A Filha da Sabedoria

14 Espada de Ouro VS Faca de Bronze


Notas iniciais
Aproveitem o caaaap!!!!

Jane me levou (ou melhor, arrastou) até o Fórum do Acampamento, onde vários semideuses e semideusas — ou netos de deuses (ainda não me acostumei com isso) — treinavam golpes de espadas, arco-e-flecha e outras coisas.

O lugar era espaçoso. E haviam vários alvos. Lembrava o Acampamento Meio-Sangue vagamente. Mas esse fato não me impediria de massacrar cada romano que respirasse. Minha mãe tinha razão no final das contas...

- Ei, Jack! — Jane grita para um cara que treinava os semideuses.

O sujeito era alto. Tinha cabelos negros e um físico típico de "filho de Ares". Os olhos eram castanhos e um pouco caídos, como se ele não dormisse há dias. Segurava uma espada longa e medonha. Não me intimidei, obviamente.

Ele se aproxima de nós duas. Olhando para mim com o cenho franzido.

- Ei, Jane! — ele diz — quem é essa?

- É novata — diz Jane, procurando usar o termo de forma mais amigável possível, como se eu me importasse com aquilo... trairei a todos de qualquer forma — Alexia Garcia, esse é Jack Torringthon. Filho de Vulcano.

Vulcano. Deus da forja. Forma romana de Hefesto. Avaliei Jack Torringhton. Não se parecia com James, mas aparentava lutar tão bem quanto. A postura era perfeita, como de todos os romanos com quem encontrei. Mas, aparentemente, o sono poderia rendê-lo. Numa luta, eu poderia mata-lo com dois golpes do punhal...

- É um prazer, Alexia — ele diz estendendo a mão.

Eu a aperto firmemente.

- Igualmente, Jack — respondo.

- Bom eu costumo treinar os semideuses e legados quando Tales está ocupado — ele explica — tem algum interesse em alguma arma?

- Arco-e-flecha — respondo rapidamente.

Ele sorri.

- Ótimo. Vou deixar que Jane te ajude, já que se conhecem a mais tempo.

- Ok.

Me junto a outros campistas em probatio. Não olho na cara de nenhum deles. Observo enquanto Jane pega um arco e uma aljava e se aproxima. Então ela para e se vira. E eu quase grito quando ela pega um saco de pipoca com um campista.

Me vejo rindo sozinha da fome que nunca acaba de Jane Austin.

Então paro de rir. Eu não estava ali para fazer amizades. Meu objetivo era único: espionar a vida de cada romano. Cada defeito de batalha deles. Cada fraqueza. E usar isso para mata-los e vingar minha mãe e a morte de minha madrasta.

E como a sensação seria boa...

- Toma — diz Jane, quando chega, estendendo-me o arco-e-flecha — aqueles são os alvos. Vou te explicar o básico.

Levantei e pus a aljava nas costas. Jane ficou horas falando coisas que eu já sabia. Quando não aguento mais, tiro uma flecha da aljava e a posiciono. Visualizo o alvo e atiro. A flecha voa até o círculo azul que marcava o centro do alvo.

Jane estava boquiaberta.

- Já atirou antes? — pergunta.

- Talvez. — respondo.

- Acho que você é filha de Apolo...

Ah, quem dera.

- Posso treinar com os bonecos? — pergunto apontando para os bonecos-alvo de madeira mais a frente.

- Claro... faça o que quiser. — Jane se afasta.

Me aproximo e foco num boneco. Posiciono a flecha e dessa vez me concentro mais. Penso em todo ódio por Roma que sinto. Eu estava rodeada do meu ódio. Raiva em todo o lugar. Em cada paralelepípedo e construção bem acabada da Nova Roma. Em cada semideus ou legado que chama os deuses por nomes insanos. Em tudo.

Solto a flecha. Ela se crava bem no meio da testa do boneco-alvo. Atiro outra, que se afunda em seu coração. Mais uma, em seu pescoço. Outra em seu peito direito. Outra no meio do umbigo. Duas no lugar onde imagino ser seus testículos.

Se aquilo fosse um romano de verdade.... eu estaria mais feliz.

Alguém bate palmas lentamente ao me lado. Me viro, já cheia de ódio, e encontro os olhos azuis e completamente repulsivos de Júlio Bundão César.

- Muito bom — ele diz sorrindo.

- O que você quer? — pergunto secamente.

- Costumo ver o treinamento dos campistas depois de Reuniões do Senado...

- Que bom.

- ... e você é muito boa. Não são todos que conseguem manejar um arco.

Avalio sua expressão, procurando qualquer sinal de sarcasmo na frase. Mas não havia nenhum. Resolvo relaxar e dou de ombros indo até as flechas gastas para busca-las, ele me seguiu.

- Agradeço — digo.

Me viro, já indo atirar mais e fico cara a cara com ele. Estávamos novamente e centímetros um do outro e da última vez que isso aconteceu, eu quase o matei. Talvez eu tenha mais sorte agora.

- Quer duelar? — ele me pergunta com um meio-sorriso. Parecia até que estava me chamando para sair não para uma luta de espadas.

- Tá — ponho o arco-e-flecha com cuidado no chão — suas armas?

Ele tira uma moeda do bolso. Era feita de ouro, pelo o que notei. Me arrepiei ao pensar na moeda que eu tinha no MEU bolso. O dracma ateniense que me assombrava.

Ele gira a moeda e, antes dela cair na palma da sua mão, ela se transforma numa espada de ouro de, pelo menos, um metro de comprimento e cabo de couro.

Lanço a ele um olhar gélido.

- E a sua arma? — pergunta.

Levanto a bermuda, ainda fitando-o. Provocativa. Ele franze levemente o cenho, mas não desvia o olhar. Tiro a faca de bronze celestial de onde estava presa e a aponto para ele, a centímetros de seu peito (do mesmo modo que ele me ameaçara).

Ele alarga mais o sorriso.

- Ainda estou armado, esqueceu?

- Isso não vai me impedir de enfiar a faca no seu peito.

Alguns campistas ficaram tensos. Já iam se aproximar de nós, mas o pretor fez um sinal para que esquecessem.

- Vai querer uma luta justa ou não? — pergunta para mim.

- À vontade.

Ele golpeia minha faca e gira para ferir-me na direção do rins. Desvio o golpe rapidamente e dou uma cotovelada nas suas costas. Como filha de Atena, eu de certa forma prevejo os golpes que meu oponente dará. Não, isso não é magia. Se chama raciocínio monstruosamente rápido.

Ele urra por conta da cotovelada e ataca a minha direita. Desvio, mas ele também é rápido e agarra meu pulso. Ele o torce, mas alcanço sua canela e dou o chute mais forte que consigo. Ele grita, e chuto sua mão.

Júlio César deixa a espada cair, e esta se transforma novamente em moeda. Ele levanta o rosto para me encarar, e minha faca está a centímetros de seu pescoço. Venci.

- Suas táticas... não são muito conhecidas — ele diz, olhando-me com ódio.

- Não tenho táticas — eu afirmo, e tem um pouco de verdade no que falei — luto para sobreviver, não para vencer. Isso nos difere.

- Ninguém jamais me venceu!

Guardo minha faca no mesmo lugar de sempre e me abaixo. Aproximo meus lábios de seus ouvidos e sussurro:

- Sempre tem uma primeira vez.

Pego o arco e a aljava, repousados no chão, e me junto a uma Jane Austin boquiaberta.