estava ela, num vestido preto provocante, salto alto, usava um batom bem vermelho e seu rosto lindo estava tenso. Ed abriu a porta. Aquilo foi demais para ele:
— NÃO... ELA NÃO VAI...!!! JÁ DISSE QUE NÃO! VOCE NÃO VAI TOCAR NELA... NUNCA!
Carl já havia suportado coisas demais, humilhado, xingado, não tinha mais respeito por si mesmo. Mas, com a July não! Ele nunca iria deixar este Ed asqueroso encostar na sua July. Já não podia fazer nada pela Anne, mas esta mulher maravilhosa ia se sacrificar para que ele ficasse com os filhos. Se sacrificar por uma vida que nem era a dela.
Ed não gostou, iria para cima dele e ele não ia recuar. Iria para cima também.
Depois, pensou: Nunca havia me sentido tão bem. Estava fisicamente cansado, exausto na verdade. Ed havia lhe dado tarefas absurdas, mas ele não contestou.
Sentia se forte, orgulhoso de si, como se agora fosse capaz de resolver todos os seus problemas.
July era forte, decidida e corajosa. Se algo acontecesse com ele, ela cuidaria dos seus filhos, ele não tinha mais nada a temer.
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