A Filha da Rainha Má

4 Capítulo 4 - Aflições


Notas iniciais
Olá, meu amores! Demorei mais do que eu queria para postar, mas tá aí e espero que gostem! Boa leitura!!!

O sinal bateu informando que as aulas haviam acabado naquele dia, e uma cansada Elizabeth guardava o seu material e se direcionava para a saída, nada mais a torturava do que o barulho daquele sinal, agudo, gritante e aniquilador. E apesar de não se socializar muito com os seus colegas de classe ou com qualquer outro estudante, pelo menos não teria que ficar na sua “casa”. Ela soltou um leve suspiro ao chegar na calçada na escola, cinco quadras acima e estaria no desconforto daquele lar que supostamente deveria lhe oferecer algum consolo ou um mínimo de segurança, mas o qual só a via como mais um meio de obter um dinheiro extra. Era isso que ela era: valores numéricos na conta bancaria de um ser humano desprezível que não fazia a mínima questão de a ter por perto.

Ela resolveu passar na biblioteca do colégio afim de demorar um pouco mais para aquela realidade que era obrigada a conviver diariamente. Encaminhou-se novamente para dentro do campus e fora para o prédio que havia se tornado um lugar de certa forma especial para ela, adentrou com leveza no local evitando chamar atenção de quem quer que estivesse ali, passou pela mesa vazia da bibliotecária e continuou passando por todas as prateleiras de livros, escolheu se sentar no mesmo lugar de sempre, uma mesa quase escondida no fundo do último corredor que a prestigiava com uma visão agradável do bosque que existia atrás da escola. Terminou a tarefa de álgebra que havia dado início na sala de aula e finalizou o seu trabalho sobre literatura gótica que só seria entregue na próxima semana, qualquer razão usaria para se demorar um pouco mais a ir embora. Levantou-se afim de encontrar algum livro para ler naquela semana que parecia estar longe de acabar, andou por entre aquele mar de livros, pegou alguns lendo apenas o título ou observando os detalhes da capa, folheou páginas de outros, porém, não encontrou um que chamasse a sua atenção. Ela pensou que talvez fosse o fato de não querer sair daquele confortável silêncio que não encontrava nenhum livro que a cativasse a lê-lo.

Elizabeth subitamente parou, virou-se para a prateleira a sua direita e pegou quase como se estivesse sendo guiada por poderes mágicos para um livro que parecia que não era escolhido há algum tempo devido a poeira que voou quando foi retirado da prateleira. Ela retornou para a mesa onde estava sentada, guardou o seu material em sua mochila e cogitou se levaria ou não aquele livro consigo. Ela decidiu que levaria mesmo com uma certa relutância em ler algo tão clichê, alguma coisa dentro de si a impulsionava fortemente para leva-lo.

Ela percebeu que a mesa da bibliotecária ainda se encontrava vazia, olhou para os lados e não viu ninguém, esperou por alguns minutos, e percebeu que realmente estava sozinha. Colocou o livro na mochila, a ajeitou em suas costas e saiu do lugar que estava visivelmente vazio, e suspirou desanimadamente porque agora teria que ir para “casa”. E como de costume resolveu pegar o caminho pelo bosque, o que levaria um pouco mais de tempo.

O bosque estava praticamente deserto, durante o inverno ninguém se atrevia a aventurar-se no intenso gélido que aquele lugar proporcionava, a não ser alguns poucos corredores que percorriam as trilhas e algumas crianças que corriam em euforia usando o bosque como um atalho, e é claro, Elizabeth que sempre que podia vagava por aquele pequeno lugar com entusiasmo.

As pessoas perdiam os momentos mais lindos que aquele lugar transmitia, a calmaria que se instalava dentre as arvores que sussurravam canções nunca ouvidas quando tocadas pelo suave vento, a neve que repousava em cada folha, pedra e canto que conseguia alcançar com tamanha delicadeza tornando-o quase que magico. Ela sentiu o frio a abater invasivamente pelas frestas de sua roupa e abraçou o próprio corpo dando mais alguns curtos passos sobre a fina neve que cobria o chão. E por um instante sentiu como se as arvores tentassem uma comunicação com a sua mente que insistia em lembrar das árvores do seu sonho tão singular, como ela corria por entre os altos troncos esbarrando em seus galhos, a sua respiração que era ofegante e o medo que fazia o seu coração bater descompassado. Elizabeth não percebeu quando o seu corpo gélido paralisou no meio do bosque e o ar tornara-se rarefeito em seu peito a deixando com a respiração pesada. Tudo parecia tão irreal e ao mesmo tempo tão verdadeiro.

Ela tentou não pensar naquilo e traçou em sua mente a sua curta jornada de vida até aquele momento tentando trazer um mínimo de sanidade para aquela loucura que parecia estar cada vez mais forte, concreta e lúcida dentro de si.

Elizabeth levou a sua mente e o seu coração para exatamente há dois anos e meio atrás. Era apenas isso que conseguia lembrar da sua vida, os últimos dois anos e meio. Ela havia sido encontrada vagando, perdida e sem rumo em algum lugar no Maine em trajes pouquíssimos tradicionais. Alguns diriam que ela deveria estar em uma festa a fantasia antes de perder a memória. Ela usava um vestido escarlate justo até sua cintura e levemente solto até a extensão de seus pés. O vestido era coberto por pedras douradas, e uma faixa larga em mesma tonalidade marcando a sua cintura. Os sapatos eram dourados com um delicado salto, e seus cabelos ondulados soltos e do lado esquerdo uma fina trança. Estava atordoada e tremia por não conseguir dizer quem era, ou qualquer outro fato sobre a sua vida ou família, o que dificultou mais ainda por não portar nenhum documento ou qualquer outra coisa que pudesse identifica-la. Passou por uma bateria de exames e nada fora diagnosticado para justificar a sua perda de memória. Ela não sofreu nenhuma pancada ou trauma, e não houve nada que os médicos pudessem fazer para ajudá-la. Ninguém poderia ajuda-la.

A única coisa que sabia era o seu nome, Elizabeth Mills, ele estava escrito em tinta preta em um estranho livro que carregava em uma espécie de mochila, junto com outros objetos sem significado. E como ninguém procurou pela garota e não havia nenhum registro de criança desaparecida com o seu nome ou alguma família com tal sobrenome a sua procura ela foi encaminhada para um orfanato. Os dois anos consecutivos foi transferida para diferentes orfanatos e nos últimos seis meses esteve morando em Boston.

Essa era a sua vida, não teve bons momentos ou lembranças alegres para recordar, pelo contrário, ela tinha os mais ruins e dolorosos que alguém deveria ter enfrentado, mas aprendeu rápido a cuidar de si mesma e a não confiar em ninguém. E dessa forma teria uma mínima chance de sobreviver em meio a dor de estar sozinha e não saber quem realmente era.

E para o seu desalento havia chegado a sua residência, ela piscou repetidas vezes afastando o choro que engoliu rasgando o seu peito adentro. O seu coração estava apertado, e ela não seria fraca para chorar e lamentar por uma vida que não se recordava, repetiu mentalmente como se fosse um mantra e servisse de algum consolo não se lembrar de nada. Não poderia sofrer por um passado desconhecido, por uma vida que tecnicamente não havia vivido, porém, a vida não funcionava dessa forma, o seu coração padecia um pouquinho mais a cada dia.

Elizabeth balançou a cabeça rompendo os seus tolos pensamentos e cruzou a porta de entrada, forçou-se a expressar uma saudação de boa tarde e seguiu para o seu quarto, ao menos não precisava dividi-lo como foi submetida a fazer em outras ocasiões. Ela se sentou na cadeira da sua escrivaninha e pegou o livro começando a lê-lo despretensiosamente, e quando se deu conta se viu mergulhada em um mundo que lhe parecia muito mais a sua realidade. Muito mais o seu mundo.

Estava lendo a história da Branca de Neve e o Sete Anões, uma história um pouco diferente da tradicional, e parou por um instante e imaginou como seria a Rainha Má e no que havia acontecido para ela se tornar alguém consumida pela sede de vingança, tão amarga, solitária e sem esperança. Elizabeth se recusava a aceitar que uma pessoa simplesmente nascesse para fazer o mal, ela sentiu uma estranheza quase chegando à simpatia por aquela rainha, e não entendendo o motivo para tal sentimento fechou os olhos e lembrou dos olhos que a encaravam em seu sonho. E desejou conhecer aquela mulher como se a sua vida dependesse desse encontro.

E talvez, dependesse.

*

Esses últimos dias passaram massacrando com a estabilidade que Regina havia construído nesses últimos anos. Não conseguia dormir direito, sempre acordava sobressaltada com aquele aperto crescente em seu peito, a sufocando. Um pressagio, um alerta de que algo ruim estava prestes a acontecer. O seu corpo gritava “perigo” a cada respiração, a cada pulsação de sangue que lhe percorria nas veias. Ela não entendia esse sentimento que insistia em assombra-la.

Naquela manhã haveria uma reunião com os moradores da cidade na tentativa de alguém ter conhecimento de alguma informação relevante, e na opinião da rainha e prefeita da cidade seria totalmente inútil diante do fato que não havia acontecido mais nada. Regina chegou após o horário combinado no Granny’s, e atraiu os olhares de todos assim que o seu pé real entrou no estabelecimento, mas, não pelo atraso anormal, e sim, pela aparência triste. O seu semblante parecia ter perdido um pouco daquele brilho e glamour que sempre exibia mesmo quando as circunstancias não estavam a seu favor. E quase nunca estavam. E durante toda a reunião que havia se tornado mais uma discussão Regina mal pronunciou palavras, ela estava mais como uma telespectadora daquela algazarra, os seus pensamentos vagavam por outros lugares. Outras épocas. E por fim se forçou a ao menos ouvir o que estava sendo dito, iria afastas as suas angustias naquele momento.

— E Rumplestiltskin? Alguém viu ele?... A loja não abre faz alguns dias? — Um dos sete anões falou. Regina não lembrava qual ele era, mas o que dissera fora no mínimo algo interessante, afinal a reunião não foi uma total perda de tempo, pensou.

Todos concordaram que não o haviam visto desde o estrondo que destruiu as proteções de Storybrooke, e rapidamente Emma, os seus pais e a legião de sete anões se dirigiram para a loja do Mr. Gold, exceto Regina que caminhava na direção oposta onde estava o seu carro. A realidade é que estava pouco interessada nas razões pelas quais alguém gostaria de retirar o escudo que envolvia a cidade, e muito menos se Rumplestiltskin estaria envolvido. Provavelmente sim, a sua mente cantarolou. Ela estava mais preocupada em descobrir o que estava acontecendo dentro do seu coração, a dor que se espalhava como uma praga deixando rastros de destruição transformando os seus medos em algo real. E isso a assustava.

— Mãe! Espera! — Henry gritou correndo para alcança-la. — Tá tudo bem? — Ele perguntou genuinamente preocupado. Nunca havia visto a sua mãe daquela forma.

— Henry... — Ela não soube o que responder, e dizer a verdade não mudaria ou ajudaria em nada a diminuir a angústia do seu coração. — Eu estou bem, apenas uma noite mal dormida. — Ou várias como tinha sido o caso. Ela não queria envolver o filho nos seus problemas mal resolvidos, e precisava que dessa vez ela fosse a sua própria heroína, a sua própria salvadora. — Henry, não precisa se preocupar, vá ajudar Emma, ok? — E antes que o garoto dissesse algo mais Regina havia entrado em seu carro e partido.

As trevas do seu passado estavam mais uma vez à espreita das bordas da sua sanidade e ela mais que nunca necessitava pôr um fim de uma forma ou de outra. Ela precisava se libertar daquele vácuo em seu coração.

Notas finais
Não deixem de comentar o que acharam!! Obrigada pelos comentários! Até o próximo capítulo!!