A Fonte

1 Capítulo 1- Jacarandá


SEXTA-FEIRA: São quase cinco horas da tarde e eu não vejo a hora de correr até a rodoviária. Serão seis horas de viagem até Jacarandá, a cidade da minha infância. Não é uma viagem a passeio, eu bem que precisava de umas férias, faz dois anos que não tiro férias. Viagem? Somente a serviço, incluindo metas a cumprir, corte de gastos, trabalho, trabalho e trabalho.

Moro sozinha num apartamento moderno em São Paulo. Sou filha única e minha mãe preferiu ir morar na cidade vizinha a mim. Um lugar mais calmo, onde ela freqüenta o clube local da terceira idade. Sua agenda é mais divertida do que a minha.

Ela e as amigas saem para viajar, tem aulas de dança, praticam esportes, mas sua preocupação comigo continua, então aos finais de semana que eu não estou viajando ela vem passar o final de semana comigo.

Nossa casa em Jacarandá estava alugada desde que saímos de lá a quinze anos, quando fui para a universidade. Na verdade, meu pai está enterrado na cidade e para minha mãe não ficar sozinha, nós resolvemos que ela se mudaria comigo e moraríamos perto da universidade até eu me formar.

É a primeira vez que estou voltando e estou indo para vender a casa. Fiz contato com a imobiliária local e amanhã sábado, devo resolver tudo, a venda, o cartório e depois voltar para São Paulo.

Eu me lembro de uma cidade pequena, típica do interior, cercada de montanhas cobertas de árvores. Praticamente havia uma igreja, uma escola, um restaurante de comida caseira, uma pousadinha e uma madeireira. O restante, casas e o comércio local, talvez morassem umas duas mil pessoas ao todo.

Minhas amigas adolescentes e eu queríamos sair de lá o mais rápido possível.

A cidade mais próxima e com mais recursos ficava a mais de vinte quilômetros e a maioria se mudava para lá para arrumar um emprego ou ir para a faculdade. Os mais sortudos conseguiam estudar em São Paulo.

Havia somente uma pessoa da minha idade que queria voltar depois de se formar. Meu primeiro amigo depois que eu me mudei para Jacarandá.

Meu pai estava doente e decidiu vir morar no interior, uma cidadezinha calma e sem stress dizia ele. Nós tínhamos uma vida boa em São Paulo, meu pai era gerente em uma empresa automobilística e viajava com freqüência para feiras e exposições. Quando descobriu que estava com um problema cardíaco decidiu que devia se dedicar mais a família e a vida. Vendemos a casa onde morávamos, o apartamento na praia e juntando todas as economias, poderíamos viver tranquilamente no interior. Eu tinha onze anos, usava óculos, era tímida, nerd e cheia de idéias na cabeça. Gostava de ficção científica, astronaves, robôs e tinha vindo parar no meio do mato, no meio do nada.

Eu me sentia uma E.T.(extraterrestre) no meio daquelas crianças que eu achava que seriam um bando de caipiras. Acabei me fechando e só queria ficar enfiada nos livros e tirar notas altas.

Confesso que na maioria das vezes eu tirava a nota máxima e gostava de ser a melhor da classe. Eu digo a maioria das vezes, pois havia um menino que era o mais inteligente.

Ele sempre tirava a nota máxima e sem nenhum esforço, enquanto eu estudava desesperadamente. Ficava depois da aula para estudar e tirar dúvidas, estudava em casa e até segundos antes da prova eu estava com o caderno aberto.

Sempre o via ajudando o pai na madeireira. A empresa era do pai dele que explorava a mata local. Eles também tinham uma marcenaria e mantinham uma oficina para alunos.

Enquanto as meninas passeavam na praça aos finais de semana, eu ficava lendo na varanda e ele ajudava o pai na oficina.

Como era mesmo o nome dele?

Meu pai se foi dois anos depois, o coração não agüentou, mesmo na calmaria da cidade. Minha mãe passou a se dedicar muito a mim e ela queria que eu fosse estudar em São Paulo. Eu me esforçava ainda mais, principalmente quando soubemos que eu poderia conseguir uma bolsa de estudos integral numa renomada universidade se conseguisse as primeiras colocações no vestibular.

Certa vez, tirei uma nota sete numa prova de história e aquilo me deixou arrasada. Comecei a chorar convulsivamente no meio da sala de aula. Os outros alunos me olhavam incrédulos, eles tinham ido muito mal, a maioria tirou nota quatro, três, alguns zero e poucos cinco. Uma nota sete para eles seria a glória. A professora disse que precisaríamos estudar mais, que éramos preguiçosos, a matéria não era tão difícil assim, tanto é que um aluno tinha tirado nove e meio.

Aquilo foi doído, achava que não ia conseguir a bolsa de estudos, eu teria que trabalhar de balconista na cidade vizinha para sustentar a mim e a minha mãe. E é claro, odiava o menino que era melhor do que eu.

Mas ele era gente boa, sempre contente, eu e as meninas achávamos que ele era um bobalhão. No entanto, ele não era metido ou arrogante. Estava sempre ajudando as pessoas e todos na cidade gostavam dele.

Naquele dia fui para casa arrasada, me sentindo a perdedora, a pessoa mais infeliz do planeta, achando que se eu nem conseguia uma nota acima de nove, seria uma fracassada na vida. Então, alguém me chamou:

— July!!

Ninguém me chamava de July, na verdade os colegas chamavam nós duas, eu e a Anne a minha colega de classe de Juanne ou Anneju. Virei-me e lá estava ele:

— July, tudo bem com você?

— O que você acha? – querendo fuzilá-lo.

— Você chorou na aula de história...

— Claro, eu sou a pessoa mais burra do planeta e o meu futuro está arruinado.

— Futuro arruinado? Mas por que?

— Vou fazer vestibular e sou burra demais, vou perder a bolsa de estudos – fiz cara de choro.

— Bem... mas isso é só daqui a quatro anos, não é ?

— Sim, preciso me preparar desde já, eu não nasci um gênio como certas pessoas!

Eu não sei porque eu estava descontando nele, nem sei porque isso me afetava tanto, eu só tinha treze anos.

— Não fica assim, você vai ver, na próxima prova, você vai tirar a maior nota da sala.

— Ah, lá vem você tirar onda de ...

Então, eu vi que ele estava sendo sincero, parecia triste por eu estar daquele jeito.

— OK, isso mesmo, vou tirar uma nota melhor do que você!

— Vai sim, tenho certeza que sim July.

Passamos a ser amigos desde então, ele era o único que me entendia quando eu falava de Star War e Star Trek, de Godzila e Robocop. Mas como era mesmo o nome dele? Wal? Saul?...

Adormeci no ônibus e só acordei quando o motorista gritou:

— JACARANDÁ , quem vai descer aqui?

Esperava uma rodoviária, mas ele havia encostado no meio da estrada principal, eu deveria andar aproximadamente um quilometro por uma rua que dava para um conjunto de luzes que deveria ser a cidade.

A escuridão tomou conta do caminho e eu devo ter rezado para todas as entidades pedindo proteção por andar sozinha ás duas horas da madrugada, indo para uma cidade que não via á quinze anos.

Quando me aproximei, verifiquei que a pousada estava no mesmo lugar, bem perto da entrada da cidade. Havia feito a reserva por telefone, conhecia o endereço, mas com o tempo, a cidade poderia ter crescido e mais casas e ruas apareceriam até a estrada. Parece que não.

Estava tão silencioso e estava muito cansada. Tratei de tomar um banho e dormir, o dia seguinte seria rápido: imobiliária, cartório, estrada, São Paulo. No final da tarde, já estaria de volta.

Acordei com os passarinhos cantando literalmente. Após o café da manhã, fui procurar a imobiliária. A cidade havia realmente parado no tempo, as mesmas casas, talvez um pouco envelhecidas. A praça com coreto, as suas árvores mais altas, a igreja, o mercadinho e por ser sábado estava mais silencioso, nos dias de semana escutávamos o som vindo da marcenaria ao longe. Será que ela ainda existe?

Achei a imobiliária e o cartório ficava ao lado, incrível, consegui resolver em uma hora o que talvez levasse-se até dias para resolver numa cidade grande.

O próximo ônibus para São Paulo passaria na estrada daqui a duas horas, então resolvi dar uma volta na cidade.

Havia uma loja com doces caseiros e eu lembrei que a minha mãe gostava muito deles, resolvi comprá-los. Era do jeito que eu lembrava, a dona era a mesma, com cabelos brancos agora. Conversamos um pouco, ela lembrava de mim e da minha mãe.

Ao sair da loja, havia uma mulher encostada no poste. Ela estava fumando e me perguntou com voz pastosa:

— Ei, moça, que horas são?

— São nove e meia...

— NÃO... NÃO ACREDITO !!! É VOCÊ JULIANNE? VOCÊ NÃO MUDOU NADA!!!

Demorei um pouco para reconhecer a mulher que sorria e me abraçava. Ela cheirava a cigarro e parecia que tinha bebido um pouco. Usava um moletom cinza bem gasto e tênis que já foram brancos um dia.

— NÃO É POSSÍVEL!!! Você não lembra de mim? Sou eu... a Anne...

— Anne... Anne. OH... MEU DEUS!! Sim, Anne, minha melhor amiga da escola. É claro, lembro sim.

Ela sorriu e vi seus dentes manchados, olhos cansados e um rosto prematuramente envelhecido. Seus cabelos eram castanhos e lisos, mas estavam embaraçados e ressecados.

— Olha para você, não mudou nada, está linda! O que faz neste fim de mundo?

— Vim vender a casa, mas já estou indo, daqui a pouco pego o ônibus para São Paulo.

— E você, casou com um homem rico? Pela sua aparência. Eu estou um bagaço.

— Não, eu estou sozinha. Trabalho como relações públicas de uma multinacional e você? Eu me lembro de você falar que queria viajar...

— Eu? Há, há, há... olha para mim, pareço alguém que foi viajar? Estou presa aqui, minha filha... presa a esta maldita cidade...a esta maldita vida... a um marido idiota... falando nele, olha ele aí me procurando... acha que eu fugi e larguei ele e as crianças.

Uma caminhonete bege e marrom bem velha parou ao nosso lado e um homem desceu dela.

— Olha ele aí, meu marido. Você se lembra do Carl?

Levei um choque: CARL. Esse era o nome dele! Meu amigo de infância! Mas estava muito diferente do que eu esperava. Vi um homem alto, meio curvado, magro, cabelos cortados bem curto e de cabeça baixa. Ele me reconheceu e parecia muito envergonhado de me ver:

— O...o...oi...Ju...Ju..Ju..ly...ly...

— Tá bom... ta bom...o que você quer? Fala logo que eu e a minha amiga Julianne temos muito que conversar.

-Vo...vo...ce...voce sa...sa...be....be...que..que...ho...ho...hoje... eu...pre..pre...ci...so...traba...lhar. Preci..sa...sa...ficar...com...as...cri...crian...crianças...

— Ai, até de sábado, que saco! Olha fala que você vai atrasar um pouco hoje, porque eu vou depois que conversar com a Ju. Quanto tempo você tem Ju?

— Eu...eu... mais uma hora e meia.

E olhei para ele, os olhos mais tristes que eu já havia visto. O que aconteceu com ele? Não me olhava nos olhos, muito magro, roupas gastas e mal cuidadas, não podia acreditar, ele era o mais inteligente da escola, tinha um futuro brilhante...

Quando o vi pela última vez era o dia de ir para a universidade. Meu último dia na cidade. Minha mãe me acordou:

— Julianne, acorda filha. Seus amigos estão esperando para se despedir.

— Ahhh... ai meu Deus, estou atrasada!

Pulei da cama, as malas já estavam prontas, os nossos móveis estavam protegidos e as nossas coisas empacotadas. Eu iria direto para a universidade e minha mãe seguiria mais tarde com a mudança para nossa casa nova.

Era costume na cidade de que a cada nova turma que se formava e ia para outra cidade ou universidade, os colegas e amigos se reuniam, tiravam fotos e acompanhavam a pessoa até ela subir no ônibus. Agora era a minha vez.

Parecia que a sala inteira estava lá. A Anne juntava o pessoal para tirarmos a foto. Eu procurei o Carl no meio da turma, mas ele não estava lá. Então o vi do outro lado da rua, meio escondido. Fiz sinal para ele se aproximar, ele hesitou e se escondeu atrás do poste. Anne ficava me empurrando:

— Vai... vai logo senão perde o ônibus.

Foi a última vez que o vi, um rapaz alto, magro, de óculos, os cabelos castanhos claro quase ruivo caindo no rosto e cara de tonto, como dizia a Anne.

A verdade é que a medida que eu crescia, meus interesses por robôs e naves diminuía e como qualquer moça de dezesseis anos pensava em outras coisas. Eu e Anne nos aproximamos mais e só falávamos de artistas de cinema e cantores bonitos. Sonhávamos com belos rapazes que conheceríamos fora da cidade e nesses sonhos não havia espaço para o amigo de bom coração mas com cara de bobo.

Ao contrário de nós, Carl não queria sair de Jacarandá. Mesmo que fosse estudar fora e ele queria voltar e ajudar a cidade.

— Veja – dizia ele. Nem temos um hospital, numa emergência temos que correr mais de vinte quilômetros até a cidade mais próxima. Precisamos de mais escolas e de uma universidade.

Com sonhos tão diferentes, acabamos nos afastando. E depois, ele conseguiu uma bolsa de estudos para Harward, ele iria na próxima semana para os Estados Unidos. Provavelmente nunca mais nos encontraríamos.

Mas então, o que aconteceu?