A Filha do Dono
26 O passado de Mônica pt. ll
Notas iniciais
Eu chorava demais, as lágrimas desciam e eu não conseguia impedir.
Meu pai também chorava bastante, eu pensava que homens não choravam mas até mamutes chorariam de ver aquela cena.
Minha mamãe, estava deitada no chão, sobre um tapete vermelho, ai como ela adorava essa cor, sempre me dava roupas vermelhas pra usar, dizia que representava o amor, o amor que ela sentia por mim e por sua família.
Ela também amava usar pedras preciosas, por isso o tapete também era coberto de pedras preciosas de todos os tipos e cores.
O meu papai disse que ela estava dormindo, só que um sono diferente, um sono em que ela não acordaria mais.
Porque ela não acordaria nunca mais? Ela estava cansada o bastante pra dormir pra sempre? Eu não sei o porque disso, mas acho que aquilo que tinha luzes vermelhas tinha dado um remédio pra minha mamãe, daqueles que dão sono, aquele líquido vermelho que ela cuspiu devia ser o remédio, mas se ela cuspiu como pode ter dado efeito?
Eu não sabia, não queria saber de mais nada, o que importava é que minha mamãe iria ir embora e nunca mais iria voltar pra mim.
Depois de muito choro, dois homens vieram e começaram a abrir um buraco na areia, estava fazendo um calor de matar, talvez eles fossem procurar um poço.
Mas não, quando terminaram, pegaram a minha mamãe e a jogaram lá dentro.
Eu fui correndo pra lá tentar ajudá-la mas meu pai me impediu, ele me pegou no colo e disse que a mamãe iria dormir embaixo da areia, era mais confortável pra ela.
Eu não acreditei no que ele disse, se a mamãe ficasse lá fora naquele sol quente, podia ficar com calor, e aquela areia podia entrar nos olhos dela e eles podiam ficar vermelhos.
Mas não adiantou eu retrucar, meu pai me abraçou e eu chorei em seu ombro, não consegui olhar pra aquela cena horrível.
Naquele lugar havia também muita gente, minha tia Ana, minha tia Isabel, minha avó Maya, minha sobrinha Cecília, meu tio Bernardo, meu tio Jonas, meu avô Nelson, meu irmão Douglas....
Todos acompanhavam de cabeça baixa aquela cena horrorosa, inclusive eu, o pior é que eu não podia fazer nada.
Depois que cobriram minha mamãe de areia, os caras fortões foram embora e a minha família se juntou onde tinha um camelo morto em cima de uma fogueira, e começaram a comer aquela carne com vinho, e as crianças comiam com groselha.
Minhas primas pequenas se juntaram a mim, e minhas amigas Marina e Maria.
Eu ainda estava chorando mas elas me confortaram, mesmo assim eu não ia deixar por aquilo mesmo, ia dar um jeito de tirar minha mãe dali e acordar ela.
Sem que ninguém visse me aproximei de onde tinham enterrado minha mãe e joguei uma pedrinha de Ágata pra saber o lugar certo.
Depois de muito tempo, o pessoal começou a diminuir e ir embora, e só restou eu, meu pai e meus avós maternos.
Fomos todos para a tenda de meu pai, e ficamos por lá mesmo, estava escurecendo, então quando chegamos na tenda do papai, ele disse pra eu ir pra minha tenda dormir, porque estava tarde e eles iriam ter uma conversa de adulto.
Eu fui pra minha tenda e arrumei os meus lençóis, eram bem bonitos e quentinhos, deitei e fiquei pensando um pouco no que faria para trazer a minha mãe de volta.
Quando pensei em um plano, virei para o lado e dormi.
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Eu acordei bem cedo, levantei na ponta dos pés e arrumei meus lençóis em silêncio, tomando cuidado para não fazer nenhum barulho.
Fui a tenda do meu pai e vi que ele estava dormindo, minha avó e meu avô já tinham ido embora, pensei que eles iriam dormir ali.
Depois que me distanciei um pouco da tenda, comecei a correr sem me importar com o barulho, meus pés descalços batiam na areia quente e doíam um pouco, mas eu não me importava.
Procurei pela pedrinha vermelha que eu tinha jogado, quando encontrei, me sentei no chão e comecei a cavar desesperadamente.
Estava muito calor, meus joelhos doíam, o suor escorreu da minha testa, eu estava ofegante, mas eu não iria desistir.
Eu ouvi passos atrás de mim, eu não queria me virar pra ver quem era, só comecei a cavar ainda mais rápido e vi uma coisa branca.
Imaginei que fosse minha mãe e comecei a chamá-la histericamente.
Quando consegui cavar um buraco até ela, tomei um susto.
Parte de seu rosto estava com os ossos pra fora, e algumas coisas cinzas eram encontradas por ele também.
Eu tomei um susto e comecei a chorar desesperadamente.
Uma mão tocou meu ombro e eu virei pra trás e vi meu pai.
Ele abriu os braços pra um abraço e eu o abracei com força, chorando cada vez mais.
Abri meus olhos e vi por cima de seus ombros, a minha mãe, ela estava estranha, parecia meio pálida.
Desfiz o abraço e fui correndo até ela, mas quando fui abraçá-la não senti nada, eu então fiquei olhando pra ela confusa.
Ela colocou as mãos sobre meu rosto, mas eu não senti nada.
Ela me deu um beijo na testa, e saiu andando ainda virada pra mim, até que começou a flutuar e sumiu nas nuvens.
Foi a última vez que eu a vi.
Continua...
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