A Filha de Ártemis
9 O Touro Selvagem de Minos
Acordamos de manhã cedo, sobre nós um céu azul iluminado pelos raios de sol que nasciam atrás dos prédios da grande cidade à frente. Parecia que a tempestade havia mesmo ido embora. Juntamos nossas coisas e começamos a caminhar seguindo a estrada que levava à cidade.
– Bom, eu sei que a entrada do Mundo Inferior fica a oeste, mas onde exatamente? – perguntei enquanto passávamos por uma placa onde se lia: Denver a dois quilômetros.
– Los Angeles. – respondeu Percy.
– É melhor nos apressarmos ainda estamos apenas em Colorado temos dois estados para atravessar até chegar à Califórnia. – falou Annabeth.
– Colorado! – disse eu tão estupefata que parei de caminhar. Percy, Annabeth e Jéssica olharam para mim. – Como podemos estar tão longe de Nova York em apenas quatro dias de viagem?
– O táxi das Irmãs Cinzentas. Devemos ter atravessado alguns estados em poucos minutos e nem percebemos. Acho que elas levaram a sério o papo de seguir em frente. – falou Jéssica.
Recomeçamos a caminhar e em meia hora estávamos em Denver, as ruas estavam engarrafadas e era difícil achar um lugar na calçada. Havia vendedores ambulantes, lojas sendo abertas e pessoas correndo para o trabalho.
– Tudo bem, só precisamos atravessar a cidade e continuar em direção a Califórnia. Vamos pedir informação sobre algum trem ou ônibus que saia da cidade e nos leve, pelo menos, até Utah. – disse Percy se desviando de um homem de terno preto e gravata que passava correndo com uma maleta.
– Mas do que adianta, não temos mais dinheiro. – lembrou Annabeth.
– Daremos um jeito. – concluiu Percy.
– Tem um shopping na próxima quadra, deve ter um guarda ou algo do tipo que possa nos dar alguma informação. – disse eu apontando para uma grande construção que se erguia a nossa frente.
– Talvez. – falou Annabeth. – Vamos até lá.
Seguimos até o shopping, um guarda á entrada instruía os carros para que fossem ao estacionamento do subsolo, pois os outros já estavam cheios. Esperamos na frente do shopping até que Annabeth falasse com o guarda.
– Com licença senhor, poderia nos dar uma informação? – perguntou ela.
Enquanto Annabeth conversava com o oficial observei uma menininha que puxava a roupa da mãe, tagarelando sobre uma tal de boneca que cantava várias músicas. Pensei em todas aquelas pessoas que eu podia ver, a maioria falava ao celular ou usava fones de ouvido. Não faziam ideia de que alguém planejava destruí-los.
Imaginei aquela menininha, que arrastava sua mãe pela roupa, com a vingança implantada para sempre em seu coração. Não, eu não podia deixar que Nêmesis fizesse isso, fiz um juramento de que o que quer que acontecesse eu não deixaria ela ter sua vingança.
Annabeth parecia ter terminado a conversa com o guarda e agora vinha em nossa direção. De repente escutei um grito, alguém estava pedindo socorro e parecia vir do estacionamento abaixo do shopping.
– Ouviu isso? – perguntei a Percy.
– Isso o quê? – perguntou ele.
– O que houve? – disse Annabeth se aproximando e percebendo minha expressão.
Tentei me concentrar nos sons a minha volta o máximo que eu podia e escutei o grito novamente. Sem dúvida era alguém pedindo socorro e vinha a mais ou menos cem metros abaixo de nós.
– Tem alguém em perigo lá embaixo no estacionamento, precisamos ajudar. – falei.
– Tem certeza? – perguntou Jéssica.
Escutei o grito novamente.
– Absoluta, vamos! – disse eu.
Corremos para a entrada do estacionamento o máximo que podíamos.
O lugar era enorme, havia centenas de carros estacionados e pessoas que saiam deles, mas ninguém parecia estar precisando de ajuda.
– Não tem ninguém em apuros. – falou Percy olhando ao redor.
– Não, têm sim. Eu sei o que eu ouvi. – falei.
Concentrei-me novamente e ouvi um grito agudo, um grito de terror.
– Me sigam. – disse eu e continuei correndo com Percy, Annabeth e Jéssica atrás de mim.
Passamos por mais dezenas de fileiras de carros até chegar a um lugar no estacionamento que estava quase vazio a não ser por uma camionete e um Gol. Era o final do estacionamento, a única saída era uma porta com uma placa escrito: somente funcionários.
Aquele deveria ser um estacionamento privado apenas para quem trabalhava no shopping, mas mesmo assim poucos deviam usá-lo, não havia pessoa alguma lá, estava tão silencioso que nossos passos causavam eco no chão de concreto.
– Mas eu podia jurar que tinha ouvido alguém pedir ajuda e vinha daqui. – falei procurando ao redor.
– Olha eu acho que você deve ter se enganado. Vamos embora temos duas missões se lembram? De uma depende a sua vida e a das caçadoras e da outra a vida da humanidade, portanto não temos tempo a perder. – disse Annabeth começando a fazer o caminho de volta.
– Já vão embora? – falou uma voz conhecida.
Por instinto tirei a espada da mochila e olhei para a mulher que havia se posto à frente de Annabeth trancando sua passagem.
Annabeth puxou sua faca, Jéssica fechou os punhos e Percy destampou a caneta.
– Ha, ha, ha! – riu Equidna.
Era uma armadilha. Reconheci os olhos redondos, os dentes manchados e a roupa de brim. Atrás de nós um chihuahua apareceu e começou a latir loucamente. Parecia que a cobra não tinha bastado, imaginei o que o chihuahua seria realmente.
– Um chihuahua? O que ele pode fazer? – sussurrei para Annabeth.
– Você não vai querer saber. – respondeu ela com os olhos fixos no cachorro.
– Tenho a sensação de que vou descobrir. – falei.
A boca do chihuahua começou a espumar.
– Agora vem a pior parte. – disse Percy.
Eu não sabia o que ele estava tentando dizer, mas sabia que fosse o que fosse ele já havia enfrentado.
– Eu trouxe mais um de meus filhos para se divertir. – falou Equidna. – Já que vocês, meio-sangues, mataram minha preciosa Hidra. Mas agora vocês pagarão, irão morrer e o mundo finalmente será de quem merece ser.
– Isso não faz parte da sétima tarefa, faz? – perguntei a Annabeth.
– Não, definitivamente não. – respondeu ela.
– Bom, então é mais um dos desafios de Nêmesis para tentar nos impedir de chegar ao diário. Ótimo, vamos mostrar para ela que nós não estamos brincando. – disse eu.
O chihuahua começou a crescer e seu corpo a se transformar. A cabeça de cachorro virou uma de leão com corpo de um bode gigante e a cauda se alongou dois metros se transformando em uma serpente, o bicho tinha agora uns quatro metros de altura.
– Uma Quimera. – sussurrei.
Percy levantou a espada e atacou, a cabeça de leão tentou abocanhá-lo, mas com um giro ele desviou sendo pego de surpresa pela cauda de serpente que mordeu seu ombro. Com um grito Percy caiu de joelhos.
Vendo que ele não podia se defender a Quimera virou a cabeça para pegá-lo, mas Annabeth foi mais rápida, jogou a faca com força e ela se cravou na pele do animal que urrou de dor e se voltou para ela.
– Jéssica pegue minha mochila nela há pedaços de Ambrosia, de eles a Percy. – falei e corri para ajudar Annabeth.
Jéssica concordou, pegou a mochila e correu para Percy.
A Quimera pulou sobre Annabeth e colocou uma pata sobre seu peito a impedindo de se levantar. Corri até o animal e pulei sobre suas costas, ergui a espada e a cravei no pescoço do monstro.
Ele se empinou nas patas traseiras o que deu tempo para que Annabeth saísse de baixo dele. Quando a Quimera voltou a ficar de quatro seu rabo de serpente me atacou pelas costas e picou meu braço.
Minha visão começou a ficar turva e escorreguei de cima do animal, ainda no chão vi a Quimera se aproximando de mim e então ela saltou. Eu sabia que seria esmagada com o peso do monstro, mas quando ela ainda estava no ar um vulto bateu em seu lado direito e ela foi jogada contra a parede.
– Está bem? – perguntou Percy ofegando e estendendo a mão para me ajudar a levantar.
– Vou ficar. – respondi.
A Quimera se recuperou da batida e olhou para nós, ela estava meio cambaleante, havia uma faca cravada em seu lado esquerdo, uma espada em seu pescoço e outra do seu lado direito, a espada de Percy.
Mesmo assim ela correu em nossa direção.
– Gabrielle aqui! – gritou Annabeth alguns metros ao meu lado.
Ela segurava um arco, pegou uma flecha e a jogou para mim. Percy e eu rolamos um para cada lado para se desviar do ataque da Quimera e eu peguei a flecha no ar.
O animal se voltou para mim e tornou a atacar, correu em minha direção e deu um salto, no momento exato em que ela iria me pegar eu me abaixei e cravei a flecha sobre sua barriga.
A Quimera foi ao chão com um estrondo e não levantou mais, após alguns segundos explodiu em uma nuvem de poeira como a Hidra.
– Malditos semideuses. Nêmesis vencerá e eu terei o prazer de estraçalhá-los com minhas próprias mãos. – falou Equidna e com um rodopio desapareceu.
– Gabrielle pegue um pedaço de Ambrosia. – disse Jéssica correndo ao meu encontro.
Apoiei-me em um pilar, o veneno se espalhava rápido, peguei o pedaço de Ambrosia e o coloquei na boca imediatamente.
– Muito melhor. – falei.
– Corram, houve um estrondo lá embaixo. – ouvimos a voz de um homem dizer ao longe e vários passos apressados que se dirigiam ao local onde estávamos.
– Temos que sair daqui. – falei. – Eles farão muitas perguntas. A não ser que vocês saibam como explicar essa enorme cratera em um chão de concreto.
– O que está fazendo? – perguntou Percy para Annabeth que estava com a porta da camionete aberta e mexia em algo lá dentro.
– Garantido nossa ida para o oeste. – respondeu ela puxando uma nota de cinquenta dólares.
– Você está... – começou Percy.
– É só um empréstimo. Qual é? É por uma boa razão. Vocês querem salvar o mundo ou não? – perguntou ela.
Percy a olhou intrigado.
– Ali, vamos homens. – gritaram os guardas.
– Temos que ir. – disse Jéssica.
Corremos para a porta dos funcionários e a abrimos. Havia uma longa escada que subia até o que me pareceu um depósito cheio de caixas e enlatados. Pegamos algumas barras de cereal e salgadinhos e colocamos nas mochilas.
– Devem estar no depósito. – ouvimos um dos guardas gritar.
– Vamos. – falei.
Continuamos correndo, abrindo portas e mais portas até chegarmos a um escritório, descemos uma longa escada em espiral e começamos a caminhar por um corredor com uma porta ao fundo. Abrimos ela e nos vimos dentro do shopping.
Várias pessoas passavam por nós e nos olhavam. Devíamos estar péssimos, tentei esconder o rasgo na manga do meu casaco.
Foi um alívio poder ver o sol novamente quando passamos pelas portas de saída.
Andamos mais algumas quadras e nos sentamos no banco de uma praça. Abrimos dois pacotes de salgadinho e começamos a comer. Puxei o pergaminho das tarefas da mochila de Annabeth e li o sétimo desafio.
“7º tarefa: capturar o touro selvagem de Minos.”
Suspirei e guardei o pergaminho de volta na mochila.
– E então? Tem algum trem ou ônibus daqui que vá para o oeste? – perguntou Percy.
– Tem. – respondeu Annabeth. – Fica a umas dez quadras.
– Isso é bom. – falei.
Terminamos de comer e seguimos até a estação de trem de Denver. Conseguimos pegar um bom trem, que não estava muito cheio e ia até East Carbon no estado de Utah. Annabeth pagou com o dinheiro “emprestado” e seguimos viagem.
– O Touro Selvagem de Minos não será uma tarefa difícil. – comentou Annabeth.
Eu olhei pela janela do trem ainda não conseguia acreditar que estava tão longe de casa.
– Na verdade Hércules o capturou facilmente. – continuou ela. – Ele tinha que entregá-lo a Hera, o touro aterrorizava o povo da ilha grega de Creta. Poseidon o havia oferecido a Minos como sacrifício ao rei.
Percy franziu as sobrancelhas.
– E o que Hércules fez afinal? – perguntei.
– Bem, o rei não teve coragem de sacrificar o animal. Hércules segurou a fera pelos chifres e a derrubou no chão, amarrou suas patas e a dominou. – terminou Annabeth.
– Não parece difícil, mas para Hércules. Ou você acha que alguém de nós quatro vai conseguir segurar o touro pelos chifres? – disse Percy ironicamente.
– Que aparência ele tem? – perguntei.
– A de um boi normal, mas dez vezes mais forte e com três metros de altura. – falou Jéssica.
– Obviamente. – disse eu.
O trem seguiu em alta velocidade e em três horas desembarcamos na pequena cidade de East Carbon.
Começamos a andar pela cidade que era realmente muito bonita, estávamos olhando um grande monumento na praça central quando um homem nos chamou.
Olhamos para trás, ele estava sentando nas escadas de um velho bar, vestia roupas sujas e rasgadas e quando sorriu vimos que faltava um dos seus dentes da frente.
Percy colocou a mão no bolso onde guardava a espada.
– Acha que podemos confiar nele? – perguntou.
Não respondi, mas comecei a andar na direção do homem. Percy, Annabeth e Jéssica me seguiram e quando estávamos chegando perto dele ele se levantou e entrou no bar.
Entreolhamos-nos e subimos as escadas. O bar era tão velho por dentro quanto era por fora, as garrafas nas prateleiras pareciam não serem tocadas há anos. O estranho homem estava agora no balcão do bar.
– Que bom que vieram. Faz muito tempo que estou esperando. – disse o homem.
– Quem é você? – perguntei me aproximando do balcão, Percy me acompanhou ainda com a mão no bolso.
– Eu sou Minos, é claro. – respondeu ele.
– Mas... Você não era... Bem... Rei? – perguntou Jéssica.
– Ora, os tempos mudam mocinha. – se defendeu Minos.
– Estamos aqui pra capturar o Touro Selvagem. – falou Annabeth.
– Sim, sim, é claro que estão. Esse touro está me causando problemas, vem atacando o gado e as galinhas dos fazendeiros da região. Os mortais acham que é um urso. Toda noite se reúnem para tentar capturá-lo, mal sabem eles a verdade. – contou Minos.
– Vamos ajudar. – falei.
O homem sorriu, parecia mesmo agradecido.
– Vou fechar o bar e levá-los ao meu rancho. Eu desconfio que ele deva estar por lá já que foi oferecido à mim anos atrás.
Minos fechou seu bar e nós o seguimos por alguns minutos até um pequeno rancho. Havia três vacas pastando em um cercado e algumas galinhas que ciscavam o chão nervosamente.
– Ele normalmente ataca à noite. – contou Minos. – Mas eu sei um jeito de atraí-lo para poupar tempo para vocês. Sei que vocês ainda possuem muitas tarefas pela frente.
Quem me dera fossem só as tarefas, pensei.
– Venham me ajudem com essas pedras ali, vamos construir um altar. – falou ele.
Pegamos as pedras que Minos havia pedido e com a ajuda de todos construímos um altar.
– Perfeito. — disse ele. – Uma galinha deve servir.
Minos agarrou a galinha mais gorda que encontrou e a estrangulou. Colocou então o animal morto sobre o altar e com uma faca cortou o peito da galinha e depositou a faca ensanguentada ao lado da ave.
– Agora é só esperar. O touro sentirá o cheiro do sangue e virá imediatamente. – disse Minos. – Bom, eu vou voltar para o bar, capturar o Touro Selvagem é trabalho de vocês e não meu. Avisem-me quando terminarem.
Minos se virou e começou a voltar para a entrada do rancho.
– OK, será que esse bicho vai demorar muito? – falou Annabeth puxando sua faca do bolso.
– Consegue escutar algo? – perguntou Percy a mim enquanto destampava a caneta.
Peguei minha espada da mochila e me concentrei nos sons ao meu redor, só ouvia barulho dos pássaros e do vento batendo nas árvores, concentrei-me nos cheiros, mas só sentia o fedor repugnante do sangue da galinha, abri os olhos, mas parecia que minha visão detalhada só funcionava quando eu estava mirando em um alvo.
– Nada. – respondi.
Percy se sentou no chão e eu relaxei meus sentidos.
– Nêmesis pode abrir a caixa a qualquer hora. O que vocês acham que ela está esperando? – perguntei.
– Não sei. – respondeu Jéssica. – Mas vamos torcer para que ela continue esperando o que quer que seja.
De repente ouvimos um mugido de estourar os tímpanos e fazer as árvores tremerem. Um boi de três metros de altura estava parado ao longe nos observando e levantando o focinho.
– Ele sentiu o cheiro. – disse eu.
Percy se levantou.
– Vamos lá.
O touro começou a caminhar e depois correr em nossa direção, era incrível a velocidade que um animal daquele tamanho podia atingir, ele chegava a arrancar a grama por onde passava.
Fui para perto do altar.
– Gabrielle o que está fazendo? – perguntou Percy.
O touro se aproximava rapidamente e quando estava a poucos metros baixou a cabeça de modo que seus chifres pontiagudos miravam direto meu corpo. Esperei até o último segundo e sai da frente no momento em que o touro passava. Em vez de meu corpo ele atingiu o altar de pedra que voou pelos ares.
O touro chacoalhou a cabeça e se virou para nós, uma de suas patas começou a cavoucar o chão e ele baixou a cabeça em posição de ataque.
Dessa vez ele foi em direção a Percy e atacou, Percy conseguiu desviar fácil, coisa que o melhor dos toureiros não conseguiria fazer, mas que nossos reflexos avançados davam conta.
– Como vamos fazer para capturá-lo? A única opção é matá-lo. – falou Annabeth.
– Jéssica você acha que consegue prendê-lo como fez com o javali? – perguntei.
Ela mordeu o lábio e o touro se virou para Annabeth, mas nesse instante Jéssica ergueu as mãos para o céu e raízes brotaram do chão se amarrando nas pernas do touro que tombou e se debateu tentando se soltar.
– Você conseguiu. – disse Annabeth.
– Eu acho que não. – falou Percy. – Ele é muito forte.
As raízes começaram a arrebentar e o touro se levantou.
– Ele não parece nada feliz. – disse Percy.
O animal começou a correr loucamente para todos os lados e nos vimos obrigados a se concentrar como nunca para não sermos perfurados pelos seus chifres.
Estava me desviando de um dos ataques quando uma ideia passou por minha cabeça. Joguei a espada no chão e puxei minha caneta do bolso, a destampei e segurei meu arco de prata com força.
Desviei-me de mais um ataque e coloquei uma flecha no arco. Espero que dê certo, pensei. Fechei os olhos e imaginei uma rede com cordas resistentes.
Abri os olhos, mirei no touro que avançava para Jéssica e atirei. Ainda no ar algo aconteceu, a pontinha da flecha se abriu como uma tampa e de lá saiu uma rede prateada que se abriu no formato de um cogumelo e caiu sobre o touro.
O animal que antes corria a toda velocidade se viu enrolado na rede e tropeçou se arrastando por alguns metro e indo parar a centímetros de Jéssica que deu um pulo e se afastou.
O touro se debateu o máximo que conseguiu, mas a rede não cedeu. Percy, Annabeth, Jéssica e eu nos aproximamos devagar.
– Parece que deu certo. – falou Annabeth.
– É parece que sim. – disse a voz de um homem às nossas costas.
Nós nos viramos, ao ver o homem Percy endureceu e cerrou os punhos, Annabeth fez uma cara feia e Jéssica deu um passo para trás assustada. Eu apenas encarei o homem de cima a baixo.
Sem dúvida ele era grande, tinha uns dois metros de altura, um corte de cabelo militar, usava óculos escuros e uma jaqueta de couro preta como aquelas dos motoqueiros, um jeans também preto, uma camisa branca (que ficava muito justa sobre seus músculos enormes) e botas de combate.
O homem sorriu, mas era um sorriso estranho, um tanto debochado.
– Você está metido em todas, não é Persiana? – falou ele.
Percy deu um passo à frente, mas Annabeth o conteve. Eu não estava gostando nem um pouco daquele cara.
– Quem é você? – perguntei.
O homem se aproximou tanto de mim que seu rosto ficou a centímetros do meu e senti uma espécie de calor vindo de seus óculos. Jéssica prendeu a respiração.
– Eu... – o homem levantou os óculos. Com um nó na garganta encarei seus olhos que eram órbitas ocas com labaredas tremeluzentes e vi coisas horríveis, sangue, batalhas e corpos de guerreiros antigos dilacerados. – Sou Ares, o deus da guerra sua menininha imbecil. E é melhor não me irritar, não gosto de você, você desonra o Olimpo, por mim a mataria agora mesmo, mas Zeus não permite que eu faça isso.
Ele se afastou e recolocou os óculos.
– Por hora. – completou.
Dessa vez eu fechei os punhos minha vontade era de dar um soco naquele cara e eu não estava nem aí se ele era um deus.
Jéssica colocou uma mão sobre meu ombro.
– Calma. – ela sussurrou.
Eu tinha a sensação de que a aura de Ares estava me deixando assim, eu estava nervosa, tinha vontade de arrumar briga com alguém, de socar a cara de alguém.
Lembrei-me dos filhos de Ares no acampamento, eram muito parecidos com ele, o mesmo jeito arrogante e o modo de se achar superior aos outros.
– Vim buscar o touro. – falou ele. – Zeus havia mandado Hermes, mas ele está muito ocupado. Portanto eu me voluntariei, estava com saudades de você sardinha enlatada.
Achei que Percy não iria mais aguentar, mas Annabeth mantinha uma mão firme sobre seu peito o impedindo de pular sobre Ares. Eu não me importava que ele fizesse isso, pois se ele fizesse eu o ajudaria.
Sabia que o deus da guerra estava fazendo de propósito, ele queria uma desculpa para matar Percy.
– Mas não se preocupem. – Ares estalou os dedos e o touro desapareceu restando apenas a rede. – Eu já estou indo.
– A deusa do amor está esperando você ou você esqueceu seu escudo novamente? – disse Percy.
Eu não fazia ideia do que ele estava falando. Fumaça começou a subir por trás dos óculos escuros de Ares.
– Seu moleque... – Ares ergueu a mão, mas de repente parou. – Eu sei, eu sei.
Parecia que ele estava falando com outra pessoa.
– Escuta aqui bafo de peixe, Zeus está me chamando. E os meus negócios com Afrodite não são da sua conta. Se eu pegá-lo fora de uma missão você é meu.
Percy continuou encarando o deus que se virou para mim.
– E você também. Não me importo com que Ártemis e Poseidon pensem. É melhor se cuidarem.
E com uma luz vermelha ofuscante o corpo de Ares foi tomado por chamas, viramos o rosto e em segundos o deus havia ido embora.
– Não dê atenção a ele, Ares é um idiota. – falou Percy.
Encostei a tampa de minha caneta no arco e ele voltou a ser uma esferográfica preta.
– E eu pensei que não conheceria um deus pior do que Dionísio. – disse eu.
Os três riram e juntos seguimos para o bar de Minos.
Ao chegarmos lá contamos a ele sobre nossa vitória e como recompensa por termos livrado a população da pequena cidade de East Carbon do Touro Selvagem, Minos nos serviu uma ótima refeição de graça.
Após comermos nos despedimos dele, seguimos para a rodoviária e pegamos um ônibus que nos levaria até Ruth no estado de Nevada.
A viagem era longa, torcemos para que nenhum monstro aparecesse no meio do caminho e escolhemos lugares perto um do outro no ônibus.
– Qual é a próxima tarefa? – perguntou Jéssica.
Peguei o pergaminho e o li em voz alta para que todos escutassem.
“8º tarefa: capturar os cavalos devoradores de homens do rei Diomedes.”
– Cavalos devoradores de homens. – repetiu Percy. – Parece legal.
– Hércules matou Diomedes e deu sua carne aos cavalos. – contou Annabeth.
Jéssica fez uma cara de nojo.
– Com certeza não é o que vamos fazer. – falei enrolando o pergaminho e o guardando. – Vamos dar outro jeito.
– Sempre damos. – acrescentou Percy.
– Vou tirar uma soneca. – avisou Annabeth se recostando no assento.
– Boa ideia. – disse Percy.
Recostei-me no assento também e fechei os olhos.
– Tomara que os cavalos só devorem homens mesmo, assim só perderemos o Percy. – brinquei.
– Falou como uma típica filha de Ártemis. – disse Percy.
– Obrigada. – agradeci.
Nós quatro rimos juntos e em poucos minutos estávamos dormindo.
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