A Flor Do Deserto
1 Doce ilusão
Notas iniciais
Japão, Século VI. Império de Sunagakure no Sato.
Sua lágrima é apenas mais uma entre tantas,
todas ignoradas.
Transbordando o rio do desapontamento.
Não grite, nem chore mais...
Ou então verá seu corpo desfalecer em meio
ao véu impenetrável do poder
que açoita, assusta e mata.
(Mary Ayumi)
O quarto absolutamente escuro e assustador mantinha-se como tantos outros dias de portas trancadas. Somente Baki ou uma das empregadas entrava lá, para levar-lhe alimento, receber ordens, e informar-lhe sobre as vitórias que conseguiram com os ataques de seus exércitos contra outras aldeias mais fracas. O Kazekage estava extremamente anti-social aquele mês. Aquilo deixava Temari muitíssimo preocupada. Ela torcia os dedos e crispava nervosamente os lábios enquanto esperava impacientemente Baki-sensei sair do dormitório de Gaara. Ela já havia tentado aproximar o ouvido da porta de mogno, mas não ouvia nada de lá, a não ser, pequenos murmúrios que ela não conseguia definir o que significavam. Temari levantou o braço, e quando estava preparada para bater na porta, Baki saiu de lá com uma expressão indefinível.
– Baki-sensei! Como está Gaara? – A loira perguntou eufórica e preocupada, os olhos verdes como esmeraldinos encarando o Junnin, enquanto o seguia pelo longo corredor da mansão. As sandálias de Temari chocando-se com o chão de mármore, e fazendo um eco se espalhar entre as paredes de pedra adornadas por tochas de bronze, e assombrosas gárgulas de pedra postadas a frente das pilastras que ficavam em toda a extensão do corredor.
– Ainda neurótico. Continua com seu plano de invadir Konoha. Eu até disse a ele que perdemos soldados no ataque contra o País da Água, mais ele está decidido que vamos ganhar mesmo com poucos homens. – O velho bufou, e o pano no lado direito de sua face balançou-se mostrando o lado de seu rosto que sempre ficava coberto.
Temari passou a mão pelos fios loiros, e fechou os olhos abrindo-os depois vagarosamente. – Ele ainda acha que Konoha teve culpa pelo que aconteceu com ele. Não consigo fazê-lo desistir dessa idéia.
Baki suspirou e limitou-se a dizer apenas – Sim, de fato Gaara-sama é muito teimoso.
Temari então parou de repente sua caminhada e encarou o sensei que olhava para o chão cabisbaixo. – Baki. – ela murmurou franzindo a testa. – Está me escondendo algo não está?
– Claro que não, senhorita Sabaku. – ele respondeu com a voz oscilada. – Que motivo teria para fazê-lo?
– Não seja bobo, Baki. – Exclamou Temari postando-se ameaçadoramente na frente dele. – Você sabe muito bem que haveriam diversos motivos. Mas, entre todos, o que mais me parece verdadeiro nesse momento é simplesmente que Gaara lhe proibiste de dizer-me. – o homem simplesmente ficou em silêncio e ela insatisfeita continuou. – Estou certa, Baki? Estou certa?
– Sim, Temari-sama. – Baki disse enquanto olhava em volta impaciente. Queria se livrar logo dela, e começar a realizar as ordens de seu Kage. – Agora, se me der licença...
– Baki! Isso é errado. Eu sou uma Sabaku. Porque não tenho o direito de saber o que se passa em meu próprio reino? – gritou a mulher de cabelos cor de ouro com os olhos esmeraldinos faiscando de raiva. Ela sempre soube que o irmão mais novo tomaria o poder, mais ela ainda pensava que mesmo assim, teria no mínimo, o direito de saber quais eram os planos de Suna. Ela sempre estremecia com o fato de Suna invadir Konoha, querendo ou não ela tinha pessoas queridas lá. Não queria ver a aldeia ser destruída assim. Ia se sentir extremamente mal em morar na aldeia causadora da morte de milhares de inocentes.
– Eu estou apenas seguindo ordens, senhorita Sabaku. Estou de mãos atadas em relação a esse assunto. – explicara o velho. – Agora sim. Com licença. – Sem esperar pela resposta da loira, caminhou apressadamente pelo corredor indo direto para uma das salas onde estaria Ebizou. Precisava urgentemente conversar com ele sobre as ordens de ataque de Gaara contra o País da Água. Ele não sabia ao certo o que aconteceria, mais sem dúvida seria sangrento.
**********
Uma garota franzina, de cabelos castanhos e olhos da mesma cor andava pelas ruas do vilarejo com uma sacola de compras na mão, ela recebera ordens de Chiyo para comprar algumas ervas para seu tradicional e rotineiro chá da tarde. Algumas pessoas a olhavam torto, afinal, não é todo dia que se vê uma das empregadas do Kazekage de Suna andando normalmente pelas ruas do vilarejo.
Passou por uma pequena joalheria e deu-se permissão para aproximar e admirar por alguns minutos as belas e extremamente caras jóias por detrás do vidro. Colares, anéis, pulseiras, braceletes e relógios, todos do mais fino material, e do mais brilhante diamante. Começou a imaginar-se usando uma daquelas jóias, sendo beijada apaixonadamente pelo kazekage de Suna, e tendo depois de seu nome, o temido e respeitado sobrenome dos Sabaku. Ela sabia que aquilo era uma total perda de tempo, somente em seus secretos sonhos na silenciosa madrugada, Gaara podia possuí-la e dizer que a amava. Somente em seus sonhos, ou em seus mais loucos devaneios ele fazia isso, de fato.
– Não quer entrar e ver as nossas novas pulseiras de ouro branco, senhorita? – convidou gentilmente a vendedora que sorria para ela tentando convencê-la a entrar, apesar de ter quase certeza de que a humilde moça não tinha mais nada a não ser as vestes vinho puídas, e as ervas que carregava; mesmo assim, tinha que fazer seu trabalho.
– Não, hoje não. – sussurrou sorrindo timidamente. Virou-se e continuou caminhando, desviando das pessoas que caminhavam pela rua, na direção contrária a sua. Repentinamente foi impedida de continuar seu trajeto, porque havia um grande número de pessoas amontoadas no caminho. Ela espremeu-se no meio delas, repetindo “Com licença” muitas vezes. Apertou as ervas em seus braços enquanto passava pela avalanche de pessoas que pareciam eufóricos – e muito revoltados – com algo que acontecia mais a frente.
Depois de finalmente chegar a fonte do alvoroço, percebeu que o motivo daquilo tudo era apenas um homem que pedia silêncio para dizer algo, que, pela sua expressão, era extremamente importante. Ela logo o reconheceu. Ora, quem não reconheceria Baki? Os olhos castanhos dela acompanhavam a movimentação do homem que balançava as mãos tentando acalmar a multidão que protestava.
– Silêncio! – Gritou ele sem paciência, a voz grossa sobrepondo todas as outras que no mesmo instante se calaram, e no lugar, sobrou apenas um silêncio funesto. – Finalmente... – arfou Baki, largando os braços ao lado do corpo. Deu uma rápida olhada nos rostos ansiosos da multidão, tirou um pergaminho do bolso, abriu-o e começou a lê-lo. – O Kazekage de Suna, Sabaku no Gaara convoca a todos os homens de dezoito à trinta anos para que compareçam ao castelo amanhã de manhã para listagem e inscrição. Todos os homens, sem exceção de nenhum, terão a honra de lutarem no exército de Suna contra as aldeias vizinhas. – fechou o pergaminho e por fim disse. – E antes que perguntem, é obrigatório. Não me venham com desculpas. Todos que se negarem, ou se mostrarem alheios ao que foi pedido serão condenados segundo as leis impostas pelo Kazekage. E como devem imaginar, será algo inesquecível. – e com um sorriso sádico deu as costas e seguiu pelo caminho para o castelo, ignorando a confusão e as reclamações das pessoas que ouviram seu breve aviso.
Matsuri ainda estava chocada, não soubera nada sobre os planos do Kazekage. Ela odiava a capacidade dele de esconder as coisas... bom, não apenas ele, mas Baki e Temari também. Eram a descrição em pessoa. Mesmo de vez em quando “acidentalmente” ouvia algo por detrás da porta, não era exatamente o que ela queria ouvir.
– Baki! Espere-me! – ela o chamou desvencilhando-se das pessoas em seu caminho para correr atrás do velho. Correu e finalmente o alcançou andando ao lado dele com a respiração ofegante. – Isso é mesmo sério? Bom, você sabe. Nem todos estarão fisicamente e psicologicamente preparados para lutar na guerra. É muito arriscado... Eles podem morrer! – ela dizia rápido, irritada pela atitude de Baki. Ele nem olhava para ela, estava indiferente fitando o caminho a sua frente. Ele não estava ligando para nada que saía da boca dela. Nada que ela dizia era relevante para que ele resolvesse prestar atenção.
– Eu sei Matsuri. Guerras são assim. Sem mortos, nem sangue não pode ser chamada de guerra e sim de chá das cinco. – sussurrou o homem caminhando apressado com seu olhar focado em frente.
Ela arregalou os olhos, apressando um pouco o passo para alcançá-lo. – Mas, porque tudo isso? Os habitantes de Suna não são ninjas, não tem técnicas tão boas quanto o exército, porque envolverem eles nisso?
– Não temos homens o suficiente no exército. Muitos morreram nas outras batalhas. Eles não são bons, mas, não temos escolha. O Kazekage ordenou e não sou eu nem muito menos você que vamos discordar. – murmurou Baki finalmente a encarando. Uma expressão nervosa e superior fixando-se em sua face. Ela ficou em silêncio, fitando os próprios pés, ele tinha razão, de nada adiantaria discordar.
******
Baki entrou no quarto do Kazekage apressado. A respiração ofegante enquanto fechava novamente a porta e fazia uma reverência rápida. Sorriu vitorioso e exclamou:
– Suas ordens foram cumpridas, majestade. Todos já foram avisados e estarão aqui no palácio pela manhã para...
– Desde quando dou-lhe o direito de invadir meu quarto, assim? – Interrompeu Gaara encarando-o indiferente. Os cabelos ruivos lisos, vermelhos como sangue, caindo sobre a face, luminosos e compridos vão descendo ao longo das maças do rosto. A face incrivelmente pálida, e as bochechas adquirindo um suave tom rosado. Ele ergue os olhos, duas esferas do mais belo verde. Um verde-água tão incrível e raro que faria qualquer mulher desmaiar. Emoldurados em cílios longos, e acima deles a sobrancelha clara que ficava quase totalmente imperceptível em contraste a sua pele. Ah, e os lábios! Tão bem desenhados, cada traço incrivelmente perfeito, encaixando-se ao formato quadrado do maxilar. O corpo alto, magro, e firme extremamente imponente sentado na poltrona ao lado de sua cama. Vestido de preto de cima a baixo era a criatura dona da beleza mais extraordinária de todas. E para completar o kanji vermelho no lado direito da testa, que por ironia, significava algo que ele nem sabia o que era. Amor.
O velho sensei envergonhado baixou a cabeça. – Moushiwake arimasen*, Kazekage.
Gaara meneou de leve a cabeça e com um movimento de mãos ordenou para que Baki continuasse a falar. – Eles protestaram?
– Claro, mas saí antes que os conflitos maiores começaram. – murmurou aproximando-se do Sabaku. – Já sabe quem será o estrategista da missão?
Vagarosamente levantou a face. E ficou em silêncio por alguns segundos, depois lentamente sussurrou. – Não. Mais vou encontrar... Quero destruir Konoha o mais rápido possível, preciso de alguém que tenha mesmo capacidade para encarar algo assim. Não aceitarei falhas. Prefiro morrer do que ver Konoha ganhar.
Baki engoliu em seco, para logo após indagar. – Por acaso já ouviu falar de Nara Shikamaru?
Gaara piscou algumas vezes recordando-se de ouvir esse sobrenome em algum lugar. Não lhe era estranho. – Porque?
– Bom, – começou o velho, desviando o olhar momentaneamente do dele, para logo voltar e encará-lo com mais firmeza. – Tenho ouvido esse nome com bastante freqüência pelo palácio ultimamente, imperador. Principalmente pronunciado por Temari-sama. Pelo que tenho ouvido ele é um estrategista bastante famoso de Konoha, muito hábil pelo que dizem.
– E porque acha relevante que eu saiba disso? – perguntou ajeitando-se na poltrona. As sobrancelhas claras franzidas.
Baki soltou um risinho pelo nariz. – Ele seria de grande utilidade para nós, não acha Gaara-Sama?
*******
Era um bosque. O céu estava com um belo tom de azul, mas não era o azul normal. Era uma cor diferente. Uma daquelas cores que resultam da mistura de muitas outras. Azul claro, com pequenos pontos alaranjados e borrifados de nuvens. As árvores de copas altas e largas balançavam de um lado a outro, numa sutil dança com o vento.
Ino Yamanaka caminhava. Seus pés descalços tocando a grama verde úmida de orvalho. Era uma sensação tão agradável que a fazia sorrir. Observou as flores. Tudo era tão bonito. Hortênsias, violetas, rosas e lírios. Ela tocava as suaves pétalas e sentia o suave aroma de todas as flores que a rodeavam.
Tudo estava perfeito... até aquele momento. Um grito. Um júbilo de terror que inundou seus ouvidos, obrigando-a a tampá-los. Uma ventania que fustigava sua pele. Tudo tornou-se escuro. O céu enevoou-se e o brilho do sol não era mais visto. Frio... era tudo. Parecia que seus ossos iriam congelar. O grito ainda incomodando seus ouvidos.
Implorou para que parasse. Uma. Duas. Três. Quatro vezes. E finalmente cessou. Fracos, seus joelhos cederam, e chocaram-se com a grama. Sua própria respiração era o único som que ouvia.
Olhou em volta assustada. Passos. Cada vez mais altos, em sua direção. Passos rápidos e pesados. Mais um grito, esse mais baixo. Queria correr, queria mesmo, mas suas pernas fracas não a obedeciam. Seu coração falhando algumas batidas.
As vozes. Ah, sim, as vozes! Sempre as mesmas vozes que ecoavam em seus ouvidos. “Salve-o” – elas diziam. “Ele precisa de você.” – Quem? Ino se perguntava. Como poderia fazê-lo se não soubesse a quem salvar. Respirou fundo, um tremor subindo-lhe pela espinha.
O presságio de algo funesto. Sempre era assim, mesmo depois de ver esta cena várias e várias vezes, não se acostumava. O medo a invadia. O coração acelerava, trotando no peito.
O bater de asas. O corvo preto voando a sua volta, chamando sua atenção. Prendeu a respiração, os olhos, dois pontos negros de escuridão. Não percebeu o homem se aproximar. Cabelos vermelhos como o sangue. Vestes pretas.
As feições rudes e superiores. A beleza acentuada nos mais mínimos detalhes. Os olhos verdes dele encarando profundamente os dela. Ino não conseguia se mover. Os olhos dele eram de um verde tão profundo, inocente e instigador que a hipnotizavam.
– Quem é você? – A voz dela saiu tremida. Como se não a usasse fazia muito tempo. A pele castigada pelo vento gélido.
Ele não se deu ao trabalho de responder. Ela também não esperava que ele o fizesse. Ele empertigou-se numa postura ereta e estendeu o braço. Noventa graus. Ino observou o corvo que voava à sua volta, ir na direção do homem e pousar em seu braço. Os olhos do pássaro, a encarando ameaçadoramente. Duas pequenas bolinhas de gude negras.
– Logo você vai descobrir. – Murmurou ele baixinho, caminhando na direção dela. O sorriso ameaçador nascendo nos lábios macios. O corvo emitiu um som, e transformou-se em um manto negro que envolveu Ino a sufocando. A respiração ficando cada vez mais difícil até enfim, parar de uma vez.
– Não! – gritou com um sobressalto. Sentou-se ofegante na cama, com o coração ainda acelerado. Suas mãos tremiam, e o suor frio molhava sua face alva. Os fios de cabelo loiro grudando na testa.
Ino respirou fundo. Demorando-se a perceber que estava em seu quarto, envolvida em meio aos lençóis e a manta de tricô xadrez, presente de sua avó. Levou a mão direita ao peito em uma tentativa inútil de acalmar o coração. Falha.
“Foi apenas um pesadelo”. – afirmava a si mesma, várias vezes para que aquele bolo de angústia em sua garganta sumisse. “Apenas um pesadelo. Aquele homem não existe.”
Ora, mais que Doce ilusão...
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