A Filha Perdida
7 O verdadeiro pai
Claro que eu esperava ver um tridente verde brilhando acima da minha cabeça. É o símbolo de Poseidon, afinal.
Lembro do que vovô disse para mim quando eu tinha meus nove anos. Ele disse que tridentes verdes eram símbolo de Poseidon e que eu nunca deveria esquecer disso. Disse que de tudo o que eu já aprendi sobre mitologia – sim, ele dizia que nada disso existia –, o símbolo de Poseidon, ou o deus no geral, era o mais importante. Mamãe não gostava nada disso, mas ela deixava o pai me ensinar. Provavelmente porque achava que ele estava ficando velho e não sabia mais o que dizia.
Claro que agora eu sei que ele não era tão velho e que o que ele dizia não era tão inútil. E que eu fiz bem em prestar atenção enquanto pude e no que pude.
E por prestar atenção, sei que o tridente é um símbolo do poderoso Poseidon.
Mas não é o tridente que brilha acima da minha cabeça. O que brilha acima da minha cabeça é um martelo.
Elius, claro, não podia estar mais feliz.
– Hefesto! Você é filha de Hefesto.
– Sim, eu sei. O marido da deusa do amor.
Ele revira os olhos.
– E é por isso que ninguém gosta de Hefesto. Para quê? Quem é ele? Só o marido da deusa do amor. Os outros deuses sim... mais interessantes, mais poderosos, como o grande e poderoso deus do mar! Mas ora, o mesmo deus do mar já matou outros milhares de humanos na antiguidade, já teve atos tão hediondos que todos preferem não lembrar!
– Claro, você não faria isso para proteger seu reino?
Ele não responde.
– Olhe, – diz ele, ao invés – ser um semideus é difícil o suficiente sem a parte do “você não deveria existir”. Se você fosse filha de Poseidon, todo ser imortal nesse e em qualquer outro mundo ia querer te matar. Deuses e monstros. Bons e maus. Além do próprio Poseidon sofrer uma boa penalidade por ter te gerado. – Um olhar de “acabei de lembrar o que tinha de errado em toda essa história” passa pelos seus olhos e ele completa: – Além de que, Poseidon não pode ter filhas mulheres.
Não digo mais nada e nem ele. Ficamos calados por muito tempo. Não quero brigar, mas não entendo porque as pessoas falam isso de Poseidon. Por muitas pessoas ele é considerado o deus vilão, mas não é. Ele é um deus leal, que defende o que apoia e acha justo. Era o que meu avô dizia.
– E você vai ficar com raiva por causa disso? – Elius pergunta, depois de um tempo.
– Eu não estou com raiva – respondo num tom defensivo.
– Sim, você está. Mas que seja, não importa. Desfaça essa cara emburrada e venha comigo conhecer seus irmãos.
Hesito. Não pelo fato de realmente estar emburrada por causa do que ele disse, mas por não estar pronta para ter irmãos. O único que eu tenho é Jayme. E não importa quantos filhos Hefesto tenha, eu sempre vou ter apenas um irmão.
Mas mesmo assim eu levanto. Seguro a mão que Elius estende para mim. Ele me guia até a área dos chalés e me explica como funcionam.
Quando chegamos ao chalé nove, Elius manda um menininho chamar o “líder” do chalé, que é o conselheiro. O nome dele é Austin. Elius me explica que eles são muito amigos. Eram vizinhos antes de virem juntos para o acampamento e vieram juntos para cá depois que a mãe de Elius foi internada.
O garoto sai do chalé e me surpreende no físico. É bastante bonito para ser filho de Hefesto. Desculpa, mas é verdade. Não espero muita coisa de um deus que foi jogado do Olimpo. E sim, ele pode ser meu pai, mas eu vou precisar aprender a respeitá-lo.
Voltando para Austin, ele é moreno e alto, muito alto. Tem os músculos superiores muito fortes e a mão grande calejada. Seu cabelo é escuro e cheio de cachos amassados e de comprimento médio. Seus olhos são grandes e cor de âmbar. É estranho pensar que ele é meu irmão, já que o único irmão que eu tenho é muito parecido comigo.
Austin e Elius se abraçam, como bons velhos amigos.
– Austin, – diz Elius – esta é sua mais nova irmã, Melissa.
– Missy – corrijo. Se ele criou um apelido, que seja usado.
– É, Missy. E este aqui é seu irmão que está a mais tempo no acampamento, Austin.
Para minha surpresa, Austin me abraça. Elius disse que eles são antissociais, mas não vejo isso. Passado o minuto de surpresa, o abraço de volta. Será que eu vou conseguir me sentir em casa aqui?
Elius se oferece para buscar as minhas malas enquanto Austin me mostra o quarto. Tudo bem. Nos despedimos e Austin e eu entramos no chalé.
Apenas duas crianças estão lá, um garotinho que tem por volta dos seus oito anos e uma menina que aparenta ter onze. Eles estão, aparentemente, brincando com alguma coisa numa grande mesa. Decido ignorá-las para me surpreender com o chalé. Não há camas, apenas algumas bancadas de fabricação de metais. Fábrica. Uma boa palavra para descrever o chalé. Incontáveis equipamentos estão nas paredes, como martelos, tesouras específicas e outros que eu nem sei descrever.
– Uau! – exclamo.
– Incrível não é? – Austin pergunta.
Balanço a cabeça afirmativamente. É mesmo incrível.
– Então vamos conhecer as forjas.
– Pode ser amanhã? – pergunto. – Não percebi o quanto eu estava cansada até agora. Não, espera. Onde ficam as camas?
Ele ri.
– Aqui mesmo!
Ele me carrega até uma das paredes e aperta uma série de botões e ativar qualquer que seja o mecanismo. Me manda escolher uma senha e eu ponho o aniversário do meu irmão. Uma cama se desdobra da parede e eu não tenho tempo para ficar surpresa. Deito com a roupa que estou e durmo.
Dormindo, faço o que eu não fiz por longos anos.
Sonho.
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