A Filha do meu chefe

11 ​Capítulo 13: A Força da Sombra


O retorno do Japão marcou o início de uma nova era na Vanhansen & Lucas Group. O luto de Lucas não desapareceu, mas transformou-se em uma força silenciosa e focada. Ao seu lado, Beatriz tornou-se a extensão de sua vontade, antecipando seus passos com uma precisão quase telepática.


​Um ano havia se passado desde o acidente. O dia amanheceu com a imprensa cercando a sede da empresa. Lucas havia decidido transformar a dor em legado, criando a Fundação Isadora Cavalcanti, voltada para o apoio jurídico e financeiro a famílias vítimas de tragédias aéreas e suporte a órfãos.

​No saguão lotado de jornalistas e flashes, Lucas sentiu um breve momento de tontura. O peso da data era esmagador. Foi quando sentiu um toque firme em seu cotovelo. Beatriz estava lá, impecável em um terno cinza chumbo, os olhos atentos a cada movimento da multidão.

​— Respire, Lucas — ela sussurrou, tão baixo que apenas ele ouviu. — Eu cuido das perguntas difíceis. Você só precisa apertar o botão do projeto.

​Eles caminharam juntos até o palco. Pela primeira vez, a elite financeira e a mídia não viam mais o "ex-funcionário" e a "herdeira rebelde". Viam uma unidade. Lucas falava com uma gravidade que impunha respeito, enquanto Beatriz manejava os investidores e a imprensa com uma habilidade diplomática feroz. Ela era o escudo; ele, a espada. Juntos, eram imbatíveis.

​O Silêncio no Escritório

​Após o evento, o prédio ficou vazio. Apenas as luzes da diretoria permaneciam acesas. Lucas estava em sua mesa, observando a foto de Isadora que agora dividia espaço com os novos planos de expansão da empresa.

​Beatriz entrou com duas xícaras de café. Ela não pediu licença; já não precisava mais. Colocou a xícara na mesa dele e sentou-se na poltrona à frente.

​— O fundo de reserva da fundação já recebeu os primeiros dez milhões — ela disse, mantendo o tom profissional. — Isadora ficaria orgulhosa do que você construiu hoje.

​Lucas levantou os olhos. O olhar de Beatriz não tinha mais a malícia de três anos atrás, nem a frieza de seis meses atrás. Havia uma compreensão profunda.

​— Eu não teria conseguido passar por hoje sem você, Beatriz — Lucas admitiu. Foi uma frase simples, mas no mundo de gelo que eles habitavam, valia por uma confissão.

​Sentimentos nas Entrelinhas

​O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi preenchido por algo que nenhum dos dois ousava nomear.

​Dentro de Lucas, a admiração pela nova mulher que Beatriz se tornara começava a abrir frestas em sua armadura. Ele via a dedicação dela, a forma como ela protegia o nome dele nas reuniões e como ela respeitava o espaço do seu luto. Era um sentimento que ele não queria sentir, mas que florescia involuntariamente no solo árido de sua rotina.

​Dentro de Beatriz, o sentimento era ainda mais complexo. Ela o amava — talvez sempre tivesse amado, daquela forma torta e destrutiva do passado que agora amadurecera para um companheirismo absoluto. Ela olhava para as mãos de Lucas sobre os relatórios e sentia um impulso de tocá-las, mas se continha. Ela sabia que uma declaração destruiria o equilíbrio frágil que haviam alcançado. O respeito era o único território seguro.

​— Temos a reunião com os alemães amanhã às cinco — ela disse, levantando-se. — Você deveria descansar.

​— Você também — ele respondeu.

​Beatriz parou na porta e olhou para trás por um segundo. A luz do abajur iluminava apenas metade do rosto de Lucas. O desejo de dizer algo mais, de pedir que ele não ficasse sozinho naquela noite de aniversário de morte, queimou em sua garganta. Mas ela apenas acenou com a cabeça e saiu.

​Lucas ficou sozinho, sentindo o calor do café que ela trouxera. Ele percebeu que, embora nunca falassem sobre isso, a vida deles havia se fundido de uma forma que nenhum contrato poderia explicar. Eles eram uma dupla imbatível para o mundo, mas, entre quatro paredes, eram duas almas guardando um segredo que não precisava de palavras para existir.

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