A Floresta de Adelfa

2 Ollie Adora Morangos


Notas iniciais
Quem é Ollie e Katherine? Como se conheceram? Dedico esse capítulo a histórias deles, como tudo começou, e um pouco do passado da nossa misteriosa ninfa ;)

Caminhamos por um bom tempo pela trilha, quase o tempo todo em silêncio, apenas observando a linda paisagem que nos cercava. Gosto muito de caminhar, dar vida a algumas flores, ver o sol nascer ao topo da colina... É tão maravilhoso! Enfim, chegamos á um belo rochedo que indicava que estávamos perto do riacho e do campo de frutinhas. Dava pra sentir de longe o cheirinho gostoso dos morangos, o som do lago... Estava especialmente ansiosa aquela manhã! Logo podemos avistar o riacho, e o campo de morangos logo atrás.

— Chegamos! — exclama Ollie animado

Assim que anuncia a chegada, corre em disparada em direção ao campo de morangos, com a língua pra fora, enquanto continuo caminhando calmamente. Não pude deixar de dar risada, era tão bonita a alegria dele que dava gosto de ver! Vou à margem do riacho e deixo a cestinha vazia na grama. Molho meus pés na água cristalina, e como mágica, toda terra e poeira começa a se dissolver, deixando meus pés limpinhos. A água está tão geladinha! Observo meu reflexo na água por um instante.

Quando consigo me ver nitidamente, vejo que meu rosto está quase preto de tanta terra. Assim como meu cabelo, meus braços... Acho que um banho iria bem. Tiro o meu colete e o lanço na grama ao lado da cesta. Avanço mais ao fundo do riacho, na altura da cintura, tomando cuidado para não escorregar nas pedras cobertas de musgo. O sol já estava alto e se refletia na água, criando intenso brilho lindíssimo, que contrasta perfeitamente com a sombra das árvores em volta. Lavo o meu rosto, minhas pernas, meus braços, sem nenhuma dificuldade. Saio da água devagar, até mais branca depois do banho. Como é boa aquela sensação. Vou até Ollie, que está devorando os morangos um atrás do outro, como se nunca tivesse visto comida na vida, e sento ao seu lado, para me juntar na comilança.

— Que bom que deixou pra mim! — digo brincando

— É claro que sim — diz ele de boca cheia — Mas é melhor se apressar, antes que eu mude de ideia!

Pego alguns com a mão e ponho na boca. Sensacional! Deixo a mordomia de lado, seguro um galho com a mão e pego os morangos direto com a boca, assim como Ollie. Um atrás do outro. Lembro-me da cesta, vou até ela e encho com alguns até não caber mais. Depois de alguns minutos depois já estava satisfeita. Deito-me na grama, com barriga para cima em frente ao riacho e observo o céu. Límpido, com grandes nuvens. Estava tão concentrada em seus desenhos que quase nem percebo quando Ollie deita ao meu lado. Estico minha mão e começo a fazer um carinho na sua cabeça. Sua expressão era de tanto prazer que só faltava ele ronronar. Eu sorrio.

— Você lembra? — viro meu rosto

— Do quê? — ele vira a cabeça em minha direção, me olhando nos olhos.

— Do nosso primeiro dia.

— Como poderia esquecer? Foi o melhor dia que eu tive!

— Não era isso que você achava — digo sorrindo

— Mas é o que eu acho agora.

Voltamos a observar o céu. Ficamos, apenas ouvindo o som das águas, do vento batendo nas folhas, e dos pássaros que cantavam alegremente. Depois de um tempo, finalmente digo:

— É o que eu acho também — Ainda olhando para cima.

Lembro-me do dia com tanto carinho, mas também do medo que senti como se fosse ontem. Mas foi há 10 anos. Eu tinha sete, e ainda sabia muito pouco sobre a floresta, me assustava facilmente, principalmente com os animais ferozes que saiam para caçar de noite. Não tinha nenhum companheiro em especial, a não ser a mim mesma. Acampava na mesma clareia, e nem sabia usar meus poderes direito... Era tão inexperiente e frágil, que me dá a impressão de ter sido a um milhão de anos atrás. Naquela tarde quente de verão, eu havia saído para comer alguns mirtilhos, pois estava com muita fome. Sem perceber, acabei me afastando mais do que o normal, distraída com os passarinhos e esquilos que saltitavam alegremente, comigo indo atrás. Isso acontecia com frequência. Depois de um tempo, vi que todos os animaizinhos estavam sumindo, pouco a pouco, indo para suas casas. Só então que reparei que já era o pôr do sol.

Olhava em volta, tentando reconhecer o caminho, mas nada além de árvores, rochas e plantas desconhecidas. “E agora?” pensava eu “Como voltarei para casa?” Decidi depois de alguns minutos de caminhada que o mais inteligente a fazer era procurar um abrigo para passar a noite, e de manhã com a segura luz do sol achar o caminho de volta. Sabia que não conseguiria chegar á clareia a tempo antes de escurecer. Caminhei por algum tempo, mas nada de abrigo. Todos que poderiam ser consideráveis já estavam ocupados, por tatus, coelhos, quatis, e outros animaizinhos que estavam em um dia não muito hospitaleiro. Já estava tremendo de medo, pois já estava formada a noite, e com ela a completa escuridão. O desespero estava tomando conta de mim. Sentia-me péssima, como tinha deixado aquilo acontecer? Como fui tão descuidada?

Comecei a ouvir os pios arrepiantes das corujas, e outros barulhos que não sabia identificar. Provavelmente as feras noturnas já estariam procura do jantar. E se ficasse parada, com certeza eu seria uma bela caça. Movida por uma força descontrolada, começo a correr. Sem um destino exato, para falar a verdade. Até que me lembro dos meus poderes. Poderia plantar um arbusto para me esconder ou outra coisa. Porém não sabia exatamente como o fazer, já que raramente usava minha magia. Mas tentei mesmo assim. Concentro-me. Imediatamente, surge uma fraca luzinha verdade da terra. A partir dela nasce uma raiz, que começa a criar estrutura, que começa a criar galhos, depois folhas, com a luzinha acompanhando cada fase.

Derrepente ouço um barulho estridente, que não pude identificar. Fico mais assustada do que antes, interrompendo a magia. Encolhi minhas mãos, olhando para os lados para saber de onde vinha o som. Respiro fundo, engolindo o medo. Não posso negar que estava arrepiada. Tento ver o que eu criei, com a dificuldade que a escuridão causava. Ali na minha frente se formou um arbusto tão pequeno que não esconderia nem mesmo uma formiga. “Era uma vez uma Katherine” pensei, já imaginando que aquele seria meu fim. Novamente, sinto algo se aproximando. Não era um, mas dezenas. Não sabia se estava perto, ou nem mesmo o que eram na verdade! Só podia sentir, e ouvir os passos acelerados vindo em minha direção, cada vez mais perto...

— ÁÁÁUUUUUUU! — Ouço um uivo tão alto que tive que tapar os ouvidos.

Uma alcateia de lobos! Essa não! Corro novamente, o mais rápido que posso, sem olhar pra onde vou, mergulhando na escuridão. Sinto-os se aproximando. Os galhos em volta começam a me arranhar, o que me faz imaginar mãos vindas de todos os lados tentando me puxar. Aquela ideia só me faz ficar mais apavorada. Sem poder enxergar aonde piso, tropeço em alguma pedra e caio no chão, usando as mãos para não bater de cara.

Meu coração estava a mil. Os passos em corrida estavam ainda mais perto, talvez estejam neste exato lugar. Arrasto-me para um arbusto qualquer, e me escondo, abrindo um espaço para tentar enxergar. Imediatamente, vejo um dos lobos chegar à frente. Era enorme, e incrivelmente assustador, o que me fez deduzir que era o líder do grupo. Logo chega seus companheiros, tão rápido que não consigo acompanhar. Seu nariz estava tentando localizar alguma coisa, e seus dentes afiados a mostra, o que me deixou indefesa, desesperada. Eu estava completamente imóvel, na esperança de não ser encontrada. Estava claro que os lobos estavam procurando uma boa refeição, pois só de ver o olhar deles, podia se perceber que poderiam comer qualquer coisa. O nariz do líder estava se aproximando cada vez mais do arbusto onde eu estava.

Seguro o choro ao máximo. Derrepende, o lobo hesitou. Virou o rosto para dar maior dos espirros, que quase me fez pular. Ele virou a cabeça em direção aos companheiros que estavam logo atrás, e a apontou para frente em seguida. Os outros lobos, que ficaram raivosos. Logo, para minha surpresa, o líder saiu em disparada em direção norte, com o resto do bando fazendo o mesmo. Logo todos desaparecerem entre as árvores, floresta adentro. Instantaneamente, como a chorar baixinho, mas de alívio. Eu havia nascido de novo! Levanto-me ainda tremendo. A lua, que a pouco estava coberta pelas nuvens, emitia agora uma luz fraquinha, mas salvadora. Fico parada por um momento até me recuperar, agradecida pela sorte que tive. Penso em que teria feito o lobo se afastar tão derrepente... E o que significou aquele gesto? Talvez um “Ei galera, aqui é só erva fedorenta, vamos caça outro rango”. Um verdadeiro mistério, que até hoje não desvendei. Começo a andar lentamente na direção contrária da alcateia, continuando minha busca por um abrigo seguro, já que a opção de fazer um com magia estava totalmente descartada. Mais á frente ouço outro barulho vindo de trás de uma árvore. Mas não era de nenhuma alcateia, ou de algum animal feroz.

Era outro uivo, desta vez tão pequenininho e isolado... Levei um pequeno susto, mas logo vi que não tinha o que temer daquele som. Atrás de uma oliveira, estava um pequeno e indefeso filhote de lobo. Estava tremendo de frio, uivando sem parar tentando chamar a sua família, que o esquecera ou o abandonara. Logo aqueles grandes olhos castanhos do lobinho me encontraram, o que o fez ficar em silêncio, apenas me encarando. Ajoelhei-me perto dele, devagarzinho. Ele por sua vez correu com dificuldade para trás da árvore para se esconder. Eu olhei aquele lobinho, e vi a mim mesma. Tão pequeno, indefeso e perdido... Estendi a mão lentamente com delicadeza, para que o lobinho se aproximasse, e disse: “Não tenha medo amiguinho. Também estou perdida. Venha, eu posso te ajudar”. O lobinho se aproximou lentamente, um pouco desconfiado no início. Até que pulou em cima da minha mão e esfregou sua cabeçinha. Dou uma risadinha, impressionada como ele era pequeno e tão fofinho... Chego a sentir um calorzinho dentro de mim, e um afeto tão gostoso, que nunca havia sentido antes. Pego-o devagar e envolvo em meus braços para aquecê-lo. Ele logo se aconchega, fechando os olhinhos, não mais tremendo. Aquele gesto me faz sorrir, imensamente contente. Começo a fazer um leve carinho em sua cabeçinha. Lembro-me de dizer: “Isso amiguinho, não tenha medo. Eu vou cuidar de você.” Passamos naquela mesma oliveira, que por sorte era oca com um grande buraco vazio. Na manhã seguinte, encontrei o caminho de volta, graças ao Ollie, que tinha um olfato impecável, mesmo filhote.

Todas essas lembranças passam pela minha mente, me fazendo viajar ao passado. Olho para o lado e vejo Ollie, que está no mais gostoso dos cochilos, com a boca aberta e língua pra fora. Volto a observar o céu. As nuvens agora estão bem maiores, com certeza um bom tempo de passo desde que chegamos. Dou uma chacoalhada de leve na perna de Ollie, para despertá-lo. Nada. Dou outra agora um pouco mais forte.

— Ollie — chamo por ele — Acorde amigão!

De olhos fechados, ele dá um bocejo tão grande que seria capaz de engolir o mundo, e finalmente abre os olhos.

— Nããããããããããoooo! Por que me acordou? Tava tão bom! — reclama ele enquanto se espreguiça. Ele realmente detesta ser acordado de um sono profundo.

— Já está tarde, precisamos voltar logo — digo, ignorando a reclamação. Ollie começa a cheirar em volta, talvez detectando alguma coisa (não disse que o olfato dele era incrível?). Ele olha para cima.

— Tem feras? — pergunto.

— Não — diz ele, muito sério — Tempestade. E é das fortes.

Notas finais
Obrigada por lerem :) Por favor comentem certo? O que gostaram, o que desgostaram... O que vai acontecer nessa tempestade? Em breve capítulo 3, que a emoção começe *u*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.