Notas iniciais
Escrito por Hannah

Se eu preferia estar com a Safira e ter um jantar idiota com meus pais?

É claro que sim.

Mas, como eu disse para ela, não é muito que eu consigo realmente passar um tempo com meus pais.

A todo caso, lá estava eu, numa casa colonial esquisita, nos arredores de Londres, no jantar de algum cara importante, com homens de terno e mulheres de vestidos daquele tecido armado que elas acham bonito. Enfim, eu me sentia estranho e deslocado, porque todos os garotos da minha idade no jantar eram mauricinhos que provavelmente passaram todas as suas vidas sendo mimados pelos pais.

Foi um jantar bastante normal (eu não sabia qual talher usar, deixei o guardanapo na mesa, falei de boca aberta e quebrei todas as normas de etiqueta, como sempre) até a sobremesa. Foi quando eu vi a Sra Black vindo em minha direção. Fingi que queria ir ao banheiro e fui para um corredor vazio, onde ela se pôs à minha frente e disse:

- Safira – ela parecia fraca e ligeiramente debilmental, mas fora isso, era a mesma de sempre – Safira... Não me esquecer...

Ah, é. Tinha esse pequeno detalhe. Se alguém morto caía em esquecimento, ele desapareceria para sempre. Por exemplo, um cidadão qualquer da época medieval deve ter desaparecido há milhares de anos, porque não havia uma única pessoa para manter seu rosto na memória.

Isso não aconteceu com Abílio, Tyson e Thalia porque Abílio era algum lorde em seu tempo e há quadros dele em algum lugar por aí, e a morte dos irmãos foi muito lamentável e inesquecível e tal. Além de mim, é claro.

- Não se preocupe, Sra Black – eu disse a ela – Ninguém vai te esquecer. Eu prometo.

- Ele me esqueceu – ela murmurou. Acho que estava delirando – Ele... Ele me esqueceu...

Ela se virou e flutuou de volta até a saída. E lá estava eu, olhando para o nada, com uma cara desconfiada, quando meu pai chegou e me deu a maior bronca. Ele disse que ia terminar aquilo em casa e voltamos para o jantar. Comi aquele bolo esquisito que assaram na nossa frente (nem pergunte), os adultos tomaram vinho e as crianças, suco de uva, o maldito jantar acabou e fomos para casa. Finalmente.

Como prometido, quando chegamos em casa meu pai me levou até a sala e continuou a bronca. Blá-blá-blá, palavras, palavras, palavras. Eu não prestei muito atenção até ouvir uma palavra que estou bastante acostumado a ouvir. Louco.

Me levanto. Olho meu pai atentamente, procurando remorso ou qualquer coisa assim. Mas nada. Ele me chamou de louco e não se corrigiu. E olhava para mim, desapontado, como se fosse minha culpa ser diferente – para não dizer esquisito.

Não digo uma palavra. Só corro até o meu quarto, segurando as lágrimas. Tranco a porta, embora isso não seja permitido na nossa casa. Mas que se dane.

Deito de barriga para cima na cama. Tyson, Thalia e Abílio aparecem ao meu lado. Tyson não fala nada estúpido. Thalia não me olha feio. Abílio não grita coisas inúteis. Só se sentam no chão ao meu lado e me observam, enquanto as lágrimas escorrem lentamente pelo meu rosto.

- Ei, Harris! — ouço Safira gritando atrás de mim. Me viro para ela.

- O que você quer? — digo. Rude, eu? Que nada.

Ela para, defensiva.

- Só quero conversar com você – ela diz. Volto a andar pelo corredor da escola. Ela me segue.

- Fale, então – quero que ela vá embora. Quero que todos vão embora.

- Então, hoje vamos na casa, certo? — Safira pergunta. Porque ela não vai embora?

- Hum – murmuro. Ela me olha meio preocupada

- Isso é um sim ou um não?

- É um talvez.

- Eu não aceito um talvez como resposta!

- Então pode ser um não?

- Pare de brincadeira, Harris – ela está quase gritando. Confesso que gosto quando ela perde a paciência.

Kane Carter surge do meio do nada. Ele nos acompanha pelos corredores.

- Não desconte nela – Kane diz. Leitor de mentes estúpido.

Safira me olha desconfiada.

- Descontar em mim o quê?

- Não estou descontando nela – digo a Kane, ignorando Safira – Só não quero ninguém me importunando agora.

Melanie Monroe também vem de Deus sabe onde.

- Oi Kane, Safira, Daniel – ela cumprimenta todos nós – Qual o problema? — ela me pergutna ao ver minha cara de raiva.

- O problema é que eu não quero ninguém me incomodando agora! — eu quase grito.

- Ah, agora eu sou um incômodo, é isso? — Safira pergunta, seu rosto pálido ficando vermelho.

Sinto toda a raiva e adrenalina se espalhando pelo meu corpo. Sinto Thalia, Tyson e Abílio, escondidos, ouvindo tudo. Forço eles a levarem Safira, Kane e Melanie para longe de mim. Eles lutam, mas consigo controlá-los. De repente, Kane, Melanie e Safira são puxados para longe, por uma força que só eu posso ver.

Corro para fora da escola, fraco, cansado pelo esforço em controlar os fantasmas. Sinto a própria Morte me seguindo. No parque em frente à escola, me deito na grama, respiro o ar puro. Ouço as criancinhas brincando e os fantasmas ali passeando. Vejo suas histórias. Uma garota de três anos caiu do trepa-trepa e bateu a cabeça. Um menino de sete cortou no balanço enferrujado. E há as mais sinistras.

Sinto que estou ficando inconsiente. A última coisa que vejo antes de desmaiar de exaustão é o céu, bonito, azul e límpido, diferentemente de mim.

Notas finais
Sim, eu sou meio dark...
Espero que gostem!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.