A Filha da Sabedoria
12 Minha conversa nada agrádavel com Júlio César
Notas iniciais
Os dois pretores me levaram até a principia (uma espécie de quartel general romano, pelo o que me recordo). Assim que paramos na entrada do grande edifício de mármore branco, guardado por dois guardas, estremeci.
Ouço os dois pretores falarem atrás de mim.
- Você fala ou eu falo? — escuto Júlio César falar para sua irmã.
- Você é mais amigável... — Catherine responde sarcasticamente.
Cerro os punhos. Não cheguei até ali para morrer por dois soldadinhos romanos. Minha missão era muito mais grandiosa do que isso.
Opa! O orgulho estava começando a falar em minha mente. Porra, é só eu começar a compreender Atena que todos seus defeitos começam a pairar sobre mim?
Sinto uma mão repousar em meu ombro.
- Vamos entrando? — Júlio César pergunta.
Observo seu ante-braço, pois algo me chamou a atenção: uma tatuagem. Tinha as escrituras SPQR, que entendi como o emblema de Roma Senatus Popolusque Romanus (O Senado e o Povo de Roma). Embaixo da tatuagem tinham algumas linhas retas, como um código de barras. E em cima da tatuagem o símbolo de Belona: Uma lança e uma tocha cruzadas.
- Claro — respondo, e entramos no quartel-general.
Por dentro a principia era impressionante, porém assustadora. O chão era de mármore polido e nas paredes um enorme mosaico de Rômulo e Remo, os fundadores de Roma. Já ouvi sobre eles diversas vezes em aulas de história do Acampamento (na maioria das vezes eu dava as aulas).
No centro havia uma longa mesa de madeira. Cheia de papeladas e algumas adagas. Meu coração quase congela quando visualizo um mapa do Acampamento Meio-Sangue. Haviam várias anotações, algumas com dúvidas sobre sua localidade.
O pretor se senta na cadeira. E eu opto por permanecer de pé.
Então dois cachorros,, um dourado e um prateado, que eu achei serem estátuas se movem ao lado dele. Ambos com seus demoníacos olhos vermelhos.
- Argentum, Aurum — diz Júlio César — esta é...
Traduzo o nome dos cães como Ouro e Prata. Mas não entendo muito de latim. Júlio César olha para mim, aguardando a resposta.
- Oh. Alexia Garcia.
- Bom, Alexia, Jane deve ter te explicado o básico...
- Sim — respondo — vocês são parentes de deuses romanos!
— Exatamente — seus olhos azuis se fixam nos meus — ela disse que estamos em guerra?
Nego com a cabeça. Ele parece ser extremamente perigoso. Minhas mãos começam a suar. Use a sabedoria, Alexia. Use sua sabedoria!
- Pois é — ele prossegue — existem semideuses gregos. Nós não somos muito amigos e neste momento estamos em uma guerra sangrenta e extremamente séria. Temos um mapa do nosso Acampamento na posse deles, assim como nós temos um mapa do Acampamento deles em nossa posse.
Olho para o mapa de meu lar em cima da mesa.
- E...? — eu digo.
Júlio César sorri.
- Entende como achamos estranho uma garota ser "encontrada" sozinha no meio do sol bem próximo a nosso Acampamento justo quando descobrimos a localidade do outro?
Merda. Foco, Alexia! Foco! Você é filha de Atena (mesmo ela sendo uma louca completamente escrota)! Você vai conseguir.
- Entendo — eu respondo naturalmente — é por isso que vai me interrogar?
Seu sorriso se torna mais largo, e até seria bonito se eu não estivesse tão assustada e com tanto ódio.
- Exato. Mas saiba que esses meus amigos aqui — ele faz um gesto para os galgos — não gostam de mentiras.
- Que bom — falo ajeitando a postura para encará-lo — eu também não gosto.
Ele sorri mais, então entrelaça as mãos como se fosse um psicólogo.
- Gostaria de saber o básico, primeiro. Idade?
- 17.
Os cães não se movem.
- Nasceu em...?
- Washington. Mas fui criada em Nova York.
Ele assente.
- Bom, Alexia, eu gostaria de saber o que você estava fazendo sozinha, no meio do nada, no sol escaldante, justo na entrada secreta do Acampamento.
Merda.
Seja sábia Alexia. Tem que pensar rápido, sem levantar suspeitas. Responda sinceramente. Basta só omitir a verdade. Simples. Use a merda da sua sabedoria.
- Eu quero ajuda — respondo. E é a mais pura verdade, embora não seja esse o motivo de eu estar ali. Ora, quem não iria querer ajuda numa situação como a minha?
- Ajuda em quê?
- Minha madrasta foi assassinada — eu digo — meu pai me expulsou de casa e, nesse momento, não tenho nenhum lugar para ir senão o Acampamento Júpiter.
ISSO! Ótimo. Consegui. Os cães não se movem. Seus olhos vermelhos me fitam como se soubessem quem eu sou mas desejassem que seu pretor fosse mais inteligente para fazer as perguntas certas.
- Por que o Acampamento Júpiter? — ele pergunta.
- Jane disse que é o único lugar seguro para... gente como eu.
Júlio César ainda parecia não confiar em mim. Ele se levanta de sua cadeira para ficar frente a frente a mim, fitando meus olhos como se quisesse ler minha mente e arrancar a verdade. E ele não o faria.
- Está armada?
- Estou.
- Por que?
- Proteção.
- Posso ver a arma?
- Não.
Seu olhar agora é de ódio. Ele não deve receber muitos "nãos'', sendo um líder romano. Mas é a única resposta que ele teria. Ele tira a adaga da mesa e a direciona em minha direção, a centímetros de meu coração.
- Posso ver a arma? — repete.
- Vai vê-la em seu pescoço se continuar a me ameaçar.
Eu não me controlaria. Sou filha da deusa da guerra... E ele espera ameaçar a filha de uma deusa da guerra e sair impune? Ah, não. Não mesmo!
Não recuo o olhar. Estávamos a centímetros um do outro, numa distância mortal para os dois se continuássemos assim por mais dois minutos. Mas, por fim, ele abaixou a adaga.
- Não confio em você — afirma sem tirar os olhos dos meus — mas não acho que seja grega.
- Muito obrigada, senhor pretor — respondo amargamente. Eu não podia tê-lo como inimigo. Seria chamar muita atenção para mim quando eu não queria, mas esse cara estava me dando muita raiva.
- Saiba que não vou tirar os olhos de você — ele rosna.
- Rezo para que isso seja uma ameaça.
Ele lança um último olhar de ódio para mim e se vira para pegar alguma coisa. Antes que eu possa reclamar, vejo uma placa de papel escrito "probatio" em minhas roupas.
- Até que sua mãe te reclame — ele diz — ou que um deus peça, ficará no estágio de probatio.
- Posso me retirar?
- Pode.
Saio da principia e encontro Jane me esperando, comendo um saco de pão de queijo. Essa garota não para de comer?
- Vem — ela diz — a pretora já reuniu o Senado para sabermos em que Coorte você vai ficar.
Mesmo sabendo muitas coisas sobre o Império Romano, não entendi o que ela quis dizer (de novo).
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