POR ELA

– Senhorita Lockwood? – Ouvi o barulho na minha porta, junto com uma voz que não era a de Dylan. – Senhorita Lockwood? O seu café está pronto.

– Tudo bem. Já vou. – Murmurei, as palavras saindo meio emboladas por causa do sono. A voz, de quem quer que fosse, não se manifestou mais, e eu abri os olhos lentamente, observando o relógio na cabeceira da minha cama. Eram 11h: 05mn. Depois do que Dylan me disse no passeio, sobre faculdades, uma pontinha de curiosidade surgiu na minha cabeça, e, quando estava me preparando pra dormir, peguei meu notebook rapidamente para dar olhada em algumas universidades do estado. Essa “rápida olhada” durou cerca de cinco horas, e serviu apenas para me dar olheiras e um pensamento que não parava de me perturbar. Eu tinha que tentar. Meu pai não iria viver pra sempre e eu não podia ficar dependendo dos outros pra sempre. Mas... Como? Como eu iria enfrentar Adam Joseph Lockwood e ainda por cima sair vitoriosa?

Bufando, joguei a coberta de lado e levantei, indo pro banheiro. Lá, uma olhada rápida no espelho me fez contatar que a situação estava pior do que eu pensava. Olheiras roxas se encontravam embaixo dos meus olhos verdes, meu cabelo parecia um ninho de rato, minha pele estava pálida e uma pequena ruguinha de expressão havia aparecido na minha testa, por causa da preocupação recém-adquirida. É, eu precisava de um SPA urgentemente.

Tomei um banho rápido e escolhi uma roupa casual pra vestir, apenas uma saia jeans e uma regata. Calcei os meus chinelos e já me preparava para deixar o quarto quando algo me chamou atenção. Encima do criado mudo, perto do meu abajur, um envelope branco reluzia a luz da janela meia aberta. Questionando-me sobre como não havia reparado naquilo antes, me aproximei e peguei o envelope nas mãos, lendo o “Para Amellie” escrito em letras garrafais. Curiosa, abri sem mais delongas, me arrependendo em seguida. Com as mesmas letras garrafais, a folha A4 continha apenas uma frase, suficiente pra fazer meu coração parar:

Nem tudo é o que parece ser, querida, lembre-se disso.

Com amor, Mamãe.

POR ELE

– O garoto não fala, Parkes, nada. Já tentamos provocação, pressão psicológica, chantagem e até um psicólogo, mas ele continua impassível. – Brian, um companheiro do Serviço Secreto, esbravejou no telefone, me fazendo dar um soco no sofá. Desde que capturamos o homem do parque, ele não havia dito uma letra. Nada. Passei a noite toda perguntando-lhe sobre seu nome, sobre o que ele fazia no parque, se ele tinha algo a ver com o terrorismo, até tinha usado um pouco de força física, mas o muleque não tirava o sorrisinho do rosto. Às cinco da manhã, quando Brian chegou pro seu turno e me viu exausto e sem respostas, rapidamente me mandou pra casa descansar, garantindo que seus seguranças não deixariam Amy sair de casa hoje, mas é óbvio que relaxar foi a última coisa que eu fiz.

– Uma hora ele vai ter que falar, Simpson, nem que pra isso a gente tenha que usar o método. – Abaixei o tom na última parte, afinal minha advogada de direitos humanos se encontrava na cozinha. O método significava a parte “negra” do Serviço Secreto, mas que todos sabiam que existia. Tortura. No sentido mais simples da palavra.

– Não sei se gosto da ideia. – Brian respondeu, depois de alguns segundos em silêncio. Eu revirei os olhos.

– Também não gosto da ideia de deixar um suspeito ir embora sem arrancar uma palavra dele. – Retruquei, e vi Mel lançar-me um olhar curioso da cozinha. – Brian, faça o que você achar melhor. Só... – Parei, suspirando. – Só não deixe ele ir sem descobrir nada.

– Afirmativo, Parkes. – Concordou e eu desliguei o celular. Melanie continuava mexendo nas panelas, enquanto cantarolava baixinho, mas eu sabia que ela queria saber o que era.

– Então... – Ela começou como quem não quer nada. Eu ri fraco, levantando do sofá e me aproximando dela. – Era do seu serviço?

– Sim. – Respondi a abraçando por trás e encaixando meu queixo na curva do seu pescoço. – Ontem pegamos um suspeito de ser terrorista no parque, mas acontece que o cara não fala nada. Nem um “a”.

– Isso é péssimo. – Comentou, se virando pra mim. Eu assenti. – O que você estava fazendo no parque ontem?

– O Presidente havia me pedido pra levar Amellie pra passear um pouco. – Expliquei e ela rolou os olhos azuis.

– Quer dizer que de um segurança importantíssimo você foi pra babá da filha mimada do Presidente? Eu não entendo o Serviço Secreto.

– Missão é missão. – Franzi o cenho, um pouco ofendido pelo o que ela havia falado. Mel percebeu isso e deu um sorriso fraco.

– Quer dizer, amor, não que... – Ela começou a falar, porém o toque do meu celular a interrompeu. Supondo que você Brian novamente, separei-me dela e atendi o telefone.

– Sim?

– Seu filho de uma puta! – Uma voz feminina berrou do outro lado da linha, e eu afastei o celular, assustado. Melanie olhou confusa pra mim, uma pergunta muda de “quem é”. Lançando um olhar rápido no visor, li o nome de Amellie.

– Amellie? O que aconteceu? – Perguntei e ela deu um grunhido. Não sei o que eu havia feito dessa vez, mas a filha do Presidente parecia furiosa.

– Você ainda tem a cara de pau de me perguntar o que aconteceu, Parkes? – Voltou a gritar, fazendo eu afastar o telefone mais uma vez. – O que aconteceu foi que eu abri meu coração pra você, te contei coisas que eu nunca contei pra ninguém e você fez piada com isso!

– Amy, olha, deve estar havendo algum engano. Eu não faço ideia do que você está falando. – Declarei, ouvindo Amy rir ironicamente.

– Eu to falando da carta, seu idiota! Dessa maldita carta que eu encontrei no meu quarto, endereçada pela “minha mãe”. Estaria tudo bem, claro, se a minha mãe não estivesse só ossos a uns sete palmos debaixo da terra! – Deu ênfase na última parte e eu arregalei os olhos. Como diabos alguém colocaria uma carta daquelas no quarto de Amellie se só eu tinha a chave e eu mal cheguei perto do quarto dela nas últimas doze horas?

– Ok, Amellie, me escuta. Eu não coloquei carta nenhuma no seu quarto. Eu nem estou na Casa Branca agora e posso te provar isso. – Garanti.

– Mas se não foi você, quem foi? – Ela questionou, falando pela primeira vez até agora em tom normal.

– Eu não sei, mas nós vamos descobrir. Não conte sobre essa carta pra mais ninguém e espere no seu quarto, eu estou chegando. – Disse e desliguei, lançando um olhar meio culpado pra Melanie.

– Sem almoço? – Minha noiva arqueou as sobrancelhas e eu assenti, sem graça. Ela suspirou e então deu de ombros. – Tudo bem, o dever chama. Vai lá.

– Eu sabia que você ia entender. – Sorri colocando o paletó de qualquer jeito, me aproximando dela e lhe dando um beijo rápido. – Te amo.

– É, eu sei. – A ouvi resmungar antes de fechar a porta de casa.

POR ELA

– Eu já falei, Dylan, eu acordei e essa carta estava encima do criado mudo. – Repeti pela décima vez, enquanto Parkes revirava o papel na mão, parecendo confuso.

– É que eu não entendo. Não tinha como ninguém entrar aqui sem ser visto. Esse corredor tem dezenas de seguranças. – Comentou e eu dei de ombros, sentando na minha cama.

– Eu ainda acho que foi uma brincadeirinha sua, né, mas...

– Antes fosse, Amellie! – Ele me interrompeu, irritado. – Porque se fosse eu, nós teríamos certeza que é realmente só uma brincadeira. Mas quando não sabemos quem foi...É impossível ter certeza.

– Por quê? Você acha que seja lá quem deixou isso aqui queria algo mais do que simplesmente zoar com a minha cara?

– Talvez. – O loiro respondeu. – Essa frase, “nem tudo é o que parece ser, lembre-se disso” parece ter algum significado, entende? É como se a pessoa que deixou isso aqui estivesse te dando uma dica.

– Dica? Mas dica sobre o que? – Franzi o cenho, confusa. Por que diabos alguém iria querer me dar uma ‘dica’? Ainda mais assinando como a minha mãe? Simplesmente não faz sentido.

– Eu não sei, inferno! – Ele exclamou, passando as mãos no cabelo, parecendo nervoso. – Mas eu vou descobrir. Eu vou questionar cada segurança desse lugar, e vou olhar todas as câmeras da Casa Branca. Seja lá quem deixou essa carta, eu vou descobrir e então ela vai ter que me explicar pessoalmente que diabos significa isso. E eu vou fazer isso agora.

– Hm... Dylan? – Chamei quando ele já se aproximava da porta. – Não conte isso pro meu pai, ok? Caso ele saiba dessa carta, tenho certeza que ele vai colocar toda a polícia dos Estados Unidos nisso e...Bom, eu queria resolver as coisas do meu jeito.

– Tudo bem, Amellie. Como você quiser. – Sorriu pra mim e eu sorri de volta. Depois de alguns segundos assim, Dylan pareceu ter acordado de um transe. – Então...Então eu vou indo. – Apontou pra porta e eu assenti. – Depois nós nos falamos.

– Tudo bem. – Assenti mais uma vez ele saiu do quarto, me deixando a sós com meus pensamentos embaralhados.

POR ELE

Eu nunca, em toda a minha vida profissional, tinha me decepcionado tanto com o Serviço Secreto. Eu simplesmente não conseguia acreditar no que os meus olhos estavam vendo. Entre as 5h:20mn e 5h:50mn da manhã, todas as câmeras que ligavam ao quarto de Amellie tinham parado de funcionar. Juntas. Por meia hora, tempo suficiente para alguém invadir o quarto da filha do Presidente e fazer o que quiser lá. E ninguém, repito, ninguém tinha notado a falha. Apenas quando eu pedi para que as gravações das câmeras dessa madrugada fossem inspecionadas, a central de segurança percebeu o apagão de meia hora. Porém as câmeras do lado de fora da Casa Branca funcionaram a noite toda e não perceberam nenhum invasor. De algum jeito, alguém desligou as câmeras de segurança, caminhou tranquilamente por entre os corredores, passou pelos seguranças que deveriam ficar a noite toda na porta do quarto de Amellie, entrou no mesmo, colocou aquela maldita carta lá, foi embora e ligou as câmeras novamente, sem ser parado, sem ser questionado, sem ser notado. Ou era a maior falha do Serviço Secreto americano dos últimos cinco anos, ou quem quer que tivesse feito aquilo era daqui de dentro. Só podia ser.

– Quero que procurem por todos os seguranças que estiveram de plantão essa noite entre cinco horas e cinco e meia da manhã. Os funcionários responsáveis pelas câmeras também. Interrogaremos um por um, até entendermos o motivo desse apagão e o que exatamente ocorreu entre ele. Enquanto isso, ninguém sai. – Declarei pro diretor e vice-diretor da central de segurança, que acenaram e rapidamente saíram da sala, em busca dos funcionários que fizeram plantão essa noite. Eles sabiam o tamanho da merda que haviam cometido, e fariam qualquer coisa que eu pedisse, tentando aliviar suas culpas para quando esse apagão chegasse a diretoria geral do Serviço Secreto. E com certeza chegaria. Um erro desse tamanho não pode ser admitido no nosso meio. Pelo amor de Deus, um Serviço que não consegue nem reparar num apagão de trinta minutos nunca conseguirá proteger a Casa Branca.

– Parkes. – Ouvi alguém me chamar e me virei, vendo Brian vir em minha direção, apressado. – O suspeito resolveu falar. – Sussurou quando parou na minha frente, me fazendo arregalar os olhos.

– E o que ele disse? – Questionei, no mesmo tom.

– Nada ainda. – Respondeu e eu arquei as sobrancelhas. – Ele só aceitou falar se você estivesse lá.

– Então vamos logo, eu quero acabar com isso de uma vez. – Suspirei e Simpson assentiu. O caminho até a sala de interrogatório foi silencioso, Brian não perguntou sobre o que eu estava fazendo na central de segurança e eu também não o contei sobre a falha. Não há necessidade de alarde, por enquanto.

Ao chegar na sala, o suspeito continuava no mesmo lugar da última vez que eu o vi, sentado na cadeira de cabeça baixa, os braços apoiados na mesa de aço e as mãos algemadas. Impedindo Brian de me seguir, fechei a porta com um baque, fazendo o homem levantar a cabeça pra me olhar.

– Vejo que obedeceram o meu pedido. – Comentou sorrindo debochado e eu respondi com o mesmo sorriso.

– Você disse que só falaria comigo, então eu estou aqui. – Disse, sentando-me a sua frente. – Agora fale: quem é você?

– Christopher Layne, vinte seis anos, americano e um simples vendedor de algodão doce. – Respondeu, ainda debochando. – Sabe, Parkes, acho que vocês pegaram o cara errado.

– Se tivéssemos pego o cara errado você não teria feito lei de silêncio até agora. – Retruquei e ele riu fraco. – O que você estava fazendo no parque?

– Já disse que sou vendedor de algodão doce. – Suspirou e eu neguei com a cabeça.

– Não vi você com nada.

– Eu estava descansando.

– Diga logo o que você é, Christopher. Se você for bonzinho, talvez consiga uma perpétua. – Dei de ombros e ele aumentou o sorriso.

– Nem tudo é o que parece ser, agente, lembre-se disso. – O silêncio reinou na sala. Eu tentando ligar o homem a minha frente com a carta que Amy encontrou em seu quarto, e Christopher me olhando divertido, parecendo achar graça da minha surpresa. De repente, eu explodi.

– Como você conseguiu sair daqui? Como conseguiu entrar no quarto de Amellie? Que diabos aquela carta significa? – Gritei em sua cara, fazendo o idiota rir ainda mais.

– Nem tudo é o que parece ser, lembre-se disso; nem tudo é o que parece ser, lembre-se disso... – O homem repetia, como se fosse uma canção. Furioso, lhe dei um soco, esperando que ele parasse, mas Layne apenas aumentou a velocidade.

– Seu filho da puta, responda-me! – Exclamei, voltando a lhe bater. Nem vi quando os outros seguranças invadiram o lugar, me tirando de cima de Christopher. Enquanto eu era carregado pra fora da sala, podia ouvi-lo repetindo a mesma frase, ainda. Fui jogado em uma cadeira e logo Brian apareceu gritando pra mim, vermelho de raiva.

– Que diabos foi isso? – Ele questionou, enquanto eu bebia a água de uma garrafa que me foi oferecida.

– Ele não é um terrorista, Simpson. É apenas um maníaco. – Respondi, me virando para olhar pela tela o homem que agora gritava sua repetição. Brian seguiu o meu olhar, parecendo assustado com o que via. Eu sorri irônico. – Sumam com ele.